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Full text of "Estimulo pratico para seguir o bem, e fugir o mal : exemplos selectos das virtudes, e vicios : illustrados com reflexoens ..."

LIVRARIA LUSO BRASILEIRA 

DE LOPES DO COUTO &FILHOS 

24, Rua da Quitanda, 24 



■ariadc SC: 

ae iivros por preços baratisf 
I . RIO DE JANEIRO 




Lco/ei^ 
uer 



'■ Clássicos, 
s, artes, 

remessa 

mos. 



4 





<^ 






rÃRBORl 

Presented to the 

USRARY ofthe 

UNIVERSITY OF TORONTO 

by 

Professor 

Ralph G. Stanton 







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4-- X^K^^J^^Í r^^O / . ' "-TN 







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'^if f)^ ^ >■■: .' 1- 



ESTIMULO 

PRATICO 

T^ara feguir o bem , e fugir o mal. 

EXEMPLOS SELECTOS 

Das virtudes , e vicios; "^ 

lliuftrados com rejlexoens j ^^ 

E dedicados vÇS^ 
A' SOBERANA ^ 

RAINHA DOS ANJOS ^ 

MARIAS 

santíssima SENHORA NOSSA, 

Pelo P.MANOEL BERNARDES, 

da Congregação do Oratório de Lisboa. 




LISBOA OCCIDENTAL, 

Na OiHcina de ANTÓNIO PED ROZO GALR AM. 

M. DCC. XX X. 
Com as Itcmçoí mceffânaíi 



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"J 








A QUEM LER. 

GRANDE aceitação, 
com q as Obras do Padre 
Manoel Bernardes teni fi- 
do recebidas geralmente 
por todos > como he no- 
tório ; e os notáveis frutos , que ain- 
da vay Fazendo nas almas a íua liçaô, 
(de que fc podéraô apontar cafos 
muy particulares ) faô motivos taô 
fortes , e eííicazcs , que em certo mo- 
do já obrigaò a naô deixar coufa algu- 
ma íua nas íombrasdocíquecimen- 
to; mas antes a íahir á luz publica, 
com todo o refto dos íeus efcritos. 
Hum dos que ainda faltavaô, era efte, 

* i) inti- 



intitulado : Sflimulo pratico para fe^ 
ouir o bem , e fugir o md ^ &-€, que ago- 
ra íe dá á eftampa , naõ deíigual ás 
mais obras, aíHm na erudição > co- 
mo no efpirito , com que pcríuadc 
aos Fieis as doutrinas mais importan- 
tes. Com a brevidade poífivel íe iraõ 
imprimindo os que falta5> para fa- 
tisfazer aos curiofos , c principal- 
mente aos que aípiraõ ao aproveita- 
mento das íuas almas > por mcyo da 
liçâõ eípiritual 



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ôíSí ?ovia< 
"Omonaomí' 

-OgífifitcfOOl 

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a M^ ^^>í <*>- -<»> ¥^ ^>^ i^i¥'^ ^-<5> i-Ti ^ií^"^ r^ V"t> Kíí< jT?)» KTk ' r 
I tíSo r^ Kfy> r^sji '<i>» c^eJi */:>ÂK^f c^ ^.H^ *^>i Hf>^ <^Ks>y ^ 2 

LICENÇA. 

Da Congregação. 



O Padre DcMningos Pereira , Prepofíto da Con- 
gregação do Oratório, defta Cidade de Lisboa 
Occidfental,, dou licença ,. para que fc imprima 
cfle livro intitulado : Efiimuh pratico para pgmr obem^ 
t fugir /? «/^/ , compofto pelo Padre Manoel Bernardes^ 
da mefma Congregação de Lisboa Occidental; o qual 
livro. foy viftoy e approvado [>or peíToas doutas deita 
Congregação. Emfcdoquc deyeftapormim aíTinada^ 
cfellada com o felloda mefma Congregação. Lisboa 
Ocridental vcGpngr^gaç^ô ào Ofatppp i^ideMaxa 



Dmmngos Pereira^ 
Frepofiíõ di Congregação do Oi^atori^^^ 



0a 



Do Santo Oííicio, 

CENSURA DO M R.P.M Fr. MANOEL 
Guilherme , Qualificador cio Stinto Oficio^ 
Examinador das Três Ordens Milha- 
res y e de Lisboa Oriental. 

eminentíssimo senhor, 

COm prompta , e fuave obediência li © livro inti- 
tulado : Ejlimuloprattcê ^ obra pofthuma do gran* 
de Padre , e Meítre Manoel Bernardes , nobre filho / c 
credito da iliuftre Gongrcgaçaõde S. Filippe Ncri, Pcr- 
mitta-me o rcípeito de Voíla Eminência , romper no 
dcfâfogo de repetidas exclaiTiações , porque naô poffo 
reprimir o Ímpeto da minha ponderação : Grande livro; 
Nobre parto de taõ abrazado efpirito ! Firmemente 
confidcro , que o defcobridor dcfte thcfouro naõ íó me^ 
rece a licença de publicallo; mas o agradecimento , c 
louvor de negociar cm cada reflexão defte livnò, huma 
forte bateria às confciencias mais efquccidas da eter- 
nidade , e em cada palavra huma fetta, capaz de fe pre- 
gar , ferir , c defpedaçar o niais empedernido coração. 
Voffa Eminência mandará o que for fervido. S. Domir.i 
gos de Lisboa Occidental 4. de Junho de 1 729. 



ir» Manoel Cmtherme. 



CEN- 



CENSURA DO M. R. P. M- Fr. MANOEL 

de Si, Ex' Provincial y e Dcfinidur perpetuo 
da Sagrada Ordem de Nojja Penhora do CaV'^ 
mo^ Pregador do Senhor infante D. Fr amif- 
coj Chronifla geral da mjma Ordem ne fies Rey- 
nos , c /eus Domintos , Qualificador , e Revê- 
dor do Santo OJJiçio, Académico da Academia 
Real da Hiftoria Portugueza , Examinador 
das Três Ordens Militares , e ConfuUor da 
Bulia da. Santa Cruzda. 



EMINENÍTISSIMO SENHOR. 

ORdcnamc VoíTa Eminência , que veja o livro In- 
titulado :. Efttmulo pratico para fegmr o b/m , e fu- 
gir o mal 5 obra pofthuma àsmuitas , e muy cxeellentcs 
CDmpoííçóes afccticas de erudição pia, e Cathoiicay 
que íahiraó da doutiíTima pcnna do Rcverendillimo Pa- 
dre Meftre Manoel Bernardes^ da preclariíTima , e.uti- 
liflima Congregação, do Oratório defta Cidade de Lif- 
boa Occidental j e naõ obftante recear cu ^que a minha 
ccnfura poderia a todos fer íofpeita, na coníideraçao 
de que fe elle honrou a Roupeta da mefmaRcligiofiíIí- 
ma Congregação com. a peffoa , também ill nitrou a 
minha ReUgiaô com o aíTcdlo , Êizendofe feu filho , pois 
profeíTou nefte Real Convento, para irmaò da Vene- 
rável Ordem Terceira > aos 24. do mez de; Agotto de 
1708. niõ obftante efte jufto receyo, como diga, por 
obedecer humildemente ao mandado de VoíTa Eminiín-^ 
da 5 li CjD.n ambiciofa applicaçaõ odito livro, e i*^-^' 

conhe--^ 



conhecido mcthodo , c eflylo aelle^ que cm nada dcf* 
diz das grandes producções, c fagradas fadigas, com 
^ue o Author , em todo o tempo que viveo , tez mani- 
felto ao mundo literário , o leu incançavel eítudo , e 
ícliciíTimo talento, oftentandoíe femprc em huma, e 
outra couía , qual abelha igualmente engenhoía , que 
folicira , em delibar das flores das letr^is Divinas , e 
humanas , o fucco odorífero ^ íolido , e fuavc das úteis 
doutrinas vC-futis conceitos.^ que ainda hoje eftá ma- 
nando a eloquência melllflua , de que abundantemente 
foy dotado o íeu facundo, e religiofo efpirito. Affim 
o teíkmúnha eík EJUmulo pranto , que nos deixou na 
fua moVtei para lyndercíis das noífas conlciencias> mas 
com huma excepção digna de appiaufõ3 porque Te as 
abelhas perdem oaguilhaõ, ea vida, quando ferem: (^} 
Elle pelo contrario, ainda depois de fallecido , refpira 
pofthumo a ii mefmo , defpcrtandQ com efte efficaz Eí- 
timulo, na memoria futura , huma venerável recorda- 
ção do íeu nome , do feu zelo , e dos feus preciofíífimos 
eícritos ; e para que aíTim confte a todo munSo^ pôr 
meyo da Impreffaõ , naõ contendo cfta obra cóufa al- 
guma , que ofFenda os dogmas da noíTa Santa Fé, nem 
os bons coftumes , me parece digna Há licença , quç.a 
Voíí\i Eminência pede o Rcverendiffimo Padre Procu- 
rador Geral da SapientilTima Congregação do Orató- 
rio, para afazer publica. Convento de NoíTa Senhora 
do Carmo de Lisboa Occidental , 20. de Junho de 
1729. 

Virg. 

r«org.4* (^) — -»« SpicuU caca felinquunt 

T«U37* Adjixa vems > ammasque tn vulnere pmunt. 



Fr. Manoel de SL 

Vifta^s 



4l«-4l»*ll*4l«-4:|c-§4-?^4-^*4l^'«>ll»*Ho 



Vlítas as informações ^ pódcfc imprimir o livro in* 
titulado: EJhmulopi atico para f<gmr o btm , efu- 
gtr o wtf/,compoito peio Padre Manoel Bernardes da 
Congregação do Oratório, e depois deirr^preffo, tor- 
nará para le conferir, c dar licença que corra , íem a 
qual naô correrá. Lisboa Occidental 21. de Junho de 
1729, 

fr.R.Âlemaftre. Cunha. Teixeira. Sylva. CaMo. 



Do Ordinário, 

POdc-fc imprimir o livro, que ncfla petição íc tra- 
ta, c depois de impreffo tornará parafc conferir, 
c dar licença , que corra, fem a qual naò correrá. Lif- 
boa Occidental 22, de Junho de 1729. 

D. y. Arctbifpo de Lâcdmma. 



#* Do 



Do Defembargo do Paço. 

CENSURA DO MR.P. M.Fr. ANTONlO 

do òãcramentt) , QaalificadoY ao banto Of- 

fim^ e Doutor na Sagrada Theologia 

pela Univer /idade de Cuimbra^ 

s E n n O R. 

REfuícitaô as obras pofth umas o nome dos feus Au- 
thorcs , para lhes confervarem âs merecidas me- 
morias , que com efcandalo fatal da noffa humanidade 
dcixaõ regularmente os que vivem , prezas e ligadas nas 
fepulturas dos que n\)rrem. Lendo porém por ordem 
de VoflFà Magcftade efta obra pofthumia do grande Pa- 
dre M moei Bernardes , da Congregação do Oratório 
de Lisboa , achey , que naô fó íe vê nella refurgida com 
o nome a fua lembrança , mas também aquclla meíma 
alrria^e efpirito, que Ihq infundio quando a dicftou , e 
que íhc trasladou quando a eícreveo. Se a immortali- 
dade deixa privilegiado e ifento da jurifdicçaõ da mor- 
te o efpirito,* fe os efcritos por filhos legítimos do- 
entcndirTiento dos íeus Authores, feô da íua alma os 
mais primorofos retratos; vem muito em confequcn* 
cia acharíè nefte livro, ainda que poôhumo, toda a al- 
ma , c efpirito de feu Author. 

Aííin o entendia até agora a erpirltualiflima , e 
amabiUíEna Congregação do Oratório dcfta Corte, e 
podendo reíervar fópara os feus olhos ^e para as íuas 
attcnçoens cftataô primorofa copia da alma defts feu 
gi*andc ffiho, promettendoíe na liçaõ dos feus fantos- 
■ cxcm- 



exemplos, na meditnçaõ das íuas admiiaveis reflexões 
as vcrdideiras,e naô fingidas ventura s, que cfperavaõ 
os Ty rios no Simulacro de Hercules*. as íolidas, ena5 
felfas felicidades , que poffuhiaõ das màos do íeu Midas^ 
os de Dardania , que depois fe chamou Troya. 

Sabia porém, e diícreta , antepondo o beneficio 
commum ao feu bem particular , pertende agora por 
meyo d is eftampas fazer publico efle feu retrato , oan:- 
do novamente a, cor>liecjpr o efpirito deite feu grande 
homem nefte livro, c a alma defte feu, filho n efle tomo. 
Emprego digniíBma de huma Congregação de Operá- 
rios. Euangeiicos ,,e que; feguem à letrao efpirito de feu 
Meftre : Stc hceat lux vejlra coram hommíbus ^ut vidtant Matth, 5. 
âpera. iffi^a bon4: A íTumpta próprio de quem fabe , que 
os thefouros naõ crcfcemfe fe nao communicaô , e que 
as letras naô utilizaõ fe fenaõ expõem: Sapiemia abf- Ecdcf.cap. 
condita i th^faurmtnvijus ,. cjua unia as. in utrtfque \ Cor- 4- tcií.íx. 
refpondencia finalmente piilTima (íe huma May , que 
aunca vio a efte feu grande filho , ou degenerado , ou 
retrocedido do efpirita daquelle aíTombrofo homem , 
qne ncfte mundo fe naõ fallou vozes ^rcfpirou, e ex- 
ore íTou luzes: PhiJtppm os lampadtA. ^ , 

r\ CL r l r -I t ^ Anron, 

Poreitacaula , e porque nao contem ena obra cou- i.par ,hi- 
fa, ériíqiie íe offendaò as Ley.s deíie Keyno,e o Real ^^''^'\7'^* 
ferviço de VoíTa Magcftade, me p,arece digniíTima de 
fihir a luz. VoíTa Mageftade mandará o que for fervi- 
do, S. Domingos de Lisboa.ío. dejiilho de 1729. 



cap. IX, 



Wr. jÊntomedõ Sàcrammtffi 



Qpt 



■a^íii-f^-Hii-fS' 'H'í«3'.^--fet;3— ?í-{H«- 



OUcfepoffa imprimir viftas as licenças do Santo 
Oíficio^ e Ordinário , e depois de impreffo torna- 
rá à Mefa para fc conferir , e taixar , que lem iffo naò 
correrá. Lisboa 13. de Julho de 1 729. 

Pertira. Oliveira, Teixeira. 



m^missimm^^^m^mmmmímB^^mmmm 



V 



Ifto cftar conforme com o originai , pódc correr, 
Lisboa Occidental 2 8, de Fevereiro de 1730. 



Fr. R. AUntafire. Oliveira. Teixeira. Sylva. 



Vli 



Ifto cftar conforme com o original , pódc corrcn 
sboa Occidental 29. de Fevereiro de 1 7 30. 

<j0uvea. 



T 



Aixao cfte livro cm 5 00. reis. Lisboa 30. de FcVc- 
r Ciro de 1730. 

Pereira. Galvai. Bonicho. Teixeira* 



ESTI- 




ESTIMU LO 

PRATICa 

PARA S E G U I R o B E M , 

c fugir o roai. 

EXEMPLO I. 

DíJJtmula Deoscomospeccãdares^tm quanto 

epes com fuás demafias naõ provocaõ 

tnais/ua iram 

GRÃO dous amigos a cafa de outro 
â fim de paffarcm as horas da féíla em 
converíaçaô honcfta, c provcitofa. 
Sahindo huma criada lhes diffc : ícrá 
ncccííario cfpcrarcm , porque dor- 
me. Tomarão elles o paflTeo para a 
alpcndrada de hum Templo , que ef- 
tava perto , determinando aguardar alli o tempo con- 
veniente. A hora do meyo dia fizera o lugar folita- 
rio, c viraò nellc fomente três cegos affentados , con- 
verfando entre fi amigavelmente. DiíTeraó os dous : 
cfcutemos o que faliaó , c cheguemos demanfinho. 
Hum dos cegos diíTe para o outro: como cegafte tu? 
Rcfpondco cfte: Eu era Marinheiro, c huma vez ie- 

A van- 




2, EftmulopYQtlcOy 

Imantando nós ferro para paíTar de Africa , nao fey que 
ar me deu nos olhos , que mos cobrio de huma ncvoa 
ta5 groífa , que naõ vi mais , nem mar , nem terra. E 
tu. porque defgraça vicftc a encontrar com o mefmo 
Oial ? Refponde o o primeiro ; Homem , fuy officiai de 
fundir vidro : faltaraõ-me nos olhos humas chifpas 
da fornalha, c ceguejr. DiíTeraõcntaô ambos aotcr-^ 
çeiro. Contanos tu também a caufa da tua mazeila. 
Eu , fe hey de dizer a verdade (refpondeo elle.) Sen- 
do moço, aborrecia o trabalhar , e deyme a folgazão: 
pouca idade , muita ociolidade , eis a luxuria comigo, 
c traz delia a ladroeira. Hum dia ( por final , que o 
naõ tinha eu gaitado muito em ferviço deDeos) vi 
paffar hum enterro: o defunto levava ricos veftidos^ 
Aqui temos gancho , (diffe cu cá com a minha roupe- 
ta) e fuyme a traz do enterro , por de traz da Igreja 
de S. Joaõ > efperey a que acabaflem o refponfo : dcy 
fé donde puzeraõ o corpo , e marquey as entradas , c 
fahidas. Cahindo anoite,cntrey naabobcda, enaõ 
lhe deixey ao defunto mais que o lençol da mortalha, 
Sahindo já com ofardel às coftas, dizme a minha maK 
dade ^ou o diabo que me atiçava : toma também o len- 
çol que he bom. VoJtey outra ycz dentro , c qucren-^ 
do deíçozello , (ouyi huma coufa,que receyoque a 
liaó creais 5 mas prouvera a Deos que naò fora verda- 
de) eis que o defunto fcaíTenta , e deimproyifo me 
mete os feus dedos pelos meus olhos , e mos vaza.. 
Taô grandie foy em mimo medo, a dor, e tribulação,, 
que naò fey como naó fiqucy morto, e enterrado jun- 
tamente. Larguey tudo , e naó me contentando an- 
tes de fahir fe;n a mortalha alheya , agora contentey- 
fne de fahir com a vida própria. Eis-aqui o meu con- 
to.. Ouyinda iflo os dous curiofos , que eftavaô à cí- 
x;uta ^ acenou hum ao outro , que íe foffemj c depois 

lhe 



Para/egNÍr o hem > e fugir o mal. 3 
lhe diffe : Hoje para que he cítudar mais >. baftantc li- 
ção temos aprendido, Aífim nos aprovciteinos delia» 

N O T AS. 

I. y^^ S Abbades Sofronio , c Joaõ Mofco , foraõ 
f 1 os dous,que ouvirão efte cafo, c efte íegun* 
^^ do hc quem o eícreve.O outro amigo para 
cuja cafa hiaó,fe chamava Eftcvaõ, e era Filofofo afFa- 
mado, Succcdeo ifto em Alexandria , Cidade do Egyp- 
to , que tomou o nome de feu fundador Alexandre 
Macedo , c eftá fundada naô longe de huma das fctc 
bocas do Nilo , chamada Canopica. O lugar onde eí- 
peraraõ íe chamava o grande Tetrapylo , que vai o 
mefmo , que pórtico de quatro ordens de colunínas ; 
c diz a hiíioria, que era aquelle Templo venerável > 
por ferfama ,quc ncUe deícançaraõ os offos doPro-^ 
feta Jeremias. Muitas , e cxcellentes prerogativas 
enobrecerão efte Santo ; e aífim podiaõ luas relíquias 
co.n razaõ fazer venerável qualquer lugar onde fc 
achâíTem. Foy Sacerdote , e Doutor da Ley : foy Pro- 
feta , e hum dos quatro mayores , começando a pro- 
fetizar de idade de quatorze annos y que foy antes de 
Chrifto 632. Foy Apoftolo , mandado immediata- 
mente por Deos a pregar. Foy virgem , naõ fó no 
corpo ^ mas na alma , pois a graça fantificantc , que rc- 
cebeo no ventre materno , coníervou toda a vida ^ 
que foy de feíTenta annos. Foy Martyr apedrejado pe- 
lo feu Povo cm Taphnis , Corte de Faraó , em cuja 
prefença obrou Moyfés tantos prodígios , e delle faiz 
msnçaõ o Martyrologio Ro.nano , ao i, de Mayo , c 
por eftas prerogativas , nao hc muito , que ainda ef- 
tmdo no Limbo appareceíTe ajudas Macabeo 5 rodca- ^ ^3^^^. 1 <. 
do de grande gloria: MfrabiUs^ & ma£ini decorts haU- ij. 

A ij tudme. 



4 Eptnuk pratkoy 

íudtnt. Efta he pois a razaõ porque aquclle lugar d^ 
lua fepxiltura era taô vcneradp. 

II. Eftes cegos tratava5-fc amigavelmente , e fe 
çommunicavaó os íeu$ fcgredo^ confiadamente, por-, 
que todos eraõ cegos. Sc algum delles o naó fora , já 
os outros tinhaò ftmdamçnto para a fua defconfianca: 
que por oaã defpertarem cfta chegarão os doiis ou* 
vintes, com paíTos quietos. Anda ocoi:aça5muy le- 
ve do que acompanha com iguaes 3 porque com.o diz5 

iccUf. 1?. ». o Efpirito S^nto ; Pondus fuprfe toUct ,. qm bonefiton 
St commmxcat. 

III. Diffe bem o terceiro cego , ( e como quem ja 
onao era na alma) que ociofidadc, luxuriado roubo 
fe acompanhaò iníçparavelmeníe. O corpo he bruto^ 
c aos brutos quem lhe deminuç a tarefa > lhe accref* 

Iccicf. 33. ccí^ta as manhas : Mulum mahtUm dpcutí ouo/jtas ; hc 
oráculo divino, A luxuria tudo g^fta , a oçioíidadç 
nada ganha > e poftas as prcmiffas de gaftar , e naõ ga-* 
nhar, hc neceíTaria a.conftqucncia de roubar. Veja-* 
mos aDayidpaíTeandonQfeuçyradp^c logo. o vere- 
mos erhbaraçado com Bethfal^, ç dahi- a poucorou^ 
bando a honra, e vida ao pobre Urias , que debaixo 
dcfta alegoria de roubar , lhe declarou feu crime q 
Profeta Natan: TuUt ovem vtri pauperis. Dormirem 
os donos da feara , c ícmealla o inimigo de ííitanias , 

M;itíb. i^, ^^^^ f^y o mefmo. Que íignifica o fono fenao a ocio^ 
íidadet Que reprcfentaõ as zizanias fcnaõ os viçios ? 
Em fim , que a ociofid^de hc como diíTò S. Bernardo , 
para os peccados mãy , para as virtudes madrafta : 
Ottofor vit4 fítAíet ejimgarum y. & noverca ommum vir» 
tutum, 

IV. O depor os cadáveres , vefti<íos , e ornados 
ricamente , era o coftume antigo entre algumas gen- 
tes ,. c alguns majqidavaô enterrar comfigo os feus thç- 

fouro^. 



Rcg. II. *^. 



^.Reg.it..4« 



Para feguir ê bem , e fugir o í^iaL 5 

fouros. Donde vinha acharcmfc às vezes entre os of- 
fos mirrados , anéis de ouro , braceletes , c outras pe- 
ças. Entre qs Romanos antigos havia difiercnça entre 
enterro , Pretório , e Cmforto , c triunfal y no enterro 
pretório vertiaõ ao cadáver de roupas tecidas com 
purpura j no cenforio j todas de purpura > no triunfal, 
tecidas de ouro. A's vezes ievavaõ diante huma efta- 
tua, ou imagem do defunto , e fe chamava enterro 
imaginário ; outras vezes fe publicavaõ para aqueilc 
dia feitas , jogos , € banquetes 5 c fe chamava enterro 
mdtííivo. O que naõ tinha eftas pompas , fe chamava 
enterro tacita , ou commum. Se o rofto do defunto fi- 
cava affeado com a doença , ou qualquer outra coufa, 
o cobriaõ com huma mafcara fermofa. Os Gregos até 
coroas punhaõ nas cabeças dos defuntos , como traz 
Cicero naOraçaô Quint. L. Flacco. Claro eftá^quc 
cftcs apparatos dependiaõ de grandes defpezas. Poí 
Wb o outro Aldeaõ , havendo paíTado a mayor parte / 
da vida na Corte , tornou emfim para a fua terra , di- 
zendo 5 vou morrer onde a morte vai mais barata. O 
certo he , que todas as pompas defte Mundo fao ima- 
ginarias , c a fua mafcara he fermofa , mas por dentro 
corrupç-5, e miferia. Em tudo fe miftura a vaida- 
de , até na morte , que he o defcngano mais claro da 
mefma vaidade. Que importa ir o corpo à fepultura 
bem vefíido, fe a alma naô for ao Tribunal Divino,or- 
nada de virtudes ? Se o furto naò defpiffe aquelle ca- 
dáver , dahi a poucos dias o deíperia tanto a fua mef- 
ma podridão ^ que até os oíTos defperia da carne; mas 
os merecimentos que a alma levaffe , permanecerão 
com cila cternameate , e virá dia , em que a gloria da 
ahna rcvifta também o corpo, porque todos os da Ga- 
fa de Deos eftaõ veftidos de luz , quanto ao corpo , e 
quanto a alma: Omnes cnim domejiici ejus vejitti Çuntâu- Ptot. 31. »»« 
plicibus. A iij Nof 



6 EJiimulo pratico y 

. V. Notefe a dcmaíia deftc ladrão , que naõ con- 
tente coiR levar o mais preciofo , ainda lhe licavaõ os 
oliios na mortalha. Proporcionada foy logo a pena i 
que lá lhe ficaíTcm os olhos verdadeiramente. Quem 
dcfpia os defuntos das mortalhas , pouco meditava 
em que algum dia lhe haviaó deveftir também a fua: 

Pi«T.*i.8. Rapma impía delrabmt C9s , diz o livro dos Provér- 
bios 5 onde outros lem : Rapma tmpiorum exojfabtt wi 
a rapina dos impios lhe tirará osoíTos. Aqui fe lhe 
naô tirou osoífos^ao menos tiroulhe os olhos. Eílc 
homem roubando era roubado de outro mayor la- 
drão , que he o demónio. Mas porque o fcu Anjo era 
mais fiel na fazenda de Deos , que faò as almas , reco^ 
brou aquella que lhe efiava entregue , fendo y ao que 
fe pode crer > quem levantou o cadáver, e lhe movco 
as mãos , para que a cegueira corporal o livraíTe da 
do efpirito. A alguém parecerá que cfte homem en* 
trou no fepulchro com vifta , c fahio cego 5 mas fal- 
lando noutro fentido mais do Ceo , entrou cego, c 
íahio com vifta : entrou cego , porque quem naõ tem 

f •Petri i 9 virtudes, naõ tem luz : Cutemm non pr^fiofunt h^c 
(diz S, Pedro fallando das virtudes) c^iecus eft^ fahio. 
com vifta , porque começou a dcfcnganarfe a fi , c a 
temer a Deos. Também podemos crer ,qae moveria 
o deíunto o feu próprio Anjo , a cuja ciiftodia perten- 
cia , oaõ fó a alma já aufente daquelle lugar, fenaô 
também o cadáver , cujos oífos ha de ajuntar no dia 
da refurreiçaõ univeríal. 

VI. De todo eftc cafo , a principal doutrina que 
aquellcs dous varoens obfervaraõ , e nós devemos ti- 
rar , hc ponderar , como Deos diílimula com os pec- 
eadores , efperandolhes a emenda em quanto eftcs íc- 
naõ demajfíaõ a tal excedo , que elles mefmospuxaô 
peio braçe a Deos para. que fe vingue.. Ao Profeta 

Zaca. 



Parajeguir o bem , e fugir o mal. ^^ 
Zacarias foymoítrada a maldade em figura de huma Zafh.5,7. 
mulher dentro de huma quarta, cuja boccaíetapou 
com huma prancha de chumbo , e logo íoy arrebata- 
da para outro lugar a receber o caftigo meiccico.Tcm 
a paciência de Deos para com os peccadores certo bo- 
jo , e limites , que tanto que eftaò cheyos , e naò cabe 
mais , encerra Deos as contas , c procede 20 cafligo. 
Crantzio refere de hum ladrão afíutiffimo , que aquaíi lib. ij.Ycn* 
todos os homens ricos daquella Provincia tinha fur- «^*J*5^"r»*4. 
tado alguma coufa ; e taò por fcu tinha cfte officio , 
que os feus nomes tinha arrolados cm hum livro de 
caixa 5 e nos que já tinha feito alguma preza , punha 
à margem certa nota, como em íinal dcdefcargo do 
que lhe deviao > e dos mais fe tinha por acredor. Mas 
cm fim vcyo a cobiçar , e tomar hum livrinho de pou- 
ca confideraçaò , que era de hum feu veíinho > pelo 
qual foy deícuberto , c juftiçado publicamente. Eftc 
tinha chea a fua medida , c tanto que cômettco mais 
hum pcccado , baftou para que a ira de Deos ic deza- 
taffe contra ellc. Por iffo diíTc hum Poeta : 
Numero determinado 

Tem o peccado j e naífabes 

Separa fer condemnado j 

Somente fá ha que acabes 

De commetter hum peccado. ' 
VII. Ultimamente advirtaíe , como naô íó nao 
levou cfte ladrão a mortalha , fenaõ , que deixou tudo 
o mais. Succedeo-lhe , como os que comem fobre poí- jf 
ícy c por e fa cauíà vomitao tudo o que já tinhaô co- 
mido 5 e he em termos o que diz Job fallando do im- 
pio: Dmuas cjuas de^joravit-, &vomet. Mas o que jotio. i|, 
mais he de íentir he , que efte , c os mais que fe cn- 
trcgaóa vicios femelhantcs , por adquirir juntamente 
os bens da terra, perdem juntamente naõ^fó^cftes^ 

Aiiij tnu 



? Eftifnulo pratico y 

mas tambcm os bens eternos. Bçm figurados íao no 
caõ ) que levava g, carne na bocca , e por apanhar ou- 
tra que era a fua fombra repi^efentada na agua , abrin- 
do a bocca , perdeo ambas as coufas. Diogo Falcaõ 
c;xprimio bem ifto nos feguintes diflicos : ^ 

Fcrt canis ore cibum ^vtdet umbram illius in amne 
Ejje putat corpus j fertur ad dlud hiam , 

Mergít aqua, ri£ius, vácuos efiuíltbuseffert 
Frufira efcam qui^rtt% demque tnams abit j, 

Sic qut dtvtím inhiat terrefiribus améns 
Dum bom falfa cupit , perdtre vera fileL 



EXEMPLO II. 



P. Fr. \fíth»s 
éc Olivcr na 

Mcup ilação , 
q»c faz dos mi- 
lagres do Saato 



V* 




A vendo o gloriofo Patríarcha S. Francífca 
de Paula acabado o íeu Convento daquella 
Cidade., reparou , que o caminho que para 
elle guiava^ por aípero^e difíicuítofo dimi- 
nuiria a dèvaçaô do Povo em frequentar a Igreja j e af- 
fim para utilidade do próximo , determinou abrir ou- 
tra nova ejftradaj. porém namcyo delia ficava humac 
arvore belliffima, que impedia , e affeava a perfpediva 
do caminha. Quizeraõ os ofHciaes cortaíla, e naõ o 
confçntio o Santo, dizendo, que era magoa cortar hu- 
ma tao frondofa planta , que poderia dar fruto j e logo 
chegandofe a ella, lhe diíTe: Por caridade fazenos hum, 
pouco de, paíTagcm. Cafo maravilhofo! Apenas diífç 
eftas paavras , quando a arvore fe partio pelo meyo ,,,e 
fe apartou huma metade da outra ,. diflancia de dez 
palTos, que era a largura daelirada, ficando com as. 
mefmas raízes na terifahuma > e outra parte 3 e cm hum 

memento 



Para feguir o bem , e fugir o mal. 9 

momento fe viraô duas arvores feitas de huma , as 
as tjuacs hoje permanecem , por marco do caminho, 
e para teflemunhas da potencia de Deos , e fé de feus 
Santos, 

NOTAS. 

I, y Ouvemos , e adoremos aquelle Rey , aos 
I acenos de cujo império todas as couías fao 
* ^vivasj e como a caridadc,e fé perfeita unem 

aos Santos com eíte Senhor > que muito partecipem 
do feu império. Fendeo-fe hum tronco em dous j qual 
no-s parece que foy a cunha fe naõ a fé robuiía ? E 
quçmdeuos golpes , fenaõ a caridade adiva ? Da voz 
de Deos diz o Pfaimo , que he poderofa para refgar os 
cedros : f^ox Domtm emfringentis cedros ; e o mefmo 
podemosjá dizer da voz deFrancifco. O certo he, 
que aaõ ha creatura , que nao obedeça ao homem , fe 
G homem obedecer ao Creador. E íe o homem nao 
eftendera a maõ à arvore vedada , até as arvores (fe 
foffe ne.ceffario) fcguiriaô a m?.õ do homem obedien- 
tes. 

II. Dizia aqucile cego aquém curou Chriíío , luz: 
do Mundo, que via os homens como arvores que an- 
davaó : ytdeo hommes yveíut ar hr es ambulantes , ago- 
ra vemos as arvores andando como homens. Mas 
também vemos homens , que por naô fazerem paíTa- 
gem ao caminho direito dos Servos de Chriflo , naõ 
fó fe naõ apartaõ , como homens , fenaõ que fe atra- 
veíTaõ como troncos. Peyores fao que troncos ; pois^ 
naõ fomente faõ eíkreis para dar o feu fruto , íenaô- 
damnofos para o naõ darem os outros. O remédio^ 
para naõ eftorvarem fera , naõ a humilde petição dos. 
Santos , fenaõ o rigor da maldição de Chriflo, que lan- 
çou à figueira, 

PUr. 



IO Eftimulo pratico y 

IIL Poderá a arvore defviarfe toda a hum lado , 
c naô fazcrfe cm duas : naóíó deixou defcreftorvo, 
lenaõ, que íicou íervindo de adorno ao caminho, de 
teftemunha ao milagre , de incentivo à devaçaõ do 
Povo. Mais fez do que lhe mandava o Santo , por- 
que o Santo fazia mais do que lhe mandava Deos 5 c 
quantas vezes por encaminhar direitos a feus proxi- 
Rom. X. 14. "^^^ ^^ dividiria de íí mcfmojquantas íe faria em mui- 
tos , por naó faltar à caridade que o fazia devedor a 
todos ? 

IV. Naõ fe dividirão as raizesda arvore ^ ícnaó 
os braços , fymbolo da caridade que a partio , a qual 
tem muitos braços para recolher a todos , mas huma 
fó raiz para fuftentarfe cm Chriflo. 

V, Por caridade I diíTe o Santo à arvore, apar- 
tay vos do caminho, Fallou-lhe no idioma mais uni- 

>\ veríal , e mais entendido : entendco , e apartoulc. A 
• ^ lingua com que todo o Mundo fe entende, c todas as 

creaturas fe communicaó , he a caridade. Efta naõ 
•X' confundio Deos em Babel , antes a promulgou em Jc- 

ru falem , defcendo em muitas de fogo , que craô hu- 
ma fó do amor : fe cu fallar , (diz o Apoftolo) com to- 
das as línguas dos homens , e dos Anjos , c naõ tiver 
caridade, ferey como hum metal , que faz muito ruí- 
do > porém nada perfuadc. Quantas vezes entre bár- 
baros , naô íendo entendido o Miílionario , ou pere- 
grino pelo metal da lingua , o foy pelos (ínaes da ca- 
ridade ? Quem fabe o A do amor , e o Z do zelo , fa- 
bido tem o Abccdario inteiro de todas as Nações 



EXEM- 



Para feguir o bem , e fugir o ma). 



II 




EXEMPLO m. 

5 Ouve hum Monge inclufo, esforçado com- 
batente contra o feu Anjo máo 5 mas com- 
batido delle com igual porfia. O principal 
conflido era fobre affaltar hum5e defender 
outro a praça impor tantiíTim 1 da caftidade. Hum dia 
íc vio o íy^longe ta6 afflicílo , c apertado , que rompen- 
do em gemidos começou alaltimarfe , dizendo : Até 
quando, o inimigo, me naõ has de deixar? Deixame já, 
pois comigo envelhecefte. Appareceo-lhe logo o ten- 
tador viíivelmentejC lhe diffe: Jurame, que a ninguém 
defcobrirás o que quero dizerte , e naõ te tento mais. 
O velho , como fe o naõ fora, para ter entendidas as 
aftucias da ferpentc antiga;, jurou , c diffe: Pelo Se- 
nhor que habita nas alturas , a ninguém odirey. Re- 
plicou o dcmonia: Naõ adores mais effa Imagem , e 
naõ combaterey mais comtigo (era huma Imagem da 
Virgem Santiíinna Senhora noffsi , com o Menino 
Deos nos braços.) Diffe o Monge: Damc eípaço pa- 
ra deliberar. Veyo na condição o de nónio , e por 
entaõ dcfappareceo.Ao outro dia veyo aviltar aqucl- 
le Monge o Abbade Theodoro Eliota , que habitava 
no Moííeiro , ou Laura , que ficava naõ muy diftante, 
c com efta occafiao contoulhe tudo. Diffe o Abbade : 
De verdade eftás illufo^ porque jurafte ao demónio; 
porém fizefte bem de naõ ajuntar ao primeiro erro 
do juramento , o fegundo do filencio. Sabe , que mais 
te convém, naõ haver na Cidade cafa de mulher mun- 
dana, onde naõ entres, do que deixar de adorar a 
Chriftoy e íua Mãy Santiffima. Com eflas , c outras 

razQCà 



1 2 EJíimuk pratico . 

razões o deixou confortado, Naô tardou muito o de- 
mónio , e lhe appareceo cheyo de ferocidade , claman- 
do : Que he ilio velho infame ^ Naõ me juraíte , que 
^ /^, â ninguém o dirias ? Sabe , que no dia do juízo íerás 

y ' j ulgado como perjuro. Reípondeo o Monge com 
\r muita paz : Bem me lembra , que jurey h mas adoro a 

4 meu Senhor JESU Chrifto , e a MARIA Santiffima 

íua Mây , e naõ he minha vontade .obedeccrte. 



'■M 



NOTAS. 

Onges inclufos , crao os que fe entaipa- 
vaõ em huma cova , ou celinha , fepul- 
tãdofe vivos, para poderem reynar mor- 
^' tos. Alguns fe prendiaô vivos com cadeas , tendo fó 

por feu tanto efpaço de terra , quanto eftas lhes davaò 
licença ; para confufaõ dos Neros , que lhes parcciao 
curtas as galarias , e pórticos de légua , e dos Alcxan- 
' drcs, que abafavaõ com hum fó Mundo. Em hum San- 

to Eftevaó Auxenciano , que morreo Martyr por de- 
fender a adoração das Imagens Sagradas , foy efta re- 
clufaò ta5 eftreita , e continuada , que (como refere S. 
Joaô Damafceno) nao podia defdobrarfe para andar , 
porque o coftume de eftar encolhido , lhe baldara o 
movimento dos joelhos para baixo : com que os fol- 
dados que o prenderão, foraõ juntamente beftas de 
carga que o levarão. 

II. Permittia Deos tentação taõ forte , e tab an- 
tiga para exercício defte íolitario , e augmento do feu 
mérito , e para fervir de borrifo à poeira da vaidade, 
que fe levanta do noíTo coração , porque cm fim he de 
terra. O grande lago Aifaltites, nao he combatido 
dos ventos j mas por iíTo fe chama mar morto , e fup- 
pofto , que em fi recebe todos os groíTos cabedaes do 



Para feguir o bem , efugk o mal. 1 3 

Jordão , naõ fabc criar fcnaõ bitumc mal cheirofo. 
Ventos faõ as tentações , e o efpirito que naõ he ba- 
tido delias , he mar morto : em yaõ recebe as influen? 
cias da graça, e feraprc inclina a produzir vicios. Que 
havia de fazer eíie Monge , fe naõ tivera o inimigo 
na fronteira, e fe achara muy quieto fem Mundo., 
Icm Carne , fem Demónio ^ Havia de prefumir ,. que 
já chegava ao Cco ,.e ahi tinha já o bitume para edi- 
ficar a fua torre de Babel, Havia de imaginar , que 
era Anjo , c começar a agradarfe de íi mefmo , e ou 
perderia o Ceo , ou deixaria de ganhar muitas braças 
delle , .que fe daó aos violentos , c esforçados. A ou- 
tro Monge, que padecia graves tentaçoens, quando 
bautizava mulheres y quando já determinado a naõ 
exercitar mais erie oíiicio ,fugia para o interior do de- 
fcrto : appareceo S. Jx^aõ Bautifta , c lhe diíTc: Serás 
livre deíTa tentação, mas. fabe,. que era carecer della^ 
perdes grande coroa de gloria.. Entaõ lhe fez o final 
da Cruz fobrc o ventre , e nunca mais fe ícntio cola^• 
fizar docflimulo da carne, com que pode continuar 
omefmoofficio, porém fem omeíko.merito. 

III. Gémeo y e laflimou-fe o Monge ,. e pcdio , fe: 
naõ paz , ao inenos tréguas, naõ advertindo a que com 
tal inimigo.^ menos perigo he guerra. DiíFe-lhe : Dei>* 
xa já de pcrfcguirme : naõ he bom m.odo efle de refif- 
tir , porque hc moftrar fraqueza , a quem folga que. 
lha moftrcm , e querer levar por bem a quem nos de- 
fcja todo o mal. Petições de mileria tem expediente 
na raifericordia Divina , e naõ na obíiinaçaô diabóli- 
ca. Parabém havia dizer, fundado no auxilio doSe^ 
nhor, que fez o Ceo , e a terra : f e tens licença , tent^ 
mais : chega caô , tudo o que te permittc a cadca. Por- 
que efbe Mtrmicoleon , ou furmica leo^ he leaõ contra 
as. formigas., formiga contra os ieoens. Dizia Santo- 

Antaà 



Job 18. 10. 



1 4 Eftimulo Pratico , 

AntaS Abbade -, bem deftro ncítas lutas : Si quod Dét" 
mones tnpeãonOu^ md^ mentis , í^ pavorts femtn mvt'- 
nenm , quají lairones ,qui deferia obtinent loca ^ c^eplos 
cumuUnt timores , (^ cruãeliíer immmmter mfalicem 
funmrU animam. Saò palavras de Santo Athanaíio , 
Biípo de Alexandria, e quanto à tradução de Eva- 
grio , Presbítero de Antioquia. AíTim , que o Monge 
fe naõ moftrara covarde , o demónio fe naõ moftrara 
animoío. Mas a importunação era muita , c a noffa 
conítancia pouca. 

IV. Tanto que o inimigo fentio fraquear o feu 
antagonilta , vejaò como affcntouo pâ maii adUnte. 
O demónio he caçador, conforme aquillo de Job : Abf- 
condita £ji m terra pcdtca ejus , & dectpula iLltus fuper 

Pfaini.it3.7. femitam ^ c aquelloutro do Píalmo: Anima m&a ficut 
paffer erepta t/t de laqueo vmanUum > c como bom ca- 
çador , vaylhe pelo rafto à ília dcfcjada preza. Sen- 
tiolhe defejo vehcmentilTirQo de naô ler tentado con- 
tra a caftidade , e offcrccc-lhc paz nefta fronteira, mas 
occultamentc lhe arma guerra cm outra mais impor- 
tante: Mihi (juidem pacificeloquebanturi á* dolos cogf-' 
tahani. Também faz as tretas de jugador ; finge , que 
perde huma ma5 , para levar todo o bolo ; Doutc a 
continência, dame cá a fé , que he o mefmo que di- 
zer : naõ te colherey a flor , mas arrancartchcy as rai- 
zes; e pedelhe fegrcdo,que vai tanto como dizer: 
já que es fraco , briguemos fó por fó ; naô me defcu- 
bras 03 ovos , deixamos chocar , verás fahir baíiliícos. 

V. Couía digna de repara Em dizendolhc, que 
juraíTe , logo jurou ! Muita fimplicidade foy efta. Mas 
he de faber , que as palavras do tentador naõ faõ fim- 
plezmente palavras , fenaó abonos que dá à arvore do 
noffo coração para desfrutalla. Quando diz: pecca, 
juntamente move a vontade a que pequei e quando 

diffc: 



Pfalm. 34. 10. 



Parajeguk o hem , e fugir o mal. i j 

diíTc : jura , juntamente lhe empeiiio a vontade a que 
juraffc 5 fuppoíto que fçmpre fica falva a foberania ao 
trlpritio humano, 

YI. Capitula q demónio , que naô adore o Mon- 
ge as Sagradas Imagens de Chriiio^efuaMãy San til- 
fima ) porém naò exprime nomeadamente de quem 
laó , fcnaõ fimplezmentç diz :. eíTa. Imagem x por naõ 
renovar nçlle o affeíflo que pertendia arrancar , e por 
moftrar o feu defprczo. Vejaó os Iconoclaíias com 
Q feu Copronymo ^ como nifto fe parecem com o de- 
mónio. 

VII. Pedio o tentado eípaço para deliberar. Já 
nifto ofFcndia aDeos gravemente, e já o açredor in- 
fernal tiniia cobrado alguma couía à conta. A deii- 
beraçaó havia de, eftar tomada muito de antes , de naô 
fazer coufa que lhe aconfelhaffe o demonio5.ainda que 
de feu género foffe boa , quanto mais efla , que era 
peffima.. Para ir a Deoo naô ha encruzilhadas , íenao 
hum fó caminho , que he conhccello , e amallo j. e on- 
de o caminho he único , a deliberação hc ociofa. 

VIIL Reparefe , que naã foy o tentado bufcar a 
Theodoro , (fendo que o cafo pedia , que naò obíer- 
yaíTe a íua rcciufaõ) fcnaõ, que Deo3 logo no feguin- ^ 
te dia trouxe por alli a Theodoro, pondo-lhe nas. 
mãoa a opportunidade de fe aconfelhar com ellc. 
Grande he a noffa cegueira, tanto que começamos a 
abrir as portas à tentação ; porém mayor he a mife- 
ticordia do Senhor , e nefía occafiaõ féria foiicitada 
pela interccíTaò da Senhora , lembrada, de correfpon- 
der às adoraçoens da fua Imagem Verdade he o que 
dcChriftoeftáeícrito por líaias: Arunámemquajja-^ Matib. i; 
tamnonconfringet j & Imutn fumigam noneiKpinguet. 

IX. Fez bem o Monge em dcfcubrir o qut Êinha 
pilado y, porque, cm quanto^ o naô dcfcubriffe ,.h;,avia 

conti- 



i6 Eflimulo pratico ^ 

continuar a nova íugeftaõ diabólica , trocada já cm 
m-; teria mais perigoía; eo juramento naõ obííava, 
Abbatfs" Moyf. ^cm cm razaò de fidelidade a rcfpcito de demónio , 
«p.io.Tandíu pois ncnhuma fc deve ao inimigo declarado de Deos, 
omTiícxbe^ao- ^ noíToj nem cm razaõ da Religião a rcfpeito de Dcos, 
ininárurvino c ifto por muitas razõcs. Primeira ^ porque nos prc- 
butH^m' ío?- fcntes termos em que aquella alma perigava por falta 
de. iiiicocoim deconfelhojjurar filencioeracoufa iniqua. Segunda^ 
fucru^^o2ifa*io P^í^^^^ ^^^ caío cxtraordinario^ e impenfado que naó 
msiigiu mar- vcyo à mcntc de quem jurou. Terceira , porque o de- 
"^5'^j;?^^" monio faltava ao concerto, pois promettendo naô 

c]ua difcncio- . -> r r 

1)1$ judkium tentar mais , niílo melmo actualmente o eíiava ten- 

profcracur, ícr- t;ando. Quarta , Dorque o juramento era accefforio 

vciat , c tcnc- uo contrato, e com o demónio nao valem contratos, 

broío , ac fob. j^35 ^afo , QUC O Mongc cotendeíTe erroneamente ef- 

virtutc confci- tar obrigado ao juramento^ e nao pcdiíle relaxação 

ílonis pro tra- ^ç\\c ^ podia aconfelharfc com Deos na oração, c co* 

^"*„!duaiis"" nhecer o engano , e paíTar a rcfiftir huma , e outra ten- 

quodamodo ac taçao. 

dc^ Wíuxus ^^ 5^1^. \ ^ ji^ ^ inimigo na fegunda enveftida) 
que no juizo de Deos has de fer julgado por perjuro. 
Eelledcque ha de fer julgado ? Qual paffará melhor 
naquelle tremendo dia ; o tentado , ou o tentador 5 o 
fraco , ou o maliciofo^ o que naô vigiou a feara , ou 
o que lhe femcou zizanias.Naò fe derige efta inftancia 
contra o demónio, que com ellc naô ícha de argu- 
mentar , fenaô contra alguns iinitadorcs fcus , que 
querem fantos a fcus próximos , quando elles nem pa- 
ra lá caminhão, 

XL A ultima repofta do Monge , moftra já o en- 
íino do velho Theodoro. Bem me lembra , que jurey, 
(diz ellc ) mas naõ quero fazer o que m^ aconíelhas. 
£is-aqui como fe rebatem os argumentos do inimigo: 
fcm formalidades , ftm. disfarces às íuas razões , fenaô 

pegai- 



Para feguir o bem , e fugir o mal. 1 7 

pegar do ponto que defendeo : a todas as premiíFas : 
giutdqmdjn , a confequencia fempre nego. 



EXEMPLO IV. 




ENDO levantado ao Throno Patriarchal 
da Igreja de Conftantinopla S. Methodio, 
Varaõ em doutrina , e virtude eíclareci- 
do , feus emulos os Hereges 5 Iconoclaftas 
tendo por Cabeça a Joaô , que havia fido 
depofto da mefma Cadeira , e a feu irmão Arfaber , 
determinarão efcurecer a gloria de Methodio, e de 
toda a Igreja Romana , com humacalumnia recofida 
no venenofo peito da íèrpente antiga , e vomitada 
pelas Ímpias linguas de feus imitadores. Com gran- 
des dadivas , e mayores promeffas corromperão a cer- 
ta mulher , concertando com ella , que diante da Rai- 
nha 5 c dos tutores do Emperador , delataffe a Metho- 
dio accufando-o de deshonefto commcrcio com ella. 
Aílim o fez a miferavel , enchendo juntamente aos 
corações Catholicos de trifteza , e vergonha , aos Ím- 
pios de alegria , e fatisfaçaô, e de horror a todos. Tra- 
zida à prefença dos Juizes , confiantemente affirma- 
va o mefmo. Levando eftes acerbiflimamente , que to- 
do o crédito da Igreja Orthodoxa , vieíTe a depender 
do procedimento de hum fó homem. Entretanto Me- 
thodio , feguro em fua confciencia , e na protecção 
Divina , appareceo cm Juizo , c nao querendo fer pe- 
dra de efcandalo , a toda a Igreja , com modeftiílima 
immodeftia , própria do eflado da innocencia , pro- 
vou a fua , e que no eftado em que fe achava era to- 
talmente incapaz de produzir as verduras , que lhe 

B impu- 



Barco. 

IO. 



. tom» 



1 8 Ejlmulo pratico , 

impunhaõ. Quanta foffe nefte paíTo aconfufaõ dos 
e/nulos ) e alegria cios bons , naò tem fácil explicação. 
Hum deites fe chegou ao Santo , c quiz faber delle a 
caufa daquella enfermidade , que Ihamurchara o cor- 
pj para floreçer nelle a caftidade. Refpondeo , que 
antigamente açhandofe em Roma a compor certo ne- 
gocio 5 fora taõ forterr\cnte combatido de tentaçoens 
contra a pureza , que vendofc quafi vencido, recor- 
rera ao patrocínio do Príncipe dos Apoftolos S. Pe- 
dro, o qual apparecendolhe em fonhos, lhe apagara 
hum fogo com outro fogo , o qual elle fentii:a como 
íè fora de hum cautério , e que acordado fe achara le- 
io no corpo i porém Ía5 na alma. Ifto contou, o San- 
to. Porém aquella infelix mulher , atemorizada com. 
as ameaças dos Juizes s confeírou de plano , quem , c 
€omo, e por quanto a alugara para levantar aquelle 
tcftemunho falfo ; e que o dinheiro fe acharia efcon- 
dido na íua arca do trigo. Com efFeito hum dos Mi- 
niftros fo7 logo bufeallo, c o moítrou em prefença 
de todos. Deícuberta a maranha , os inventores delia 
houveras de pagallo feveriífimamentç, fe o mefma 
Santo intercedendo por ellesnap alcançara., que a pe- 
na merecida fe commutaflCe , em que todos os annos 
yieíTém de huma Igreja, até a de Santa Sofia com ve- 
las nas mãos , e alli ouviíTem a fua fentença. O que 
affim fe obícrvou em quanto foraô vivos. 

isr O T A s. 

1. TT TT E a alma. racional creada. à imagem de 
I — I Deos , he hum Sacerdote perfeito retrato 
'*' "*" expreíTo de Cbrifto , naõ podcrido os He- 
reges deftruir as imagens dos Santos iuanimacfcis, con- 
verterão a fanlia contra a Imagem de Deos viva > con- 
tra 



Para/eginr o hem , e fugir o ?nal. 1 9 
tra o retrato cxpreffo de Chriíto. Imputaõ-Ihe hum 
peccado, e effc de torpeza, deixandonos entender, 
que a meíma deftruiçaõ , que nas imagens faziaõ ílias 
mãos violentas , effa faz em huma alma o confenti- 
mcnto voluntário em qualquer peccado. 

IL Envergonhoufe Adaõ defua defnudez,mais 
que do feu peccado : Timui to quod nudus ejjem. Naõ 
diz : Temi , porque a minha alma fe achou defpoja- 
da da eftola da graça , fenaõ , temi , porque meu cor- 
po naô tem veôidos exteriores com que fe cubra. Pelo 
contrario o noíTo Santo , naõ fe envergonhou da fua 
defnudcz , porque fe envergonhava do peccado , que 
lhe punhaõ. Oh quam certo he , que o tranfgreíTor, 
até dos olhos de Deos procura cncobrirfe 5 c o inno- 
cente , nem dos olhos humanos fe recea ! 

III. Segundo Noé , fe celebra nefte exemplo, def-» 
cuberto naõ por defcuido cafual , fenaõ com pruden- 
te advertência , e com a força de outro licor mais no- 
bre , e fcrvorofo , que he amor de Deos , e do proxi-^ 
mo ; e fe aquelle filho encorreo na maldição do pay , 
por lhe naõ diflimular huma falta verdadeira : que 
maldição naõ cahiria fobreos calumniadores , que em 
feu paftor , e pay fimulavaõ hum crime falfo ? 

IV. Naõ foy eftâ a vez primeira , que as veftidu- 
ras fe largarão , para efcapar fem defcompofiçaõ a 
caftidade. Defpio-fe o Santo mais da culpa ^ do que 
dos vertidos : como haviaõ de prefumir os aleivofos, 
que Methodio taõ facilmente os podia defcobrir a el- 
les , como a fi. Já que eftaõ defcubertos \ o remédio 
que lhes refta , diffe-o David: Tnduantur ficut diploide 
confufione Jua. Em quanto o Santo fe adorna com a 
gloria defua innocencia,e a verdade , feus inimigos 
íe cubraõ de pejo , e confuíaõ» 

V. O eílimulo da carne , moleftando antigamente 

Bij ao 



IO Eflimtilo pratico i 

ao Santo , o fez correr à oraçaô : a oraçaõ lhe impe- 
trou o dom de caftidade 5 confirmado com aquelle fi- 
nal exterior : o final o defendeo depois do teftemu- 
nho commayor credito feu, e gloria da Igreja Ro- 
mana. Quam de longe arma a Divina Providencia os 
feus meyos para lograr os íeus fins ! Quando Metho- 
dio fe chorava tentado >e já quafi vencido > çntaó dil> 
punha Deos fazello vencedor , n^õ fó da Carae , mas 
do Mundo, e do Inferno > e porque na fua caufa par- 
ticular hia- envolvida a commum da Igreja , e acudir 
por efta , tocava mais a S. Pedro , foy bem , que por 
mãos dcfte Príncipe dos Apoftolos y déíTe Deos a Me- 
thodio a prerogativa dacaftidade^ edeftc modo teve 
primeiro o livramento do que a accuíàçaõ j porque 
aquelle fogo , que fecou a feu corpo a feu tempo , fe-; 
Gou também as línguas dos falfarios. 

VI, Acodio r>cos como fiel com feus amigos 5 po- 
rém pudera naõ acudir como incomprehenfivel em 
íeus juizDS- Que fentença pronunciara entaõ o Mun- 
do ? Sem duvida prevalecera o dito livre de huma 
mulherfinha defconhecida , contra a grave affevera- 
çaõ de hum. Patriarcha Santo. IniquiíTimo tribunal, 
onde a innocencia fe prende , fe as línguas atrevidas 
le^foltaó. Porque naõ tem o Mundo aprendido já a 
naó errar em tantos erros, que tem dado ? Semelhan- 
tes defenganos íe encontrão, a cada paflb nas hiiiorias, 
Methodio naô he fingular , nem no crime impofto , 
nem na innocencia declarada. Quafi o mefmo acon- 
teceo aos Santos , Athanafio , Bafiiio, Eugenia , Theo- 
dora, eao Beato Henrique Sufo. Mas iflo mefmo hc 
Mundo : fempre mais velbo , e mais ruim , mais an- 
nos, e mais enganos; e como inclinarão a prefumir 
bem os inclinados a fazer mal ? 

YII. Excitara© antigamente três foldados del- 

Rey 



Para ftguiY o hem , e fugir o ma\. 1 1 

Rey Dário , hum problema curiolo ; qual era mais 
forte , Ic o vinho , ie o Rey , fc a mulher ,<}U Ic a ver- 
dade ? Zorobabel , como mais íabio deu o ícu voto à 
verdade ; e em confirmação de que a dizia , venceo 
logo , e levou aos outros o premio. Também o noíTo 
calo confirma a fua repoíta. O vinho dá locura , € 
dá ira, ^ a authoridade deftes potentados valendolc 
da mulher , como de inflrumcnto , todos juntes fe ar- 
marão contra a verdade ; e com tudo lahioefta ven- 
cedora : Farte ift vtnum^foruor ejl rex , fortmcs fun$ j.ffjfft. ji 
multeres : fuper omnia autem vtnctt ventas. 

VIU. Jacob depois da luta teve a benção 5 c a 
bençaõ confiflio , em que o Anjo fazcndo-o mais débil 
no corpo , o tornou mais esforçado no cfpirito. Com 
o toque da maõ , lhe murchou o nervo de huma co- 
xa ; c diíTelhc : já que íoubefte tertc com Deos > muito 
mais prevalecerás contra os homens : Si centra Deum q^^^ j^^ ^^^ 
for tis fuifii , muki magts contra hommes fravMis. 
Também Methodio lutou com Deos , e também ai- 
cançou a fua bençaõ. Lutou com Deos , porque lu- 
tou com as tentações , e da fua permilTaõ nafccm eítas 
para noíTo bem , fuppoflo que o miniftro delias feja o 
Anjo de Satanás, Alcançou a bençaõ , porque S, Pe- 
dro , Anjo de Deos , como mandado ps>r elle , e Anjo 
da Igreja , como Biípo de Roma , lhe tocou , ^ mur- 
chou os nervos: Tetigit nervfwt f amor is ejus , &Jla^ 
tim emarcutí, E defte modo com o defeito corporal, 
lhe confirmou a perfeição do efpirito , affcgurando-o, 
que fe contra a prova de Deos , mediante a fua graça, 
havia fahido vencedor , muito mais o feria contra as 
ealumnias , e oppofiçaõ dos homens : Gluoniamficcn* 
tra Dmm fortis ftnfii , multo magts contra hommes pra* 
valebis. 

iX. Efcondeo a mulher o preço da iniquidade na 

Biij arca 



Ecckf. 17. jo. 



1 2 Eftiinulo pratico , 

arca de trigo ; porque com o trigo eftá coftumada a 
miituraríe afeinente daszizanias. Mas os que huma 
fó vez fcmearaõ caluinnias , todos aquelies annos por 
aquelie tempo fegavaõ contufaõ 5 e para que efta fof- 
fe mais clara, c publica, eraô conítrangidos a levar 
velas na maõ* Mais atroz pena parece eita, do que a 
mefma morte ; porque naô ha pena mayor, que a mef- 
ma culpa; eiles naò eraõ açoutados nas coitas huma 
vez com varas , feuao muitas no rofto com o mefmo 
peccado. Todos naqueilç dia perguntariaõ , que pro- 
çiffao he efta > ç podiaõ refponder : Vamos a moftrar 
çom eftas luzes a fealdade do peccado , e a fermofura 
da innocencia : vamos a verificar aquella fentença da 
Efpirito Santo , que quem arma o laço , para fi o arma:. 
Factenti mqmjjimum confiUum fuper ipfum devolveíun 



EXEMPLO V. 




UM onzeneiro famofo , foy avifado, e caí- 
tigado de Deos com lepra. Tendo já quaíi 
efgotada a medicina , e a bolça > por ultima 
remédio tomou o que devia fer primeiro.. 
Recorreo a Deos por interceíTaõ de NoíTa Senhora 
do Loureto , celebre pelo prodigiofo modo da tranf- 
laçaô daquella cafa; epela frequência dos milagres, 
promettcndolhe , fe farafle , ofFerta de cem efcudos de 
ouro. Foy ouvido, erefl:ituido à. faude brevemente. 
Os amigos , que deveras o eraõ , aproveitando a oc- 
cafíaô , o amocftaraa^ na5 tornaíTe a manchar fua al- 
ma com aquelie vicio da urura , mais abominável aos 
Divinos olhos , do que experimentara íer a lepra aos 
4os homens. Rçfpondco çom. linguablasfema , e co- 
ração 



Para/egiíir o bem , e fugir o mal. 13 

raçaó ingrato : fe fora vicio eíTe que dizeis , naõ me 
levara a Senhora cem eícudos de curarme. Taparão 
os circunítantes os ouvidos, e deídc aquella hora 
aguardarão a vingança , que Deos havia de tomar da 
injuria feita a fua Mãy Santiílima. Naõ tardou mui- 
to , porque aquella mefma noite eftando o miíeravel 
na íua cama , começou a clamar com defcntoadas vo- 
zes 5 que lhe vakífem. Acudio fua mulher , e a mais 
familia. DiíTe elle , que a lepra lhe tornara , e nas cof- 
tas fentia brazas ardendo , que o atormentava» õ. Mc- 
teo a mulher a maõ paradarlhe algum alivio, cachou 
os cem efcudos tornados em carvaõ. O infeiiz dando 
defefperados gritos, com a força das dores eí pirou 



logo. 



NOTAS. 



o 



Peccado da ufura , e a iníirmidadc da le- 
pra , parecemfe em muitas coufas : naõ 
he logo de admirar , que efta foíTe a pe- 
na daquella culpa. A lepra chamafe cancro tm^ver- 
lai 5 porque por todo o corpo fe vay eftendendo , è to- 
do o vay confumindo. A ufura também hc cancro 
univeríal , porque confome a honra , a faudc , a vida, 
as virtudes. Os leprofos tem a cara torva , carregada 
à femelhança de leaó 5 e por iffo huma cfpecic delia fe 
chama Leonttafis ; e tal hc a condição de hum ufurei- 
ro , porque naõ attende à caridade com o próximo, 
fenaõ ao intereíTe próprio. Os leprofos caelhes ô ca- 
bello , porque o humor excrementofo lhe roe as raí- 
zes, e em lugar delle , lhe nafce outro muy raro , fú- 
til , à maneira de láa podre. Sabido he , que nos cabei- 
los faõ íignificados os pcníamentos ; e naõ pode hum 
ambiclofo ter penfamcntos bons , porque a copia dos 
aíFcclos terrenos lhe tira a raiz delles , que he o tc- 

B iiij mor, 



Oc 



2^ Eftimukpratkay 

mor 5 e amor de Deos. O ieprofo tem o bafo corrup- 
to , e por itío todos fe afFaftaõ delle. O onzeneiro ef- 
candaliza com o feu proccdimenta 5 e ninguém o buf- 
ca , fenaõ por remir fua vexação. A lepra he doença^ 
que na5 póae encubrirfc : a ufura he vicio y que logo 
fe faz publico» A íepra pegafe aos veftidos , e às ca- 
ías, e oscanfome, e aíFea: também a ufura deftroe 
as cafas y e familias , e as empobrece , defpeja, e afron- 
ta> porque Male parta j malh dtlabuníur. Bem orde- 
nada andou Ioga a Juftiça Divina, emcaftigar acíte. 
onzeneiro com lepra, 

II. Recorreo efte homem à interceíTao da Vir- 
gem Santiífima , venerada na fua Imagem do Loreto. 
ChaiUafc aílim , por eftar em Loreto y ou Laureta^ 
antigamente lugar , agora Cidade de Halia y no Cam- 
po Piceno , e p^ayas da mar Adriático , junto dos, 
confins da Cidade de Recanate. Sixto V. a enobre^ 
ceo com Igreja Cathedral , e Bifpa Laureia fe cha- 
mara também huma nobre mulher deRecanate, em 
cujo campo fez aíTentaa Ca& da Virgem, EftaCaft 
onde o Verbo Divino tomou carne humana , c ondí 
o Archanjo S. Gabriel V€yo por Embaixador do Rey 
dos Reys , a tratax, e effeituar com. Imma humilde 
donzelinhi dp quitorze annos , omayor negocio. que 
tivcraõ^ nem ha5 de ter os feculos. Permaneceo em 
Nazaí^eth , até 0= anno do Senhor de mil e duzentos e 
noventa e hum, em qac por ferem os. Chriftãos def- 
terrados daqaeílas partes y lhe faltou o devido culto> 
cntaõ por minifterio de Anjos , (que faô aquelks Gi- 
gantes, que a Efcritura diz , q trazem em feus hrom-^ 
bros o Mundo: Gigantes portantOrbem} foy trasla- 
dada para diftancia de mais. de dous mil paffos de Ga-^ 
filea para Dalmácia. Daqui no anno de mil duzen-» 
Ips sioventa e quatro , fendo Siimm.o, Pontífice. Boni- 
fácio 



para feguir o bem , e fug ir o mal. i y 

facio VIII. íe paíTou para hum bofque do Piceno , que 
he huma regiaò de Itália, hoje chamada Marca de An- 
cona 5 dondw por fer aquelle lugar infeftado de fal- 
. teadores > e homecidas , íe tornou apaffar para hum 
outeiro viíinho , e daqui por haver contendas entre 
dous irmãos, (cujo era o fitio) nafcidas da avareza, 
fe mudou ultimamente para o affento , que hoje tem> 
cujos moi^adores , para certificarfe de taô efíupenda 
translação, efcoiheraõ dezafeis Varões de piedade, 
c intelligencia , e os inviaraô a Dalmácia, e Galilea, 
e acharão > que a dita Gafa defapparecera daquellas 
partes pelo mefmo tempo > e viraò como as medidas 
que levavaõ , çonvinhaõ com a planta do lugar anti- 
go. Com que , certificados que era a mefma , come- 
çou a crefcer a veneração daquelle lugar , e concur- 
fa dos romeiros , o numero dos dons , e offertas, c 
milagres. Ifto hc o que refere o Padre Juftino Mie- Difcarfu 5. ti»: 
xhovienfe, citando a Bautifta Mantuano ,Jeronymo P" Utanias 
Aogelice > e Horácio Turfeliao* Ladrem quanto qui- 
zerem os Hereges do noífo tempo, tendo iíto por 
fabula : que quem naó cré, quco paõ , evinho íe mu- 
da em Corpo, c Sangue de Chrifto, confiando do- 
Euangelho, que diffco mefmo Chriflo : cfteheme» 
Corpo > eíic he meu Sangue ; que muito que naõ crea, 
que a cafa em que Ciirifto tomou Corpo , e Sangue , 
le mudou de Galilea para Itália , naõ confiando ifio> 
do Euangelho ?- 

III. Blasfemo , ingrato y e ncício fe moflrou efie 
homem na fua rcpofia. Blasfemo , porque poz a lin- 
gua íacrilegana Mãy deDeos: ingrato , porque deu 
injurias por benefícios : ncfcio , porque prefumi©, 
que a Mây do Omnipotente , e Senhora de tudo affe-^ 
ílava o feu dinheiro. Foy logo cafiigado, porque 
blasfémias conrra a Mãy de Ivfíferkojrdia tem efpe- 

eialj, 



Lauietanas 



x5 Efiimulo pratico y 

ciai , e graviffima efpecie de maldade , com que Deos 
naò diílimuia; pois naò hade deixar de acudir pela 
honra de íua May Santiífima , fendo feu o preceito 
de honrarmos os pays. Os Pcrfas quando vem hum 
leprofo dizem , que alguma coufa peccou elle contra 
o Sol > porque tem o Sol por Divindade, AíTim pudé- 
ramos dizer a eite quando lhe tornou a lepra. Maria 
Santiífima he Sol: hlcíia ut Sol^ alguma iniuria diJF- 
ícíte tu contra o Sol. 

IV. Gieíi , domeftico do Profeta Elizco , por ha- 
ver vendido a faude a Naaman Syro , com o feu di- 
nheiro fe lhe pegou a fua infírmidade, ficando leprofo 

4. Rcg. 5. fine. ellc , e toda fua delcendencía : Nunc tgttur acceptjftt ar* 
gentum , &c. Sed & lepra Naaman adh^erebtt ttbt , & 
femim tm ufque tnfempiterntim. Aífim efte onzeneiro^ 
tanto que no feu coração deu a faude por comprada, 
com o feu dinheiro lhe tornou a fua lepra. 

V. O mefmo dinheiro convertido em brazas o 
atormentava , que fempre o inftrumento da noffa cul- 

Píaim. 1 19. 4. pa 7 o he também da noíTa pena : §utd detur tibi , au$ 
qmd apponatitr ttbt ad Unguam dolofam ? SagittíC poíen-- 
tts acííta mm caibombus defolatortts. Se perguntais, 
que caftigo merece cfta lingua blasfema , e mentiro- 
fa ? o caftigo he , dores agudas , com que a poderoíà 
maõ de Deos o atraveíTa com fettas , e feu dinheiro 
convertido em carvões accezos que o abrazaõ. Mas 
a mayor defgraça he , a perdição da alma 5 porque 
imaginou impiamente, que o beneficio de Deos o 

AÃ 8.10. comprava por dinheiro: Pectmta tua íecum Jit tnper^ 
dittonem^ qiwmam donum Dei exijlimajttpecunã i.ojji", 
dert. 



EXEM- 



Para feguir o bem , e fugir o mal. %7 



EXEMPLO VI. 



O 




fo 



BEATO Nicolao Fadòr, Religiofo Fran- 
cifcano , lendo morador no Convento de 
S. Braz da Cidade de Scgorbe , foy hum 
dia pregar à Villa de Xe rica y que diíla 
dalli duas léguas. No caminho encon- 
trou quatro meninos , que andavao fazendo lenha em 
hum monte \ os quaes ^ tanto que o viraó , fe vieraõ 
para elle a pedirlhe hum pequeno de paô por amor 
de Deos. Ao bom Religiofo fe lhe enternecerão as 
entranhas , fócom ouvir a forma da petição , e muito 
mais por ver , que nem tinha pa6 , nem eftava em 
parte onde o pudeíTe tirar de efmola para os reme- 
diar. Porém cheyo de fé , e caridade , diffe aos meni- 
nos , que continuaíTem o feu trabalho , e Deos os pro- 
veria \ e elle fe retirou a fazer Oraçaô , efpaço como 
de huma hora , rogando a NoíTo Senhor com humil- 
dade , c fingeleza , que lhe déíTe pa5 para remediar a 
fome daquellas creaturas. Eis que junto afivêpoftos 
quatro pães muito alvos y e fermofos. Levantou-os 
com acçaõ de graças , c repartio a cada menino feu» 
Elles , comendo alegres , de alguns pedaços que fobe- 
jpraô foraõ moftrar à Villa , onde todos íe admirarão, 
porque paõ de femclhante íabor , e fermofura já mais. 
o tinhaõ vifto ; e fabendo o que paíTara , louvarão a 
Deos em feu Servo» efe aproveitarão daquelles fobc-^ 
jos para reliquias^ 



A hidoría é,% 
fuavida cap* 
i5.noãm. 



NOTAS. 



í8 EJlhnulo pratico^ 

NOTAS. 

I. 1"^ Ste Servo fiel do Senhor tifava daFé,c 
IH caridade em lugar de chaves da arca , ou 

ú' ^^ difpenfa da liberalidade Divina , e aífim 

tirou facilmente os pães , que lhe eraô neceíTarios. 

II. Pedio a Deos , conforme elle nos eníinou , a 
petição: Panem nojtrum quotiàtanum dambis hodie^c 
alcançou de Deos , conforme elle nos fez a promeíTa: 
Gltm ex vobts pairem pettt fanem , nunquid lapidem da^ 
ktt tlli. 

IIL Mandoulhes , que entre tanto trabalhaffem , 
( oh que acerto!) para fazer do trabalho dos nccefli- 
tados torcedor para alcançar o remédio , e porque 
nao dcfmereceffem ocioíos o que elleslhes pedia cari- 
tativo. Defte modo todos oravaõ, e todos trabalhavaõ. 
Todos oravâõ , porque também os podões dos mini- 
nos davaó íeu brado ao Ceo : todos trabalhavaõ , por- 
que em quanto elles faziaõ lenha no monte , o Santo 
fegava paõ no campo da Mifericordia Divina. Oh 
aprendamos , que a ocioíídade he mãy da fome ; e naô 
tein Deos as mãos abertas , para quem tem as mãos en- 
cruzadas. Somos nós filhos de Adaõ ? Pois , ou efcu- 

Gen. 3 . X 9. fer ò paõ , OU uaõ efcufar do fuor : Infudore vultus tui 
vefcens pane, 

. IV. O Sacerdote Aquimelech , acudio à neceíTi- 
dade de David com os pães da propoíicaõ , que fe ti- 
nhaó tirado da prelcnça de Deos , porque naõ tinha 
outro algum : Ô^ii fublatt funt a facte Domtm. AíTim 
eite Sacerdote , naõ tendo outro paõ com que reme- 
diar a fome dos meninos , fez conta , que a oraçaõ era 
mefa da propoíiçaõ ; e da oraçaõ , e prefença de Deos 

T . Rcg, 1 1 . ^. tirou os pães : ^i fublat l funl a facie Domim. 

0& 



Para/egmr o bem , e fugir o mal. 29 

V. Os Difcipulos 5 que feguiraõ a Chrifto tendo 
liiima vez fome , trilhavaô entre as mãos as efpigas, 
e comiaõ o graô. No noffo cafo , os Anjos foraõ os 
que naô fó trilharão, mas amaíTaraõ , c cozerão 5 c 
porque a te de feu Servo naò duvidava , como duvi- 
dou antigamente o Povo : Nímqutdpoterit par are men- 

.fam m deferío j deu aos meninos paõ dos Anjos : Pa- 
nem Angelorum deditets. 

VI. Da admiração das maravilhas grandes de 
Deos, ceifamos quando vemos outras may orcs.Quan- 
to excede a efte milagre , o que o mefmo Sacerdote 
obraria todos os dias , quando , naõ com huma hora 
de oração , mas com poucas palavras , fazia defcer 
ao Altar o paõ fobre-fuftancial do Corpo de Chrifto 
Senhor Noffo ? Efte fim , que he paõ dos Anjos , pao 
alviffimo , paó fermofiffimo > paõ que as reliquias mí- 
nimas fatisfazem tanto como o todo , e quatro formas 
delle , ou infinitas faò hum. fó paõ. Oh quem tivera 
para o lograr bem , de faminto o defejo grande 5 e de 
minino a fingeleza pura 1 

VII. Sobrarão as reliquias do milagre , para relí- 
quias de outros milagres. As dadivas de Deos fobre- 
pujaõ a noffa neceffidade , como fe vio nos outros 
pães das turbas no deferto ; conta cm que a efpecie de 
repartillos , coincidio com a de multiplicallos. Mas 
naõ foraõ aqui mais que quatro os pães , para moftrar 
Deos j que fua liberalidade proviaõ os mininos , feu 
conhecimento os contava. 

VIII. A boa porta chegou a pedir efte mendican- 
te. A porta da Mifericordia Divina íahe a toda a par- 
te ; e a oraçaõ quanto mais humilde , e muda, melhor 
entoa as vozes. Naõ ha necefíidade onde ha oraçaõ^ 
a quem Chryfoftomo chamou Omnipotente: nem ha 
deíèrto onde ha Deos , a queni a íé confcffa immenfo. 

EXEM- 




30 Eflimulo pratico , 



EXEMPLO VIL 

INCENCIO , Bifpo Bellovacenfc refere 
o feguinte cafo , cuja admiração parece 
difficultar de algum modo a lua fé. Em 
Roma (diz) viviaõ debaixo do Santo ju- 
go do Matrimonio duas peíToas princí- 
paes , e de virtude afFamada : as quaes havendo alcan- 
çado de Deos por oraçoens hum filho , fe apartarão 
com mutuo confentimento. O marido fe retirou a 
fazer vida monaftica. Ficou a mulher creando o fi- 
lho 5 e com tao demafiado mimo, que ríaò oufava a 
apartallo de feus peitos. Comocrefceo, degenerou, 
ou torceo o amor natural em carnal. Foge a confide- 
raçaõ de deterfe nefte paffo. Em fim aquella matrona 
tida geralmente por exemplar de virtudes,pario hum 
neto ; e por tapar hum crime com outro , o fepultou 
em hum lugar immundo de fua cafa^ e logo por naõ 
perder o credito , que imaginava ter para o feu Con- 
feffor , foy continuando como antes com elle , come- 
tendo tantos facrilegios , quantos Sacramentos rece- 
bia. Naquelle tempo appareceo em Roma hum Clé- 
rigo, que fe deu a conhecer nella brevemente por 
homem infigne cm todas as fciencias. Era Oráculo, 
continuamente coníultado em queíioens árduas , ef- 
pecialmente para defcubrir furtos , levantar figuras, 
prognofticar futuros , e outras femelhantes. Eftando 
hum dia em prefença do Emperador , e outros muitos 
Principes , e occorrendo na pratica louvarfe a vida 
exemplar daquella íenhora , começou a gracejar , e 
logo a cfcurecer , e finalmente declarou o engano em 

que 



Para/egiiir o bem , e fugir o mal. 31 

que eftavaõ , contando o fucceffo de que ella preíu- 
mia nao íerem labedores, mais que Deos , e a própria 
confciencia. Todos fe admirarão , muitos naõ cre- 
rão , outros fe efcandalizaraõ. Entaô elle com fegu- 
rança , e oufadia , diíTe : Accendafe na Praça huma 
fogueira : venha eíTa mulher à minha prefença y fe a 
convencer , arda , fenaõ arderey eu* Pareceo impor- 
tar ao bem publico y e credito da virtude aceitar efta 
propofta. Chamada a Matrona , veyo ; e como ouvia 
em preíença de tantos a enormidade do feu peccado, 
o coração , e os olhos fe cobriaô a íi mcfmos y eftes de 
lagrimas , aquelle de pavor , e confufaõ. Porém man- 
dada fatisfazer^ ç fallar cm fua defeza^ refpondeo 
brevemente : Que em cafo taó grave y devendo com 
razaò faltarlhe o efpirito , e atarfelhe a lingua , pedia 
prazo para defafogar com Deos a fua dor, e confti- 
tuillo protedor da fua innocencia> e acabado elle ref- 
ponderia. Foy a diículpa nao fó aceita y mas louvada; 
e a Matrona aproveitandoíè da diíaçaõ em que a fua 
caufa eftava pofla , correo à oração , e alcançou hu- 
ma infpiraçaõ y que a eníinou, e conduzio a efcolher 
por mçyo de encobrir a, Roma o que eftava publico y 
publicar ao ConfeíTor o que tinha encuberto. Lucia- 
no, Sacerdote de letras , e virtude a ouvio quaíi naõ 
ouvindo mais , que correr lagrimas , c lutar foluc^os^ 
Taõ profunda contrição lhe achou, que a penitencia 
Sacramental foy hum Padre NoíTo; e a reprehenfaõ 
çonfiftio em lhe aconfelhar , que recorreffe ao amparo 
da May de Deos. Os dias que reftaraô paraj cumpri- 
mento do fatal prazo , gaftou cm bater às portas da 
Djvina clemência ,. por meyo de Maria SantiíTima, 
com quanta força pode , e lhe alcançou paraiffo efta 
inefma Senhora , que naõ eflá na fua maõ , naõ con- 
docríe dç afílicílos , naõ deferir a atribulados. Che- 

■ ~- — -.. gQU 





31 Eftimulo Pratico ^ 

gou o termo : ajuntoufe o coníiftorio , fahio a Ma- 
trona em publico^ o temor lhe derrubava os olhos em 
terra, a té lhe levantava o coração ao Ceo. Eíiava 
preíentc o accuíador , e mandado propor de novo o 
feu libello, fahio dizendo , quenaõ eitava alli o reo> 
c moflrandolhea mulher, olhou huma,e outra vez, 
e affirmou , que naô era aquella, antes começou a dar- 
Ihe muitos louvores , abonando fua virtude. Logo 
como defefperado , e confufo , efcumava pela boca, 
torcia os olhos , e fazia outros medonhos geftos. Os 
circunftantes naõ fó palmados , fenaõ medrofos , íc 
benzerão j c neík ponto o accufador dando hum 
ar de cheiro peftilencial, conhecerão todos que era 
o demónio , adverfario commum, e accufador de nof- 
fas almas. Que affombro ficaria em todas , que ale- 
gria , e agradecimento no coração da Matrona , que 
honra paraDcos, que credito para a virtude , deixa* 
fc à confideraçaõ dos que lerem. 

NOTAS. 

I. /""^ Uando eftes dous confortes , pedlao a 
i 1 Deos com lagrimas o bem da fecundi- 
^**^^dade, longe eftavaó de confiderar, que 
a efterilidade era para elles mayor bem. Nao olharão 
os lavradores tanto para as mudanças do Ceo , e in- 
fluencias das Eftrellas , fc viraõ , que a terra em lugar 
de frutos, lhes produzia efplnhos. Pedir a Deos fi- 
lhos 5 arrifcada petição , que no feu deípacho pode 
ter o feu caftígo : quem fabe fe feraõ frutos que delei- 
tem , fecfpinhos , que magoem. Muitos Santos tem a 
Igreja por filhos, queforaõ filhos da oraçaô ; porém 
nem fempre defta nafcem Bautiftas , e Samueis. Im- 
porta pedirmos em nome de Chrifto , conforme ellc 

mefmo 






Varafegmr o bem , e fugir omal. . 53 

mefmo nos enfinou^ e íendo o feu nome JESU,ou Sal- 
vador, naõ pede em nome do Salvador^quem naò pede 
couía ordenada para a falvaçaõ. Que importava, que 
cíks cafados careceíTem de fruto > Eraô nobres^ e ri- 
cos ? Fizcraóíe pays dos pobres , e titulares na Cafa 
de Deos. Deixarão por herdeira a piedade , como fi- 
zeraõ também em Roma Joaô Patrício Romano, e 
fiia mulher, fundando a Igreja de Santa Maria Mayon 

II. Entaó defembaraçados do pezo dos bens da £^^ 
fortuna , e livres ainda do novo vinculo da natureza ^ 
podiaõ ambos caminhar mais depreífa ao retiro para 
fervirem a Deos ] depois efcaçamente o pode fazer 

hum fó. O outro fica no feculo entre poucos annos, 
c perigos muitos : naó fey fc acho , que louvar neílc 
apartamento , tanto que naó foy de ambas as partes. 
De outro modo , o que fica , mais parece que pCttende 
a liberdade própria , do que a perfeição alheá. Os Sa- 
grados Cânones, naõ permittcm voar hum dos cafa- 
dos à Religia5, c ficar outro no feculo , falvo íe fc 
atar ao voto de caftidade , ou a mulher paffar de cin- 
coenta annos , e o varaô de felTenta , fem íiifpeita de 
incontinência. Mas naõ feria a Religião o deferto pa* 
ra onde efte homem fugio , fenaõ outro qualquer re- 
tiro voluntário , que naò he por iffo , nem o mais fe- , , v 
guro , nem o mais meritório. 

III. Tratava a mãy a efte filho com demafiada ca- 
ricia ; e nefte defcuido o foy levando , da idade dain- 
nocencia à da razaô, c defta à da malicia. Naõ fe 
acautelava CDmo aqucUe Monge, que eftranhado dê 
outra pe{roa,pelo defvio, qUe moftravaa fua pn 
pria mãy : refpondeo , pcrguntandolhe , queeftud^a? 
Diffeelle, que Lógica 5 e o Monge continuou: Pois 
fabe, que o demónio também he lógico, ecomolò- 
^gico enfina a fazer efta precizaò : mulher 5 e naõ mãy 

C Aindãt 



34 EJíitnulo pratico , 

Ainda mal , que outras vezes a tem já enfmado. San- 
to Albano Martyr, foy havido de hum Rey das par- 
tes feptentrionaes , em huma filha do mefmo Rçy , fi- 
cando CQTi prever ia monftruofidade , elle avô defeu 
filhote ella mãy de fcu irmaõ. Mandemos, ao fogo, 
qu : reconheça differenças de polvora,prendend.o ncí- 
ta , e naquelloutra naõ, quando ambas eihõ proxi- 
«mas. Nos pays de famílias , e nos fuperiores, já ne- 
nhuma malícia he mal fundada, fendo em ordem à 
cautella. A Ley de Deosprohibelhes o juizo temerá- 
rio y mas a obrigação do officio , lhes impõem a vigia 
cuidadofa^ Do amor lafçivo maia difta o amor efpi- 
ritual, do que o natural , e com tudo, quantos cora- 
ções 5 que fe pegava o fogo do efpirito , e caridade , 
vieraõ depois a pegarfe o fogo infernal da concupif-^ 
:Cencia? 

IV. Sepultou o filho inceftuofo , em hum lugar 
immundo; e o fegredo também , porque o fçpultou 
em feu coração. Fiouíe do demónio para o peccado, 
nao fe fia de Deoa para o perdaô. O inçefto tapou 
com o parricidio , o parricidio cò o facrilegio muitaa 
vezes repetido. Ifto he o que r>a expofiçaõ de S. Gre- 
gório diftc Ifaias , que hum vicio chamaria por outro 

Iíaias34.i4. vicio: Ptlofui clamabit alter ad alter um. Oh cegai 
bufcas efcuridade , onde tuas fealdades nao appa- 
reçaõ? Efconde-as no peito de hum ConfeíTor , e fc- 
cha-as. com o fello inviolável de hum Sacramento : 

Cídkf. 4, 1^. P^^ anima tua ne confundaris dtcere iierum : efi emm con- 
fufw addíicem peccatumy & ejl conjufio adducens gloriam^ 
& gr aliam 5 quando o negocio nao topa em menos, 
que na falvaçao da tua alma , porque te has de pejar 
de defcubrir a verdade noa ouvidos de hum Confef- 
for ? Adverte , que aííim como o peccado commetti- 
do cauía pejo , aíílm o pejo de confeffar o peccado 

çaufa 



Para feguir o hem , e fugir o mal ^ 3 5 

çaufa outro peccado. Logo fe por caufa do pfejo te á ^ 
naõ confeffas, enao te confeffando cn^orres rnayor ^^ 
peccado , c por coníeguinte mayor pejo , por "affíor * 

do mefmo pejo devias confeífarte ; e efta mcfma con- 
fufaó , que vencendotc , caufa em ti novos peccados ^ 
e mayor inferno 5 vencendo-a tu , caufará graça , c 
gloria ; graça como fruto do Sacramento, gloria co- 
mo fruto da graça: Eji vonfujío adducens gloriam y & 
grattam* 

V. Quem duvida , que cftas , e outras muitas ra-^ 
zoens proporia o Anjo bom para render aquelle co- 
ração? Mas eftava nelle empolgada a maõ de hum 
forte inimigo ; c a opinião boa em que fc confiderava 
no conceito dos ConfeíTores. Que diraô de mim ? Em 
que conta ficarcy com elles ? Que razaó taõ groffei- 
ra , c por desbaftar ? Que haviaò de dizer os Confef- 
fores? Que naõ era mais valente, que Sanía5,nem 
mais fabia , que Salamaõ , nem mais jufta , que David, 
nem mais amante de Chrifto , que Pedro ; e todos ci- 
tes Cihiraõ miferavelmente. Que haviaò de dizer í 
Que a eftatua da fua virtude íe arruinou , porque 
cm fim tinha os pés de barro 5 porém que de novo po^ 
dia levantarfc, e crefcer mediante a virtude de Chrif- 
to , naõ em forma de eftatua fantaftica , íenaõ de 
monte firme , c affentada Diriaó , que a fua nature- 
za era frágil ^ pois cahira ; porém que a fua contrição 
era f jlida , pois fe levantava. Diriaò , que bufcava a 
virtude verdadeira , e nao a fuppofta , pois atroco de 
parecer Jbein a Deos^^naô rejparava em pafcccTni Sr 
^aoshairiensTeaàdoque a pRidencíTtfiê?FáIt3:flfe'Çar3 T' \ 4 
^t)]^^^diJA\çn : mais barato lhe fahia oCeo compra- 
do por afrontas , do que a honra pelo Inferno. Mas o 
mefmo peccado gera trevas , que eícurecem a razaõ^ 

VI, Por efta, e outras rnui tas caufas importa^ 

Cij que 




3^ E(limulo pratico j 

que os ConfeíTores naõ moftrcm fazer conceito da 
vircLide dos feus penitentes , principalmente iimllic- 
r£s j nem eftranhem as fuaafaltas. ordinárias , nem l^ç.. 
demandem mayor perfeição do que o Efpirito SancQ- 
Uies communica. Que os frutos de hujma alma boa, 
- íaõ como os de huma arvore , que fenaó maduraò a 

puro apolegar , fenaõ com os rayos do Sol le.nta y e 
'IcâzrfentfJ y.^\;.,:. i;,y\v. 

VIL Eftando pois eíla mulher enferma , e incha- 
da de hypocreík 5 como outros o eftaò de hydropefia, 
e naò lhe aproveitando os remédios mais brandos , 
ordenou o Medico Celeftial outro mais forte>mandou^ 
queoabriíTem para vazar o humor corrupto^iftobe^ 
permittio ao demónio , que defcubriffe o feu peccado, 

VIII. Appareceo efte em figura de Ecclefiaflicoy 
gara fundar melhor ajoginiaadc doutore verdadeiro» 
OHenSvâfe liniv^ haven- 
do perdido todo3 os dons da graça , que pertencem a 
fazer -a vontade redla , lhe ficarão fomente os da na- 
tureza y que pertencem ao entendimento futll ; e- 
pelo appetite natural, que o homem toii de fabir,, 
engana o inimigo por efta via a grande pane do Mun- 
do ^defde que na principio dellc Ihefahiobemaquel- 
,M tentação : Eritts fuiU Dn^ fiientes bonum , ó^md" 
lum. Mas com toda a fua fciencia ignorou hum pon- 
to 5 que a mais. vil creatura lhe pode eníinar , como 
lhe lançou em rofto ^.Miguel vQuisficut D em í Quçm. 
pode compararfe a Deos ? 

IX. Defcobriolhe os peccados publicamente.Juf- 
ta pena : que a contufaõ , que recufou padecer para 
eom hum Sacerdote , que íe havia de callar , por mey o 
de outro fingido Sicerdote , a padeça em prefença de 
tantas pelToas. O que o inimigo pertendia com ifto;, 
era infamar a virtude 3 e defcfperar a peccadora, e 

abre- 



Píira fegiiir o hem , e fugir o mal. \ 37 

abreviarlhe a vida , temendo da fua emenda. Pbr iíTo 
apreíTa tanto a accjulaçaò, e logo afentença^ e efta 
de fogo 5 pai-a que aquellaalmapaffc de hum incên- 
dio temporal a outro eterno. 

X. Sogeitafe aotaliaõ^ fe naõ provar o deli- 
-lo. Mas naoerao partido igual ; porque o efpirito 
réprobo já naõ podia deixar de arder para fempre> e 
cfta pecxadora com humpezame decoração, ehum 
Padre noffo de penitencia , certamente fe livrava da 
culpa , c facilmente íe podia livrar da pena. 

XI. PrudentiíTima eleição foy a de tomar tempo 
para reíolverfe. O mefmo Deos para íazer todas ^s 
coufas, fez primeiro o tempo; c quando houver de 
caftigar o Mundo fcm mifcricordia , jurará hum An- 
jo cm feu nome , de naó haver mais tempo : ^ia tent" Apoe«' 
fus non erit ultra. Perguntemos aos moradores do 
Geo, e aos encarcerados do inferno: quanto vai o 
tempo ? e todos refponderaõ , que tanto como a eter- 
nidade. Quantas almas por hum inftante mais , ou 
tmenos de vida , vem ^ ou naô vem a Deos em quanto 

for Deos ? 

XII Recorre à Virgem Mây? Grande final de 
falvaçaô ; porque efta Senhora , he final grande , que 
naõ apparcce no Ceo , íc naõ para nos guiar para o 
Cep : Stgnum magnnm apparmt in Coelo , mulier am5ía ^^^ ^^-^ ^^ 
Soíe, Se naõ houvera criminofos , efcufado era haver 
Cidade de refugio. Mais fácil parece ao peccador def- 
confiar de Deos , do que de Maria Santiffima ; porque 
fuppofto , que das enchentes da mifcricordia^ efte hc 
fomente o cano , e Deos a fonte : toda via em Deos 
corifideramos maô direita, e maõ efquerda, man- 
fidaõ de cordeiro, e fanha de leaó. A MARIA eftá 
commettiâo fó o Reyno da clemência : In manibm ejas sam. t.ãtmi 
(diz S. Pedro Damiaõ) funt thefauri wiferat4omm Do-r "Tir«- 

C lij minu 



38 Eflim^ilo pratica y \ ^ 

mini. ^To Jos cabem debaixo do feumanto , defdc qiíe 
CO abe o immenfo i c quem naõ terá confiança com a 
pomba , fe a pomba naõ tem fel , e até no bico , por- 
que le naõ prefuma ler arma ,: traz hum ramo de oli- 
veira, annuncio da paz 5 fymbolo da mifexicordia. 
Oh Senhor , fe a devoção com voíTa Mãy Santííllma, 
he final de fal vaçaõ : daime efte final , fazendome filho 
da que fe nomeou por voffa eícrava , e eícravo da que 
ttòmeaftespor voffa May ; dayme eík final para o bem 
da minhi alma , e confufaó dos.iuimigos, que me 

paim.. 85. aborrecem : Salvumfacfihum ancilla tua : fac mecum 
fignum mbonum , ut videant qui oderunt me & CQnfun**. 
dantur. 

XIII. Para encob rir efta mulher íèuspeccados ao 
Mundo , os defcobrio ao Sacerdote : mal os poderia^ 
defmcntir em publico , fe os naó confeffaffe em fecrer- 
toj porque as chaves da Igreja abrindo a boca do xcOf^ 
fechaò a doaccufador; e omefmo Chrifto, que re- 
cebe a confiffaõ da Magdalcna , reprime a murmura- 
ção dos Fariíeos. 

^ XIV. Tanto que mudou de coníciencia ,.mudou, 
tamberri de rofto, Defçonhecç-a o.mefmo lynce , por- 
que já naõ era filha fua. Cahiôr-lhe a lepra , porque 
fe moitrou ao Sacerdote : era m^onftro^já he fermofif- 
fima vC qual foy a cauía da.mudança ? Cmfejjionem & 
decorem indmftu Defpindo, as culpai pela confiffaõ 
delias, veftio a Chrifto , e logrou effeituada aquella 
promeffa Divina: Si fuermt peccata vejlra ut coccwumj 
qU'<i(í nix de albabuntur.^ Para haver fermofura, diante 
4eDeos,dianj:e domefmoDeos hadehaver primei- 
TQCon^fí^ò: Cúnfeffiâ yé^ pukhritudo.m.confp^ 
jlma, confedÍÂn^m ( diz S. Bernardo. íobre eftas, pala- 

iirt«!>,i.mii X^^i^y íi affeíías decorem^ Reveraubiconfeffiç.^tbtpul- 

•> ^^^ çf^itiido , tbk decj>t\ Se deíçjas , a!ma (diz o Santo) pa- 

.ii«i«í . recer 



Vara jeguir o hem , e fugir o mai > . 5.9 

recer fermoía nos olhos de Deos , naõ recees parecer 
fea nos do Confeílor : naô ha fermoíura , naò ha gra- 
ça onde naò ha conníraô. 

XV. ' He verdade 5 que efta mudança da mulher 
foy efpiritual , e mais da confciencia que do rofto. 
Mas ainda f aliando da mudança exterior^ alguma ía- 
hc ao roíto participada do elpirito. Reculava hum 
penitente fazer confiffaõ geral com meu Padre S.Fi- 
iippe Neri 5 e por oraçoens fuás illufhrado ,: fe moveo 
a fazella com outro Sacerdote. Vindo logo à prefen- 
ça do Santo, que o naõ fabia, eíielhc diffe: Filho, 
tuhas mudado de cara. He o rofto efpelho da alma , 
ca alma o he de Deos ; e aílim da luz de Deos revcr- 
bcraò alguns reflexos na alma, eda alma no roflo; c 
os Vái-oens illuftrados , tem aguda a vifta para perce- 
ber eftas mudanças a nós outros infenfiveis. 

XVI. Os avifos principaes vque eftc fucceffo nos 
cníina faõ os feguintes. Primeiro , que peçamos á 
Deos com refignaçaò , fe for para honra fua , e falva- 
çaô noíTa. Segunda , que nas matérias da caftidade 
tenhamos fumma cautclla. Terceira , que nos enver- 
gonhemos dos peccados da confiíTaò , c naó da con- 
fiífaó dos peccados. Quarta, que no patrocínio da 
Virgem crefça cm nós a confiança , quanto crefcer a 
tribulação. 




Ciiij ^ EXÉMt 



4® 



EJlmulo pratico i. 



EXEMPLO VllI. 



Vitae Patrum 
Itb.i0.€»p.47< 



% 



%^ 



<.. 




M Heliopolls , Cidade da Fenícia ,. havia* 
hum reprefentantc por nome Gayano^Q 
qual fazia prazer aoPovo com blasfcmay 
de Noffa Senhora. Aqual IbQapparcceo^ 
e diíCe com.brandura : Que mal te fiz cu^ 
.^e affim me blasfemas.,, e efcameces diante de tanta 
multidão de gente ?. O mi&ravcl naõ fomente fe naò 
emendou, fenaa que o fez peyor , attribulndo a be- 
nignidade da Rainha dos Anjos, airaque^ia dq mu^^ 
Iher. Segunda vez lhe appareçeo y dizendo .* Rogo^ 
te , que naô queiras fazer mal a tua alma. Defprefou 
também efte avifa, c continuou no feu defatiao. Tcr^ 
ceira vez repetia a Senhora afua adraoeftaçaq, e xctir 
doquena5 aproveitava^ lhe appareceo. em fonhos.,^ 
eflando elk doriiMndo ao. meyo dia > e fcm lhe dizeis: 
fíada lhe íinalou com o dedo, as mãos , e pés j^e aqorr 
dando logo:à força da dor , fe achou^apçadgi de pés,, 
G mãos; e deftc modo jazendo inútil para tòdãra*. 
cou£as , fá fervia de confeílar ao5 que o viaõ acaufa^ 
daquelle exemplar caffigo, com que taô, rniíeriçor;?^ 
diojTamçr^e fora emendadq., 

N O T A S; 

I. TT^ Enicia^. ou Fenice , he parte da Syria> 

r^ conftnatitecomjudça. Ha. outra Hclior', 

'^ polis em Egypto , entre as Cidades de 

Alexandria, eCopto-, e neiítt eftcve Chrifto Senhor 

NoíTo^e fua May Santiflima (conforme. refere huma 



/^ 



Pura feguh o hm , e fugir omal\ 4.1 

fua moderna chronifla) quando fugirão de B^jtei: > c 
cntaõ fe podia cora mais propriedade intitulai: Cida- 
de do Sol , que iíFo quer dizer Heliopolis. 

II. Notefe^ que infame hc o officio de repreícn- / ^^"' ^ 
tantc, pois. fe. emprega em reaozijar a outros cora 
detrimento daproprb alma. Os rcprefentantes en- 
louquecera aos ouvintes com os feus momos >, c os ou- 
vintes, enlouquecem aos reprcfentantes cora os feus 
applaufos. Efcandalizar > e fer efcaadalizado , hc o 
que dá de fi o theatro. S. J.oaã ChryfoftomQ o definio 
gravemente por eftas.palavras :: In theaíro omma nfuSy hoidíj. é*. 
mepíííudoj fafius Diabohcm ^ effufio fenfmm ^ íewpOf 
tís tmpmdmm. , ^ fuperfiuorum dterum cõtifumpio , ma* 
la cuptduMn mduãto ,, aduUerii medtíatw yfornkaúonis 
gywnafi^my mtemperanttíS fcbola yturfthidmis exhor^ 
íatWj& whonefiaín exempUu Sabeis de que conftao 
thpatro l Tudo nelk lie rizo , (diz o Santo) loucura,, 
pompas do diabo , derramamento dos fentidos , per- ^ 
da do tempo , e confumiçaó dos dias , indução do apr 
petite , meditação do adultério > paleílra dá fornica- 
ção , efcola da intemperança , exortação à torpeza,,, 
c exemplos da inhoaefHdade. Vejaãaqui oscongrc- 
gantes , que.bella meditaçaã, os efludantes ,> que pa- 
kftca , os. mininos , que eícola ,. os Religiofos 5. que 
recolhimento , os nobres , que Éafto ,. os officiaes, 
que arte de poupar j c todos ^ que confelho > e.que: 
exemplo? :r t • c / 

IIL Naõ me efpanto aqui Jò? diabo , que bem Gtr % 

bc o que faz cm introduzir comedias , fenaô de alguns ^ 

varoens doutos ,, e Religiofos , que naõ fey como a^' '" --^ 

patrocinaõ. O qi^ o-^ diabo perrende, diffe onoífo ^ 

Santo António Gin hum Sermaõ do Juiza: qucaffim | ^ 

como onde íe^criaõbiclios de feda , coflumaô , pam f\ 

^ç eíles naõ mprraõ quando ha trovões , ^ e relampar ' | 



1^1 i 4^v\vo V Eftimtilo pratico ^ , / ' 

*gò^ r J ^ngérllie iníirumentos niuíicos na cafa onde ef- 
taõ > alTim o diabo nos leva às comedias , e muíicas 
para que nos naô efpantem os trovoens, c rayosda 
ira de Deos. E que fazein os que defendem^ e canc- 
iiizaõ Cite exercício 5 fenaõ temperar os iniirumentos 
aó» diabo :, e^ dei cantar com elle í Cerro Pregador ze- 
lofo 5 reprehendera no púlpito hum dezaíbro , que na 
comedia fe tinha feito, c era íahir abailar profana- 
mente humamulherfinha, que tinha immediatamcn- 
te antes reprefentado a Santa Catharina dè Sena. Na 
Dominga feguinte 5 fahio outro Pregador authoriza- 
do de certa Religião yC abonou aquelle fanto exercí- 
cio, dizendo, que o reprehender as comedias, era 
de Pregadores moços , e que muitas coufas boas fe 
podiaô aprender nellas. Soube difto o Bifpo, que ep 
D. Fr. Diogo de Yepes, da Sagrada Ordem de S. Je- 
ronymo , e ConfelTor , que havia fido do Rejr Catho- 
lico D.FilippelI. Mandou logo^lgHíJfí humamula, 



ecom humg^iadplheinviou a dizer: que nomefmo 
ponto fe fahiíTe do feu Bifpado, e dcfcuidaffe da Qua- 
refma , que havia de pregar em huma Igreja princi- 
pal , porque elle proveria. Aífim fe executou , íem re- 
plica. Aííim , que tornando ao no (To ponto, naô tt* 
nha Gaiano officio muito authorizado , nem accom- 
modado para a falvaçaõ. 

' iV. Mas como li , que Maria Santiífima intervie- 
ra na emenda defle peccador , logo prognoítiquey , 
que: o cafligo havia fer temperado com clemência ; e 
vioíe efta aqui em muitas circunftancias. Primeira , 
em apparecerlhe , favor que pudera fer premio de 
grandes íêrviços. Segunda , em ievallo por bem , e 
fallarihe amorofamente. Oh como fe parece a fua 
condição com a do Filho ? O Filho diíTe : Popule meus 
qiiiU feci tiht ? E o mefmo diz a May a efte feu adver- 

fario : 



Para fegub", o hem^ cfii^ o mal. ^ , 4|^ 

fario: que te fiz cu? Terceira, em precederei^ três 
admoeítaçoens. Quarta, em darllic uitimameíite en- 
tendimento por via da vexação 5 pois pudera obfti- 
narfe , e 'fóitar a linguá , quando tinW impedidos os 
pés , e mãos. 

V. Porém notefe , qqe defta quarta vez , na5 fal;*^ 
lou a Senhora , e fomente o caftigou. Quando naõ da- 
mos pelas primeiras inípiraçoens , çeíía Deos dos avi-; 
íos>e procede aoscalUgosj edefte modo vàifimco^iS 
nxo a fuajuííiça realça aíuamifericordiaj^aíFim. a.fgiq;^ 
mifericordia acredita a fiia juíliça.: >b 

VI. Na5 diz a hiftoria , que a Senhora executaflfe 
o golpei íçíiojõ fó , que; íinaiou a parte; Foy Juizv niai^ 
náó verdugo : o primeiro pedia o crime do reo: 0^ 
fcgundo naõ dizia com a authoridade de Rainha.. 
Devia fcr Miniftro algum anjo de luz, ou trevas.: . . 

'. VíIIc Que proporção tevQ a pena com a 'culpa:)ÍI 
Sc cráo blasfémias , pague a lingua.: Mas, a hiftoria* 
diz^que era MimuíyC he huma efpecie de reprefen-^. 
tantes,. que faziaô momos , e tregcitos , commãos y 
cpés. Julfo fov logo , que nelles; fe cxecutafCe.o gol-^^ 
pè ,. cçomelles fiçaíle: inabilitado páca-continu^i: nái 
ofHcio , e a lingua illeza para. publicar o caÍQ^; Ghrif- 
to diffc , que fe nos efcandalizarcm os pés, os corte- 
mos. Efte homem padecia p cfcandalo, mas na5 ha« 
via de tomar o confelho , por fua vontade ; aífim lha 
Sízcraõ tomar por força. > 



exem:- 



44 



E/imahpratUoi 



EXEMPLO iX 




A Vida de SJorgc fc lê , quceftando prezo 
pela Fé , e já deítinado para a fogueira , os 
Tyraanos fe recearão, que naõ ardeffe (co- 
mo a outros muitos Martyres tinha fucce- 
dido) com que ficaffe mais acreditada a virtude , e fc 
do Santo. Para obviar cfte inconveniente , e aíTegu- 
rarfe dertcreceyo, lhe envolverão todo o corpo cm 
fios de linho Asbeftino : para que fe íe nao abrazaffe 
o corpo ^ da incorruptibilidade do tal linho, provai- 
ícm 5 que naõ era milagre ; e íc fe abrazaíle , ficando 
o linho illefo 5 foffe mayor o opprobrio dos Chriítâos* 
Porem Dcos, quehe Author da natureza, e graça 
juntamente , ede ninguém recebe Icys : ordenou^ que 
o linho iílcombuftivel ardeffe logo, c pelo contrario 
o corpo do Santo ficaffe illefo , fem hum cabello me- 
nos. Com o qual milagre j^ofía Santa Fé ficou mais 
illuftrada, e publicada até por línguas de fogo \ c fc 
reduzirão a ella grande numero de almas. 



NOTA S. 



íc^/" f:i7 



I. 



AS coufas prodigiofas , que fc rcfcrcm 
defle gloriofo Santo , a quem os Gregos 
por antonomafia chamaõ o Graõ Mar- 
tyr: M^^^í/^w/ír/^^r, naõhenoffa intenção accrefcen- 
tar mayor fé , do que aquella que tem pelos Authores 
que as referem , efpecialmente , quando por muitas 
delias ferem apocriphas,(ifto he,que naõconftaò com 
fufficiente authoridadc ) naõ achamos no Breviário 

Romano 






Pára ftguiv o bem , e fngir o mal. ^ 4 5 

Romano licoens dciie Santo , havendo tanto ^tj^ ad- 
mirar em íua vida. ' 

II. Refere pois o íobredito milagre Lipomano a 
23. de Abril ^ tomando-o de Metaphraiks , varaô San- 
to , c delles ^ Aldrovando no feu Mufeo Metálico liv. 
4. cap. :j5. e o Padre Athanafio Kirker lib. 8. de Mun- 
do Subterrâneo fed» 3. cap. 1. tomo 2 fuppoíto , que 
çm huma circunftancia variaò , como logo diremos. 

III. Naô diííicuíta o credito o que íè diz do li- 
oho Asbeftino , antes o abona 5 e affim para que fe en- 
tenda , que os milagres foraõ dous 5 hum naô concor- 
rer Deos com a acçaô do fogo para queimar o corpo 
do Santo 5 outro ajudando , e fortalecendo mais eíTa 
acÇ^Q do fogo para queimar o Asbeflo *: fera bem ex- 
plicar o nome, e virtude íingulariílima defíe linho. 

IV. Vários faó os nomes , que os naturaes lhe 
impuzeraõ. Primeiro , Amtaníus. , que em Grego vai 
o mefmo , que immaculado , ou impoUuto > e com 
razaô > porque tjznando as eh immas. a qualquer ou- 
tra matéria, a efta naõ fó naõ põem manchas ,fenao, 
que íe as tinha , e purifica delias. Por onde diíTe S. Ba- 
filio Homil. 30. de jeiunio : EJl quiedam corporis rjaiu- 
ra y qiiam Amiàntum vacara ^ mconfurnpítbtUs igmx 
quando quidem mjlammí pfita , m prunas redigi vtde^ 
tut: exempla atitem ab igne^veluii aquts tlUíJlraía-^dt/rwr 
evada. E Pliniolib. 19. da Hittoria natural cap. i. e 
Ludovico Vives ao livro 2 1. de Ctvitate /^^'/^cap. 6. 
teftemunhaõ , que viraõ. a roupa tecidii defíe linho y 
lavarfe com fogo , em vez de agua , c fahir das cham- 
mas mais rcfplandecente. Parece, que quiz Deos ex- 
plicamos, por meyo defta creaturaShha, o effeito que 
as chammas do Purgatório fazem nas almas , asquaes. 
naqucUe incêndio. entráõpollutas ,£ delle íahem im-- 
maculadas. 

Se- 



46 , EJlimulo pratico , 

V/ç Segundo, chamafe Asberton, nometambcm 
Gregcr, que quer dizer incombuftivel , e naó inex- 
tinguível , como muitos diíTeraõ^ pois (como eu pró- 
prio expcrimentey muitas vezes) taõ íongc eflá de 
naó apagarfe nelle o fogo , que nem chega aprender, 
faivo tem pegada outra matéria: como fucccde às tor- 
cidas feitas delie, que huma lo dura para fempre, dan- 
do lume mais claro; porém faltando o azeite , logo fe 
apaga , e fica inteira , c limpa como no principio. 

VI. Terceira , Zeroaftres lhe chama BfiJtnchtteSy 
porque quando eflá em rama , fe parece aos cabei- 
los empeçados. Qiiarta , pela mefma razaó outros o 
Ci^i/^^ii l nomeao Corfoides. Quinto , e porque affemelha o ef- 
J parto branco , outros lhe chamao Spariopolia. Sexto, 
/ í Langio lhe chama , pluma de Salamandra , alludindo 
ao que fabulofamente fe diz defte animal viver no fo- 
go. Sétimo, Fortunio Liceto lib.3 de Lucerms anúqutSy 
cap. 1 7. chamalhe linho vivo : entcndeo com muitos, 
que defte fe faziaõ as torcidas daquellas lâmpadas 
perpetuas , que debaixo de alguns fepalchros anti- 
quiíTimos fe acharão s e parece ifto poífivel , (diz Al- 
drovando) fe também o óleo foífe tirado defta efpecie^ 
por arte diftilatoria. Porém o Padre Kirker ^ infigne 
explorador dos fegrcdos da natureza , provando a 
querer tirallo huma , e muitas vezes , achou fcr im- 
poíTivel , por fer taõ indomável a virtude defte mine- 
ral, que naõ cede muito , nem pouco , ao mais valen^p 
te ardor de huma fornalha , cedendo o mcfmo ouro, 
CO talco. 

VII. Finalmente o Beato Alberto Magno lhe cha^ 
ma IfciMôn , vel Ifcurtos Upis , Solino Carbafus , Jorge 
Agrícola : Alúmen pluma , é^flos petra'^ e tomando o 
nomtí das terras onde fe acho a , Paufmias lhe chama 
Cirpafium , Strabo Caryftium y outros linho Cypno , 
: outros 






Para feguir o bem , e fugir o mal. '47 

outros linho Indico. Nem he de reparar , que h)í{n^ fó 
clpecie fortiffe tantos appellidos i porque as coufas 
mais incógnitas , c raras , quando chcgaõ à noticia de 
cada hum , parccelhe ter direito para lhe pôr o nome, 
que julga naô ter ainda a tal efpecie, 

VIII. A razaô natural da admirável , e ílngular 
proprxd-ide de rcíirtir ao fogo , diz o Padre Athana- 
íio ler a contextura de íli;s partes todas, femelhantes, 
lentas , e vifcofas y por quanto a dizfcmclhança entre 
as partes de hum todo , he a cauia da fua refoluçaõj 
c aflim definio oAsbefto fer: L^pts fihrofus alumim 
fihtfio haud ahfnnilis , lenta ^ vifcida croffiiu corjjlans , 
obommnm partinm homogeneum coníextum m vaporem 
refolvmrfciust folus ab o^/inium a^ímjiffima tgms natu- 
ra immunts , & incombiifidnlis. Chamalhe pedra , e nâõ 
linho I com Plutarco ^P..ufanias , e Strabo. Mas de li- 
nho , tem o poder carpiaríe , fíarfe > e tecerle : fup- 
pofto , que o mi3do he taõ induftrioío , c incógnito , 
que quem fabe o íegredo , o guarda como couía pre- 
ciofa. Aqui dj^jiiinJiQ podemos aprender, que quan- 
to mais íemcíKantes tiver entre íí as partes qualquer 
corpo myíHco de huma Republica, ou Reyno, ou 
Communidade, tanto mais reíiítirá à fua deftruiçaó, 
eferá mais perdurável. 

IX. Dcfte linho pois , ou pedra mandavaõ os Em- 
peradores fazer a grande cufto Jiiortalhas, em que íeus 
cadáveres foíTem envoltos , para que poftos fobre a 
fogueira , ( como era ufo ) fuás cinzas fe naõ miftu- 
raíTem com as da lenha , e pudeííem guardarfe fepa- 
radas nas urnas > e Maufoleos. Até aqui chegou a vai- 
dade humana , c o ag pet i^e da excellencia própria , de 
dignandofc de que*opô d^HunTcadaver q^ 
cftiveíTe em companhia de outro pò menos nobre. Na 
tremendo dia , em que todo o Mundo ha de fer foguei- 
ra. 



48 ; E/limulo pratico^ 

ra 5 ^rperamos ver íe eftes Emperadores tomarão an- 
tes a U)rte , e companhia de tantos Martyres , a quem 
dera5 por urna 03 ventres das feras, e dos peixes: ou 
fe faò deftinados a arder em corpo , e alma , como li- 
Ecckf. II. 10. i^ho commum quanto à facilidade : Síuppa colUãa $ 
fynagoga peccantinm^ & confumrnatw tllortim fiarrima 
ígms] e como linho fempre vivo, quanto à duração 
eterna: Ite malediti intgncm ieternum. 

X. Do referido íe moftra já , como os milagres no 
caio propofto foraõ dous diilindos : hum , que o fo- 
go nao tiveffe acfUvidade para queimar hum fó cabei- 
lo do Martyr : outro , que a tiveíTe para queimar efte 
linho. Donde fe refuta o que outros dizem , enten- 
dendo 5 que foy nelle envolvido o Santo , porque fen- 
do inextinguível , pcrtendia o Tyranno acautelarfe 
contra o que outras vezes fuccedia , que era apaga- 
remfc as fogueiras dos Martyres. Porém (como dií- 
femos ) por experiência coníla ,que efte mineral naô 
^ S'^ fe coníbme , porque naô arde , e naô he como a Çar- 

, .,J >" ça myfterioía de Moyíes , que ardendo verdadeira- 

C*" ^í^ mente , naô fe confomia. O defignio pois do Tyran- 

^ no foy efte: fe o Martyr arder, temos o intento: fc 

''1 naô arde , como por exemplo de outras maravilhas 

fuás me reccyo , dirfeha , que foy virtude do defeníi- 
vo miniftrado pelos da fu^aley, e profiíTaô: Hac £&• 
gitaverunt , & erravenmt : excacavit emm illos mâlttia 
eorum , ^ nejctertmt Sacramenta Deij efte foy o feu 
penfamento , porém errado , porque cegos com a fua 
malicia naô alcançarão as maraviíh:is de Deos , o qual 
trocando as mãos , com huma ajudou a violência do 
fogo , com outra a reprimio , fazendo que a natureza 
ferviíTe à graça. Errarão , porque a virtude que po- 
dia prefervar a carne (como elles temiaô) porque naô 
poderia çoníumir a pedra ? Servirão íómente íuas 

pro- 



^ap. i. II. 



Para feguir o bem , e fugir o mal. 49 
propriedades de fymbolo das virtudes do Satjto y o 
qual (como Amianto) ficou impoUu to, immaculado^ 
vivo , e miis rcfplandcccnte. 

XI. A parte que daqui pode caber à noffa imita- 
ção , c doutrina hc , que em noíTos trabalhos nos en- 
treguemos nas mãos de Deos , com plena confiança, 
pois taô facilmente quebra os laços da malícia huma- 
na , e fe dcfprende das leys da natureza ; e tenhamos 
entendido , que íe eftivcrmos firmes no meyo do fogo 
da tribulação, dei lefahiremos mais gloriofos, crcfr 
plandecentes. 



EX E M PLO X. 

M Heraclea , no fepulchro da Martyr S. ^ííc^p^oraslib; 
Glyceria manava do feu corpo hum óleo, 18.cap.31 Ba- 
ou uná^uento de fuave cheiro , e effeitos J°í*^!I"\ltí* 
milagroíos. Perihthio, Bilpo daquella s.boííus iib. 
Cidade , achandofe por certa occafiaõ ^^^^^f^ ^"*^ 
em Conflantinopla vio nojnxoftrador de hum Ouri- 10. tom. */ 
ves huma bacia de prata , grande , efermofa. Com- 
prou-a , c tornando para a fua Igreja a poz no fepul- 
chro dl Santa , em lugar de outra de arame , que alli 
crtava para recolher a diílillaçaõ continua daqueile 
Sagrado , e prodigiofo unguento, parecendolhe , quo 
com erte dom lhe conciliava mais veneração. Porém 
tanto que a bacia de prata fe poz , parou logo o bleo; 
e o Biípo fabendo , que continuava por muitos dias 
a mefma falta , com algum defcredito feu , e com re- 
paro , e talvez efcandalo dos romeiros , e peregrinos: 
orou a Deos com anciã , e fervorofas lagrimas , pe- 
dindolbexcmedialTe íua afflicçaó , e naõ encolheffea 

D mau 




"X. 



50 , Efttmulopvatico y 

mao 'COin que favorecia a tantos neceífitados , e en- 
fermos , c defcobriíle a caufa daquclla novidade. Em 
foahos íbube y por revelação Divina , que aquella ba- 
cia fora de Paulino feiticeiro, o qual lançando iiella 
íanguc immundo , e abominável , coníultava por 
meyó delle os demónios , efallava comelies; e que 
depois neceíFitando do preço a vendera àquelle Ou- 
rives. Acordou o Bifpo ^ e fem detença , mandou def- 
Iroeat os vafos , tomando a pôr o antigo : eis que de 
repente cóíneçou á correr ooleo > e a manar de novo. 
aquella fonte de milagres. Pii)licoufe o caibre para 
mayor fatisfaçao de todos, emcolumnas de mármo- 
re fe abrirão letreiros , que a declaravaô. Chegando 
€Ílas noticias ao Emperador, mandou tirar deva(fa>^ 
na qual foraô comprehendidos grande numero de 
feiticeiros , e entre elles veyo Paulino > o qual foy gar- 

Mmw: i^oteado em humpao, vendo primeiro juíliçar a hum. 

«^ -: ' . . filho feu, a quem tinha enfinadaa fuás más artes.. 



O 



NOTAS. 

Nome deHeradea, ou Keradia,. ti ve- 
rão tantas Cidades , que Eftephano che-- 
ga a contar vinte e duas aporem, a mais. 
celebre , e de que nefte li^ar fe faz menção, he a Pon- 
tica , por outro nome Perintho , fituada nos fins de 
Europa , em Calpa y no ponto Euxino, eníeada do. 
Bofphoro>ou Eftreito de Thracia^naõ longe de Coní^ 
tantinopla. Nefta Cidade padeceo martyrio a 13 de 
Mayo Santa Glyceria Romana^ féndoEmperador An- 
tonino y c Sabino Preffdentc. 

II. Do corpo défta gloriofa Santa diftiMava pe- 
lennementc unguento preciofo , fuave , e medicinal : 
maravilha que a bondade Divina obrou, e obra nos 

fepui- 



Parajegtúr o bem , e fugir o mae. y i 

fcpulchros de outros muitos Santos , como no de Si 
Mattheus em Salerno, conforme refere MaríilioCo- 
lumna lib. de P^iía , & gefits Matthai cap. i u no de 
S. Félix em Nola; no de S. Nicolao Mirenfe em Ba- 
ri lugar de Apúlia; no de Santa Ifabel de Hungria; ^^ 
no de Euthimio Abbade , e outros muitos ; e de Santa 
Eufemia particularmente fe diz , que manando óleo 
pelo difcurfo de todo o anno 5 mana juntamente fan* 
guc no dia anniverfario de fcu martyrio, íiouúí 

III. Affim como nas fontes artificiaes vemos de 
huma figura de jafpe, ou alabaftro correr aguas : af^ 
fim dos corpos dos Santos correm milagres ; e bem hc> 
-que a piedade Catholica apare onde os recolha. Ou 
digamos, que Chriíio bem noffo, como Divino Me^» 
dicotem aparelhados, e providos os corpos dosfcus 
Santos , como vafos de fantificaçaó , cheyos do óleo 
de graças eípirituaes, para redundarem em utilidade 
noffa. 

IV. A fragrância do unguento he íymbolo do 
bom nome , e exemplo que no Mundo deixarão 5 e no 
d ia de fua preciofa morte , entaô para com Deos , c 
para com os homens ,renafcidosfe eternizarão^ por- 
que como diz o Eçcleíiaffico : Melim ejlnomen bonum^ 
qiiam unguiuta fretiofA^^ dtts imrUs i quím dm na-' 
tivttatis. 

V. Mas qual feria a^ razão , porque ceíTou aquel- 
k milagroío manancial ^ Quiz Deos por efte meyo 
primeiramente publicar , e comprovar a verdade dgs 
milngres , que fua omnipotente maô obrava pelçs 
merecimentos da Santa , e juntamente excitar a fé , 
e devoção dos neceíTitados, para que fe aprovcitaí- 
fem, e fizeíTem mais capazes de remédio; efem du- 
vida mais gente correria ao fepulchro , depois que^ 
oleo ceifou de correr. Quiz também Deos defeubrír, 

D ij ecaf- 



f.tíÍKl 



9eut. ^1^ 



UtiiS €6. 



5 1 Efimnlo protícO' > 

e caftigar tanta multidão de homens impiob , que ti- 
nhiõ commercio com o diabo. Porque contra os tacs 
ordenou no Deuteronomio , que íe naóufaíTe dpmi-^ 
fçricordia , nem diífimulaçaô , nem fc Iheç differiffc 
a. pena de morte : Non parcet et ocultis íuuSy ut mije- 
tuns ejns , atu aecultes tnm , fcd ftatimmterjictasi^ Eí^ 
tas duas razoensj hu-na de excitarfe a piedade dos 
bons; outra de reprimiria a malícia dos impios , iníi-. 
nuou o Senhor por Ifaias, como fefaUara das relí- 
quias dos Santos : OJfaveJira (diz ovcxtolquafihar' 
ba. germinabunt f ò" cognofcetur mantts Dommt tn (er^ 
VIS ejus , e^ indignabitttr tmmuis Juis. Os voíTos offos^ 
c relíquias floreceraôcomp plantas , e a maó de Deos 
fcrá conhecida em feus fer voa, c juntamçntQ a íua in- 
dignação contra feu^ inimigos. 

VL Moftrou, também Deps , que cm fua pixíen» 

ça ntó h^ eftimavel o ouro , ou prata, quanto a pu- 

Ecfilcf. vo. xj. ^^^^ 5 ^ fantificaçaõ : Sâlus anima in faniítíate jtíjlití^ 

melior ejl omni aure & argente j enfinou naõ menos a 

cftimaçaó 5 que dev.emos fazer dç teus dons , os quaes 

naõ deixaô de fe noscommunicarjfenaõ por falta 

do vafo , ifto he , de corarão puro > que os receba , 

como experimentou: a viuva com Elifeoao creícer , ç 

recolher o, oleo. E fe para recolher o óleo , que mana 

do corpode hum Santo, quer Deos, que o valo feja 

/■ impolluto : para recolhçriíios a fonte de todas as gra- 

: ças, e o mefmo Corpo , e Alma , e Divindade de 

^ Chrifto Sacramentado, quam juftamente nos pedç 

J pureza de confciencia ? E fe os vaíos forem contami- 

%^M nados, como naõ ceffiirá de correr ^ fonte da graça 

^ Sacramental ? 

\ VIL Pareeeque ufava cfte Mago-, dè cfpecie dç 
\ adevinhaçpõ fuperfticiofa , que chamaô Necroman- 
cia , fazen^docooiiorça de ençantps , fundados no feu 



?. 



Parafeguir o benty e fugir o mal. j^ 
pa<ílo refponder as almas dos defuntos , ou os demó- 
nios cm íeu lugar,dcntro daquelle fangue de animacs, 
ou de mininos embruxados. A eík modo delbreve o 
Poeta Lyrico na Satyra 8. a fcipçaria dejCani^ia. 

Vtdi fgomet nigTA fuccinêíam vadere palli 
Camdiam , pedtbus nudts , pajfoque capiílo 
Cumfaganâ mame ululantem {pallor utrafque 
Fecerat horrendas afpefíu) fcdpere t erram 
Ungmbus t & pullam dtvellere tnordtcus agnam 
Caperunt : cruor tn iojfam dtffufus , ut tnde 
Manes eltcermt , ammas refponfa daturas» 

Deftâs habilidades nao faltavaô officiaes em Grcciai 
e Tioic menos, efpecialmente em alguns lugares , de 
que era fama ferem portas do inferno , como Taren- 
to , o Averno , os montes Cymerios , e também a fo^ 
bredita Heraclea. 

V lí L E fuppofto , que os demónios tomando cor- 
pos, ou verdadeiros dos cadáveres , ou fantafticos do 
ar , muitas vezes fingem fer os mefmos defuntos a 
quem o Mago chama : com tudo , eftes às vezes por 
Divina permiffaõ apparecem realmente , como real* |. -^ 
mente apparecco a ElRey Saul a alma do Profeta Sa?- f . i s: .Í t ..:í 
muel , chamada pela Pithoniflía, como lemos no cap. l | ' | 
28. do livro dos Reys , e fe confirma no cap. 46. do ' ^ 

Eccleíiaftico , onde fallando de Samuel, diz o texto: 
Pojl héec dormivit , ér notum feàt regt , á* oflendit tlli 
finem vitcS fu^e. Depois deftas coufasmorreo Samuel, - 
cfez notório a ElRey o defeftrado fim defua vida.. ^ 

Efta fentença feguem Juftino , e TertuUiano. 

IX. O diabo como dragão vermelho , e fangui- \ 

noiento Draco rufus , e eípirito immundo , paga fc j ^ ^ j 
muito de íacrificios de fangue , e immundicias , figni- 

Diij fica- 



j4 Efthnu/o Pratico y^ -^ 

fícaçaõ de peccados , que he o feii paflo. As cédulas 
A deorrieriigem , que os íeus íequazes lhe fazem , man- 

da , que as eícrevaõ com letras de fangue , como di- 
zem > que aquellc Legislador Tyranno, por nome 
também Draco , eícrevia as fuás Icys injuttas com o 
fangue dos miferaveis vaíTallos. Oh miferia extrema! 
Oh cegueira lamentável do coração humano, (ifto 
devia eu efcrever com lagrimas) que haja almas remi- 
das coin o Sangue. deJESU Chrifto^que deíprezem, 
e percaô efte fangue divino y por darem a beber o feu 
fangue ao diabo ! Que haja tantas almas , que efco- 
Ihem antes adorar ao diabo à curta da fua condena-^ 
çaô eterna , do que reynar com Dcos à cufta da morte 
.do meímo Deos ! Oh ingratidão 1, Oh loucura intole-^ 
xavell 

X. Parece que mifturava também o Mago a efpe- 
<llc de fuperftiçao chamada Lecanimancia, que he Dt- 
vinatio per pelvim > aíTim como a Captaptrom^ancia hç 
por efpçlhos , e a Daily tromancia por anéis , e a Crc« 
niomancia por caveiras , e outras, muitas efpecies , 
que cfcufamos referir , todas vaidade , ç mentira , co- 
mo quem as inventou. Porque como diz o Eççleíiaf- 
tico: Do mentirofo que verdade. efpcx-amos ? agouros^ 

sí.'j4. 5.. e adevinhaçoes , ç fonhoa, tudo he mera vaidade : A^ 
tnenâace (jutd verum dicetur l Divinatta errorts. , e^ au^ 
guria mendacta^ & fomnia malefaçtentium vamtai ejt. 

XI. Uitimam^ente fenote^ como eftepay , indig- 
no de tal nome , poz o filho àf^ldada, com o diabo, 
A ambos {xagou clle como H)ííuma, a m'ds; d^^^^ 
maõdoque quiztrao. Jufto era , que naôapartaíTe a 
morte a dous taõ aliados pelas razões do fangue^quan- 
to à natureza , e quanto ao offiçio. 



EXEM- 



. -i 



Para feguir o bem , e fugir o 7naL ff 



EXEMPLO XI. 



5| O tempo em que o crueliíTimo Daciano fe- Baron. Amu» 
\ meava a toda Hefpanha de corpos de Mar- l^fj^,""^ j^^ - 
\ tyres , para recolher elle fua confufaô cter- Àgofto. ' 



™3nm3nS pa , a Igrcja mais Fieis, eDeos mayor glo- 
ria de feu nome : fuccedeo , que paíTando pela Cidade 
de Compluto , os moradores delia , pela opinião , que , 

de íuas crueldades rinhaõ concebido , fe encherão de ! ^ 
notável pavor , e fobrefalto. Porém Deos Noffa Se- 
nhor 5 para reprehendcr fua covardia , econvertella 
ém fervor de Religião, ^ piedade ,efcolheo dous mc- 
ftinos irmãos , e da cícolaondeandavaô aprendendo 
à efcrever , os fez voar ao campo do mattyrio ^'otidc 
foíTem públicos profeffores da fciencia dos Santos, e 
virtude de Chrifto.Hum fe chamava Jufto,outroPaf- 
tor 5 c ambos aconfelhados interiormente pelo Efpi- 
rito Santo , íè exhortaraô mutuamente a na5 perder 
tao boa occafiaõ ; c logo largando naefcola as pautas^ 
e matérias , foraõ correndo alegres ao lugar onde o 
Tyranno eftava. Ao qual che^ada^jgue foy eíta no- 
ticia , teve vergonha , medo,í^Vàiva juntlffiéiite ; ver- 
goíiha de que duas crianças o defafiaíTem ; medo de 
que poftos em queftaõ perante os outros prezos , a 
ília conííffaõ meteffe a eftcs mayor esforço ; raiva dé 
que defprezaíTem feus ediftos , e a comminaçaõ de 
tormentos ta5 atrozes. Prevalecendo em feu coraçaS 
eík aífecflo , mandou açoutallos cruelmente , e levai-- 
los ao cárcere. No caminho , era para louvar a Deos, 
ver como os dous irmáosfinhos hum ao outro íeme- 
tiaõ coração , e confolavaõ. Naõ tenhas medo Paf- 

Diiij tpr, 



w 



,M' 



o A t 



y 



ç6 Efthnulopratkoi 

tor (dizia Jufto) nós fomos pequenos , porém Deos 
he muito grande j e tu verás como nos ajuda a pade- 
cer : e fe por noíTa dita fuccede , que levemos a Co- 
roa do MartyriO) que mais queremos nós creícer? 
Oh JESUS Crucificado , morro por morrer por vós, 
pois por noffo amor morrcftes. Refpondia Paílor : 
Bellamente dizes , meu Jufto : nós agora entregando 
ôíijH por amor de Chrifto Noffo Senhor os noffos corpoíl- 
nhos 5 e o fangue das noffas veas , merecemos adorar 
no Sacrário do Ceo o Corpo y e Sangue do mefmo 
Chrifto. Naõ tenhamos faudades do pay^nem da mây, 
que lá em cima temos outro Pay do Ceo, que he Deos, 
c outra May, que he Santa MARIA : naò tenhamos da 
aosnolTos poucos annos: para que he ir taõ devagar 
ao Ceo ? Naô he melhor ir correndo ? Vamos , que 
cu me finto leve como humâ pena ; e defte modo per- 
doa-nos Deos noffos peccados, elá pediremos, que 
perdoe osdcnoffospays» Todas eftas. praticas ouvi- 
rão os algozes com notável affombro, e foraõcon- 
tallas a Daciano: o qual entrado dofuror diffe^que 
nao cra5 dignos defe guardarem, para apparecerem 
nafua prefença, e que logo logo foffem levados a 
hum lugar apartado da Cidade , onde em hora con- 
veniente , por efcuzar concurfo , e publicidade , os 
degollaffem. Affim fe executou, e partida que foy 
daqucUa terra o Tyranno , os Fieis fepultaraò feus 
corpos , e no mefmo lugar do martyrio foy edificado 
Igreja , e Altar , onde fuás veneráveis relíquias obra- 
rão muitos milagres , farando fubitamente aos enfer- 
mos de qualquer maljC livrando a outros da oppref- 
faõ do demónio. 



NOTAS. 



Parajeguiro bem , e fugir o mat. }7 

NOTAS. iU;.o 

í. T^ Aciano era Pro-Conful em Hefpanhai 
I Icomo Ridiovaro em França j cambos 
^ no mefmo tempo parecej£apoíiavaãau 
quem havia de martyrÍ2:;ar mais Chriftãos , por ga- 
nharem a graça dos Empcradores Diocleciano , e Ma- 
ximiano , cuja perfeguiçaõ foy taô cruel , e continua, 
que de dez annos , que durou , a cada mez fe orça , 
que caberiaõ dezafete mil Martyres. Só em Ç aragoça 
fez Daciano tal eftrago de huma vez , que havia hum 
grande monte das cinzas , e offos dos Santos, o qual 
pela differença que fazia aos outros na brancura ,fe 
chamava a maíTa cândida j e o Martyrologio Romano, 
apontando efta celebridade a 3. de Novembro os cha- 
ma innumeravcis 5 e Prudencio diz, que Çaragoça 
pode competir com Roma , no numero dos Martyres. 

II. Compluto, he a que chamamos agora Alcalá de 
Henares , na Hefpanha Tarraconenfe j e fuccedeo eC- 
te martyrio dos Santos Juílo , e Pafíor pelos annos de 
Chrifto trezentos e três , fendo Papa Marcelino , e 
Emperadores os ditos Diocleciano , e Maximiniano. 

III. Pare ce a noffo modo de ent ender , que quer 
o Rey dos Reys também pagemíinhos no feu ferviço, 
c meíiinos que andem pelas falias do Empyreo , como 
brincando com as fuás Palmas, e Capellas, confor- 
me aquillo do Hymno Ecciefiaftico : jiram fub tpfam 

Jimplu espalma^ ér coroms Ifíduis. Ou que noParaizo 
Celeftial quer naó fó tranfplatadíis arvores grandes, 
fenaô tambemflorefinhas^jafrnins,e violetas. Aeí- 
te numero pertencem os Santos innof entes de Belém, 
hum S. Simaõ Tridentino a 23. de Março, hum S. 
Dcmmilo de fete annos , a 14, de Julho , c outro me- 
nino 



nino de cinco annos nos aftos de S. Aretas a 24. 
de Outubro: aqueUoutros féis meninos de Ratisbo- 
na , qac matarão os Judeos em ódio da Fé : outros íe- 
tc meninos irmãos , da profapia do Empefador Cári- 
no , a 9. de Janeiro. Outros dezafeis meninos aium- 
nos de S, Paphnucio Martyr , a 28. de Abril. 

IV, Mas fobre todos parece merecer efpecial 
mençaô hum S. Quirico , a 1 6. de Junho ? porque ícn- 
do fó de três annos , e eítando no coUo de JuUtta fua 
mãy , que com elle havia fugido do Tyranno , cfte pe- 
gou do menino , e quiz acariciallo com í^ffagos , c 
meygui íTes. Porém o menino nunca fe rendco a aceit 
tar os feus ofculos , e abraços , antes como o paffari- 
nho prezo trabalha com as azas, e bico por foltarfe do 
laço , ajTim elle adejava por tornar à mây , e com as 
mãos , e pés fez o íeu dever arranhando ao Tyranno 
no rofto, e dandolhe coucinhos no^eito. Até aqui 
podia fer natureza ; mas o Ceo moíirou, que era im- 
pulfo fuperior , porque antecipandoíelhc o ufo da 
razaõ , e falia , com voz dittinda confeíTou a Fé de 
Chrifto. De que indignado o Tyranno , atirou com 
elle aos degraos de pedra do feu Tribunal , onde o fez 
cm pedaços 5 e a Julitta , que eftava vendo o cambate 
muy gozofa , mandou depois de vários tormentos 
degolar com a efpada. O que Santo Ambroíio diíTc 
de Santa Igncz , pudéramos aqui dizer de S. Quirico, 
com tanta mayor razaô , quanta differença faz àquel- 
Vb i.viroi- ^^ idade de treze annos eftade três: ^«^ deteftabi^ 
iiibús. Itor crudetitas-i quáe me minufiula pepercit atati'. tmo 

magna vt$ fidei , qua eUam ah tila lejitfnúnmm invcmt 
maiç. E ao Tyranno , que naõ foube com quem o ha^ 
via , pudéramos dizer aquillo , que o outro diffe a ou- 
tro intento , fallando da cauteila , que íe ha de ter na 
çriaçaõ do> filhos. 

Ma:cu 



Para feguir o heni , efu§tr o mal. <$5?| 

Máxima debeíur puero rever mt ta , fiqutd í|^>íorat. de Aica 

Turpe paras : nec tu puert coníempfertó anms. - acética. 
Em lugar das ponderaçoens , que íbbre o noííb caíb|í-| 
pudéramos fundar , firva o íeguintc elogio : |l 

h tandem "B^B. zS\fartyrum fuHi 
(^Tajhris. 



E L o c 'nyu 



Spcííate qitales Inferna , ^ Mundo antagomjlaí 

Deus obiecmt : 

Pueruhs duos úpítorcs laííat i , quh/2 hãarL '"" *^^'^'^i x 

' *" Sedenimpra Det gloria eíiam puert pugtles: • ''' '^ 

G^uibus pro ntiditate ventas , Oshtadorek 

Pro vtnbm vtrtm ^efpianfe^evé^^ 

Pra mãiom undm-, td eJiyChúAus. 

Alijhahetariis puens • nmií<VI 

§ÍUA pinejrent Alpha , & Omegà <,td eft ^ Chnftum^ Apoc. ig. 
Caro pro chartâ fmt y é' qmdemvirome , ac hterattca, f**'''* ^irgem^ 
íiam opiJtograpbíL , cum vídeas a tergofiogrts exaratos. ccpkuawefa j 
Dífctte ah tnfantibús €t littcrait ^ aitudé avifgin^ 

Aptíus. tnnobis Chriíiu?np6enisefformdri , quam penmsiJ. cLÍTutnati^ 
Nec rubra minii , fed fangumts. <^f » '»« maisfw 

Cerne mmim carmfiás aheno pericula trepidantem » ^thuu%faJaàt 
§ÍUíeleBurafiores ^ ^'^'^^oi jagradfis, 

Jm Causar mata funu polhce : ,.?;/; «^^- 

//// tamenfecurtm openuntur fecuri : ejfa e/mta dt 

Giuarts quos fiares ? 
A"^ f*ngutm embuenterofas^ 
jÍ rntmbrornm tenmtate violas > 
Ah innoceriti^ candor e ligufira. 
MaÚátur Jaílus ^ velut imptusi Paítor , vdut aj^^nm. 

Oieres 






^ò E/Iimu/o pratico y 

tjiAíb.JCT"! Ofores nunquam mn habutt 

•*^^^' Etjnftus tmpios : é^pajlor lupos 

In abdito femotts arbttrts jugtdantur : 
Plns Umentur tejles , quàm timeant rei. 
pfiim. 93. Sed mhilomtnus ex ore mjanítum laus Dei perficitur: 

Etgladius qv.a per vajiíguttura , vocês eltcuit, 
Ettam m obfcuro loco virtus clara , 
Et in conttcmto noSítsfane vocalior 
ítaque Cçetum rapuere pujilli , quod nm gigantes : 
. plud jupèr antes capite , qma refeão i^ 
Prenf antes mambm , qma revtn£íis, 
Nimiríí Ecclejiaferax arvijuos ettam pracoces fruãus 
Coito mitttt , càm folo cadunt. 
Acapitisdi^ Salvete 

"""" jf V/S!' Nondum atate adokfcentes , ettam adultt charitaíe: 

<Vã o atreito ttt r^ \ n ^ rr n 

çmãa^. o Et cam miniitt capite , concives fanaorum ejfeat. 

Oví^efc*. j/Qhi^ inter fy der a coneejfurtsGemmoríífignugeminabttun 
VeifCum fabulam ventas antevertat^ 
Nonjam Pollux^& Cajior^fedjufius.é Paftor^nucupabitur: 
.«1 .5oq ^ Mtror emm non tam germanos natura , qmm corona^ 
,r^^vM - ji/lifiufqconfanguineos exfangtune^qiio crett.quàm quoperfufi: 
^""i^T^ Properate tgitur mgredt per compendia mor tis tn vitam-y 
•«V^"* §l^idqutdatatulée detraxijlis <i addidiflis avo, 

Rtteque compenfantur momentafacnUfa^nore perenmtatís. 
v,. V. . -^ Fos in limine prajlolatur ludmagi/ler tile f 

'Máttk iV;f4.'' ^n párvulos ad fe ventre jubet^ 

Etitide magnos , ckm venerint. 



EXEM- 



Píi nifegtik 0. bem , e fugir o mat^ 6 1 



;;-r?o^ 




EXEMPLO XII. 

ASO digno de notarfe y e fecundo de boa 
doutrina , he o que agora referiremos^ 
Anelando à perfeição. certa Religiofa mo- 
ça (como he certo >,que todos os que pro^ 
feíTaõ efte eftado tem obrigação de ane^ 
I^r) trabalhava com particular eftudo y por efmerarfc 
na cultura da caftidade , julgando fer cfta virtude^ 
como na verdade he , muito. própria da íua idade , fe- 
xo, cprofiítaõ». Entre.tanto^que tinha ofentidona 
fermofura do edifício efpirituarTqiíic fabricava y deí-t 
cuidouíe de lançar mais profundos os alicerfcs de hu-^ 
mildade. Começou a gerarfe em feu coração huma 
fatisfaçaô de fi própria y tanto mais.perigofa^, quanto 
mais occulta^.e quanto araiz de que nafcia era mais> 
nobre. Chegou em fim a tal ponto a prefumpçaõ de 
fercafta, e. o defcuido de íer humilde, que ouvin- 
do louvar a penitencia daquella amante, camada.dc 
ChriltoSaota MariaiMagdalena, coftumava dizer.: 
Que naõquizera fer Samaxomo a Magdalcna o fo- 
ra , fuppofto que arrependida ^publica peccadora. E£^ 
ta palavra , per fi má y e pelo cpftume de a rep^ir pef^ 
fima, guardou Deos nos thefouros de fiia ira. No 
tempo da tentação , permittio , que fiada em fi, naõ 
fízeffe eíficaz a fuagraça, que como o mqlmo Senhor 
diífe, aos humildes fe dá mais copioías Preza emíím 
de hum amior-profano , foy tropgçando taõ ccgamen-r 
te,que veyo a apoftatar, efahirfç doMofteirOyCom 
aquella má companhia, na qual viveo muitos annos^ 
e depois admittlo outras.muitas ; e o que mayor la& 

tltna 



0Í ^*'^\'^'ÈiTímukprãUcd^ 

tima caufa , morrco dcfaftradamentc com nao pou- 
cos íinaes de íua condenação eterna. 

I. ^ "X T Otck em primeiro lugar, como todos 

i\l os que profeiTaóeflado de Religião, faô 
•<■ i íiiW[:>^ obrigados , fenaõ ^^^nçar a perfeição, 
âo menos a procuralla. A razaõ he clara , porque car* 
da humeflá obrigado ao que prometteo; coque os 
Religiofos prometteraõ , he o feguimento dos con* 
felhos Euangelicos , nos quaes coníifte a perfeição 5 e 
quando a noíTa vontade naò procura , nem afpira a 
algum fim , certo hcj^que Qjia.QÍegue. Por onde dií- 
fe S. Jeronymo , fallando com Hcliodoro, e nelle 
Epifto!. i.ad com qualquer Religiofo: Tu ígttur perfeííum te f ore 
Holiodomm. pMlicitus es , nam cnm, derehãa miUná^ te caftrafti prop'- 
ter Regnum Coslorum^ qmdatiud ^ qukm perfe£lam ji- 
quutus es vtíam ? perfeãus autem Servm Chrijit mhti 
pr£íer Chrijlum habet : aut Jigutd prater Chrijium ha* 
bet rp^rfeótus non cfi lé^ fi perfeãns mn eft , cíim fi per* 
feãum fore Deo pollicttus eft , ante Deum mmttius eflx 
Os ãíitemyf^íwd mentitur-^ ocadtt cnimiim. AíTim que tu 
promettcftefer perfeito, porque quando deixada a 
milícia dofeculo , te caftrafte por amor do Rcyno dos 
Ccos , que outra coufa foy iflo , fenaõ detcrminarté 
a feguir a vida perfeita ? E certo he , que o perfeito 
Servo de Chrifto , naô tem out ra coufa fora de ChriP 
to , ou fc fora de Chrifto tem outra coufa , já naô he 
''^'"^^■' perfeito , e fe o nao he , havendo promettido a Deos 
de o fer , mente a Deog 5 c eftá efcrito , que a boca que 
mente , mata a alma; íírf'') - 

II. Efta doutrina fc confirma 5 porque he impof- 
fivel moralmente naô afpirár à perfeição fem defcá- 

hir 



Íi5> -. 



Pú ra fegíilr o h^m , t fugir o mal. $) 
hirem peccados, conforme aquilio do meímo S.Je?r. 
ronyino: Noh pr&^rtdt invta per feê^iwms t regredi ejiy r a • j1^ 
e aquillo de S. Bernardo : Monache non vis proficerel Dcmêiriidemí 
ergo VIS ideficerey Reiígiofo naõ queres aproveitar? Epift'»55 
Queres logo^empej^atíu^^ A razaò he , porque o pezo 
da noffa natureza terrettre, e o ímpeto de noíTas pai- 
xões he grande reafilm como o melmo henaô levan- 
tar os pezQS aorelogio, do que lo£,o começarem a def- 
cahir > c o mefmo hc naõ remar contra o impetada 
mareada que Ioga ir corrente abaixo : aílim também 
o mcfma he naõ afpirar à perfeição , do que ir cahin- 
da em muitas mikrias. Por onde os Meítrcs de cfpi- 
rito y e todos os Authores aíccticos affentaõ , que naõ 
ha coufa maisperigofa para huma alma j do que dizer 
comfiga; Ifto mebafla^ naõ quero fobir mais. E 
ainda mal ^ porque a experiência mofíra -, que todos 
©s que fe achaô com femclhante difpofiçaõ de animo, 
naõ permanecem no ponto que queriaõ , e padtcem 
gi^aves ruinas. Por tanto : Se acaío íra alguns ^ que 
profeíTando efte eftado de perfeição > naô alpiraõ a eí- 
ía ; temaõ, que aíllmcomo fe guardarem os feus vo- 
tos y haô de ter raay or gloria ^ aífim também fe os naõ 
guardarem y haô de ter mayor inferno. A hum gran* 
de Servo de Deos , companheiro do P^itri ar cha de hu- 
ma Religião , diíTe outro Religiofo da mefma ofdcm» 
Tenha huma boa nova, que vos dar: refpandeo o 
Servo de Deos ;: dizeima : Efta noite (repl ieou o ou- 
tro) fuy levado em efpirito ao inferno , e naõ achey 
íá nenhum Religiofo danoíTa Ordem : refpondeo a 
Santo: Bem te creyo, bem te creyo ? E logo coma 
força da alcoffírt>ndo arrebatado em efpirito , quan- 
do tomou do rapto , lhe perguntou o autro : De que 
modo fe entende, que nenhum Religiofa noíTo eftá 
»a infernar RefpcHidea o Santo: Naõ deeeíles bem 



6^ Efiimnlo pratko , 

ao fundo ; porque aquelles miferaveis ^ que trouxcrao 
o Habito , c pareciaõ Frades , mas as^ íua:> obras craõ 
contrarias ao cílado , que profeflTáraõ , cftaõ no fundo 
do inferno. Cada hum agora meta a maõ no feyo da 
fua confcicncia ; c íe acaíò a tiver kprofa , trate com 
tempo de a curar com o Sangue de JESU Chriílo , c 
lagrimas de verdadeira penittncia. 

II. Note-fe em fegundo lugar , como podendo 
naíccrdc todas as virtudes o vicio da foberba cfpiri- 
tual , pois até da mcfma humildade nafce , à maneira, 
que cm huma taboa fe cria o bicho , que roc a mefma 
taboa : toda via a virtude mais occafionada a gerar 
efta íbbcrba , he a caftidadc. Do mefmo modo paffa 
no3 vicios ; porque fuppofto , que todos elles , feche- 
gaô a íer conhecido* do viciofo, o fazem algum tan- 
to mais humilde : toda via os pcccados de luxuria o 
humilhao muito mais. A razaõ de huma , e outra cou* 
fa parece fer ; porque o homem cafto , mais parece 
pertencer à ordem dos Anjos , do que à dos homens ; 
e pelo contrario ^ o homem luxuriofo mais fe aíTe- 
mclha aos brutos , do que aos homens. Por onde , co* 
mo o cafto fe vê livre de humaíervidaõ ,quea tan- 
tos tem prezos , prefume de íi como de Anjo , e de- 
dignafe dos outros , como de brutos, E o outro pec- 
cador , que fe vê rendido às mefmas paixões , e mife- 
rias , que os brutos , naõ tem de que fe lhe levantar o 
coração. 

IIL Ha pcccados, cuja graveza fendo em fi ma- 
yor , para o noffo conhecimento naó he taõ defcu- 
berta ; e ha pcccados, cuja fealdade vemos mais clara- 
mente , naò fendo em íi tanta fua graveza , como a 
dos outros. Homkidio he peccado mais grave em 
feu gcnero , que os da luxuria , mas os da luxuria fao 
mais torpes 5 e afrontofos. Rnros fe envergonhaó de 

dizer, 



Para feguir o bem , e fugir omaL 6^ 

dizer, que matarão ] e de dizer, que oflendcrao a caí- 
tidade , raros fe iiaó envergonhaò. David efcreveo a 
Joab , que déffe a morte a Urias ; mas na5 lhe efcre- 
veo , que commettera o adultério com Bethíabé , an- 
tes fe tratou de encobrir o homicidio para com os ou- 
Xros 5 foy por naõ defcubrir o adultério. Nos pecca- 
dos internos ainda fe vê melhor a differença. EM 
hum homem em ódio contra feu próximo: julga te- 
merariamente as acções alhsas: eftá corrupto de hy- 
pocryfia , inchado de ambição , tyfico de inveja , 5cc. 
e com tudo nao fe conhecerá por grande peccador, 
Succede , que efte mefmo refvalla no barro de fua fra- 
queza natural ; já fe conhece fem mafcara , já naô ar- 
ma tantas difculpas : a miferia he clara , que refta fe- 
naõ humilharfe ? 

IV. Acontece-Ihes a eftes taes hum cafo femc- 
Ihante ao que acontecco a S. Pedro Gonçalves , e foy 
occafiaõ de converterfe , e fer Santo. Era elle man- 
cebo dado a paífa-tempos, galas , e liviandades ; e no 
dia em que obteve hum Canonicato na Sé , de que era 
Bifpo hum tio (eu , parecendolhe , que era de triun- 
fo , trajouíe , naõ como Eccleííaftico y fe naõ como 
hum noivo , c f ihio montado em hum ginete bem en- 
jaezado a defempedrar as ruas da Cidade. Na Praça 
ao paífar huma carreira ^,des.bocoufe o cavalio , e me- 
teo-fe por hum lodaçal , onde íacudio da fella ao bi- 
zarro cavalleiro, naõjácavalleiro, nem bizarro, íc- 
naõ menos que peaô , e taõ aíquerofo , e enlameado, 
que a huas caufava rizo , a outros nojo, e algum com- 
paffivo pudera dizer com Jeremias : §lui nutrieban* Thrcrí ^. 
tur in croceis amplexati funt Jtercora Porém Deos , que 
ao cego deu vifta , pondolhe o Iodo nos olhos , o mef- 
mo fez agora com Pedro , o qual envergonhado do 
fucceíTo, fez comíigo efta conta: No dia de minha 

E mayor 



66 Eftimulb pratico í 

mayor felicidade me trata o Mundo defta forte ? Pois 
eu me vingarey do Mundo , fazendo delle tanto cafo 
como do lodo ; e logo tratou de tomar o Habito de S. 
Domingos , com o qual acabou fantamente , e o il- 
luftrou Deos com virtudes , e milagres. 4ffim pois 
acontece aos íoberbos , que quando mais ufanos, c 
fatisfeitos de luas prendas , andaõ a buícar o applau- 
ío do Mundo.; permitte Deos para os humilhar , que 
o appetite cai-nal , como bruto desbocado os faça ca- 
hir , e revolver na immundicia de feus peccados , pa- 
ra que tendo pejo de fi mefmos , procurem lavarfií 
com as lagrimas da penitencia , e caminhar adiante 
com paffos mais feguros , e tcmerofos. 

V. . Notefe em terceiro lugar , como Deos NoíTo 
Senhor coftuma caftigar os orgulhos da íoberba com 
quedas da luxuria. Aílim caííigou logo o primeiro 
peccado defoberba no homem. Appetecerao noffos 
primeiros pays a excellencia própria , e indevida de 
fer como Deofes , e logo fentiraõ a rebelião da fua 
carne como brutos. Por iffb tratarão de cobrirfe, 
tendo por mais vergonhoía a pena do que a culpa: 
1^. Moral. cap. "^^^^ fTimtis tn obeàims , ( diz S. Gregório Magno) moU 
li. ut fuperbiendo peccãvit , pudenda coníexit^ qmajlaum 

contumeham carnis mvemt. Aííim caftigou ao Povo de 
Oíeç5.4. lírael, conforme havia profetizado Oíeas: Spíntus 
forme atioman in mtáio eorum , é^ Denm fion cognove^ 
runt^ é^ refpond('bit arrogantia Ijrael infacte ejus. O 
meu Povo me defconheceo a mim ^ (diz o Senhor) 
pois eu farey , que fe conheça a íi ; ferao vencidos do 
efpirito de luxuria , e a arrogância , que tem dentro 
do coração , lhes fahirá ao rofto clara com as cores do 
pejo : as vozes que deraõ à minha ira por foberbos, 
formarão ecco da repofta na fua mefma cara : EefpoH" 
áibit arroganúa Ifradinfade y»;. Affim cafligou tam- 
bém 



Para feguir o hem , e fugir o maL 67 

bem aquclles Fiiofofos Gentios , inchados de fcien- 
cia, e vaíios de virtude, dos quaes diz S.Paulo aos 
Romanos; Evanuerunt m cogttattombus fuis ^ dicentei Rom.i.ii; 
Je effe faptentes ^ftulítfa^íifunt j deíVaneceraõfe os feus 
peníamentos altivos , fabios na própria opinia5, mas 
na verdade neícios. Até-aqui a culpa da foberba : fe- 
guefe a pena da luxuria: Proptereatradidit tllos Deus 
m paffioms tgnomtma \ por efta razaõ permittio Deos, 
que fe entregaffem aos appetites feyos , e brutaes. 
Aílim finalmente fuccedeo a efta infeliz mulher dt> 
noffo exemplo : a qual ao principio fugia mais da lu- 
xuria, que da morte, bem como o arminho , que mais 
recea mancharfe com o lodo , do que o fer prezo dos 
caçadores; e depois fc revolveo ncíTe mefmo lodo: 
Tanpiam [tis mvolut abro. De antes pomba, que nao 
fahia da arca , por naõ a(í entar o pê onde fe maachaf- 
fc: agora corvo, que naó tornou à arca, por cevar- 
fe , e picar na corrupção dos corpos mortos. Qijal 
foy a califa ícnaõ íua foberba ? A repofta daquella pa* 
lavra arrogante, deulha Dcos na cara : Refpondebit ar* 
rogantia tn facie ejus •, e como a arrogância era do ef-; 
pirito , a confufaô foy da carne. 

VI. A proporção defta pena com efla culpa con* ' 
fifte, em que peia foberba o homem ferebella contra 
Deos , e naô reconhece fuperior , naquclle tanto em 
que fe cnfoberbece. E pela luxuria a carne ferebella 
contra o efpirito,e na5 obedece aodominio da ra- 
zaõ. Jufto he logo , que fe o efpirito fe naô fogeita a 
Deos , a carne fe naõ fogelte ao efpirito : aflim como 
fe o Capitão defpreza as ordens do General , os foi- * 
dados naô cumprem a?, do Capitão. Donde fe fegue^ 
quehum>a das mais vigilantes guardas que podemos, 
c devemos por à caftid:ide , he a humildade. O meu 
efpirito , Cdiz; Deos pelo Profeta) defcança, e mora 

E ij po? 



6S Eftimulo pratico] 

nos humildes re onde o eípirito de Deos mora ^ c def- 
cança , como pode morar o efpirito immundo. No 
Deuteronomio manda Deos circuncidar os corações^ 
e outras vezes tinha mandado circuncidar a carne^ 
Hum preceito heneceffario para fe cumprir o outro. 
Impoflivel fora cortar a caftidade es defejos íenfuaes^ 
fe a humildade interior nao cortaffe juntamente as io^ 
begidòes do coração foberba 

VIL Daqui vem, que os Hereges, os Scifmaticos, 
os Apoftatas, pelamayor parte foraô monftros da fen- 
íualidade. Porque fe eftes recufaô obedecer a Deos,. 
à Igreja , aos Prelados J como ha de ajudallos Deos a 
que afua parte inferior obedeça aparte fuperior. O 
mefmo fuccede aos filhos defobedientes , cujo exem-^ 
pio foy o Pródigo. Naô quiz efte a fogeiçaô do pay> 
^padeceo a de íeus vicios : Vivendo luxurio ^ey quiz 
viver íobre fi , e cahio debaixo de íi. Advirtaõ todos 
os que por obrigação , ou commum da Ley Divina^ 
ou particular do voto próprio , pertendem guardar 
intac^ta a caftidade : fejaô humildes y rendao-fe , e obe- 
deçaõ. Suftentem o pezo da ma5 de Deos quando os; 
humilha j para que a maó de Deos os fuftente quanda 
feõ tentados, 

VIIL Notefe em quarto lugar, como efta Reli* 
giola , fogeito do exemplo , naõ teve razaõ , nem em 
querer fer Santa aíeu modo , nem em preferir a fua 
callídadt à humildade da Magdalena. Naõ teve ra- 
zíaó em querer fer Santa a í eu modo, porque a graça 
de Deos he a que faz Santos > e fe he graça , ou mer- 
cê , claro eftá , que a quem daõ naõ efcolhe : Nm vos 
me elegifiis yfrdegoekgi vos , diííe Chrifto a feus Dif- 
cipuios : Vós naô fizeixes eleição de mim : eu fcu o 
que a fiz de vós. Pois affim coníb a Decs pertence a 
àeiçaõ das peffoas para Santos., pertence tan.lbcm a 



Para feguir o bem > e fugir o mat. 6c^ 

clciçaô dos grãos, c mcyos , e cftado ncGeíTario para 
effe fim. Porque o cfpirito Santo efpira onde , e co- 
mo , e quando quer : Sftrttus ubi vulí fptraí i nem faõ 
as aguasasqueolcvaõ, fcnaó cllc meímo he levado 
fobre as aguas.; Spintus Domim ferebatur fuptr aquas. 
Com que façamos a vontade de Deos , logo feremo* 
Santos: f^oluntas Da fanílíficatw veftra. E tanto hc i.TkAii^ 
ifto aflim j que até a vontade de íer Santo flenaõ for 
regulada pela vontade Divina , repugna à verdadeira 
fántidade ; ç por tanto , para que eftes defejos naõ te- 
iihaô fezes , he neceffario a companhallos com mitito 
rendimento , e fummiíTaõ , e purificallos de toda a in- 
quietação , ou defaçofego interior , que no cfpirito 
caufarem. 

IX. Naõ teve também razão em preferir a fua 
caftidade à humildade da Magdalena j porque menos 
aborrece Deos a hum pcccador humilde , do que z 
hum cafto íoberbo. Affim o decidio S. Bernardo em 
huma Humilia fobre oEuangelho MtJJus ejl. Ponde- Homi!.rS 
ra alli o Santo aquellas palavras do Apocalypfe com ctf.ir. 
que a Igreja Santa folemniza as feftividades das Vir- 
gens, dizendo, que eftas taes feguem ao Cordeiro, 
para toda a parte que vay : Seqnnntur Agnum qnocum^ 
que tertt j e diz , que o humilde contaminado fim fe- 
gue o Cordeiro , o cafto preíumido também o fegucj 
porém , nem hum , nem outro o feguem para toda a 
parte que elle vay. Porque nem o lafcivo fe atreve a 
fobir à brancura immaculada do Cordeiro, nem o 
íòberbo fe digna de defcer à fua humildade profun- 
da. Só as Virgens juntamente humildes, ou o Cor- * 
deiro fubá, ou defça, fempre o acompanha© : Sequunr 
tur Agnum quocumque tntt. Aílim que naõ padece 
duvida , que eftas duas virtudes junfásT^gradaô mais 
a Deos do que fcparadas, Mãs , fe íe déSc cfcolha de 

E jij huma 



C/ 



^ó Eftmulo pratico y 

huma delias , -diz. o Santo ^(que he certo, qiiearribas 
tinha em grão eminente) que melhor acompanha ao 
.Cordeiro o peccador humilde , do que o caito lobcr- 
bo: Attàmen fublim^ixirm ekgit fiqumdt}attemin hu» 
nuUtate peccator i qukm mvirgmitatefuferhus: Càm 
^ ilhm immmdtítam hunnlufatifaêtta pmget , & hu^ 
j^us puàicttiam fuperbia ííiqmnei^ Porque a íatisfaçaò^ 
c penitencia do humilde, o lava da fua immundicia; 
c a. arrogância do cafto, mancha fua fermofura. , 

X. Efta Religiofa , parecialhe que feguia melhor 
a Chriílo Cordeiro de Deos , por fer caita ^ do que a 
Santa Magdalena o feguio ^ e acompanhoia por fer hu- 
milde. Devia dizer entre fi: A Magdalena falvou-a 
Chrifto pelos cabeUos ,. porque com os cabellos, alim- 
pou ella o& pés de Chrifto. Eu fem cabellos , como 
Yirgçm dedicada aÇhriftQ,ferey?faIva por caminha 
mais mobre. Aquicfteveanecedade. De huns Povoa 
da índia efcrcve Maffeo,^ que criaõ o cabello com 
grande cuidado ,, porque eftaã perfuadidos , que pe- 
los cabellos, como por humaaza , lhes ha de pegar 
Deos para os levar ao Ceo { bem como fez o Anjo a 
Habacuc » para o levar ao lago) e pela contrario , os 
que vivem em Communidades. à maneira de Religio- 
fos^ rapaô a cabeça , por entenderem , que fendo a 
fua vida mais perfeita que a dosjecularcs ^cfcufao eí- 
ta ajuda y_ fem a qual confiaã, que fobiraô a entroní- 
zaríc nas.Efl:rellas: Capãlum iam diligenter mtriunt^ 
{ diz aquelle celebre Híftoriador ), quod creàant eafe 
íanquamamain Cxlum fublatum tn: faerificuU contra f 
qmqmàem c^mhiíicam ^gnntvitam^ abradunt capita^ 
qu&i finetalpaàjummtofyderoiconfelfmoi confidant. Do 
mefmo modo efta Religioía , à conta de o. íer , dava 
por efcufado o humilhar fe para fer Santa j ea Mag- 
^lena coaxapçccifdora , haave de valerfedos cabei- 
los, 



II 



Parafegtiir o hem , e fugir o mal. 71 
los, prendendo com elles os pés de quem a pudéíTc 
falvar. Qiial das duas efcolheo melhor 5 humafeguin* 
doo Cordeiro para cima, ou outra feguindo-opara 
baixo ? Mana optimam par tem elegtt 5 Maria efcoihe© 
a melhor parte : íe he que íe pode chamar melhor y 
quando a outra naõ foy boa , fenaô peflima. Logo bem 
diíTe S, Bernardo : SubUmtorem elegtt fequendt partem 
m humilttatate peccator , q$iam m vtrgimtate frperbus. 

XI. Oh que certamente efcolheo á melhor parte: 
Da Magdalena, diz Santo Agoftinho ^que chegou aò5 
pés de Chrifto com confiiTaô , e voltou com profiflaõ; 
a confiíTaõ era dos peccados ^a profiíTaõ das virtudes: 
Accejfit ronfejfa , ut redtret profejfa. Deftoutra mulher 
podemos dizer pelo contrario, que começou com pro- 
íiíTaô , e acabou fem confiíTaò: a profiffaó era dos vo-, 
tos , e eíJa fabemos que a ící : a confiíTaõ era dos pla- 
cados ^e efta naò fabcmos que afizeíTe. Da Magdale- 
na fe refere , que depois de ver íobit ao Cco feu Di- 
vino Meftre* fe fepultou na cova de Bauma, onde 
por elpaço de trinta annòs contmuou aslagrimas, ^fW 

quecomeçòu a verter aos pés^dé Chrífto : Ciepit rigare 
pedes ejus. Eftoutra mulher nàó fe recolheo , antes fc 
fahio do deferto da fua Religião , e da cova da fua cel- 
la : naò a chorar peccados , mas a commettellos de ca- 
da vez mais execráveis. Da Magdalena dizem , que 
hum Anjo lhe guardou as lagrimas em hum cálix dé 
ouro. Bem hc, que oMiniftro foffe Anjo, pois já ús 
puros cfpiritos , amigos da caftidade , fe daõ bem com 
efta peccadora. Bem he , que as lagrimas fe guárdaf-" 
fem , pois tocarão nos pés de hum Deos, que fe efque- ^ 
ce dos feus aggravòs , c lembra dos noffos obfequios; 
c btm he , que o vaio onde fe guardarão foffe cálix, 
e cálix de ouro , porque efta lagrimas foraõ facrificio 
do amor , fangue da alma , e vinho dos Anjos , como 
f. j j^ E iiij às 



íj% Eftivwh pratico , 

"às lagrimas do peccador arrependido , chameu S. Ber- 
nardo. Pelo contrario , eftoutra infeliz mulher naõ 
chorou feus pcccados^ pcrmittindo Deos juramen- 
te , que naõ feguiffe na penitencia , a quem defpreza- 
ra fcgulr na lantidadc. Da Magdalena diz o Euan- 
geliíta S. Lucas , que quebrando o alabaftro derra- 
mou o unguento, de cuja fragancia feencheotoda a 
cafa. Deftoutra mulher l'e pode dizer, que quebrando 
o preciofo alabaftro do voto da caftidade , naõ íahio 
fc naõ máo cheiro, que cfcandalizou toda aquella Ca- 
fa Religiofa. Finalmente , da Magdalena cantou a 
Igreja em hum Hymno antigo o Rithmo , que nós po- 
demos voltar , c accommodar no contrario íentido a 
Cft outra mulher • 



PofifinXie carnisfcandala 
Fit ex lebetf phiala: 
Ex vaje contumeliée 
Jn VMS translatagloriit 



FlHxakbesexphialâ 
Fit propter carms fcandalat 
In vas ex vafe gloria 
Translata contumelta^ 



XIL Refta , que peçamos perdão a efia glorioíít 
íima Santa, Apoftola dos Apoftolos , e objedoter- 
niíEmo da univerfal devoção de todos os Fieis , do 
atrevimento com que noíTa eflcrtl pena aco^ii? jipr 
fiia defenfa : quando ofeu credito tantas vèzés com- 
batido, nunca teve menor padrinho, que. o mcímo 
Chrifto. Dcfcndeo Chrifto a Mí^gdalena do juízo dos 
Difciptilos , que a tiveraõ por pródiga : Uí quidper- 
ditio higv ? Defendeo-a do juizo de Martha , que a te- 
ve porocíofa: Reliqtiit me folam mmijirare. Defen- 
deo-a do juizo doFariféo y que a teve por atrevida : 
^a á* qn<ilis efimulier qua iangit eum. Ultimamente 
a defendeo do juizo defta Virgem fátua , que a teve 
por menos Santa > porque o fim perverfo em qtic a 

deixou 



Para feguir o bem^ e fugir q mal 73 

deixou parar ,ifoy o mcfmo , que reíponderlhc o mcf- 
mo , que relpondera ao Fariféo ; Remtttuntur et pecca^ 
ta mttlía , qnoniam dilexttmulíkm: cm auttm mmus dh 
mtiútur , rmnus .dtligtt. A Magdalena , porque pcccou 
-muito, arrependcndofe amou também muito , e veyo 
â naõ peccar nada : tu porque peccavas pouco , ama- 
vas pouco ^e preíumiftc muito, e porque prcfumiftc 
jT^uito 5 e amaíte pouco , vicfte a peccar multo , e naõ 
chorar nada. £ naó íó tomou Chrifto Salvador noffò 
por fua conta a dcfenfa defta fua amante , fcnaó , que 
lhe trocou o máo nome , que tinha na Cidade : Mídter 
inctvttatt feccatrtx j no bom nome que tem em todo 
;0 Mundo: Ubicumque fViedicatum funtt Enangiltúm joan. x*. fwí. 
ifiud mumverfo mundo ^ & quodfecu hac narrabttur 3. 
m memoriam ejus, O máo nome, que tinha na Cidade, 
fem duvida meteria a muitas almas no inferno; e o 
. bom nome , que agora tem na Igreja Catholica tira do 
inferno a muitas almas. Bem fe prova efta verdade do 
feguintc^ e breve exemplo. Em hum dia defta Santi^ 
cftava muito trifte o Venerável Fr. Domingos de JE- 
SWMARIA,Carmelita Delcalço; e a cauía da trifte- 
za 5 era naõ poder afliftir a Matinas , cm razaõ de feus 
achaques ; mas pofto em oraçaó o levarão os Anjos ao 
Ceo y e entre Coros de Mufica , lhe fahio ao encontro - 

a Santa peccadora, vertendo incomparáveis r«fplan- 
dores , e lhe difle : Façote a íaber , que no Ceo fe fef- 
tejaõ pelo difcurfo do anno os dias dos Bemaventu- 
rados y com admirável folemnidade > e que cada hum 
no feu dia roga a Deos com particular inftancia pe- 
los que eftaõ em peccado mortal y e porque Deos fe * 
offende mais com as culpas dos Sacerdotes , eu me de- 
dico a rogar partiailarmentc pch fua converfa5. ( Na 
Vida defte Servo de Deos, efcrita pelo Blfpo deAl- 
barazzin j lib. 7. §. 1 • ) Eis-aqui temos a mcfma , que 

metia 



fj^. " ' ' Eftimulo proticd , . 
-metia almas no inferno, tirando-as já do inferno; a 
mefma-qae era oGcaíiaõ da íua ruina , íendo intercef- 
fora da lliaconverfaõ Oh que bom nome lhe rendeo 
/ a. elia ipeccadprarSanta a -unguento» , que derramou 

aos pésdeChriíto: Mdti^r ejimmm bonum , qnkm un^ 
guenta prenoja. Melhor he o bom nome , (diz o Ec- 
clcíiaftico) do que os unguentos precioíos. Aqui fc 
vê , quanto.mayor foy o beneficio , que Ghrifto fdz â 
Magdalena y conver tendo-a , do quç o obfequiò qiiC 
a Magdalena fez a Chriílo , urigindo-o. Derramou â 
Magdalena o alabaftro de unguento preciofo aos pés 
de Ghrifto ; e itto foy bom para o Senhor ; Bonum &pus 

.Hf.íi ^'iio\ operaía ejítn me. E derramou Chriíio o Olêo dcíua 
graça prccioiiílima na alma da Magdelena , e ifto foy 
melhor para a Magdalena Com á fragrância dó un- 

joan.cip.i.j. guento fe encheo toda a cafa : Domus impletaejlex 
údore iíngsientt > cqm o cxemp lo da con vcrfaô deftà 
pícccadora fe encheo todo o Mundo. Taó bom nome 
lhe deu Chriíio por èile unguento , que em todo ò' 
mundo a fez famoía , e venerada : Ubtcumqm predí' 
catum fuerit , é^c. Pois íe a mefma PeíToa de Cbriíío 
toma. tanto por fua conta, naó fó a defenfa , mas d 
bom nome, e fama celebre defta fua amante: deixe- 
mos-Ihe a elle íó o patrocínio defta caufa , e feche ef- 
te difcurfo o feguinte Epigramma de hum Douto, 

Mutius errantem dextram ferus igmbtn ujjit : 

Si non errajfet , fecerat dia mtmts. 
Magdala peccavtt , JESUM pojl forim arfa: 
St non peccajfet , fecerat dia mtnus. 
Xiil. Notefe cm quinto , e ultimo lugar , como á 
mayor defgraça defta mulher naó efteve na prefump- 
çaò do coração , nem no atrevimento da lingua , nem 
na fraqueza da carne 5 fc naò em pôr os pés fora da 

clau- 




Para fegulr o bem , e fugir o mal. 7- jf 

claufura, e naõ tornar a cila. Sc ficara dentro, tudo 
podia ter remédio. Os outros peccados era eftar do- 
ente gravemente : fahir para fora , foy morrer , e ir a 
enterrar. Por iíTo â<jueire cativo Malco , cuja Vida ef- 
creveo S. Jeronymo , diz , que quando fe defpedio do 
feu Abbade para tornar áo Ifectítlo , cllè íahio a acom- 
panhallo , como quem acompanha hum enterro , c 
que ultimamente, lhe diíTera: Vejo filhp, que eftás - 
marcado com o cautério de Satanás , naô aceitoas dií^ 
culpas ,./e caufas que me apontas :- a ovelha que íAe 
do Aprifco, eftá expofta aos dentes do lobo.; Prcfe" 
cutus erga me de monafiario , quafi funus efferret , & ad 
txtremum vakdicens : Ftdeo te 1 ait yfilty Satana cauté- 
rio noSatum imnquaro caufas i excufaíton^s mnrecipío. 
Ovn qtue de ovih egreditur^ lupijiatim morfíbus patet. ' 
Oh fe conhecerão eftes taes , quam grande bem he a 
Religião, equam ineftimavel beneficio lhes fez Deos 
cm chamallosa ella , como tremerão fó da fombra de 
perder cfte bem. AQsmiferaveis^queonaõ conhece* 
ar4Õ, epor iffonaô perfeveraraõ, podemos chorallos 
jcorn S. Pedro , dizendo : Melhor lhes era naó haverem 
coftliecido o caminho dijuftiça, e virtude , do que 
depois de o conhecerem voltarem para traz : Mclms ». Pctr. 2. »r 
eraí ets twn cõgnnfeerevtam juJíhi^ ^^uam pojl cognitio^ 
mm retorfum canvertu 

XIV. O refumo de toda a íobredita doutrina 
conrta dps feguintes avifos. Primeiro, aos Religiofos^ 
que faõ obrigadosa afpirar à perfeição. Segundo, aos 
que afpiraõ a clia , que le fundem Ixm em humildade. 
Terceiro , que naô efcolhaõ o modo de fer Santos , 
pondo leys à griçjt Divina. Quarta, que em feus pen- 
famentos , c palavras^ guardem íempre o devido de^ 
coro aos Santos. Quinto, que, fe cahirem cómofra- 
cos , tQi*nem a bufcar a Deos arrependidos. 

EXEM- 



i.Rcg.MvM' 



;J5' 




fS Eftimitlo pratico y 

EXEMPLO XÍIL 

Os três valentes de David. 

I ESEJANDO David hum púcaro de agua 
da ciftcrna de Bclem , trcs foldados fcus, 
dos mais esforçados , romperão por meyo 
do exercito inimigo , ca todo o cufto , e 
perigo lha trouxeraó, fó por cumprir eíte 
gofto do feu Rey. David figura a Chrifto , a agua fig- 
nifica a confiffaõ de feu Santo Nome , o exercito dos 
Filifteos reprefenta os inimigos da alma, Mundo, 
Diabo , Carne, Dcíeja Chrifto quem confeflc íeu San- 
to Nome , fem ter medo , nem às infâmias do Mundo, 
atithoridadS^prttnrffdSí^dos tyránnos , nem às aftuciíis 
do demónio , nem aos tormentos da carne. Quacs fe- 
raõ os três valentes , que lhe cumpraô efte gofto ? Na 
prefente occafiaó , me feja licito dizer , que foraõ os 
três fortiíTimos M^irtyrcs , Tharaco , Probo , e Andro- 
nico ; cujo martyrio efcreveo o Cardeal Baronio , ho 
tomo Icgundo dos Annaes Ecclefiafticos , ao anno dò 
Senhor duzentos e noventa, trasladando primeira- 
mente os Autos proconfulares , de cujo theorconfta 
o que 05 Santos padecerão , e refponderaõ , íèndo por 
três vezes chamados a perguntas , perante o Prefiden- 
te^ c também huma carta , que refere o modo de fuás 
preciofas mortes. Huma, e outra coufa naõ terey por 
gravame , nem por ócio traduzir aqui ao pé da letra. 
Porque (como bem pondera o mcfmo Cardeal) nos 
fera muito agradável , e proveitofo , ouvir aquellas 
mefmas palavras, que certvamente fabemos fallouò 

Eljpirito 



Para fegutr o hem , e fugir o mal yy 

Efpirito Santo por boca dos Martyres , fegiindo o que 
Chrifto Senhor Noffo lhes prometteo, dizendo: quan- 
do vos prenderem , naò cuideis no que refpondereis; 
porque naquella meíma hora vos feraõ dadas as pala- 
vras , que haveis de refponder : nem fois vós os que 
fallais 5 fenaó o Efpirito de voífo Pay Celeflial he o 
que em vós outros falia. Os ditos Autos vaõ diitin^ 
ílos em três queftões ^ e o íeu titulo , diz aílim. 

Autos Proconfulares dos Bemaveturados Mar* 

tyres^ Tbáraco , Probo ^ e Andronico , for* 

mados pubiicainente , conhecendo da cau- 

fa o Prefidente Máximo , na Cidade 

de Tarfo de Cilicia. 

Q^ U E S T A Õ L 

SENDO Confules, Diocleciano a quarta vez, e 
Maximiano a terceira, aos 8. das Calendas de 
Abril , o Centuriaõ Demétrio diíTe : ff Prefen- 
tamos , Senhor , perante o Tribunal de voíTa nobre- 
za , eftes Ímpios , e peftimos Chriftãos , que naó reco- 
nhecem os mandatos , e ordens dos Emperadores noC» 
fos Senhores , e já foraõ prefentados à voíTa nobreza 
na Cidade de Pompeyopoli , pcloMiniftroEutelmio- 
Paládio. <[ O Prefidente Máximo diífe a Tháraco : 
Como te chamaõ ? Porque tu deves em primeiro lu- 
gar fer perguntado , vifto também que es mais velho, 
f^ Refpondeo Tháraco: Sou Chriflaô. ÍT O Prefiden-^ 
te Máximo diífe: Naõ failes neíTa impia proflífaõ; 
dize, como .te chamas? f Tháracodiífe: SouChrií- 
ta5. f O Prefidente Máximo diífe : Quebray-lhe as. 
q^ueixadas,, e dizey-lhe: Naô refpondas deíTe modo* 

Thái^ 



7 8 Efthnnlo Pratico , 

fl" Tháraco diffe: O que hc meu nome, effe digo; 
pelo que me puzeraô meus pays-, chamomeTháraco^ 
e quando militava me rjorneava5,Vidor. ff OPre- 
fídente diffe: De qus gemçaõ es Tháraco. f Thára- 
codiffe: De geração militar, e Romana; mas founaf- 
cido em Claudianopoii , Cidade de Syria j e porque 
fou Chriftaô deixey a vida de Soldado f O Prefiden- 
tíavia iret ge- te diffe.* Alíímnaõ erasdigMo de militar; mas como 
mro^ ^e dtmif^ tc apartafte da milicia ? ff Tháraco diffe: Fiz petição 

clujnllT!h-\ ^^ P^i^^íp^' P^blio 5 e dimittio-me. ff O Prcfidente 
fiominiofn, Ro- diffc .* Pois agora attenta pela tua velhice, porque 
TokíldfZlí'! t^í^bem eu levo gofto, que fejas Hum dos qiie fe acco- 
miiitacfo muitos modaó com as ordens dos Senhores Emperadores , e 
únnos, q^ç i-ecebas de mim grande honra. Chega pois \ c fa- 

crifica aos noffos Deofes , já que os mefmos Príncipes 
que dominaõ o Mundo todo , lhes claô culto, e os ado- 
raõ. ff Tháraco diffe: Erraõelles bemcraffamcnte, 
induzidos de Satanás, ff O Preíídente diffe : Que- 
bray-lhe asqueixadas, porque diffe, que osEmpera-- 
dores erravaô. ff Tháraco diffe: Diffe , e torno a di- 
zer , que crraô como homens, ff O Prcfidente diffe : 
Sacrifica aos noffos Dcoíes , e deixa effa tua eftuiticia, 
ff Tháraco diffe : Eu firvo a meu Deos , e lhe íacrifi- 
co, nao com fangues , fenaõ no coração puro.^ que 
effes taes facrificios na5 íào neceffarios, ff O Preí:- 
jêqui faltava dcntc diffc , ainda por parte da tua : : : : e ancianl- 
(tiguma coufi^ dadc , tcrcy dò da tua pruclcncia. Admoefto-te , que 
ZS'daaÍfi' ^és de maõ a toda effa vaidade , e facrifiques aos Dec- 
ga a.c,a ^,^^^ ^ Tháraco diffc : Na5 me aparto da Ley do Se- 
nhor, ff O Prcfidente diffe: 0^'apQÍí>,apartate,efa- 
crifica. ff Tháraco diffe: Eu na3 obroimpiedades, 
por quanto honro a Ley de Deos. ff O Prcfidente dií- 
le : Ha logo outra Ley fora efta ! Oh máo homem í 
(Ç Tháraco diffe : Ha a voffa Ley , pela qual vós ou- 
tros 



Vara fegnir o hetn , e fugir o tr^ah yç 

tros Ímpios adorais paos, e pedras, e as obras das mãos 
dos homens. ^ O Prefidente diííe : Feri-o no pefco- 
ço , e dizeylhe: naõ fejas vaõ ^ Tháraco ao fer ator- E/íaifert^fa^ 
mentado diffe : Naõ mx aparto defta Ley que profcí- ZfftZdX'^'^ 
fo , na qual me efpero faivar. íí O Prefidente diffe : 
Eu te farey apartar deffa vaidade , e te enfinarey a fer 
prudente. ^ Tháraco diffe : Faze o que quizeres, po- 
der tens em meu corpo. V O Prefidente Máximo dif- 
fe : Defpi-o , e açoutay-o com varas. ÍT Tháraco ao 
fer açoutado diffe : Agora de veras me fizcfte pru- 
dente, confortandome com eftes açoutes, para que 
de cada vez mais confie no Nome de Deos, e de Chrit 
to. íí O Prefidente diffe : Malvado , c maldito , co- 
mo ferves a dous Deofes ? Eis-ahi confeffas muitos 
Dcoíes, e negas os que nós adoramos? ÍT Tháraco 
diffe : Eu confeffo aquelle , que he Senhor manifefto. 
^ O Prefidente diffe: Naõ confeffas a Chrifto, e 
mais ao Senhor ? f" Tháraco diffe : Effe mefmo Se- 
nhor he o Filho de Deos, efperança de todos os Chrif- 
tãos , por cujo amor padecemos , e por cuja virtude 
fáramos. ÍT O Prefidente Máximo diffe : Deixa effa 
verbofidade : chega •, facrifíca. ç Tháraco diffe; Nao 
fou verbofo , digo a verdade , porque já fou de feffen- 
ta e cinco annos, e fempre affim cri , e na5 quero apar- 
tarme da verdade. ST O Centurio Demétrio diffe : Oh 
homem , perdoate a ti mefmo , e facrifíca : ouveme. 
f Tháraco diffe: Apartate de mim com os teus confe- 
Ihos, miniftro de Satanás, f O Prefidente Máximo dif- ^^^^ ffiverfa 
fe: Eík carreguem-no de ferros, com os grilhões gran- grin^o^^s , e ca^ 
des , e recolhaõ-no no cárcere Trazey o que fe íe£ue. ^'"'^ \ Tf''^^ 
Demétrio Centurio dilíe: Aqui eíta, Senhor. crme,<^-^oje 
% O Prefidente diffe: Como te chamas í Refnonde f'^^^'^>^^^- 
a primeira vez. í[ Probo diffe: Primeiramente , que ii ter cos ff. de 
hcodc que mais me prezo , chamomc Chriflaõ: em ^^"% 



8 o ;. Eflimtih pratico^ 

feguiido lugar , para com os homens , chamome Pro- 
bo. ^ Máximo Prefeito diíTe : De que geração es , 
Probo? íí Probo diffe: Meu pay foy de Thracia > eii 
nafci em Pcrge de Panfiiia , e fou plebeyo , mas fou 
Chriftaõ. ^ O Prefidente Máximo diíTc : Naô ganha- 
rás muito por eíTe nome. Ouveme : Sacrifica aos Deo- 
fes , para que poíTas fer honrado dos Príncipes , e fe- 
ras noíTo amigo. <5Í Probo diffe : Nem quero a hon- 
ra dos Príncipes , nem defejo a tua amizade ; que eraó 
poucos os cabedaes da minha fazenda , que deixey por 
íervir a Dcos vivo. fT O Prefidente diffe : Tiraylhe 
a capa ^ defpio , e eftendeyo , e açoutayo com nervos 
crus. % Ao fer açoutado, diffe o Centurio Demétrio: 
Homem, vê o teu fangue correr pela terra, f Probo 
diffe : O meu corpo eftá cm voffas máos 5 mas para 
mim os tormentos faõ unguentos, f Depois de o 
açoutarem , diffe o Prefidente : Defcanças já do teu 
deíatino, ou teymas na tua dureza miferavel >. f Pro- 
bo diffe : Nao fou louco 3 mais ajuizado , e fizudo fou 
que vós outros , peia graça do Senhor. % O Prefiden- 
te diffe: Viray-o, e açoutayo no ventre. ÍT Probo dif- 
fe : Senhor , íbccorrey o voffo fervo. ^ O Prefiden- 
te Máximo diffe : Açoutando-o , dizeylhe : onde ettá 
o teu Soccorredor > ^ Probo ao fer açoutado , diffe : 
elle me foccorre , e foccorrerá. Pois de tal modo te- 
nho por nada os teus tormentos , que me naõ rendo 
ao que queres íí O Prefidente diffe: Attentaparao 
teu corpo , miferavel , vê como a terra eftá chea do 
teu fangue. ff Probo diffe : Has de faber , que quan- 
alãíhaZtuuI' ^^ ^^ ™^ padece o corpo por amor de Chrifto , en- 
^o.queosChrif' taõ mais hc confortada, e vivificada a minha alma. 
tios tinkoõcm ç- Depois que foy açoutado, diffe o Prefidente: Lan- 
feffhrís prezos çaylhc grilhocus em maos , e pcs , nem confintais que 
^or Gbrip. níngucm trate delle > nem o cure. 



Parafeguir o bem , e fugir o ?naf. 8 1 

Pfofeguio o Prefidente , dizendo : Trazcy aqui 
o outro ao meyo do Tribunal. ÍF Demétrio Centurio 
diffe: Prcfcnte eftá, Senhor. ^ O Prefidente diffe: 
Como te chamas? ^ Andronico diffe: Tu queres 
que diga claro , que fou Chriftaõ ? IT O Prefidente 
diffe : Effes , que foraô diante de ti^ nada lucrarão por 
cffe nome , e que tu reípondas , he forçofo. Androni- 
co diffe: O meu nome commum entre os homens he 
Andronico. O Prefidente Máximo diffe : De que ge- 
ração ès Andronico í Ç Andronico diffe: De gera- 
ção nobre , e filho de Ephefios,da primeira claffe. Ç O 
Prefidente Máximo diffe : Pcrdoa-te a ti mefmo, e ou- 
ve-me como a pay: bem ves , que como os outros , que 
quizeraõ fallar defatinos , nada por iffo confeguiraõ. 
Tu porém honra os Príncipes, e pays , admittindo os 
noffos Deofes, Ç Andronico diffe : Bem os nomeas 
por pays^ porque vós outros tendes por pay a Sata- 
nás , e como filhos do diabo, perfazeis as fuás obras. 
V O Prefidente Máximo diffe : Ainda os teus poucos 
annos me deíprezaô ? Pois fabe , que fe te aparelhaõ 
graviílimos tormentos. ÍT Andronico diffe: Tu ima- 
ginas , que eu íou nefcio , e que naó hey de provar co- 
mo meus tmteceffores ? Eis-me aqui tens aparelhado 
para todos os tormentos, ^ O Prefidente diffe : Deí^ 
pi-o, atay-o , e penduray-o. 1í Demétrio Centurio 
diffe : Antes que teu corpo feja defpedaçado , mifera- 
vel ouvc-me. ^ Andronico diffe: Melhor he, que 
que meu corpo pereça, com que naò façais à minha 
ahna o mal que quereis. íí O Prefidente Máximo dif- 
fe : Confente , e íacrifica antes, que íejas defpedaçado, 
f" Andronico diffe : Nunca lacrifiquey , nem na mi- 
nha mininiffe^ e agora digo ,que naó quero facrificar 
a quem me mandas IT O Prefidente Máximo diffe: 
Defcarregay fobre feu corpo, ff Anaxius Cornicu- 

F lario 



fíãviã dlverfãs 
trd^ns dt dr- 

Miiiciei P.iiaii- 
tia trat ^^irtif- 
iros pa^a faz'r 
txetuta" ãiftn' 
ttr^at dvs <on- 
den''íios j e cada 
Mat^ijlradama 
yor da Provitt' 
tia I tinka a feu 
mando fjuiu Ccr* 
fikuíarU* 



0'Bhtka»ate, 



Kl Eftinmio pratico > 

krio diffe : Rendete ao Pixfidente : olha que te acon- 
íelho , como teu pay , que poíTo íer nos annos. % An- 
drpnico diíTe : Porque tu íendo já velho , ainda naò 
tens juizo, por ilTo me dás eíTe confelho , que lacrifi- 
que às pedjras , e aos. demónios. f[ Eftando Androni- 
co no3 tormentos , diíí e o Preíidente : Miferavel, naõ 
fentes os tormentos , para teres compaixão de ti , e 
deixares effa loucura^ que te naõ pode íaivar? f An- 
dronico diffe : A que tu chamas loucura ^ he a minha 
profiiTaõ óptima por todos os titulos , e fundamentos 
da mÍ0ha efperança no Senhor ; e a tua fabedoria tem- 
poral acabará com morte fempitcrna fT QPrefiden- 
te diffe : Quem te eníinou efte defatino ? ÍT Andro- 
nico difl^e : A Palavra que vivifica , e na qual fomos 
vivificados , tendo nos CeosaoSenhor > efperança da 
nofla refurreiçaó. IT O Prefidente Máximo diff'e: 
Deixa effa eftulticia , antes que te comecemos a aper- 
tar mais fortemente com tormentos, ff Andronico 
diíTe : O meu corpo eftá pofto diante de ti: poder tens> 
faze quanto quizeres. ff O Prefidente diffe: Atana- 
zay lhe a boca fortemente, ff Andronico diffe: Veja 
o Senhor, pois me condenafte a penas , como fe eu 
fora homicida, ff O Prefidente diffe : Tu de f prezas 
os preceitos dos Príncipes , c parccete , que he nada o 
meu Tribunal. ^ Andronico diffe:. Confio na mife- 
fericordia de Deos , e na fua verdade , por elle padeço 
cRes tormentos, f O Prefidente diffe: Logo delin- 
quiraò os Principes : : : : ff Andronico diffe : De- 
linquiraô , affim o entendo: fe tu quizeres entendei- 
lo 5 entenderás com juizo faô , que facrificar aos de- 
mónios > he delido. 5 Continuando os tormentos , o 
Prefidente Máximo diffe : Viray-o , e atormentaylhe 
as ilhargas. ^ Andronico diffe : Em tua preíença ef- 
íou , fogeita meu corpo às penas , como for tai von- 
tade. 



Pa ra feguir o h^^jn , e fugir o mal. 83 
t:>de. % O Prcíidcnte diífc : Tornay huma telha , o 
esfregaylhc as feridas. ^ Exccutandofe aílim, Andro- 
nico cliíTc : Agora confortafte o meu corpo com eftas 
tcridas. ^ O Preíidente Máximo diffe: Eípera hum 
pouco , eu te confumirey , eu te confumirey. ^ An- 
dronico diíTe : Naó fe me dá das tuas ameaças : a mi- 
nha tcnçaõ hc melhor^que os penfamentos da tua mal- 
dade , por iíTo dcfprezo todos os teus preceitos. í O 
Preíidente diíTe : Lançay-lhe argoUas de ferro ao pef- ^^^ g^^,^ 
coço , e pés , e guarday-o a bom recado. A i^mnvê^ 

(^ U E S T A Õ II. 

ASegundii Queftaõ, ou Audiência, fe fez aos dias FêHavã êrim 
: ;' : : íentado no Tribunal , Numerio Maxi- '^^^f-^7/^^*'^ 
moPrefidenre,&c. O Preíidente Máximo dif- ^f^dalmilui!^ 
fe: Chama effes malvados Chriftâos, que fervem à *^'''«' 
leymá. ^ Demétrio Centurio aiffe : Aqui eftou, Se- 
nhor. ^ E fendo trazido Tháraco 5 o Preíidente dif- 
fe : Lcnibrndo eftarás , que à ancianidade em muitas 
coufas he honrada , por quanto fe lhe tem refpeito , 
por tanto devias confiderar comtigo, que hoje te naõ 
convém infiíiir nas tuas primeiras determinaçoens. 
Chega pois , e facrifici aos Deofes pela íaude dos Em- 
pcradores, para alcançares honra. ^ Tháraco diile : 
EíTa honra íe a conhecerão os meímos Príncipes, e os 
mais qu- ícguem fua opinião, logo fe apartarão da 
cegueira de feus penfamentos , e vaidade ; e foraò vi- ' 
vlficados , e coilocados em melhor , e mais íirme thro- ^-«-^•..^^j^, 
no, pelo verdadeiro Deos. fl" O Preíidente diíTe: 
Quebray-lhe aquella boca com feixos, e dlzeylhe: 
Tira-tedo teu defatino. ^ Tháraco diífe ; Se cu fora 
dezaiuizado, fora fcmelhante a ti, infenílito. ^ O 
Preíidente diffe : Vés os teus dentes quebrados ? Tem 

^ F ij com- 



^*^ 



84 Eflimnlo pratico y 

compaixão dé ti 5 miíèravd. •[ Tháraco diíTe : Naõ 
Ic te meta em cabeça, que me rendo , por itto que he 
nada 3 porque fe todos meus membros desfizeres, íem- 
pre eftarey firme em virtude daquellc Senhor, que me 
faz forte. ^ O Prefidente diíTe : Acaba de crer , que 
mais a conto te eftâ facrificar. ^ Ti^áraco diíTe : Se 
cu entendera , que era melhor , para que havia de ef- 
perar , que me rogaíTcs. ^ E como Tháraco naõ fal- 
laffe mais , diffe o Prefidente : Daylhe na boca , e cla- 
maylhcrrefponde. f Tháraco diffe: Tenho quebra- 
dos os queixos , como hey de reíponder. ^ O Prefi- 
dente Máximo diffe : Depois de tudo ifto , naò con- 
fentes infenfato ? Chega ; adora 3 facrifica aos Deofes, 
f Tháraco diffe : O clamor da minha voz me tiraftc 
tu ; mas ao propofito da minha alma naõ chegarás a fa- 
zer mal : antes dentro defta hora me confirmafte , e 
cdificafle mais. ^ O Prefidente diffe: Eu te arranca- 
rey da tua dureza, maldito. ^ Tháraco diíTe; Aqui ef- 
tou, e naô fujo, para tudo o que intentares; mas venço 
no que me dá esforço , que he o Nome do Senhor, f 
O Prefidente diffe : Trazey fogo, cítendeylhc as mãos, 
e pondclho nellas. ^ Tháraco diffe: Naòtemereyo 
teu fogo temporal , q fe apodera de mim ] o fogo eter- 
no , cafo que confentira comtigo , iffo íím he o que te- 
mo, f E fendolhe pofto fogo íobre as mãos , diffe o 
Prefidente : Eis-ahi as tuas mãos confumidas do fogo: 
cançajá da tua loucura, infenfato, e facrifica aos Deo- 
/es. ^ Tháraco diffe: Affim falias tu comigo , como 
^<e eu já viera no que tu queres,por caufa da tua cruel- 
dade. He Deos fervido, que efteja fortiflimo contra 
tudo o que fe obra , e aparelha contra mim. ^ O Prefi- 
dente diffe: Atay-o,ependuray-p bem alto pelos pés; 
e pondeihe debaixo do rofto fumo bem efpeffo , e 
horrivcl. % Tháraco diffe : Zombo do teu fogo , nâ5 

hey 



Pavajeguir o hein , e fugir o mal. SjíJ 

hèy medo ao teu fumo. ^ O Preíidente Máximo , ef- 
tando Tháraco pendurado,! he diíTcAffim eftarás pen- 
durado até que confintas , e facrifiques. f Tháraco 
diffe : Sacrifica tuPrcfidente, affim como coflumas fa- 
crificar aos homens , que quanto a mim , naõ me licito 
fazer iíTo. ^ O Prefidcnte Máximo diffe: Trazey vi- 
nagre com fal , e banhay-lheos narizes* 

,, Aqui faltava no caderno huma pagina , na qual 
,,fe continhaó os mais tormentos de Tiváraco. E de 
5, Probo toda a fegunda queftaó fe perdeo. De Andro- 
y^ nico também naõ havia mais , que na feguinte pa- 
„ gina, o pouco q fe íegue. ^ O Prefidente diffe: Eítas 
palavras da tua eltulticia nada te aproveitarão :<:he<*: 
ga, íacrifica aos Deofes, para que os tormentos te naõ 
c-onfumaò , malvado. 4 Andronico diffe : O que ou- 
vifte da primeira , e da fegunda vez , he o mcfmo , eu 
naõ fou criança , para que me enganes com palavras, 
a fer abatido. ^ O Prefidente diffe : Naô has de levar 
a melhor de mim , nem te gabarás, que defprezas o 
meu Tribunal. ^ Andronico diffe : Na5 fomos nós 
os que te vencemos , fenaô o que nos conforta ,que he 
Noffo Senhor JESUS Chr ifto 5 e tu já em parte alcan- 
ças, e reconheces, que naõ temos medo, nem ati , 
nem aos teus tormentos- 5 O Prefidente diffe : Tra- 
gaõ-me na primeira Audiência outros géneros de tor- 
mentos? e eík carreguem-no de ferros , e recolhaõ-no 
a bom recado , c ninguém o veja até à manhãa. 

Ct U E S T A Ò IH. . - . .>v 

COmeça a terceira pergunta. 5 O Píefidente dif- 
fe: Chama effes iniquiffimos Chriílãos. ^ De- 
métrio diffe : Eftou preftes , Senhor, f Trazi- . 
do que foy Tháraco, o Prefidente diffe: Deipe^"'*'^^ 
:mm^^^mmimmmmú- p jjj ainda 

I 

\ 



%6^ BflimnlopYaticQy 

ainda as fcddas ^ c os tormentos , ç os grilhpens, e o 
cárcere : ouvemc Tháraco , apartate deffa tu i confif-. 
fcó , da qual naõ tens proveito algum , c facriíica aos 
Dcofes , por cuja virtude todas as coufas tem íer , c 
permanecem. Ç Tháraco diffe:. Mal aventurados le- 
jaõ elles, para que o mundo fe naô governe por 
quem ha de vir a pairar no fogo y e tormentos eternos^ 
que eftaòaparelhados , naõ lo para elles , íe naõ para 
todos os que os íeguem , e lhes fazen>a vontade. % O 
Prcfidente diffe :. Naq te aquietasblasfemadpr impiií-- 
fimo^ Cuidas tu , que por amor dp defaforo das tuas 
palavras te cortarey logo a cabeça ^ para acabares lo- 
go. ^ Tháraco diffe :Àííimnieeftava bem y para que 
morrendo brevemente , naõ tiveffe grande combatej; 
porém faze tu embora, que crefça em Deoíi o confli-; 
<fto , e luti da minha Fé. ^ O Prefidentc diffe: Iffo 
padecem y e padecerão, os teus > que eitaõ prezos , c 
morrerão conforme as leys, «f Tháraco diffe : lííb 
que dizes , he huma fatuidade dp teu entendimênt<?,. 
porque os quecommcttem maldades juftamenté^mor- 
rem 5 porém nós , que eftamos innoccntes, e io pade- 
cemos por amor de Deos , do.mefmo Senhor efpera- 
mos receber premio no Cea ^ O Prefidente diffe : 
Maldito, e iniquo, que premio cíperais, acabando 
mal , e infamemcnte ? ^ Tháraco diffe ;: Na5 te he li- 
sito perguntar iffo , nem fabcr , que premio ik)s guar- 
dou o Senhor preparado nosCeos \ por effa cauía fo« 
\portamos a ira da tua íèntença. ^ O Preíídente diffe: 
*^Aflim falias comigo, maldito ^comofe tivéramos a 
mefm^ forte ? f Tháraco diffe : Eanaõ tenho a m.éí» 
ma forte , que tu; mas tenho poder para fallar y e nin- 
guém me pode ir à maõ , pela virtude do que me con- 
forta, que he o Senhor. ^ O Preíídente diffe: Efte 
poder que ta tens , malvado , cgi^to arrancarey pela 

raiz. 



Pará fèguh' o bem , e fugir o mal %7 
raiz. ^ Tháraco diíTe: Ninguém me pode tirar efte in ancaâtionc; 
poder, nem tu, nem os teus Príncipes, nem voíTo ^IJ'/^**^'^^^^; 
pay Satanás, ^ O PreíidentediíTe: Ora para que fal- d^ hum ftfcripy 
lo eu comtigo por bem , e para te ãtrahtr com mmo ? *ly%^Jl'^l^; 
^ Tháraco diíTe: Os teus mimos fiquem ccmtigo; eu L.MiHt.cap.dç 
os nao quero , bem fabe o Senhor a quem firvo , que ^'^^^^^f^^^'^f, 
atua cara, e preíença mehchorrivci, parapormea (tm-, M.iircf, 
fallar comtigo. ^ O Prefidente diffe: Atay-o, que "«q"^ «"""«-i 

I ^ J -r-i ' i-zT- c^ c tis » nequc pic- 

he mentecapto. ^ iharaco ditle : Sc eu rora mente- bcíorum poems 

capto fora como tu , e concordara com o que tu que- i" ""^^."Pj^ 

res. ^ O Preíidente diíTe: Poiá te ves pendurado, "ídTmusrctiani 

íacrifica , antes que te faça atormentar fegundo o que Jj.non çmcmit 

mereces. ^ Tháraco diite : Eheteíicito?Podescon- ^J/amur cfíc* 

denarme a todas as penas que quizeres , havendo eu dirniíli : cxccp-' 

fido homem militar ? ^ Mas porque naó imagines que ^"i"gnominil; 

condefcendo com a tua maldade , executa em mim Tc íum foiuri:' 

quantos tormentos excogitares. ^ O Preíidcnte dif- 2I1n?um'?ewri! 

fe : Os foi dados fempre facrificaõ aos Deofcs pela nocum fetraiH. 

faude dos íeus Principcs , para que fe facaõ benemcri- í."'"* ^, . 

tos aa lua digmaade ^ e privilégios ; mas tu , o peíiimo Preftdente. p^r» 

de todos , c que defemparaík a milicia , por iíto fe te *''' ^^ ft^gitives 

II - ^ ^ ^r / T/y que aeixavaõ o 

aparelhao mayores tormentos. ^ f i haraco diíle : Ixerctto , f,as 
De qut i e perturbas , meu irmaò ? Já te digo , faze o gozavas djie 
que quizeres, Ímpio. ^ O Preíidente diffe :" Nao cui- KZdofL^dJu. 
dcs , que hey de condenarte de huma vez , ícnaõ , que > M^gepa^c^ 
parte por parte te heyde confumir, e os teusmem- 'luTnfu^^i 
bros hey de lançar às beftas feras. í Tháraco diíTc : ff- adicgcmju- 
O que has de fazer , faze-o de preffa : naÔ eftejas femy 'T^^,;:%TZ , 
precom palavras a promettcr. ^ O PreíidentedilTe;^^'/«f««i?'/r^^«í/tf- 
Cuidas , que algumas mulherinhas haõ de embalía- ^o Jii^J^t 
m^T o reu corpo com aromas , e unguentos , malvado? con d-mijfM ho- 
\k tenho imaginado como dettrua" as tuas reliquia^. '^Z"' , . 
% iharaco djíle: Mim agora ^ como depois áii Pref,dtr,te,po^' 

F iiii minha f*'A^^f 7«^^<' 

^ ■ - èem t ejfv o aa 

Cbriflâos em fe^uitaros CtJr/>«j dos Sattçi Maríjres^ qui^ conforme ttfismnnha TeriuUtaf^tA^í'^ 

( 



88 EJlimu lo pratico y 

icger eap. 41. minha morte, faze do meu corpo o que quizeres. ^ O 
tm.o^,<ojiuj PrefidcnteduTe: Sacrifica primeiro. ^ Tháracodif- 
átcHflomaaar íc .' NelciQ , ja tc diíle muitas vczcs , quc uao qucro 
/íf^ír^il&^r í^^^^^fi*^-^^ ^^^s teusDeofes > nem às voifas torpezas. 
tjiecfficio, c&m f Máximo diíTe: Quebraylhe aquelle focinho y e rc* 
íwí^/^^r^i!- talhay-ihe os beiços. ^ Sendo aflim executado : Thá- 
vaõ todn a ví- ^^^^ diíTc :. Dcsfigurafte o meu roflo ; mas déíie vida 
mifãs<ts» à minha alma. % O Prefidente diffe : MiferaveJ , ti- 

rate deílea teus pcnfamentos. loucos : íàcrifica para 
poderes fahir dcftas ânguftias. ^ Tháraco, diffe : Tu 
cuidas que foutolo^ ou infcnfato , e que pondo mi- 
nha confi^ança no Senhor , naõ vivirev no Ceo r Tu a 
3 mim tiras-me ávida do corpo por efle momento, ou 

breve efpaço de tempo ; mas perdes a tua alma para 
feculos de feculos. ^ O Prefidente diffe : Ponde cm 
braza huns fovelòes, e metey-lhos pelos queixos* 
^ Tháraco padecendo efte tormento diffe: Ainda 
:; . > ..., r que me faças mayores coufas , naô preverterás ao Ser- 
vo de Deos, para que adore demónios, e torpe- 
zas. 5 O Prefidente diffe iTrazey huma navalha 5 ra- 
paylhe a cabeça , arrancandoihe a cútis , e cobri-a por 
cima com brazas. ^ Tháraco diffe: Ainda que man- 
des esfollar todo meu corpo , naò faço pé a traz , nem 
me aparto de meu Deos , que me da fortaleza para ío- 
frer as armas da tua milicia. f Sendo executado tu- 
do ifto, o Prefidente diíle: Recolhey os fovelões, e 
tornay a poios bemembraza,e me tcylhos pelos íb- 
vacos. % Tháraco padecendo efte tormento diffe: 
^ , ^' Deíde o Ceo volte o Senhor feus olhos y, e julgue. ^ Q 
^^ Prefidente diffe: A quem chamas Senhor, maldito? 
^ Thái-aco diffe : A quem tu na5 conheces , e que dá 
a cada hum conforme as fuás obras, ^ O Prefidente 
diffe : Porque , na5 te hey de deftruir eu, e até as tuas 
reliquias , como já to tenho dito j para que as mulhe- 

rinhas 



Parajeguiro bem-, e fugir o mal. 89 

rinhas naó envolvaõ teu corpo em toalhas , e naõ te 
adornem com unguentos , e perfumes ? Mas naô íerá 
aflim, malvado, porque mandarey queimar teu corpo, 
c eípalharey ao vento tuas cinzas. ^ Tháraco diffe: 
Já de antes diffe , e agora o torno a dizer , que faças o 
que quizeres: quanto he nefte mundo tens poder. 
í O Preíidcxite diffe: Recolhaõ-no no cárcere, c 
guardeíe para fer nas primeiras feíks lançado às feras.. 
Trazey outro perante meu Tribunal. 

Demétrio Centuriaõ diffe; Senhor, prefente 
cftá Probo. ^ O Preíidente diffe : Olha por ti Probo, 
naõ te metas nos tormentos que viík \ porque os que 
foraõ diante de ti , e quizeraõ ateimar na fua dureza, 
depois lhes pezou. E afllm tu agora facrifica , para que 
nós, e os Deoíes te honrem: chega,facrificâ. ^ Probo 
diffe; O noffo propcíito , e fentir he hum fó, e uni- 
dos em hum fó coração fervimos a Deos, naó eíperes 
ouvir de nós outra coufa: bem ouvifte, evifte,que 
nos naõ podes perverter 5 aparelhado eftou hoje dian- ' 
te de ti, defprezando teus ameaços; eya pois, que 
aguardas ? ^ O Preíidente diffe : Mancomunaftes-vos 
para vojfo mal , em negar a Deos : cingi-o , e pendu- in majis vtftA 
ray-o de pés para cima, % Probo diffe: Naôceffasde 
peleijar por parte dos demónios. ^ Máximo Preíi- 
dente diíTc: Creme, e defenganate antes que fejas ator- 
mentado: attenta peio teu corpo, porque bem ves. a 
que fe te aparelha. ^ Probo difle; Tudo o que me fi- 
zerem, fe me converterá em confolaçaô da alma] çy 
âílim faze o que quizeres, ^ O Preíidente diffe ; Pon-1^^^^ ,_^ 
de em braza os íbvelões , e pondelbos nas ilhargas , -•^•vv--- 
<para que naõ feja tolo. «f Probo diffe : Quanto mais 
tolo te pareço , mais fabio fercy na Lcy do Senhor. 
^ Depois accreícentou o Preíidente : Prcgaylhc pelas 
CQÍias os fovelõcs cm braza. ^ Probo padecendo diffe: 

Omeu 

-í 



->5)o Eftífnnlo pratico y '• 

O meu corpo te eflá fogeito, do Cco veja o Senhor 
minha humildade , c fofnmcnto. ^ Depois diiio man- 
dou o Preíldenté trazer alli carne, e vinho doslacri- 
ficios , e diíTe : Lançay-llie vinho pela boca , e metey- 
Ihenella carne do altar. ^ Executandoíe ertas couías, 
Probo diíTe : Defde as íuas alturas , feja Deos teiie- 
munha defta violência , que padeço , e julgue a minha 
câufa. ^ O Preíldenté diíTe ; Eis-aqui, mifera vel , de- 
pois de padeceres tanto , já comcfte do facrificio. 
^ Probo diíte ; Grande couíà fizeftes , fendo por for- 
ça ; O Senhor bem conhece a minha vontade. ^ O 
Preíldenté diíTe : Comeíte , e mais bebefte. ^ Probo 
diíTe : O Senhor bem fabe , c vio , que foy por força. 
^. O Preíldenté diífe : Metey-lhe os fovelòes em bra- 
za pelas barrigas das pernas. ^ Probo diífe; Nem fo- 
go j nem tormentos , nem Satanás teu pay podem vi- 
rar o Servo de Deos do qucconfeffa. ^ O Preíldenté 
diíTe : Ponde em braza pregos agudos , e metey-lhos 
pelas máos. ^ Probo diífe: Graças vos dou , Senhor, 
porque vos dignaíies de que também as minhas mãos 
íbíTem atormentadas por amor do voífo Nome. ^ O 
Preíldenté diífe; Já dos muitos tormentos endoude- 
ceíle. ^ Probo diífe : E a ri o muito mando e poder 
naõ íò te fez fátuo , fenaõ cego ; porque naõ fabcs o 
que fazes. ^ O Preíldenté diífe: Depois de eflar teu 
corpo efpedaçado, te atreves a dizer iífo contra mim, 
porque tens os olhos iliefos: picay-lhe os olhos , para 
que perdida a luz dos olhos , íe apartç pouco a pouco 
s^^^, • 'da luz deílâ vida. ^ Sendo iíte executado , Probo dif- 
fe : Os olhos corporaes me tiraíte , embora j mas naõ 
te fera concedido tirarme ôs olhos viv.^s da minha 
fé. ^ O Preíldenté diífe: Depois deftes tormentos 
ainda efperas viver ? ou im igin.is , que te deixaremos 
morrer coníblado , e alegre. 5 Probo diífe : Para iífo 

bata- 



para feguir o hem^ efugtr o mal. j; ^/ 

batalho , e combato , para aperfeiçoar a minha con- 
fiiTaò boa , e inteira , e p.^a-a que me mates fem miferi- 
çordia. f O Preiicknte. diffe . Levay-o, e atay-o^ c fcr^ 
1 olhay-o no cárcere , e nenhum dos íeus conhecidos, e 
companheiros chegue, porque os naó louvem dafua 
impiedade , em que porfiarão : íerá entregue às beíks 
feras nos primeiros jogos. 

Depois difto diíTe o Preíídcntc : Tragaô-me An- 
dronico ^ T3cmetrio Centurio diffe : Prefentc eitá, 
Senhor. ^ O Preíidente diffe : Ao^ menos eíla vez ,. 
Gompadecete de teus poucos annos,,fc he que cuidaf- 
te com mais madureza em. fer pio para com os Deo-- 
fcs: confente, facrificaaos Deofes, e íerás.íblto, e 
livre, f Andronico diffe : Nunca tu vejas iffo Tyran- 
OO:^ que ponha eu o pê fora da Ley de Deos : Defen- 
ganace y que naó has de an*uinar a minha confiffaô > 
que tenho fundada no Senhor: aqui eftou firme para 
rebater ar tua porfia. ^ O Prefillsnte diffe: Pareces 
furiofa-, c endemoninhado. ^ Andronico diffe : Se^ 
cu tivei-aem mim ademonio,coníentira no que per- 
tendes ; mas- porque confeffo ao Senhor, naò admitto 
ao demónio : tu porém demónio , e mais cego > fazes 
obras próprias do demónio. ^ O Prefidente diffe: 
Ora eu farey comoimpio , e amanfarey toda a tua bra- 
veza* f Andronico diffe: Nâõte temo, nem a tua 
fanha^pois affifto diante de ti em nome de meuSenhor 
J£SU Chrtfto. f O Preíidente diffe : Fazey feixes 
de papel,.;* epondelhe fogo na barriga, f Sendo affiii?/» Expap^^^i; 
executado, Andronico diffe: Ainda que eu todo ar»-^--. ,v- . ' 
dera , ainda eftá em mim o efpirito , naô me vencerás^ 
© perverfo : a ponto efta quem-me fortalece , que he 
o Senhor a quem íirvo. ^ O Prefidente diffç: Até 
quando naõ te aquietas , ihfenfa to ? Procura aomxr 
mps morrer nw^ cama. f Andronico diffe : Em quanta^ 

. tiver 



5? i* Eftmulo pratico , 

tiver fôlego, vencerey a tua malícia. ^ OPrcfidente 
diffe ; Accendcy os fovelões , e metey-ihos por entre 
os dedos. ^ Andronico diffe: Nefcio , delprezador 
de Deos , todo cftás cheyo das invenções , c malicia de 
Satanás , bem ves o meu corpo coníumido à força dos 
teus tormentos; imaginas ;, qúe já agora hey deter 
medo das tuas artes: tenho dentro em mim a Chrifto 
Filho de Deos , naõ fe me dá de ti. ^ O Prefi dente 
diffe : Iníquo , naõ fabes que effe Chrifto que invocas 
foy hum homem juftiçado em poder de Poncio Pilatos, 
e que ahi eftaõ os autos da liia condenação ? ^ An- 
dronico diffe : Cala-te , tu naõ podes fallar neffa ma- 
téria iniquamente. <f O Preíidente diffe : Qiie vas a 
ganhar defalmado^com a fé,eefperançaneffe Homem, 
que chamas CHRISTO > ^ Andronico diffe; Grande 
premio vou a ganhar ; por iffo aturo todas eftas cou- 
fas. ^ O Preíidente diffe : Abrilheaboca, e metey- 
Ihe nella carne do altar , e lançaylhc vinho. ^ Execu- 
tandofeifto, clamou Andronico: Senhor, Senhor y 
olhay para a violência que padeço. ^ O Prefidente 
diffe: Até quando has de obftinarte, pofto cm tor- 
mento? Eis-aqui já provafte do facrificio. ^ Andro^ 
nico diffe : Pereçaõ todos os que adoraõ ídolos , tu i 
e mais os teus Príncipes. ^ O Prefidente diffe: O' in- 
fame , e peílimo , amaldíço-as os Príncipes , por quem 
gozamos taô alta , e perdurável paz ? 5 Andronico 
diffe : Eu praguejo , e abomino a pefte , e os bêbedo»- 
\res de fangue humano , que arruinaò o mundo ; o po- 
' derofo braço do Senhor os confunda , e deftru^. ^ O 
Prefidente diffe : Metey-Ihe ferros por aquella boca, 
e arrancay-lhe os dentes , os queixaes também , aquel- 
la blasfema língua , tiray-lha pela arreigada , para que 
aprenda a naõ blasfemar dos Príncipes : tíray-lhe os 
dentes 5 e a língua gueimay-lha à fua vifta , e as cinzas 

efpa- 



Purafeguir o hem , e fugir o mal. 95 

cfpalhay-as por toda a parte , porque naô venha al- 
gum dos companheiros deite impio, ou alguma mu- 
fherinha , e ajunte alguma coufa , para guardar como 
couía muy precioíà^ ou fanta ; e a elíe tiray-o da bi , c 
day com eile na mafmorra , onde eikja reícrvado com 
léus companheiros para as íettas próximas. Aqui 
acabou a terceira queítaõ* 

Confíiinmaçad do Martyrio deftes Santos. 

A Té aqui fe achava eícrito nos Autos Proconfu- 
lares. O que fe fegue da confummaçaõ doíeu 
Martyrio , quando foraô levados ao amfiteatro, e lan- 
çados às beítas , accrefcentaraõ três Chriflãos , por 
nome Macário , Félix ^ e Vero, que fe acharão preíen- 
tes ao efpeétaculo , e do que nelle paíTou efcreveraõ 
huma carta , cujo exórdio faltava no caderno 5 e fo- 
mente continuava a narração , efcrita pelo theor fe- 
guinte. 

,, Numario Máximo, Proconíul de Cilicia invian- 
^y do a chamar a Terenciano , Sacerdotal da mefma Ci- 
,,licia, lhe ordenou para ofeguinte dia trataíTedos 
„ efpectaculos^ que fe haviaõ de fazer. E na manhãa 
5, ^^^fâljeguinte dia , homens ^ e mulheres em gran- 
,, ^muTtiHaõ caminharão para o amfiteatro, que dif- 
„ ta da Cidade mil paíTos ; e eftandc já tudo occupa. 
„ do , chegou Máximo a ver os efpcítaculos. No pri- 
„ mciro jogo das feftas, havendo fido lançadas ao cor- / 
„ ro muitas feras , tragarão muitos corpos. Nós , que "^^ -^. 
,, eftavamos em parte eícondida , cfperavamos o fuc- 
,, ceíTo com grande fobreíaíro : quando a toda a preí- 
,, fa manda Máximo à Soidadefca , que meta dentro 
„ os Martyres Chriftáos , Tiiáraco y Probo , e Andro- 
yy nico. Os íoldados alugarão homens , que trouxef- 

^,fcn\ 



Eftimnlo pratico . 



94 

^ íem os Martyres aos hombros , porque em rnzao de 
„cftarem efpedaçados do tormento, naò podiaò vir 
,, por feu pê , e nó^ os vimos levar para o theatro; e 
,, quando aílim os vim.os, vir/ndo o roiio buns para 
„ os outros, começamos a chorar. Foraõ arrcmcffa- 
,,dos no meyo do anfiteatro ;eleyantouíe cm todos 
„ hum pavor confufo, emurmurinho contra Maxi- 
„ mo, que affim o ordenara ; e muitos delles íe Icvan- 
„ taraò do cfpeélaculo , e fe foraõ murmurando de 
,, Máximo , e de fua beftial fereza. O que advertindo 
„ Máximo , mandou aos da fua guarda , que lhe aíTif- 
,, tiaô , que marcp.íTem os que fc haviaò levantado , 
„ para depois inquirir delles. 

„ Entre-tanto mandou foltar as feras aos corpos 
„dos Martyres, c com.o ertas nem tocaíTcm nelles, 
„ mandou efpancar , e ferir os Munerarios , * e com 
„ grandes ameaços mandou , que foltaíTem da gaula a 
„ mais feroz belia que tiveíTem. Soltarão hum Urfo, 



• Sét ts offi- 

ciags for cuja 
tOHta (orriad a 
preflar , tf fX- 
hibirasjefias» 

* Aeiui ft re- 
novanaô ^queh 
its antiga mi' 
iagrtstque Sati" 
to Jgnacioefoe^ 
veo y di ptrdoA' 
rem as feras otf 
Chvijlãos ietã 
àcm o efpiritetío 
mcjmo S. l^na" 
€Ío fe mar.ifefla* 
va arde>icio ref' 
tes Martyyes j 
ptrque efoe^h 
do o Santo aos 
Romanos j lha 
diz ajjim: Hey 
de gozar das fé' , . . 

ras, que me ef- „ quc naqucHc dia tinha morto três homens, o qual 

taõ preparadast _ _ _ _ . _ _ 

as quaes deftjoy 

que para mim 

/ejaõ mais fé' 

ras'y e eu tam- 

bem as etrabi' 

rey , e ajudai ry 

<o*n meus ajfa* 

gos para que me 

t toguem 7»ais 

eruetmtfite , e 

naJó focctda eo» 

mo a outiOs d\K , 

^me^^^JuiJ-f^ anfiteatro a Leoa , meteo terror a todos os circunf- 
„ tantes , por quanto correndo de huma parte para a 
„ outra, bufçava por onde fugir ; porém chegando 
^^emfim onde os corpos dos Martyres eftavaò, ajoc- 
„!hou, e poftroufe diante de Tháraco, venerando- o 
„ do modo que podia com dobrar as mãos O Martyr 

eften- 



/ J X X ri 

„ havendo cheg:ído onde Andronico eftava , alfen- 
„ toufe junto deile muy quieto, e começou a lamber- 
,^ lhe as feridas. Andronico com belifcos fazia pelo ir- 
„ ritar , para que o tragaffe. Mas o Urío totalmente 
„ manfo naó lhe fez nada. O Prefidente encolerizado, 
„ manda aos lanceiros , que matem o urío. Terencia- 
„ no, havendo m.edo à cólera do Prefidente, ordena, 
„ que foltem contra os Martyres huma Leoa,cuc He- 
rodes tinha mandado de Antiochia. * Sahindoao 



.7^ 



r,ao qu''Z'rem , 
eu as ohi 'gany 
porforqa. Pet' 
ao.<iy-rne {Hki- 
nkos , qus (U íey 
o que me imper- 
ta. 



!'- 



^ 



Para ftguir o bem , e fugir o waL 9 f 
„eftendendo a maõ puxava por cila para fi, para 
5, que alTanh ida contra cUe , o comeffe. Mas a Lcca 
„ tornada em ovelha mania y fazia companhia a Tha- 
„ raco. Le vanta-fe a vozaria de todo o thcâtro , por 
5, cauía d) grande aiTombro. Com que o Preíidcnte 
,5 confufo y e leito huma braza de coiera , manda aos 
55 feus , que affanhem a Leoa , a qual dando hum hor- 
„ rivel bramido , inveílio para hum poftigo* Gritava 
,,oPovo com o medo a grandes vozes: Abra-fe à 
5, Leoa , e logo romperão o pottigo. Máximo indig- 
5, nado y chama a Terenciano , c mandalhe , que fayaõ 
yy os gladiadores > com ordem y que no primeiro lance 
,, eftoqueem logo os Martyrcs. O que íc fez allim , ao 
,, qumto dia do tdus de Outubro. E Máximo recolhcn- 
yy do-fe do anfiteatro para fua cafa, deixou ordenado 
,, a dez foldados > qi^ mifturaífem os corpos dos Mar- 
„ tyres com os dos Gladiadores mortos ^ para que íe 
,, nao pudeíTem difcernir. 

,, Quando vimos , que aflmi o faziaó os foldados, 
„íem chegar de perto, fizemos oração ao Senhor, 
5, que nos déíre a conhecer os corpos dos Martyres. E ^ 
,, depois ehegando-nos mais perto , vimos os guardas 
,, ceando junto de huma fogueira , para terem a fenti- 
y-^ nella de noite. E pondo outra vez os joelhos em ter- 
)í ra, fizemos oração ao Senhor, e a Chrifto ícu Fi- 
,, lho , que nos campriffe noíTos defejos , e nos inviaf- 
y-f fe foccorro do Ceo , e moftraíTe os corpos dos San- 
^jtos. Eis que de repente começa hum terremoto >/ 
5, com trovões , e relâmpagos , e chuveiros , e grande '" - 
), tempeftade. Oramos outra vez , e chegando-ao:j 
5, aos corpos, achamos apagada a fogueira , cque to- 
„ dos os foldados ^i^í^^õ^^lg^por amor da tem- 
j-, peflade. E levantadas ^mSos ao Ceo , pedimos ao 
>5.Scnhor , fe dignaffe manifeftarnos , por indícios. ' | ^' v 

^>ceF- 



9 6 Ejlimulo pratico , 

,, certos as Relíquias dos Santos Martyres. 

p E em continente , aprjarecerac trcs faclioílnhos 
\^k maneira de Efírellas, íobre os fcus corpos, os 
j^quaes levamos furtados , e nos fomos ^ indo diante 
„ de nós por guia aquellas três luzernas Celeftiaes , em 
,5 cujo fcguimento chegamos a parte fronteira de hum 
„ monte, e entaô defapareceraõ : naquelle lugar acha- 
5, mos huma pedreira concava , na qual os depofita- 
,, mos , cerrando aboca com grande diligencia, por- 
„que os naõ defcubriíTe Máximo, fe os buícaffe. 
„ Tornando nós depois para a Cidade , a faber do que 
„ paffara , achamos, que Máximo matara os guardas. 
„Enós rendemos as graças a NcíTo Senhor JESU 
5, Chrifto , que vive por íeculos de feculos. Nós Ma- 
„ cario, Félix , e Vero , deíeiamos paíTar aqui o refto 
„ de noffa vida , para que nolTos corpos tenhaò a dita 
„ de defcançar com os dos Santos , no mefmo lugar , 
„ e de nos gozarmos no Cco com a fua companhia. 
„ Aos portadores, que com cftavos inviamos, aga- 
„ zalhay , e recebey com fanto temor de Dcos 5 por- 
„que íaó obreiros de jESU Chrifto Noffo Senhor. 
„ Tende-nos em voíTa memoria. A graça de Deos com 
„ todos. Amen. 

NOTAS. 



.J-' 



L T^ li Uita? coufas dignas de fe advertir po- 
I V^ I ^^^^ occorrer no difcurfo de toda efta 
^ '^ narração. Mas por quanto nnô pro- 
feguimos commentarios difiufos , mas fomente apon- 
tamos breves notas. Note^fe primeiramente , como 
muitas vezes difpoem NoíTo Senhor, que os nomes 
das peffoas convenhaõ com^ as obras, e íu^effos dns 
íuas vidas. Sejaô exemfTos^pilfêeTqííe qu^ 



1 



Dila- 



Vnrafegulr o bem , e fugir o mal. <)7 

Dilatado, e cfta foy a fiia bençaõ de Noé: Dtlatet 
Deus Jafbct i e por meyo da fiia dcícendencia occu- 
pou toda Europa , e muita [Tarte da Aíia. Phaleg , qiic 
quer dizer Partição, ou Diviíaôj e no feu tempo/c 
dividirão os homens , confufas as línguas em BabcL 
Nabal , que quer dizer neício ; e no capit. 23. do pri- 
meiro livro dos P.cyâ , fe vio obrigada fua própria 
mulher Abigail a difculpallo com David da neccdadci 
que com clic havia ufado , dizendo , que obrava con- 
forme o ícu nome : Secundum mmm fuum ftultus eji, 
Ifcariotcs, que quer dizer Mercenário ^ derivandofc 
da palavra ífcar, que íe interpreta , paga, ou jornal ; 
c foy Judas fervo taò mercenário, que pela paga de 
trinta dinheiros vendeo o Filho de Deos. Jofeph de 
Arimathea , que conforme a S. Jeronymo , quer dizer 
Deponens , o que depõem , ou depofita 5 e o Euangelho 
ufando da mefma palavra , diz, que Jofeph depozo 
Senhor daCruz, eodepoíítounofcpulchro: Jofeph M«rc8is.YciJS 
autem mercatmjindonem , é' depcnens enm involvit Jin" 4^» 
done , ^ pcfuit etim tu monumento, Aílim tambcm no 
noíTo cafo : Tháraco quer dizer Contemplador , e ve- 
rificoufe na vchemencia com que efte Santo contem- 
plava na grandeza do premio celeftial , na refurreiçao 
gloriofa dos corpos, e na imitação deChrifto. Pro- 
bo quer dizer Bom , honefto , ou provado , e digno de 
approvaçaõ5 c dos Martyres diz a Sabedoria, que 
Deos os fez honeflos , e lhes deu hum combate forte 
para vencerem , eque os provou como ouro na for-^ 

nalha : Hõnefium fectt illuw Tanejuam aurumin^ '^sipimk ioViii 

f^rnace probavit tlhs , c^ íjUâfiholocanftí hújttam accepit & 3. ^. 
illou Andronico quer dizer Vitorofo ; é efte Martyr 
fahio vitoriofo , do Mundo , da Morte , do Inferno, 
dos homens , e das feras , c de íí meímo j porque Deo^» 
lhe deu efte forte combate, para que venceffe : Cer- 

G tame^ 



^S EflJjnulopratiCQ, • 

i.Machab.4. tamen forte dcdtt tlUutvinccrct. E fc lá ElRey Antio- 

^^ CO manlou defpir a purpura a hum Andronico , por- 

que foy vencido da ccbiça das couías da terra : aqui o 
Rey dosReysJESU Chrifto veík a outro Andronico 
a purpura de Marty r , porque fahio vencedor de todo 
o Mundo. S. Paulo invia íaudaçoens a outro Andro- 
nico parente feu ^ fegundo a carne , ao qual chama 

Xq».io.7, Apoftolo: Salutãte Andromcum ^bic. Enósaeílou- 
tro Andronico , parente do mefmo Paulo , quanto ao 
efpirito > o podemos faudar , c acclamar por Marty r 
vitoriofo : Salutate Andromcum > e a cada hum deftcs 
Santos Martyres podemos applicar aquillo de Santo 

©e virginib. Ambroíio a outro intento: Cujus m nomen quidem ffi 

í^« í» vacuum luce landis. 

II. Notefe o fegundo , como além daquelle com- 
bate exterior , e vifivel , que paffava entre os Marty- 
res , e os Tyrannos : havia outro combate interior , c 
invifivcl entre Chrifto, c Satanás. O Martyr era o 
inftrumento comqueDeospeleijava, e oinftrumen- 
to com que peleijava o demónio , era o Tyranno. Per- 
tendia o demónio extirpar a fé ; e pertendia Chrifto 
arraigalla mais,e multiplicais. O demónio inftiga- 
va o coração do Tyranno: o Tyranno mandava mo- 
ver as mãos dos verdugos. Os verdugos atormenta- 
vaô o corpo 4o Martyr , para que , puxando o corpo 
pela alma, a alma defemparaíTe a Chrifto, e vieffea 
obedecer ao Tyranno , e ao demónio. Pelo contrario, 
. Chrifto mandava aos Anjos : eftes fortaleciaõ , e con- 
' ' íblavao a alma do Martyr: da confolaçaõ da alma re- 
dundava vigor no corpo , e defprezo dos tormentos: 
ficava nos tormentos vencido o Tyranno , e no Ty- 
ranno o demónio, Asconfolaçoens naalmadoMar- 
^ tyr eraô eccos , que refpondiaò aos tormentos em feu 
corpo? aíTimpo.no a maò cruel do Tyranno hia pen- 
do 



Para feguir o be7n , e fugir o mal. 99 

do penas : a maô mifcricordiofa do Senhor hia accref- 
ccntando glorias. Com que o corpo do Ivíartyr era 
huma viíível campanha da invifivel batalha entre 
Chrirto, e Satanás 5 e por iíTo S. Cypriano chamou 
ao Martyrio , combate de Deos , e batalha de Chrif- 
to : Oriatr.cn Det^ certatnen fptrttale , pr^ehum Chrtf Ad Mart^ics 
í/, e bem fe via como Chriflo eftava dentro deftes ' **• 
Martyres, eo demónio dentro doTyranno. O pri- 
meiro na fabedoria com que rcfpondiaô , na fortale-^ 
za com que íoiriaô , uo zelo com que acodiaõ pela 
honra de Deos ; e o fegundo na fatuidade , cruddade, 
e obiiinaçaò do Tyranno. 

III. Noteíe o tercciro^como a eííes Tyrannos nao 
os levava o zelo falíb da fua religião , e da jufliça pu- 
blica , fenaò a malícia diabólica , que neiles influia , c 
ps.iiaíi^rgidi'^ 3 todas fuás inftigaçõcs, 

para perverter a confiança da Fé de J ES U Ghrifto. 
Itto fe moftra claramente, porque inquirindo doS 
reos , e achando-os confcffos , naô os davaõ logo por 
convicftos , nem lhes mandavaõ impor a ultima pena : 
fenaõ , que porfiavaõ em reduzillos à força de tor^ 
mentos. Tyranno , ou efte reo commctteo crime de 
morte , ou naõ ? Senaô , da-o por livre , e manda-ò 
em paz : e fe o commetteo , e elle o conftíTa, impõem- 
lhe a pena : ou fe tens compaixão do féu erro , bufca 
homens doutos , que com razoens lho tirem da cabe- 
ça. Mas Satanás era o que influía , e efte nao queria 
pe!e!]ar contra a verdade, que he muy forte, fenap*' 
coíitra o corpo,que por fraco podia ceder aos tormení-- 



tos. 



IVt Note-fe, como nunca efte Preíídente pode 
cumprir fuás vontades. Três vezes inflou, cm que 
os Santos facrificaíTem , e naõ facrificaraõ. Sentenr-', 
ciou , que as feras os coniclTcm , e naõ lhes tocarão ;e 

G ij pode- 



íoo Efthnulo Pratico , 

podemos com Santo Agoftinho emcafo femelhantc 
dizer 5 que vieraò naõ tanto para os injuriar , quan* 
Scrm.i.ác s. ^^ P^^'^ ^^ acreditar com hum novo prodígio : ^uà 
ymccmio. non iam aà mferendãm venijf^nt tnjunam , quarn aà 
augendam miracuU pompam. Quiz , que os corpos fe 
confundilfcm com os dos gladiadores , e fepararaõ-fc. 
Quiz , que os foldados os guardaíTem , e os defempa- 
raraõ. Quiz , que naõ tiveffem culto , nem fepulcu- 
ra j c de huma , e outra coufa lograrão. Quiz , que o 
Povo applaudiíTe aquelle efpedaculo , e murmurarão 
muitos , c outros fe levantarão. Somente o padece- 
rem 5 e darem as vidas fe cumprio , porque ifto mais 
p queria Deos 5 c os Marty res , do que o meímo Ty- 
ranno. 

y . Note-íe : Ifto das feras naõ fazerem mal aos 
Martyres , antes moftrarcm rendimento ^ c veneração 
fuccedco a outros muitos , que por iífo Santo Ignacio 
;jquando vinha de Syria para Roma fentenciado às fe- 
ras , fe temia de que com elle fuccedeíTe o mefmo. 
Ordenava Deos ifto para confolaçaõ dos Martyres, 
credito da Fé cm huma publicidade taõ grande, e 
confufaõ dos Tyrannos , que na fereza, e brutalidade 
cxcedkiõàs meímas feras. A imaginação com que o 
demónio neftes paífos os divertia , era perfuadirlhes, 
queaquella maravilha , ou era cafual , ou effeito de 
arte Magica, na qual entendiaõ^que eraõ iníigncs os 
Chriftáos. Ettes jogos de feras foy introducçaó do 
mefmo demónio , como todas as mais do Gentilifmo, 
_ para que o coração humano perdeffe o horror à mior- 
te , e derramamento do fangue humano , e aprendcíle 
a fereza de coftiiTies, e o indómito das paixões. Em 
Hefpanhi ainda fabe àGentilifmo, o jogo dos tou- 
vros 'j porque por mais que o dem por feguro , e inno- 
cente , o certa he y que quem gofta , ou de affiftir , ou 

^e 
I 



Para /egtítr o bem , e fugir o mal. i oi 

de fe expor a tal perigo , naô lhe falta muito para bár- 
baro 5 ou para inipio. Em huma fefta de touros em 
Cuenca , refere Marianna , que houve hum taõ feroz, 
que em huina tarde matou íêtte toureiros. (A morte 
he perigofa no leito , em braços de Sacerdotes : Vejaõ, 
que fera no corro debaixo das pontas de huma fera; ) 
c accreíbenta ^ que em vez de defterrarem femelhan- 
te folguedo 5 mandarão fazer hum painel por hum 
Pintor celebre, onde fe via o touro com os fctte mor-' 
tos a feus pés , e o puzeraó para memoria do cafo cm 
lugar publico. O que a mim , (diz com muita razaõ 
o lobredito Author) me parece , que foy levantarem 
os Cidadãos hum padraõ , e letreiro da fua loucura : 
§lMod rmhi amtnuo! ctvmm trophaum potms , monumm* Lib. 5. cap; 41; 
-tuni(jnepraclarum (tc^ítim videtur. Vejaô fe teve ra- 
zaõ Cafliodoro^de chamar a efte exercício jogo cruel, 
deleite fanguinoknto , e fereza humana : Ludum 
cruàeUm jjmgmnariam vohiptatem , humanam ferUa- 
tem 5 e o que mais he , Pio V. Pontífice Summo , e mais 
Varaô Santo , em quem concorreo o beatificar , c o 
fer beatificado , na fua extravagante Defalute 47. lhes 
chama efpedaculos alhcyos da piedade, e charidadc 
Chriflãa , torpes , fanguinolcntos , e naõ de homens, 
mas de demónios : Conjider antes , (diz o Santo dando 
a razaõ de os prohibir fob graves cenfuras , que hoje 
eitaõ abrogadas) hac fpeãacula , ubt taari , & fera m 
circo , aut foro agttnntur , à, pietate , & Chrtjliãna chari" 
ute ahena ejjc , ac volentes bac cruenta , turpta , ó^ die^ 
monum , nm homtmim fpeãacula abolere , &c. Para que 
fe conheça , com quanta razaõ lhe chama efpcdacu- 
los de demónios , e naõ de homens , ajuntarey aqui 
huma vifaõ, qiie teve a Venerável Virgem Dona Ma- 
rina de Efcobar, co-nforme a refere de humfeu ps-^^ 
pcl 5 o Padre Miguel de Orenha tomo 2. da fua Vid^,* 

G iij livro 



i ox EJlívmlo pratico , 

livro 2. cap. 7. ,, Aos 8. de Julho , que foy quarta fei- 
„ ra, ouvindo dizer, ( diz a Santa ) que aquelie dia 
,,fe corriaô touros neita Cidade de Valladolid; tive 
5, grand: pena , de que trataffem os homens de í olgar, 
^, c,n tempo , que tanta neceíTidaJe tem de fazer peni- 
7, tencia por feus peccados -, e eiMndo neíie {^eníamen- 
5, to , vi a JESU Giriíio Senhor NoíTo , que me diffe : 
5) Tu também has de ver os touros. Diíle Sua Magef- 
,5 tade efta breve claufula com hum femblante taõ 
i, grave, e com hum pczo taó grande da voz , que def- 
5, cobria ftr quem he , e que naó faJlava fenaò com 
,, muito myfterio. Com tudo iffo , eílranhey as pala- 
,, vras, por naõ entender o que o Senhor queria. Po- 
55 rém Sua Mageftade , para me deícobrir o em que fe 
55 fervia de que eu os viflTe, mandou a eíks meus Se- 
5, nhores Anjos, que me levaíTem à Praça ; e pondo me 
5, defronte do Moílciro de S. Francifco, vi (aqui en- 
^^ tremete outra claufula,que omittimos por nau pcr- 
,, tencer tanto ao intento, efermos breves) fahir os 
„ touros, e toureadores, e tudo me parecia hum jogo 
„de meninos 5 e que os toureadores eraô como humns 
„ crianças pequenas, e que os touros nenhuma força 
5,tinhaô, nem braveza. Yivlffimamente mo repré- 
5, fentava aflim o Senhor. Vi logo muitos homens^ 
5, que eft íva5 ria Praça , aos quaes fahiaõ os demónios 
„ como touros furioíiflimos-, ainda que em figura hu- 
5, mana , e de corpos de gigantes ai tiílimos, e feros. EC 
'^tes arremstiao aos miferaveis. homens, e os deípe- 
„ daçavaõ , fazendo nelles hum efpantofo eftrago. Ef- 
„ tava eu vendo efte laftimofo efpedlaculo, com hu- 
„ma pena ta5 grande, que fcme partia o coração. 
Até aqui a Serva de Dcos , e íuppofto vay proícguin- 
yào a íua vifaõ, o referido bafta para entendermos, 
que na occaíiaôdos no Toa touros ,, corre também o 

infer- 



Para feguir o bem , c fugir o mal. 105 

inferno os íeus , com grande eflrago das confciencias, 
e rizo 5 efeíia dos demónios. Porque alli fazem em 
nós as luas íbrtcs , da ira , da vingança , da gula , do 
faulto , e vaidade , da luxuria , da diítracçaô ^ da mur- 
muração, da loquacidade, daimmodejftia, eda pro- 
digalidade. Aqui perguntará alguém ^ pois fuppoíto, 
quenaò podemos emendar o mundo , nem prohibir, 
que os outros va5 aos touros, em que poderá huma 
peíToa empregar aquella tarde , que em toda a Cidade 
fe guarda melhor , que hum dia Santo í Refpondo^ 
que faça o que fazia o Santo Tobias , de quem refei'C 
o Sagrado Texto , que quando todo o Povo hia ado- 
rar aos bezerros , elic tomava o caminho para o Tem- 
plo , e alli mais à fua vontade adorava a Deos : Cum Xob. i, 15. 
trmt omnei a d vituíos áureos-^ quos Jcroboam fecerat Rex 
Jfrael , hic fulus fitgiebat confortia vmmum yfcdpergebat 
tn Jerufakm aà Templum Úommi , 1^ ibi adorabat Do^ 
rabat Dommum Deum IfraeL Se o fizer aíTim , agrada- 
rá a Deos, e efte Senhor lhe communicará osgoftos 
verdadeiros , que faõ os da alma. 

YI. Também os jogos dos Gladiadores fora© in- 
venção do diabo , cujo eftudo íe naõ emprega em ou- 
tra couía, que cm desfigurar a natureza humana, e 
transformaliaemfi, privando-a de todo o fentimen-» 
to de p:edade. A origem deík ufo , (conforme adver- 
te TertuUiano) foy , que os antigos , por entenderem 
que as almas dos defuntos fe propiciavaõ, ç conío- 
Javaõ com fangue humano, coflumavaõ nas fuás exe- ' 
quias íacrificar os fervos próprios , ou os de má con- 
dição comprados paraeikeffeito. Depois, quizeraò 
deíla impiedade fazer jogo, e cntretinimento,eor- 
<i:nara6, que elles mefmos huns aos outros fe mataf- 
fem , peleijando entre fi de dous em doas ; e para eftc'. 
effeito fe adertravaò primeiro, aprendendo as idas^ 

G iiij eve- 



I o 4 EJUmulo pratico , 

e venidis , entradas, e retiradas com outros antigos 
neile oíHcio , a que chama vao Laniíias. Publicava-íc 
o dia do o-iicio do defunto , (que por iíTo eík exercí- 
cio fe chiiuou Múnus y c os oíficiacs, que com elle cor- 
riaõ Mmerartos.) Armavaíe huma fogueira de lenha^ 
poftacom grande concerto, em cima fe collocavao 
féretro , ou efquife , com o cadáver para fer queima- 
do. Tudo à rodioccupavaoconcurfo do Povo. Sa- 
hiaõ os GlaJiadores de dous em dous a combater j c 
deftcs introduzio depois a luxo, e aocciofidade va- 
rias cfpecícsj porque huns peleijavaôfó comefpada« 
rombas , outros com huma efpada em huma maó , e 
huma rede na outra , com eíta faziaõ por embaraçar , 
■n .1 o trazer a Ci a cabeça do feu competidor , e com a ou- 
tra logo o apunhalavaõ. Outros , que por iffo chama^ 
va5 Bimaqueros , traziaô em ambas as mãos efpadas: 
outros era 6 anãos, efcolhidosdje propofito para íazo-^ 
nãr mais o jogo com a fua eftatura ridícula, e por- 
que o.appetite nunca diz baila , e fempre folga de ex-^ 
perimentar navidade no fcugofto; víera5 também a 
introduzir Gladiadoras , mu4h.eres bravas , e forçafa^j, 
que arí^cgaçados os braços efgremiaõ entre íi coma 
homens >c fe matavaô como feras. De todos, efles mi- 
fcraveis , poucos efcapavaô para outro jogo , fe o Po- 
vo na5 pedia, que os manumitiíTem; e ficava ©cam- 
po cuberto de fangue , e femeado de cada vares y e def» 
te modo fc confolavaó da morte de hum com homicí- 
dios de muitos: Ita mor tem homictdns confolãbanturi 
(diz Terculliano.) Vindo efte exercício ater tanto 
mayor appíaufo , quanta mayor crueldade : Paulatim 
frove^í ad tantam gr Miam ^ ad quantam & Cf-ndehtã' 
Hm. Começou eíle exercido por três pares de Gla- 
/^diadores na Praça chamada Boaria em Roma, no anno 
da fiAa fuadaçao quatrocentos c noventa , cxhibidos 



j y -.j 



Pú ra Jeguir obem^ e fugir o mal • \^^ 

pelos fíihos de Bruto , em honra , e exéquias da fua 
morte. Depois nas exéquias de Marco Emílio Lépido, 
fe exhibiraõ dezoito pares: logo nas de Marco Valé- 
rio Levino , fe exhibiraò vinte c cinco pares. Depok 
nos de Publio Linicinio , cento e vinte pares , e nos 
de Crixio, chegarão a cento e cincoenta pares, que 
todos morrerão. Crefceo o abufo , e já fem fer a titu- 
lo de exéquias, por qualquer outra caufa, como de 
alcançar alguma dignidade, ou vitoria, ou de feftc- 
jar o dia do feu nafcimento , faziao eftes efpedlacu- 
los. Nero , que foy hum demónio humano , fez fahir 
quatrocentos Senadores , e feifcentos da Ordem 
Equeftre: Herodes Agrippa deu de huma vez feif- 
centos pares de Gladiadores, Eis-aqui o que éramos 
as gentes , antes da Ley Euangelica , e graça de Chrif- 
to ter domado noíTos corações. Eis-aqu . como o Prín- 
cipe delie mundo eftava encaflellado na fua caía^ e 
ainda efti vera , fe outro braço mais forte o naõ defa- 
poíTara. E naó era ifto entre Maffagetas y ou Scy thas 
bárbaros , fenaò entre Gregos , e Romanos , que eraõ 
as nações mais cultivadas. E com tudo, (laõ palavras 
<le Ladancio Firiniano ) eftava nelles taõ apagadò..o 
lejitimento da piciade humana, quetinhaõ por fol- 
guedo o matar homens: Aàú lange ab hommtbusrè- tib.^.inftkuc^ 
^e/Jit hnmamtãí, nt citm ãmmà% h^minum mierficium-^ cap.io. 
ludere fe opinantur. Quem qu^zer ver mai^ defta ma- 
téria lea a Lypíío , no livro 2. dosSaturnaes, a Scaii- 
gero no livro r . da Poética cap. 3 5 . e a Dempftero no • 
íiv.f. das Antiguidades Romanas , cap. 24. e 2 5 . 

^ VII Notefe o modo com que a Providencia Di- 
vina com huma fó permiíTaõ fua , publicava a verda- 
deira Fé, e fazia , que fe prégaíTe diante de innume- 
ravel Povo, naõ com vozes , mas com obras, naõ ccm.^ 
letras , mas com prodígios , que naõ podiaõ deixar de ^ 

enten-- 



io6 Eftimulo pratico > 

entender. He certo, que todos os circunfíantcs ha- 
viaõ de perguntar; porque padecem cites homens? 
SaãChriltàos ! Que he ler ChriilSos? He profeffar a 
Lcy de Chrifto. E como ihes perdoaõ as íéras, que 
vimos defpedaçar a tantos , ou como eftaõ alli taó mo- 
deítos 5 e humildes folicitando , que as feras os tra- 
guem ? Se dcfejaõ a morte , certo he , que efperaõ ou- 
tra vida. Se moíiraò tanta virtude, certo he, que a 
íua Ley os enfina a íer bons. Nós com a noffa iey naó 
nos atrevemos a tanto, ncmosnoffos Deofesnos de- 
fendem em íemelhantes trabalhos. Logo efte Senhor, 
queelles fervem ,he o verdadeiro Deos , e Omnipo- 
tente. Deftc modo obrava a luz Divinaíuave , e for- 
rtemente nos que lhe naò punhaõ impedimento. 
; VIII. Notefe ultimamente , a providencia , e be- 
nignidade com que o Senhor difpoz , que houveíTe 
três homens Caiholicos , e pios , que tiveíTem cuida- 
do de bufcar , conduzir , e fepultar aquelles três cor- 
pos; e ihes infpirou, que oraíTem para ihesmoftrar 
quaeseraõ, e quamfacilmente afugentou os guardas. 
E comq inviou aquelles três faroes com cujo final fe 
; difcerniffem os corpos, econduziíTem ao lugar do 
feu depofito. Oh como em tudo iilo refplandece a 
Sabedoria , Mífericordia , Omnipotência , e Bondade 
do Senhor ! A quem fejaõ iiados infinitos louvores, 
pois fó elle he digno de íer amado , fervido , e glorifi- 
cado por feculos de íeculos. 



EXEM- 



Varajeguir o hem , efugiv o mal- 107 



EXEMPLO XIV. 

^^^37] E LOS annos do Senhor de núl quinhentos p^^,^ j^onfi 
l^^àm. oitenta e dous, viveo em hiinia Cidade ^* ^^ti^hactc t.->^ 
l^^j de Alemanha., certa peffoa, que defde "jZlfffrntm^s!^ 

"^^ J ^^^^ primeiros annos Í07 criada em lanto -'^"'A 4- $• » <? 

^ ' temor deDeos, e depois muy favorecida ^'^ubfep^c^^fode 

na oração , e trato familiar com íua Divina Magefta- peiíoa a quem o 
de, a quem coníagrou por voto íua virgindade, e ^^cneMlfàe\- 
'Chegou emíím a grãos de virtude finalada. Eítá por varai, | 
naõ acautelarfe de huma roim companhia , foy^|^.^. / 

Go^|^^|l|<j4€Ícuidandoíe da mortificação , eípecial- í 

mente da lingua : logo deo-í^^^^y^^Íggdadèsj finalmen- 
te dcfpcnhou/e em grttíffiftt^** peccados. Eis-vay 
hum abyfmo chamando por outro mayor abyfmo. 
Porque para que ò demónio a ajudaire em feus depra- 
vados intentos , fez com eile padlo exprclTo de o fer- 
vir , e lhe obedecer em tudo, com cédula firmada 
com o feu nome, em que íe obrigava a fer eícrava 
fua. Depois acufada dos inceffantescftimulos de ília 
coníciencia , e naò achando confolaçaõ em creatura 
alguma , defefperou ; e taò rematadamente , que cha- 
mava anciofamente por Satanás , que a levaíTe em 
corpo , ealma. Neíta imprecação porfiou muitos dias; 
e vendo que o demónio a naò levava , fuípeitou , que 
fe naõ teria dado por contente íó com o padlo por 
palavra , e por efcrito. E affim para mayor firmeza , e 
nova revahdaçíõ delle, commungou íacrilegamente 
quatro vezes ; e (perdoay ouvidos pios^ que a traz 
do efcandalo naò tardará muito a edificação) jurou "^ , 
pelo Senhor que recebia , que cila dava por firme , e '^^ 

valiofo 



..1. .A^lt' (1 A 



*^ q\ :» 



10 8 EJihnulo pratico, 

valioío o dito contrato com feii inimigo Satanás. Lo- 
go receandoíe , de que hum habito Santo que velna, 
foíTe por ventura a cauía de que o demónio fenaõ 
atreveíTe a tocalla ^ o defpio , e pizou /e arremeçou 
fora , dizendo com gritos vivos : Vem Satanás , vem , 
%\«^\K ^ r ,q «que já naò terás couía que te eftorve, Defde as ai tu • 
.\w.^t. :. H ras doíeu Throno vio o todo poderoío , emifericor- 
diofo Deos a mifería , e frenefi defta alma , e a tyran- 
vivà , que o inimigo commum com eila ufava , c em taõ 
opportuna occafiaò lhe invipu a pregar hum Sacerdo- 
te da Companhia de JESUS , que efficazmcnte movi- 
da de fuás palavras y o inviou a chamar em fecreto , e 
fe lhe lançou aos pés, .pedindo remédio fe o havia, 
EUe a recebeocomamor^levantoulhe as eíperanças, 
fez , querafgaíTe a cédula, que abjuraffe a amizade 
do demónio. Depois , feita hun.a confiíTí ô geral , to- 
n^pu a peitos o fazer frutos dignos de penitencia; tor- 
nou à frequência dos Sacramentos , e ao trato fami- 
liar com Deos , com que em breve tempo recuperou 
a graça, e devoção perdida ., eo que mais importa, 
perfeverou até o fim com vida exemplar , deixando 
muitos íinaes de fua falvaçaõ eterna. 

MORALIDADE. 

OS principaes avifos, que defte cafo podemos 
tirar^ faó os íeguintes. Primeiro, naõ fazer 
grande ftmdamento nos favores de Deos, re- 
cebidos na Oração, pois nem íaq. argumento da 
prefente virtude , nem da futura perfeverança , fe naõ 
¥iver fempre pendente da Providencia , e Mifericor- 
:dia de Deos, fervindo-o com amor cafto , e humilde 
V rendimento. Porque como os eníina o Efpirito Santo; 
bemaventurado he o Varaô, que fempre vive medro- 

fo; 



I 



Para/eguir o bem , e fugir o maL 109 
fo 5 porque o de condição dura , e íobre íi , padecerá 
ruina : Beatus vir quifemper eji pâvtdus : qui vei o rncn- pjoYgjb. if, 
tts iji Àura^ corruct in maíum. Sobre o qual lugar y diz 
S. Bernardo : In vnnate àidict nthtl aque efficax eÚe ad ^ 

I j j Serra. 54. 

gratiam premer cndum , rcunendam , rtcufcr andam \ 
quAmJioynm trmpore corayn LJeo tnvemarn non altum 
jafere , fed timeie : Time ergo cum árujhit grafia , //- 
me chm denuo revertei yr : & hoc ^fi [empa ejje pavtdum. 
Antes quanto mayor progreffo fizer huma alma nas^ 
virtudes p tanto mais devetemerle de fcus inimigos| 
ede fimefma^quc he omayor de todos. A nao quel Canr. 3 7. 
mais riquezas traz , mais guardas lhe metem , c o co-| 
fre,que mais joyas encerra , mais fechaduras o affe-\ 

furaõ. Quando huma alma chega a fer leito do ver- ^ 
adeiro Salamaõ, fao neceíTarios feíTenta valentes, 
qne o guardem, e defendaõ. As vtfitas, e confoia- 
ções do Efpirito Santo, ha5 fe de receber , mas com 
grande humi Idade , e reconhecimento da obrigação, 
que nos impõem para obrarmos com ellas. Porque , , 

( como diz o Pfalmo ) o Senhor naõ he fomente 
fuave, fenaó também redo : Dfdas ó' reÚus Dornmus\ p^^j^ 
fuave , para conceder a fua confolaçaò 5 reítopara pe- 
dir o noffo aproveitamento. Por iíTo S. Pedro , dizia 
ao Senhor : Ext à me Domine , quia homo peccatorfumj 
Sahi-vos , Senhor , de minha companhia , porque fou 
homem peccador. Sentio-fe carregado com o benefi- 
cio, e dignação de Chrifto; e vio , que lhe corria obri- 
gação de em prefença de hum Deos, naõ fer homem , e 
à vifta de tal beneficio , naõ fer peccador. Elegante, 
e piamente diíTe S, Bernardo : DulLe onm Chrijii , quia 
onm bencficiomm: St tamen non advertas -^ grave ó* 
pericoldfum. Omrat nos , cum exonerât Deus j onerat 
beneficio , cUm exomrat peccato : btneficta htíc funt cmriy 
(ifto fç havia dizer ao fogeito do exemplo) 7vfí inter ^^ 

tila 



I IO Eftimulo pratico , 

íUapavidm y^ humtlU per mane a$. O íTiodopois com 
que nos devemos portar nefta matéria, coniprehen- 
deo o Venerável Thomás de Kenipis, nos fegu ntes 

lap. i^f"^ '"^"' ^^^^^ pontos vOportet te àevoíwmsgratiam , ( i ) wjtan- 
tes qu^rer^.^ (2) dcfiderúnfer peiere , (3) panenter &fi' 
duciahíer expeãare , {^') gratmter reciperty (5) hnmt" 
Utercortfervare^ Çftudiofe cmnea operari-^ (7) & T)eô 
termmmn c^ modum fuperníe vtfitaíwms , dome veniat , 
(ommtttere. 

11. Fugir todo o poíTlvel de más companhias , 
porque naò pode naõ fer verdade o que diz o Efpirito 
Santo ,que com o perverfo nos perverteremos: Cum 
ferver p) per verter ís. Exccptos os cafos , em que o mef- 
moDeos nos mete nelíf^|:^igo*J^p"or iílocomeípe- 
cial providencia nos defende delle, bem podemos af- 
íentar no fobredito deíengano , como ccrtiífimo : que 
por iffo acautelando Deos ao fai Povo , que naõ com- 
municaíTc com idolatras, uíou defte mefmo termo: 

3. Rfg. II. t. CertiJJhrk emm avertent corda Vijtra^ut fequãmint Deos 
earum, Ccrtiflimiimente , (diz o texto) perverterão 
os voffos corações , para que íigaõ os Deofes falfos , 
que elkf^ feguem. Mas porque o noíTo eípirito por 
eftar immerlo na matéria defte corpo , fe leva às vezes 
mais de femelhanças materiaes para affentar em algu- 
ma verdade ; confirmemos etta com algumas 5 e feja a 
primeira a do fermento, que metido na maíTa, por 
elle fer azedo , a azeda toda. Aíluii fuccede aos ho- 
mens de coração fincero, que acompanhando com ou- 
tros de coração maliciofo , brevemente fe tornaõ ma- 

i.Corimh.$. licioíos. Defte fimil UÍOU S. Paulo , dizcudo: Neco- 

mijceannni formcartis , e^ cum hujufmodt nec cibum [ti" 

mite. An nejciti.^ , qma modicnm fertnentum tntam maf' 

y "^ fam corrumpit ? Segunda , dos leprofos , que para naõ 

pegarem aos outros a fu:i infirmidade, os mandava 

Deo5 



Para fcgttir o bem , e fugir o mal. 1 1 1 
Deos apartar cio povoado. E quem duvida íer o vi- 
cio lepra muito maiscôntagiofa. Com razaó íe quei- 
xa S Gregório Nazianzcn o , de que os peccadorcs eí- 
cand:iloios os naò mande a Republica também apar- 
tar , fazendo menos cafo da laude das almas , que da 
dos corpos: ha (diz o Santo) meíio) (Jlccndtfw viiu-, 
quam morbi. Mas já que eiies íenaõ apartaõ dos ou- 
tros, apartem-íe os outros delies. Terceira, do coí- 
tumc antigo de alguns tyrannos , que atavaõ o corpo 
de hum homem vivo com o de hum morto , para que 
alli apodreceíTe com elle. Vivos faõ os juftos , íegun- 
doaquillodo Apoiiolo: JujimauUmmam ex fiáevi* Kcbr.i». 38. 
vn, E mortos ía5 os peccadares ,legundoaqyiliode 
noíTo Salvador: Simtt morlim [epdnt mortuvs Juos. Matth. «.1». 
Pois para que os mortos corrompaõ os vivos , ata o 
diabo aos juftos com os peccadores Defle fimil uíou 
S, Clemente Alexandrino cm femelhante cafo, di- 
zendo , que o demónio atava com o vinculo da falfa 
religião os idolatras com os idolos de pedra, para 
os torníir de pedra , duros , c infeníiveis para as cou- 
fas Divinas: Draco ille anitquut^ (faõ palavras do in exhoitatio- 
Santo Padre) tyram:orum aníKjtmum more j vivos ca-* ^^ «^ S^»^*- 
davcrtbm allt^at , donec ctim tllis pnínfcarn : Jíc homi* 
nn (imulr,chrt$ , & lapidtbu^ nlíigavit , tit jiermt ad di» 
vina lapidei , & infenfihiUs. Quarta , dos veftidospre- 
cioíos , que andando em mãos de gente pouco aíTeadà, 
fe enxovalhas , desluftraõ , e enchem de nódoas. As 
almas juftas faõ as veíiiduras de Chrifto, que por iíTa 
eík Senhor fe queixou a S. Alexandre , Bifpo de Ale- 
xandria , de que Arrio pervertendo as almas , lhe raf- 
gara as fuás veíiiduras. Quem pois naõ vê o perigo^ 
querem eftas aimas fe íenaõ guardcu-em do trato de 
nicios immundas , que logo lhes liaõ de lazer perder a - 
limpeza , e luftrc. Neffe penfamcnto parece , que ef- -x 

tava ^ 



1 1 1 Eftimulo prático , 

tava Santo Ambroíio, quando diffc; Mâlonim con- 
verfãíio fobriam eiiam mmtcm mficit , c^ decolar aí» Tu- 
do ifto verifica a defgraça dologcito donoíTo exem- 
plo, que por naõ acautciarfe de huma má companhia, 
fe azedou com o feu fermento , íe inficionou com a 
fua lepra , fc corrompeo com a fua podridão , c fe 
manchou com a fua immundicia. Oh fujamos de ta5 
certo , e grande perigo , enfinados primeiro pelo ef- 
carmentoalheyo, do que pela experiência própria. 

III. Naõ defprezar os peccados leves , porque 
delks fevemacahir nos graves: Gltnfpermt módica^ 
pãulatim duidit. No Euangelho he comparado o de- 
mónio ao ladrão j e o ladrão fc naõ pode meter peia 
porta o corpo, mete a maô pelo poíYigo , com que 
abre toda a porta. Por iíTo nos avifa o Apoftolo , que 
Epkef. 4 17. naõ demos nenhum lugar ao diabo : Nolite locttm da- 
re áiabolo ; porque em lhe concedendo qualquer lugar 
cmnoffaalma, alli faz íitio para nos firmar huma ba- 
taria , e ganhar a praça toda. Ella peíToa do exemplo, 
quem duvida , que naõ começou a fer^má de repente; 
e com tudo , chegou a fer peífima. Qual foy a caufa , 
íenaõ o defprezar os peccados leves? Diria huma pa- 
lavra ociofa , depois quatro , logo alguma deftas men- 
tiroía , depois com juramento. Já Deos lhe havia de 
eíconder o rofto na oraçaõ : voltarfehia a bufcar con- 
folaçaõ nas creaturas ; efía rara vez eftá livre de pec- 
cados : com tantos peccados , já fe envergonharia de 
ir aos pés do ConfeíTor , que fabia das muitas miíeri- 
cordias, que Deos ufara com ella. Faltando a frequên- 
cia dos Sacramentos , eftava mais débil para refiftir às 
tentações. Viria à prefença do Supremo Juiz o ícu 
anjo máo 5 e diria: Senhor, a tibieza deilaalma, e 
) falta de perfeverança me dá direito , para que attente 
,'-' em matéria mais grave: dayme licença : Tinha o Se- 
nhor 



Para fegiúv o bem , e fugir o mal. 1 1 5 

nhor razaõ de permittillo para humilhar aquella alma. 
Temo-la cahida da graça de Deos. Agora entra afen- 
tença deS. Paulo 5 em que affirma, fer moralmente Hebe. «.4; 
impollivel , que os que huma ve^ foraõ allumiados , c 
provarão dos dons Celeftiaes , e foraô participantes 
do Efpirito Santo , e ouvirão a palavra boa da conver- 
façaõ do Senhor , e com tudo deraõ a través , que tor- 
nem a renovaríc pela penitencia. Efta he a regra da 
Juftiça Divina , fuppofto , que no prefente cafo fez 
exceiçaõ a fua miíericordia. Seguiraõ-fe pois os pec-^ 
cados da luxuria , que he o mefmo , que tapar os olhos 
à alma • já agora com elles tapados irá onde a levarem. 
Ficára-lhe lá no fundo alguma raiz de querer eftima- 
çaõ pela virtude : Vefe entalada entre o temor de 
perdella , e o dcfejo de cumprir feus appetites: Que 
remédio? Venha o demónio, que nos ajude por dentro^ 
e nos encubra por fora. Como ha de fazerlhe a vout 
tade o demónio , fe cila lhe na5 fizer a fua ? Pois jurO 
de fer efcrava fua em tudo o que me mandar. Entre 
tanto DeosNoffo Senhor retirava a fua luz, porque 
lhe naõ davaô entrada alguma. Mas com tudo a conf- 
ciencia levantava o grito; c ifto mefmo era alguma 
luz de Deos. Quem lhe havia de acudir , íe tinha def- 
merccido o auxilio. Crefce a anciã , e o aperto. Diz 
o inimigo : boa occafiaõ para lhe afogar a efperança. 
Defefperou. Já elege por remédio a fua fumma mife- 
ria ; e quer applacar as fúrias infcrnaes , com o facri^- 
cio ultimo da fua condenação. Effe rafto de fé morta, 
que lhe ficou , pela qual fabe, que no Santiífimo Sacra- 
mento, eftá Chrifto verdadeiro Deos, e Homem, e que 
elle he a fumma verdade para fundar, eeftabelecer 
todas as verdades , converte em obfequio de Satanás, 
jurando pelo Sacramento do Divino amor , de naõ ter . 
amor , fenaó a quem a Deos , e a ella tem fummo ódio; 

H epor- ^i 



naut. 



ri4 Eflimulo pratico t 

e porque nem ofFeníá venial commctta contra ofeu 
novo ,e falfo Deos 5 ou pareça , que fe envergonha dç 
porfe cm campanha aberta por elle; até aquclle exte- 
rior de piedade defpe com promptidaõ, arroja, e pi- 
za com defprezo. Oh Deos eterno , e infinitamente 
amável ! Como naõ haveis vós de querer , que as al- 
mas que vos amaõ façaó outro tanto como as que vos 
aborrecem ? Como naõ tereis razão em pedirlhes , que 
pizcm o mundo , que vos íacrifiquem o coração , que 
enloqueçao com a força do voífo amor ^ Mas tornan- 
do ao intento; cis-aqui , almas, quamfeguro hedeí- 
prezar peccados veniaes. Poderamos aqui dizer com 
o outro : Nmc m me cadunt folia : pojl cadem arbores. 
Concluamos pois comaquella fentença de S, Cypria- 
lib.4ezdofe ^^ • Porro Dommus nos cauta fohcttudme vigilar e pr a!- 
»iox«. cifit , ne adverfarius vigitans Jemper i & jemper tnfi^ 

àiam^uhi m peííus obrepferit y defcintilUs cmfiet mcen^ 
dia I deparvis máxima exaggeret. 

IV. Quanto mayor for a converfaõ de huma al- 
ma a Deos , tanto mais tem que temer , que a fua per- 
verfaô feja peilima. Qiieda de alto , naõ íó piza , íe- 
naô que deírnembra : o vinho fe foy generoío, tor- 
cendo fica vinagre fortiíTimo, Os monfíros , tanto ma- 
yor calamidade prognofticaõ.> quanto as partes de que 
fe compõem íaõdeanimaes mais perfeitos. Succede 
ait?T. íàI\ ^^ ruina dos homens , o que fuccedeo na dos Anjos, 
dos quaes diz SantoThomás , que quanto de mais fu- 
perior ordem eraõ , tanto mais gravemente peeeáraõ. 
Os virgens , os dedicados a Deos , os que tem a fua 
converfaçaõ no Cco , mais que na terra , os que na 
oraçaõ continua > e exercício de jíKrulatorias ampro- 
fas eftaõ íempre clamando Sanííus , SanBus , SanBu '^ 
; que feõ , fenaõ Serafins ? Deos os livre de cahirem , 
porque íeraõ Luciféres Bom exemplo ode SauJ^Delle 

diz, 



Para feguir o bem , e fugir ornai. 1 1 y 

diz , quem naõ pode dizer mentira , que naó havia cm 
todos os filhos de Ifrael melhor homem , que elle : 
Noneraivtr de fins Ifrael melior tile. Até aqui podia j^j^eg.^,!,; 
parecer Anjo : vede-o depois demónio J foy mvejofo, 
ingrato , delbbediente, traidor , endemoninhado, am- 
bicíofo , cruel , e homicida de fi mefmo , naõ lhe ha- 
vendo também faltado o coníultar feiticeiras. Aqui 
fe verifica o que diíTe Ariftoteles nos problemas , que 
os Athletas,(eraõ os lutadores robuílos) ou naô adoe- 
cem , ou adoecem de morte : Athleta , aut mn afficiun-^ 
tur morbo , ãut lathali Se alguém pergunta as razões 
deík doutrina, parece, que faõ as feguintes,oufe- 
paradas, ou concorrendo. Primeira, que o Author 
da graça abre maó de peffoas femelhantes , quanto a 
mayor numero de auxílios opportunos , porque lhe 
foraó mais ingratas. Segunda , que eftas peffoas def- 
prezaõ os caminhos da luz , e os confelhos do proxí^ 
mo, c a doutrina dos livros, c púlpitos j porque fa- 
zem conta , que já os íabem, e qne os podem enfinar. 
Terceira , aprehendem demafiadamente a grandeza do 
feu mal, devendo divertir delle o penfamento , e fa- 
zer conta , que naõ cahiraõ ; porque defta apr^hcnfao 
lhes nafce a defconfiança , de que poderáõ recobrar- 
fe. Por iffo aproveitou muito àquelloutro Monge, 
que cahio efpiritualmenre , defmentiríe comfigo , di- 
zendo ao tentador , naõ pequey 5 e fó a Deos : Pecca-- 
vi. Quarta , que para arribarem , lhes he neceffaria 
huma grande penitencia, c efta naõ he fácil ,^eftando 
a alma taõ debilitada com a ruina antecedente. Naõ 
obftantes eftas razões, tudo hc poíTivcl à graça de 
Deos , concorrendo a noffa liberdade; e nunca con- 
vém entregar ao defmayo, porque delle nenhum pro- 
veito fe tira 9 fenaõ pegar com quanta força puder- 
mos da interceffaõ de MARIA Santiffima , que he me- 
ti ij dicina \ 



%i6 E/limu/o pratico y 

dicina dos incuráveis ? e bem pode fer , (como efte ex- 
emplo nos cníiaa) que a corda puxada a traz, faça fa- 
hlr a fetca mais adiante , ou ao menos , que no reftan- 
te da vida fe naõ formos tâõ fervorofos , fejamos mais 
hrumildes. Daqui n^fce 

V. O quinto,. € ultimo avifoy nunca deícon- 
S^^çch. i8» ^^^ ^^ mifericordia Divina : porque Imptetas tmpii non 
nocebttet inq,uacumqm die converfus fuertt áb xmptttatt 
fua* Na5 tem Martha , que duvidar da refurreiçaò de. 
Lazaro, por fer morto de quatro dias : ^atridua- 
fmmejtyjamf^tet i porque Chrifto ab xterno he vi- 
da , c reíurrciçaô : Rsfurgttfrater tuiis : egofum nfur- 
reííiOi &vtta. Porque hade opeccador dar ouvidos 
ao demónio, ou àfua deíconfiança , que lhe diz : Nen 
pmris pravalerey.^nt«ú\o% ao que diz Dcos^ ao que 
affirma Chriíip, ao que pregoaõ os Santos y ao que 
moftra a razaô , ao que lança o fello a experiência ? 
Que diz Deos ? Naô quero a morte eterna do pecca- 
dor, íenaõ, quç fc converta, e^viva: Nolo mor tem 
peccatoris tfed magiSy ut conmríatur ^ ó:vtvât. Que 
affirmaChríftò Salvador noffo ? Naõ vim a chamar os 
juftosyfenaô os peecadores; naoneceíTitaõ demedi- 
I^atth. ^. u. CO os fãos , íçnaõ os enfermos : ; Non vem vocare juftos^ 
*^3* fedpeccatores: Nonefi optnval ntibus medicus ^/edfna' 

le habenttbus. Que pregoao os Santos ? Chryfoftomo 
diz : Milhes peccaftt , rmllm fy<!emtere > ettAm m extre^ 
mo 'uitée mimam eflans: nontmpedttur temports angu-- 
fiiis miJmcôrdmDei^ Peccafte milhares de vezes ? Mi- 
lhares de vezes te arrepende ^ ainda que eftejas no cx- 
tremoda vida ,,d€fpedindo a alma com os últimos ar- 
rancos. Bernardo diz : Cum Deus veltt mtferen quia 
hnus j cumpoffit quia ommpotens , quis dtffiáaV. Sendo 
Deos infinitamente bom para querer , e infinitamente 
podçrofo para poder remediamos , quem defconfiará? 

Emais 



Para/egm o bem ] e fugir o mal. 1 1 7 

E mais abaixo : ^ud tam ad mor tem , quod Chrijit mor^' 
U non fdvetur ? Que mal ha taõ de morte , que com a- 
morte de Chrifto naõ fe vença ? Agoftinho , por cuja 
cafa paíTou a experiência , diz , todo trocado do que 
era : Corufcajli , & fplcndmJU , & fugaftt C£cttaitm 
fneam : fragrajli , & duxi fpirtinm , ér anbelíMibt : gu- 
ftavi , ^ efítriQ , & fitto : tettgifii me % & exarfi tn pa^ 
cem Htam j Senhor , rcfplandeceftes , e fugirão as mi- 
nhas trevas: recendeftes, e tomey reípiraçaõ, e já 
anelo a vós : déftes-vos a provar , c ]á tenho fome , c 
fede de vóá: tocafte-me, e atceyme em voffo amon 
Que moftra a razaõ ? Que naõ pode o Omnipotente 
ftr vencido de noíTas maldades : Pareis atitem omni- 
bus ^qtnaomnia potes, Qiie o pay naò deixa de fer pay, 
porque o filho pródigo fefahio de fua cafa ; que fe o %, Mtch. i. ' 
Sol creatura fua tem efficacia para converter a agua 
lodofa em fogo para o facrificio , muito mais a terá o 
Solde juftiça, para converter a alma peccadora em 
fogo , e holocaufto vivo de feu amor 5 e que fe as leys ^ ^^a aiiqaa»; 
da terra naõ concedem prefcripçaò do homem livre, capionrbií."^"' 
nem da couía íagrada, ou religiofa, nem do fervo 
fugitivo, nem das coufas furtadas, ou levadas por 
força , ainda que por longo tempo foíTem poíTuidas: 
muito menos permittiráõ as leys do Ceo , que o de- 
mónio prefcreva o dominio de huma alma , fendo a 
alma por lua condição livre , fendo coufa fagrada , e 
rcligioía, pois he dedicada para oculto de Dcosve 
fcllada com a fua imagem ; e fendo o homcin íervo feu 
ainda que fugitivo , c fazenda fua , ainda que furtada, 
cpoíTuída por longo tempo. E finalmente , que con- 
firma a experiência ? Refpondaô, Paulo, Pedro , Mat- 
thsos , e a Magdalena : refpondaõ as Egypciacas , as 
Thaes , e as Theodoras , e outros innumeraveis pec- 
cadores 5 e depois Santos, triunfos todos da miíeri- 

H iij cordia \ 



Prslm.i)5> 



ii8 Eftimuloprútkõ^ 

cordia Divina contra a diabólica tyrannla. A cuja 
companhia íe chegue cila alma do noíTo exemplo , em 
quem , fe abundou o delido, íuperabundou a graça 
do Senhor , para que nas miferias grandes avultaíTem 
as mayores mifericordias ; e todos a humavoz can^^ 
tem ao fom da harpa de David : Confitemini Domim 
qucniam bomis ^ quoniam inattrnummifencordiaejus. 



EXEMPLO XV. 



Paàve Hdifi ro 
1ratad<i aoPur^ 
gaicrio» 




PADRE Fr. Jofeph de JESUS MARIA^ 
Religiofo Carmelita Defcalço conta , que 
outro Religiofo da fua Ordem conhece- 
I ra hum Pintor de bom viver , o qual ha- 
vendo pintado hum Retábulo da Igreja, 
mortfco, deixando para Miffas o preço da obra: íuá 
alma appareceo depois ao tal Religiofo, rodeada toi 
da de horríveis labaredas de fogo , e lhe diffe com voz 
trifte , e laftimofa. Ao partir deííe mundo , fuy pre- 
fentado perante o Tribunal do Juiz Supremo, e ac- 
cufada fortemente pelo efcandalo, que com huma 
minha pintura deshoncfta dey a muitas almas,as quaes 
por eíTa cauía penaô no inferno. E eftando nefte aper- 
to anguftiada , vi acudir muitos Santos, que em meu 
favor alegavaó haver feito penitencia, e pintado tam- 
bém as fuás imagens ,. grangeando com iíTo a elles ve- 
neração, c gloria aDeos 5 entaõ mandou o Juiz , que 
foffe depofitada no fogo do Purgatório , em quanto 
fenaõ entregava ao fogo a tal pintura efcandaloía. 
Venho agora a pedirte avizes a fulano , a queime logo 
logo ; e em íínal de fer tudo ifto verdade , para que 
me creas , e tocreaõ 5 dize^ie, que dous filhos quô 
- ^ ^ tem. 



Varafegtíiro befH , e fugir o mal. \ i ^ 

tem , lhe morrerão ambos nefte mez 5 e elle t^imbem; 
lenao obedecer / morrerá brevemente. Avifada ã 
peíToa ^ queimou logo o painel. Cumpriofe o final da 
morte dos filhos : fez penitencia , e compeníou a di- 
vida daquelle peccado , mandando também pintar 
muitas imagens de Santos. 

MORALIDADE. 




I. ^'^ Uidaria por ventura efte Pintor, de quenx 
I^ a hiftoria falia , que naô era perigo confi- 
^^ deravel o fazer aquella pintura inhonéf- 
ta V e fe diífiçultaffe o fazella o arguiriaô de efcrupu- 
lofo. E ella eftava condenando almas j e foy necef-^ 
fario cobrilla com outras pinturas de muitos San- 
tos, para naô provocar á ultima ira deDeòs ; e em 
fiíH'1 arder èm fogo , ou o Pintor , Ou pintura. Erra* 
das lhe lançou as linhas o feu artífice, e mál defeo-^ 
brio os longes , que podia vir a ter no outro mundo; 
S. Clemente Alexandrino chama às pinturas , e efta-^ 
tuas lafcivas , leitos da impudicicia, os quaes adorna o 
Pintor, para peccarem osolhosYe a imaginação de 
quem as vê; Tbalamos ornatis impudicítiaiformcatifunt' 
èculi , ^ , quodetta.m mngis mviim , -veftis ante comple» 
xum,^ adnítmtimcommiierunt affeBm 5 S. Pedro Ghry-^ 
fologo lhe chama adultérios formados de relevo )' 
fornicaçoeas trasladadas com o pincel , e inccftos 
declarados com o feu titulo , pela pintura': Formato 5^^^^, w. 
adulíert<i tnfimuliichris ^forntcatwms ifnaginihm fiímâa^ 
tiuí \Utulatn incefia piãuns-y razaòhe logo, que pec^* 
Ciado , que tanto excita ao fogo da luxuria , fc apagiie"^ 
Corri ofogo do outro mundo ; e que com iuíYiíTiiiio ta- 
lião arda quem fez arder. De Tíieofilo , Emperador 
Itonoclafta , ou perfeguidor dasimagês Santas íè còii-^' 
■^''■'- - H iiij tai ) ^ 



Malct 



110 EJllmulo pratico] 

ta , qne prendeo , e vexou a hum Rntor celebcrrímo 
naquelle tempo , por nome Lazaro , porque pintava 
imagens de Santos. Depois quefahio daprizaô con- 
tinuou como de antes o mefmo officio. Mandou-lhe 
queimaras mãos com laminas embraza, ecomtudo; 
lempre pintava , e cada vez melhor. Sc ha hum Prin- 
cepe Ímpio , que queima as mãos de quem pinta ima- 
gens de Santos. Porque naò havia também de haver 
hu Senhor juftiflimo , que qucimaffe as mãos de quem 
pinta imagens profanas ^ E naò fó as- mãos de quem. 
as pinta , fenao também os olhos de quem as vê> pois. 
ainda peias kys do mundo , igual culpa heenfinarda 
L^D. â.cod, «e que aprender a maldade : Culfajimiiis efi tam prohi-^ 
btta dtfcere , quam doccre ? 

IL Eíiatuas, e quadros de Deofes , e Dcofas^ 
Ninfas,, c Satyros, e outras quaefquer repreíenta- 
çoens profanas , em que o diabo lançou o debuxo, e 
O' appetite o colorido, tudaifto de huma vez fe havia 
de entregarão fogo.Que tem osChriflâoscom a Gen- 
tilidade , que ainda para lá voltaô os olhos ? Depois 
que Deos encarnou , e fe fez menino ,c fe Sacramen- 
tou , e padeceo por nós í depois que fabemos os myf-- 
terios da Vida de Chrifío , e de fua Mãy SantiíTima ,. 
C as proezas dos Santos; naõ he vergonha acharemfe? 
cm lugar de coufas taõ nobres , e verdadeiras , c pro- 
veitoías , pintadas nas noíFas falias , e preíentes na* 
noffa memoria as Fabulas de Juno , e de Vénus , e Jú- 
piter, e outras, monftruofidades fcmelhantes igual- 
mente vãas do que nocivas ? Por ventura nos faz fau* 
dades o culto dos Gentios, que como tacsnoffos an» 
tepaffados tiveraõ ; c queremos confolarnos delias: 
com eftas reprefentaçcens ? Oh que naô ha aqui a 
perigo que fe coníídera , e fe dá fomente eftimaçaõ à 
'^ Ws^ Se ha 3^ Qtt liao perigo, diga-o a cxpenéncíâ^ 

amdít 



Para fegulr o hemy efugw o mal 11;'% 

ainda naõ fallando na do noffo cafo. S. Profpeío rC^ 
fere o cafo de huma muiher , que vendo huma eilatua 
de Vénus , fe deu à vida licenciofa , e corrupta* De> Prorp. Dimídi 
Praxitcles íe refere , que fc enamorou de huma; pin- i^i^Eot. cap ?- 
tura, que elle mefmo fez \ e na Ilha Samo, outra man- 
cebo trouxe amores com huma de pedra. Diga-o a. 
authoridade dos Doutores , que refolvem que os artí- 
fices de femelhantes obras peccaò mortalmente, ou; 
as exponhaõ em publico, ou as guardem parafi. Nç^\ 
3aõ-íe Sanches , livro 9. de Matrimonio, diíput. 46* 
Azor tomo 2. Inítit. liv 1 2. cap. uit. quxft. 9 Filiuc. 
traíl. 28. cap. i o. quxft. 8. num. 226 Bonac. trad. de 
Matrim. qua^ft.4 pund 9 tom-i. e no Cânone een-< 
r-cítmo do Concilio TruUano , fe p'ohibem eom.o ef- 
candalofas femelhantes figuras-, e fe manda depor, 
quem for contra eftc Decreto : Pt£iuras ngo qUiS ocu^\ 
los perjirmgunt > á* mentem côrrumptmt , & ad tar- 
fium vúuftatum wovent incendia^ nullo mode demcep% 
tmprtmi jubemus : jpquts aut fáocf acere aggreffus fumtp 
áeponatur. 

IIL E íc acafo tem por mais fidedignas teflemu-- 
nhãs os mefmos Gentios , ouçaõ a Séneca , que chamír. 
aos taes Pintores , Luxurta mintfiroSy corretores da Epift g^. 
luxuria ; e por certo naõ he mais honrado efte officio 
feito com a perfuafaõ das cores ^ do que coma dasr- 
palavras. Ouçaõ a Quintiliano , que diz : PiãuTée 
totens ofusfic mimos penetrai affebus , utipfam vim di^ 
t^ndi nonnunquam fttperare videatur* Ouçaõ a Pro»^ 
pcixio ,,que cantou. 

§llfamanus obfdenas áepinxit prima tabeliã^ 

Et pofutt cajll / urpia vifa domo; 
Itia puellarum tngenuos corrupit ocellos ^ 

NequiHaimíU(emluitejj[ertida^ 

Krm \ < . 



E no tocante à difculpa da effimaçaô da arte 5 pcrgun-*) 
to-, qual hc mais para eíiimar , a obra dos homens , oiir 
a dcDeos, queellc mefiiio aprovou por boa? Quab 
he mais digna de feconfer/ar ? Pois íè a alma he ima-= 
gem de Deos, e eítoutras imagens dos demónios a^^ 
corrompem, e aííeaòj porque havemos de fazer mais ;» 
cftimaeaõ da obra morta , que fez hum homem y do. 
que da obra viva , que fez a Santiílima Trindade \i 
Porqucihavemos de perder eftj por conferva* aquôl^i 
la^ Ifto naô tem repofta nenhuma diante do Trim-* 
nal Divino, fenaõ fomente, fe fizemos penitencia, i 
ir acabailano Purgatório'; e fenaõ, ir começalla no in-f 
ferno ^para nunca mais fe acabar. 

IV". A Poeíia também he pintura , conforme o^ 
ídagio antigo : Poejis pittura loquem , Piãura poeJiP 
tacita. A que hoje íe ufa pela mayor parte merecia'' 
também o meímocadafalfo. Com razaõ louva Santo> 
Agoftinho a Platão de ordenar na ítia Repuipiica , que 
femelhantes Postas foíTem defterrados , como corrup-i 
tores públicos dos bons coftumcs, e conftitahia ceg-j 
fores, que examináffem as Poeíias.Óh quanto lia vètí a, 
que examinar , e defterrar no noíToíeculo , e na moíTa 
Hefpan ia ! E o que mayor erro he , cuidaõ feus Au- 
thores , que a matéria que naõ he profana , naõ he taô- 
accommod:".da para cfta arte campear |e que o efpiri4 
to devoto íéca as veas da Mnfa. Enchem-fe as'pagi-! 
Has de conceitos , e equívocos , e certames , c deliriõs, 
fobre dcLcrcver asfeiçoens de huma mulher , e 03 af- 
fcdtos ds huma paixão defordenadá; efeihes proi 
puzelTem por matéria alguma acçaó heróica , de que 
as vida^' dos Santos 'cftaôchéas, algum detantosXuc- 
ceíTos raros , e memoráveis de que os Sagrados livros 
abundaò: aquife murchou ofeu louvor , eíi ftcou 
a Cabalina -, aqui nao fabem levantai conçeifcos , nem 
<""^ íervir 



Vavafegm o bm\ e fugir o mal. i >^ ^ 

fcrvir com o fcu officio à religião , e piedade 5 e raza5 
diflo he, porque naõ podem pintar fora as idéas qirs 
naó tem dentro , e naô cofiumáraõ a fua fantaíia à 
conceber penfamentos fantos, 
-: V. Mas deixemos os Authores de fcmelhantes li- 
vros : vamos aos leitores. De que ferve a hum Catho.^ 
lico ler Comedias 5 e novellas , e verfos profanos ? De 
gaftar tempo? E naõ fé gafta com mayor utilidade 
em ler Vidas de Santos , verfos pios , e tantos outros 
livros excellcntes, que deleitando enílnaôyc' tiáS- 
manchaõa confciencia? Se fouberamos, que lança- 
rão veneno em huma fonte , beberíamos delia , por 
mais fede que tiveííemos ^ tendo outras fontes fem 
fofpeita onde beber? Naõ por certo. Pois fe os li^-J 
yros faó humas fontes publicas , onde a fede de fabèr^ 
que nafceo comnofco , vay a faciarfe ; porque efco- 
Ihcmos antes o beber dos livros onde ha veneno ^ áa f 
que dos outros onde naõ ha íenaò aguas íalutiferas ? | 
Porque havemos de ter taõ eftragado ogoflo, que 1 
^oftemos mais de Florinda , do que de Filothça ; mais. j 
de Horlando furiofo, do que do Paftof de noche bue- J 
na ; maia da Arte de amar de Ouvidiò \ do que da Arte | 
de bem morrer de Bellarmino j mais daFlorefta Hef- 
pànhola, do que do Prado efpiritual^ e mais dos li- 
vros, cujo titulo he Comedias , do que daquelles , cujo 
titulo começa : Meditaçoens ? Qual deftas duas çlaíTcs 
de livros folgaremos de haver lido,quando chegarmos 
à hora da morte, e ao momento da conta, do qual 
pende toda a eternidade ! Se hum S. Jerónimo foy 
açoutado por mandada de Deos , em caftigo dè leír 
muito por Cicerone o defmentiraõ na cara, de qiiè 
naô era Chriftaõ , fenaô Ciceroaiano , que efperambs 
nós por fruto de haver lido outros livros , que na uti- 
lidade jC na eioqueiícia faõ taõ inferiores í Oh ceife 
^ " por 



114 Eftlmulo pratico]^ 

por amor de Deos , cwmbem por amor de nósmeP 
mos, ceíTe efta hydropefía, que temos de ler livros 
profenos, ou totalmente inúteis , ou em grande par- 
te nocivos ; e convertamos efta vontade em bufcar as 
fontes das aguas vivas , e falutiferas , que faó as Ef- 
crituras Sagradas, e as Vidas dos Santos, verdadeira- 
5nterpreta(j:aò delias. Pratiquemos a admoeftaçaõ de 
meu Padre S.Filippe Neri, o qual aconíelhava , que 
leffemos por livros que começaòporS, entendendo 
as obras , ou vidas dos Santos Padres. E íeem noffb 
poder íc achaô os outros, que reprehendemos, fera 
íerviço de Deos queimallos, com que evitamos a ten- 
tação de tornar a ler por elles , quanào a devoção fe 
nos esfriar. Porque como bem dizia hum velho do 
Ermo : a queftaó , que por huma vez naó decidimos, 
facilmente nos tornamos a implicar nella: Cau/am 
qmm homo pemtus non abfctndtt , rurfus tn ta im^líca^ 
tur. 



EXEMPLO XVI. 



^anus N/ciffx ttt 
exemplt! vir- 
tutum , cxeni' 




M Bononia , na rua que fe chama Pia , ou 
da Piedade , fuccedeo antigamente eftc 
rarocafo. Brigando dous homens , matou 
hum ao outro 5 c íeguido da Juftiça , fe 
efcondeo em cafa de'huma Senhora prin- 
cipal,que elle náõ conhecia, pedindolhe íeu amparo. 
Prometteo-lho , c entrarão logo no alcance os Minif- 
íros; perguntaô pelo homicida: nega a Matrona ha- 
vello vifto. Pois labey , ( replicarão elles) que effe $; 
jqucm encobris , e defendeis , nefte ponto acabou de 
n)atar a voíTo filhe; vedes ahi trazem em braços o 
■ * íeu 



Para feguiv o bem , e fugir o mal. 1 1 j 

feu cadáver atraveffado cruelmente. A eilas palavi:as5 
como fe foraõ balas diíparadas em feu peito , ficais 
attonita, equafiíemefpiritos. Porém tornando em íi, 
c recobrando o vigor do coração mais > que varonil 
( o que pode a graça ! ) facou fora ao matador , e 
abraçada com elle, poftps os olhos noCeo, rompeo, 
dizendo : Senhor , porque fey bem quam agradável he 
a vo^os oihos o perdoar injurias , otíer eço a voffa Di- 
vina Mageftade efte íacrificio íuaviíiimov e decora- 
ção verdadeiro pcrdo-o a efte homem j em final do. 
que , declara fer minha intenção teULo daqui por dian- 
te em lugar de meu. próprio filhote como atalinfti- 
tuillo herdeiro de meus próprios bens: fede íèrvido 
de perdoarme as injurias , que contra voffa infinita 
bondade tenho commettido , affim como nós perdoa- 
mos aos noffos devedores. Todos os que fe acháraõ 
prefcntes ficarão aturdidos com.a.grandeza , e novi- 
dade detalacçaõ: àvifta da qual ninguém fe atreveo 
a offender , nem períeguir o aggreffor. E a rxia onde 
o cafo fuccedeo , mudando o nome que antes tinha, 
fe chamou , como diffemos , da Piedade. 

M O R A L r D A D E. 

I. li fí Ulienrn fartem quis tnvmiet^.VcYgunr proy.ji.K?. 
I w^l ^^ Salamaõ, quem achará huma mu- 
X ▼ ^ Iher esforçada ? Muitas tem dado à 
Juz a natureza : muitas mais a graça. No numero def- 
tas naò tem o ultimo lugar a do noffo exemplo : per- 
doar argue poder , e fortaleza de animo , grandeza de 
coração ;a pezar do erro com que os mundanos fc 
perfuadem, que he moftrar fraqueza?, pois até no 
mefmo Dcos vemos , que o fer rodo mifericordioío, 
he final de fer todo poderoío : Mijereris ommum , cffíia 



4 16 Eflhmlo pratico , 

emma potes. Perdoou cfta Matrona illuflre por feu 
fanguc 5 illuflriflima por íiias obras , e perdoou logo, 
e fem fer rogada , e cm fua cafa , c íendo niáy do mor- 
to , e dandofe por máy do matador , e fazendo o her- 
deiro feu nos bens da fortuna , a quem a tmha desher- 
dado da melhor joy a dos bens da natureza ! Oh quan- 
tos fundos tem clk finiíTimo diamante de acçaõ taõ 
heróica ! Só Dcos lhe poderá conhecer o valor , e pa- 
gar o preço. As hemas digerem ferro : fe a dureza 
defta injuria foy mais que de ferro , o bojo defta Ma- 
tròiia foy mais que de hema. Dizem , que os Troglo- 
ditas, gentes ferociflimas, fe íuftentaõ com ferpentes, 
porque o calor natural do leu eflomago he poderofo 
para convertellas em própria fubfíancia. Tal confi- 
dero fer a ferocidade pia defíe cfpirito , que ajudado 
com o calor íobre-natural do amor Divino , conver- 
teo em íeu proveito huma injuria mais horrivel, e 
vcnenofa , que as ferpentes. 

II. O amor Divino prézafe , ( e com razaõ ) de 
valente: vCmJ^ vezes a braços com o amor natural, 
para oftentar feu máyòr esforço. O amor natural, 
que ha de mayores forças,he o da mãy: com efte lutou 
aqui , e o venceo de hum fó encontro. Confelho taô 
repentino , e taõ acertado ! Bem parece , que o cora- 
ção onde efte fe infpirou , era de mulher, cuja pro- 
priedade he nas tribulaçoens acertar mais de fubito, 
do que de penfado ; e bem parece , que quem o infpi- 
rou foy o Efpiri to Santo, cuja graça naõfabe (como 
dizSanto Ambroílo) ufar de traças detençofas : Nef» 
cít tarda moUmina Spiritus SanBi grana. Toda via naõ 
he crivei , fenaò , que efta Matrona tinha já de longo 
temoo exercício de heróicas virtudes , as qtiaes Deos 
provou com a tentação , e aprovou com o vencimen- 
to delia. Ajudaria também o natural generofo , que do 

que 



Vcirajeguir o hem , e fugir ô maí. 1x7 

que huma vez emprendeo , naõ fabe mudar o pê a 
traz , e defcja , que antes quebre o mundo , do que a ^ 
fua palavra. 

III. Poz os olhos no Cco ; e fe a lingua nada pro- 
nunciara , lo com os olhos promettia o perdaò. Quem 
poz os oíhos no Geo , que naô perdoaffe , quando t(^ 
das as razoens de naõ perdoarmos , ou paraõ na terra, 
ou defcem ao inferno? Perdoou Eftevaó, e poz os. 
olhos no Ceo : Fidcõ Ccelos aptrtos , &c. Domme nefia-' 
tuas tllís hoc peccatnm. Perdoou Paulo y dando benção 
por maldiçoens, e poz os olhos no Ceo, onde eíbva 
Chrifto feu exemplar : Nosfiultipropter ChnJlum.Vcr- 
doou Jofeph , tratando bem aos mcímos que o vende- 
rão 5 e poz os olhos no Ceo , confiderando , que de lá 
vinha aquella providencia : Non vejíro confiHo , feà 

Dei voluntate huc mtjfusfum. Perdoou David a Semey, ^^°'^* ^^^ *° 
que o amaldiçoava, e poz os olhos no Ceo, confide- 
rando^ que de lá vinha o caftigo de íeus peccados; 
Dommuspracefttnut maledtcèrct, Todoaquelle poisy 
que quizer perdoar a feus inimigos , levante os olhos 
ao Geo ,. que logo encontrará motivos de fua piedade, 
ou no agrado de Deos , exemplo de Chrifto ^ou no te- 
mor da conta , ou na efperança da gloria. 

IV. Finalmente, que diremos da ventura defte ag- 
greíFor ? Se fe naõ metera pelo laço , naõ eícapára del- 
íe. Por fugir do perigo , perigou mais j e íè naõ peri- 
gava m.ais , perecia de todo. Nas entranhas onde o 
morto teve vida , achou piedade » e vida o matador j c 
pelo mayoraggravo, achou paffo para chegar ao ma- 
yor beneficio. As diípofiçoens da Providencia Divi- 
na , e os meyos nunca defproporcionados ao alto fim, 
que pertende , adoremos 3 e naô efquadrinhemos- 

EXEM- 



Xlí 



Èfiimtdo pratico , 



rir. 



EXEMPLO XVII. 




UM homem cafado matou hum filhinho 
feu , fem mais razaõ , nem cólera , que o 
apperite cego de feu coração bárbaro. Dai- 
li por diante , aífim como os filhos lhe naf- 
ciaÔ 5 e chega va5 a certa idade, naô poden- 
do conter fe , nem pela piedade de pay , nem pela com- 
paixão natural , nem pelo temor das Leys Humanas ^ 
c Divinas , os hia matando aílim pequeninos , e inno- 
centes; e a mulher o confentia por medo , que a dia 
fizeffe o mefmo , como muitas ve^^es deíejou fazen 
Com a morte deita ceflTou defer parricida, porque 
ceíTou de fer pay \ e Deos pay de miíericordia quiz , 
que fua bondade competiffc com a maliciadefte pay. 
Começou a penetrar com os rayos de fua graça a pro- 
fundeza daquelle coração infernal, e a moftrarlhe a 
fealdade horrorofa de feus peccados. Tanto que a 
confciencia foy lá dentro levantando o grito , c repe- 
tindo as accufaçoens , foraõ profundiffimas as trifte- 
zas , que lhe opprimiaô o coração , e o naô deixavaõ, 
nem pôr os olhos no Ceo. Bufcou emfim alivio na 
confiífaõ , que era o que Deos intentava. Foy a hum 
Convento de Religiofos , e deícobrio ahumdellesas 
^tiguas,e encanceradas chagas de fua alma,e moftrou 
grande dor , e refentimcnto ao curaríe \ final de que 
ainda tinhaô remédio , como tiveraô, Affeou-lhe o 
prudente ConfefTor íeus peccados , e lhe carregou a 
maônas penitencias pelo íentir difpofto , e defejofo 
delias. Levantado de feús pés , começou a fazer vida 
afpcra ^ e penitente. Hia-fe a montes folitarios , e alli 

com 



Para fegulr o bem , t fugir o maL 129 
com vozes , e com lagrimas bradava pela milcricor- 
dia de Deos 5 e com diíciplinas , e mortifícaçoens ex- 
traordinárias vingava íua juftiça. Perleverou aífim 
três mezcs , que foraò os que lhe durou a vida. E de 
todo efte fucceffo até alli occulto , foy cUe mefmo o 
relator 5 apparccendo depois a huma Serva de Deos, 
por nome a Madre Francifca do Santiílimo Sacramen- 
to, Religiofa Carmelita Dcícalça , no Convento de 
S. Jofeph de Pamplona. Diffe-lhe quem era , onde , c 
como vivera , e que por mifericordia pura de Deos 
fora perdoado da culpa , e pena eterna ; e que da tem- 
poral tinha já p:igos no Purgatório oitenta annos de 
ardores incri veis. E accrefcenta a Serva de Deos , que 
mortrava traça de eftar mais. Pediolhe orações , e fuf- 
fragios, e dcfpcdio-fc^ dizendo : JESUS fique comtí- 



g^• 



MORALIDADE. 

I. /^^\ Uem confíderar ncfte fucceffo, neceí- 
V 1^ fíiriamente ha de romper neftas admira- 
^^"^^ çòens. Primeira , de que maldade naõ hc 

capaz o coração humano ! Segunda , quantas faõ as 
torças do máo coflume arraftrando-o para o mal ! 
Terceira, quanta he a mifericordia de Deos, para 
com os peccadores! Quarta, como fempre fe acom- 
panha de fua juftiça ! Moralizemos eftes quatro pon- 
tos. 

II. Quanto ao primeiro^ Efte pay, ou efte homem, 
nem de hum, nem de outro nome parece digno; pois 
a mnocencia dos meninos , que até aos brutos íe fai 
amwel, para elle era aborrecivel. Nefta Cidade , di- 
zCiP. , aconteceo , que paffando furiofo por h.ima rua 
hum Elefante , e fugindo todos a porfc em íalvo , fi- 

I coa 



pir 






130 Eflimulo pratico y 

^py^ cou no chaõ huma criança , a qual o bruto levantan- 

do brandamente com a tromba , a poz íòbre hum bal- 
cão. Ifto fez hama fera a hum menino , eeftoutro fa- 
zia hum pay a fcus filhos. Notável dureza de cora- 
ção ! Ao Capitão Lizimaco depois de morto lhe 
acharão o coração cubcrto de cabellos , final de fua 
ferocidade* Defte pois fc pode fuípeitar^que total- 
mente carecia de coração , como íè achou algumas 
vezes , que careciao as vidtimas ao facrificarfe. Pu- 
déramos dizerlhe : cruel , fe has de tirar o fer a eftes 
innocentes , para que lho défte ? Do mefmo principio 
haõde ter amorte, quetiveraôa vida? Os Idolatras 
facrificavaõ feus filhos ao demónio ^ e os arremeçavaõ 
para iffo no fogo. Tu Chriftaô a qu-tm os facrificas ? 
A teu próprio eípirito, que fe naõ diftinguia do de- 
mónio : teu appetite era o idolo, e mais o íogo. Hero- 
des arrcbatoufe da ambição de reynar;e naõ era5,nem 
feus os filhos innocentes , nem fuás próprias as mãos 
com que os matou : que reyno vas tu a confervar cm 
fer verdugo de quem foítc pay ? Mal imitafte as en- 
tranhas pias do Qçt^àox^^ que até para com os filhi- 
nhos do corvo deKmparados no ninho acodeafup- 
prir oofficio de pay, miniítrandolhe o fuftento, c 
Tfaim. i^é. confervandolhes a vida : Dat efcam::: pulltç corvo- 
ytti 5. rum invocantibus eum j e que fe lembrou de mandar , 

que naõ cozeíTemos os cabritinhos no leite de fua 
Ixod.aj. 19. mãy: Non coptes h^dam m la6le. matrts fua. Mas tu 
ò mây crueUííima , taõ criminofo me parece o teu {i- 
kncio, como o feu arrojo.Ambos concorríeis a matar, 
elle defembainhando o punhal , tu embainhando a 
Cngua. Temias demafiado, porque amavas pouco; 
que a charidade perfeita expelle o temor fervil. Já as 
aveftruzcs podem aprender comtigo crueldade, pois 
a fuaadonde chega ^ he expor os ovos na área , e a tua 

paíTa 






i' 



Para fcguir o bem , efugk o mal. 131 

paffa a eíconder os filhos na íepultura. Nas Vidas 
dos Santos Padres íe lê^que huina Lcoa,pegandobraa- 
daaicnce a hum Santo Monge pela roupa oconduzio 
à fua cova, donde tirou cinco leoenfinhos, que naícc- 
raõ cegos , e os poz aos pés do Santo , pedindolhe do 
modo 5 que podia , que lhes déíTe vifta ; e o Santo cm 
virtude Divina aílim o fez. Eis-aqui efta fera folici- 
tava , que os feus filhinhos naõ careccíTem da luz dos 
olhos > e tu nenhuma diligencia fizeftc porque os teus 
naõ perdcílem a luz da vida, 

III. Quanto ao fegundo. Matou efte homem hum 
filho , c depois fcm mais occafiaô , fe fentia impellir ao 
melmo crime, e com efteito o repetia. He muito de 
ponderar as forças , que ganha fobre nós o máo coftu- 
mc. Por iíTo Santo AgoíHnho o compara a hum rio 
arrebatado , que por rio , nunca fe féca , e por arreba- 
tado, nada lhe refiíte : Fa tibijiumenwõns humani^ Lib. t.con- 
qms refiftet ttht , quandiu non Jiccaberts ? ^oufque voU /«a. cap. itf. 
VIS filios Eva in maré magnum , & formtdolofum, S. 
Bafiiio compara cfti renitência do máo coftume à 
diííiculdade que fente hum, que quer aprender lingua 
nova, e efqueccrfe da natural. E Séneca pondera i^ 
que as doenças do corpo ao principio as defprezamos, 
depois as fentimos mais , e nos obrigaó a tratar da cu- 
ra; porém nas da alma hc pelo contrario, que no prin- 
cipio nos fizem mais horror , c lhe bufcamos o re- 
médio mais cuidadoílimcnte; mas depois quefe ag- 
gravaõ pela reincidência as defprezamos : Contra eve* 
nu (diz o Filofofo) m his morbú quibus animt afficiun* 
tnr : quo quu petuá fe hahêt , mtntis fenttt. Por onde he 
certa aquella propofiçaõ de Santo Agoftinho : que de 
todo o peccado de coílumefaz o homem taô pouco 
caio, como fe na5 fora peccado : Omm peccãtum con- 
fuetiidínú vílcfat ^ &fii hvmim quafi nullum/it. 

I ij Por 



i.^i Ê/IimiílopriWc^j 

IV. Por tanto importa muito mais do que por 
vcatura imaginamos, que refiiiamos com todo ocf- 
forço de noffo efpirito aos principLos de qualquer 
máocoítume, ainda que feja em matéria leve 5 por- 
que fc entaô o admittimos como hofpede por hum 
dia, depois o fervircmos como afenhor toda ávida* 
Viohumavez S, Carlos Borromeo beber hum íeu fa- 
miliar a dcshoras. Rcprehendeo-o y. c dífculpandoíe 
clle com que naó fora mais , que enxaguar a boca por 
caufa do calor 5 reípondeo : à manhãa a eftas horas ha- 
veis de fazer o mefmo Tinha o Santo bem conhe- 
cida a tyrannia de qualquer máa coftume em fe apo- 
derando do efpirito. O demónio ,. e o noíTo amor 
próprio (grandes. parceiros) às vezes pedem nos pec- 
cados como por efmolla, ou por empreftimo, c logo 
osaíTentaõ como foro, e dos primeiros fazem juftiça 
para nos demandar os fegundos. Sc 0:10 tivermos 
muito fentido em confervar a pureza y c liberdade 
de noffa alma , íuccedçrnos-ha , (diz S. Joaõ Chry foí- 
tomo) o que fuccede aos que huma vez manchado o 
vertido novo >naò fe lhes dá que Ihecayaõ muitas , e 
mayorcs nódoas. Succedcrnos ha o que refere S. Je- 
ronymo, foy moftrado em viíaò a Santo Arfenio. 
Eftiva na fuacella Santo Arícnio, ouve huma voz, 
que lhe dizia : Sahe ao campo , c nota o que ves. Sâ- 
hio , e vio a hum homem , qite cortava lenha , e fazia 
delia hum feixe; e provando íe podia com elle>nao 
pode,e tornou a cortar mais lenha, c accrefcentou 
o feixe. Provou logo fcgunda vez , e como entaô pu- 
deffe menos , tornou a cortar mais lenha > e o fez 
muito mayor ; e aíHm continuou muito tempo na íua 
ncccdade. Entaô lhe foy explicado, que outro tanto 
-fazem os pcccadores de coftume , que querendo tal- 
vez romper com elle , c naô podendo , tornaô a pcc- 

Qar, 



Para feguir o hem , e fugir o mal. 1 3 3 

car,c a fazer ínayoro feixe de fciis peccados, com 
que de cada vez fe achaõ mais impoífibilitados 5 por- 
que ao principio naõ trabalharão cm vencerfe. 

V. Que diligencias pois ha de fazer quem já por 
fua miferia fe acha neftc eftado ? que remédios lhe fi- 
caõ para naõ morrer nelle , que he o mefmo , que con- 
denarfe? As mefmas diligencias , que para bem havia 
de fazer efte homem da vifaõ. Primeira , naõ havia 
de cortar mais lenha. Aflim o pcccador deve parar 
com feus vicios , fazendofe violência , e ateimando 
comfigo , que naõ ha de peccar mais , cuík-ihe o que 
lhe curtar^ e imaginando, que Deos lhe diz; Fili 
ficcâftO. madjicias tterum. Peccafte liiho ? 0ra baila, 
^naõ vás por diante em tuas maldades. Segunda, havia 
de chamar alguém , que o ajud líTe. Aflim o peccador 
reconhecendo fuás poucas forças , deve invocar o au-*' 
xilio do Ceo , naõ huma íô vez , mas muitas ; e Chrif- 
to , fobrc cujas coitas fabricarão os peccadores, to- 
mará fobre íi o pezo de noíTos peccados , dando-nos 
por feus merecimentos muitas forças de graça , para 
nos podermos levantar. Terceira , havia de aliviarfc 
de tudo o mais , que lhe fazia pezo. AíTim o peccador 
deve defcarregarfe do pezo das affeiçoens terrenas à 
honra , à fazenda , à faude , ao deleite , &c. , Quarta^ 
fe efliveíTe em jejum , havia de comer , para tomar for- 
ças. Aflim o peccador devechegarfe aos Sacramen- 
tos , e oraçaô, que faõ o pafto da alma , finalando cer- 
tos dias , e horas para efta refeição. Quinta , fe al- 
guém lhe eflorvalfe levantar a carga , ou lha fizeíTc 
mais pezada , havia de indignarfe contra eile , c caf- 
tigallo. Aflim o peccador deve indignarfe contra o 
feu amor próprio , e caftigar o feu corpo com peni- 
tencias ; porque efte heo inimigo, que puxa dcnós^ 
enos naõ deixa caminhar. Sexta, fe naõ pudeíTe de 

1 iij huma 



%^^ E/Ihh ulo pratico , 

huma V€z com tudo, havia de repartir o feixe, e Ic- 
vallo aos poucos , até o pôr todo na fogueira. AíTim 
o peccador , fe naõ pode vencer por junto todos feus 
vícios, tome a peitos vencer hum e hum, e feja o 
que mais lhe pcza. E para fahir com eflc intento , he 
excelientiílimo remédio fazer do tal vicio exame par- 
ticular todos os dias, efcrevendo o numero das ve- 
zes , que cahio ncUe para renovar outros tantos pro- 
poíitos de emendarfe, e tomar de íifatisfaçaõ com al- 
guma multa de efmoUas , ou penitencias. E com cf 
tes remédios bem continuados , pode efperar na mi- 
fericordia de Deos , que fe obrigará da fua diligencia 
para darlhe graça copiofa , com que fe vença. 

VI. Quanto ao terceiro ponto Inefíà vel he a mi- 
fericordia de Deos para com os peccadores : naõ fe 
"deixa vencer , nem do mayor numero , nem da mayor 
graveza de noffos peccados. No capitule 9. do fegun- 
do livro de Eldras , lemos hum como defaíio , ou con- 
tenda entre a malícia humana , e a bondade Divina. 
Por parte daquella , diz alli o Texto : que es peccado- 
res fe endurecerão contra Deos , e- fe apoíiáraõ a tor- 
nar para a efcravidaó de feus peccados como acinte: 
Induravermt cervices fuás , ó'^ dcderimt raput , ut con* 
verterentur aà fermmttm fuam cjtiafi per conientionem. 
Por parte defta y diz o mefmo Texto ; Porém vós , Se- 
nhor, propicio, clemente, e mifericordiofo , c de 
coração largo , e de muita piedade , e compaixão , na5 
os defemparaftes : 7u antem Deus propitim , cUmms y 
éf mifertcors , hngammvs f. ó* rnalta miferationu , mn 
dsreliquifli eos. Noteíe aqucUa palavra : Tu autem , que 
parece, queeflá foandonella huma admirável com- 
petência , e huiua ^loriofa vitoria da fua paciência 
contra anoffa obitinaçaò. Como fediffera: os pec- 
cadores fc endurecerão ; Induraverunt cervices fuás. 

Porém 



Para fegulr o bem , e fugir o maL 1 3 y 
Porém vos , Senhor , propicio: Tu atitem propfttu^^ 
Os peccadorcs apoflaraò-lc a reíiftirvos : Dederunt ca-- 
pt. Porém vós íois clemente : Tu auíem clemcns, O^ 
pcccadores tiveraô amor a fua mefma miíeria : Ut 
converterentíir aà firvitutem fuam.\ Porém vós fois mi- 
fericordioíb.7« autem mtjertcors. Os pcccadores pare- 
ce, que o faziaó acinte : §íuafiper contenttonem. Po- 
rém vós tendes o coração muy grande : Tu antem lon- 
gammps. Já os peccadores da fua banda acabarão. Po- 
rém Deos naõ acabou ainda da íiiarainda oTexto pro- 
feguc, louvando a fua mifericordia: Tu autem mulí^e 
ptifirattonu. E aíHm finalmente , por elle ficou a vito- 
ria, porque os naõ defcmparou: Nm dereliquifit eos: 
VII. A razaô diftonaõpód: ler outra , que fer a 
mefma natureza de Deos , bondade infinita j e fc co- 
mo bondade inclina a communicaríe , como infinita 
lhe repugna o efgotaríe, Nequaquam ultra maleàícain q^^^^ j^^^, 
terra propter homwes ; diífe Deos paíTado o Diluvio : * * * 
Já daqui por diante naõ amaldiçoarei , nem farey mal 
á rerra por caufa dospeccadosdoshomens* Naõ eflá 
aqui o reparo , fenaõ na razaõ , que o Senhor accref- 
centa : Setjfus enim , ér cogitntio humani cordu m wá- 
lum prona eft ah adolefcentia fua. Porque o coração hu- 
mano defde pequeno , he inclinado para o mal. Ra- 
ro motivo de mifericordia, { exclama nefíe paíTo S. 
Joaõ Chryíoíiomo) naõ diz , que perdoa , porque fe 
emendarão , fenaõ , porque o coração humano he ín- . | . 
clinadopara omal: Raraprofeãomtfertcordra fpecies: | | | 
n$f2 quia emendíiverunt vitam fuam ^fed quia m malnm | 
proni funt. Se perdoara, porque os homens cftavaõ 
]k gravemente punidos ; fc porque dclles efperava to- 
tal emenda , fe porque clamarão a elle por mifericor- 
dia : eftas pareciaõ juftas caufas de levantar a maô do ' 
câftigo; mas porque os homens faõ inclinados ao 

I iiij ii^al 



\ 



1^6 Efthnnlo pratico^ 

mal , por iíTo lhe perdoa Deos , e ellc mefmo bufca 
AHim lê § Ht- comíigo cita difculpa ; Dixtt Dominus hac m cordefuo. 
àrc6. Por iffo meímo , porque foy razaò cuidada y e achada 

no coração de Deos , cuja bondade impoflivel he fer 
vencida da malícia humana. E foy o mefmo y que di- 
zer o Senhor: Se os homens pcccaõ j porque feu co- 
-raçaõ inclina d:fde os feus primeiros annos para o 
*mal ; fcguefe , que hey de perdoar eu y porque o meu 
coração inclina ab a:terno para o bem y fe a razaõ do 
feu peccado,he a malicia própria: a razaõ do meu 
perdão y he minha infinita bondade. Digaô os pecca- 
dores o que diíTerem lá no feu coração , que ifto he 
p que eu digo no meu : Dixit Dommus h^c tn carde 
fuo ; ntquaqitam ultra malcdtcam terra. Bendita, c lou- 
vada feja tal bondade. 

VUL Daqui havemos de tirar por didleme pra- 
(úco y naô defconfiar já mais da mifericordia de Deos 
por ferem noíTos peccados muitos, e graves ; parque 
muito mayor he leu poder, e grandeza. Affim fazia 
David, quando diíTe: Propternomen íutim praptíiabe- 
rú peccato meo > multum (fi mim. Por amor de voíTo 
nome , ifto he , de voíla gloria , bondade , e grandeza, 
havereis piedade de meus peccados , porque ía5 mui- 
tos , e graves. Lcmbrouíè do numero dos peccados : 
Multum ejl mtm , mas juntamente fe lembrou da gran. 
I deza de Deos , que he infinita : Propter nomen ttmm. 

Por iffo confiou do perda5 : Propiítaberis peccato m^o. 
Damelmadefconfianca nos havemos nós também de 
acautellar à cerca dos outros peccadores, naóantici- 
pando no noíTo juizo os de Deos , nem medindo a fua 
P. Pií#«r# va clemência pela noffa pequenhez. A Serva de Deos 
lua Vida livra D. Marina de Efcobar, orando por huma alma, de 
j.w/'. 3-5.Í. cuja falvaça5 foípeitava mal, porque tinha partido 
defte mundo fem Sacramentos, teve do Senhor afe- 



gumtc 



Parajegnir o hem\ e fugir o maL 1 37 

guinte reporta. Naò te afflijas alma , nem te caufe pe- 
na a morte dcíTa peíToa , porque eliá em carreira de 
fal vaçaõ : fabe , que ao tempo que fe lhe tirou a falia a 
toquey com dor de feus peccados fufticiente para íal- 
varfe ; e porque naõ tenhas pena , te quiz deícobrir 
ifto. Naõ imagineis vós outros , que taò facilmente 
permitto eu a condenação das almas. Morri por ellasi 
e cuttára5-me muito , e muito he neceffario para con- 
denarfe huma alma. Naõ cuideis, que todos os que 
morrem fem Sacramentos , fe condenaõ» Defte pois 
mar immenfo da mifericordia Divina procedeo 
aquella fonte , que fe communicou ao pcccador do 
noíTo exemplo, e o lavou das feiíTimas manchas de 
íeus peccados, perdjandolhe a culpa , e a pena eterna, 
que por elles tinha merecida. 

IX. Quanto ao ultimo ponto : ^z Deos lhe per- 
doou a pena eterna , quiz fatisfazeríe da temporal ^ 
porq fua mifericordia cofluma fempre acompanharfe 
de fua jiiftiya, pois eftas perfeiçocns^ que no noffo 
conceito dividimos , em Deos faõ huma fó perfeição 
indivifivel. PoriíTo o Real Profeta ascofluma ajun- 
tar, dizendo em huma parte, que o Senhor hefuave, 
porém recílo: DíHttó^ é^reãns Dommoí'^ em outra, 
que a fua Juftiça , e Paz fe deraõ ofculos : Jpjlttia , eè" 
fax ofculatafunt ; em outra , que todos feus caminhos 
craõ mifericordia, e mais verdade: UniverfiS vta 
Domíni mtfertcordia ò* vcràas, E finalmente aílim co- 
mo diffe , que Deos no meyo da fua ira fe lembrava da 
íua mifericordia : Cum traius fiiens , mifericordia re^ 
cordaberuy affim pudera dizer, que no meyo da íua 
mifericordia íe lembra de fua juííiça : Cum miferatus 
fu^rié , jujjtíi^ recordãhe) u, Saó as fuás feridas de 
quem ama i porém feridas: Vulnera dúi^entíó. Antes Prcycrb. i7..«í 
porque nos ama , nos fere 3 e primeiro òferio a elle o 

noíTo 



138 E/ímuto pratico ^ 

Hcbr. II. 6, noíTo amor , do que a nós o íeu cafligo : ^Áem mim 
diUgit Domintis , caftigat. Saô feridas fieis, como na- 
queUe lugar lê o Hebreo : í^jãncrafiiUlia j feridas fieis 
chama a medicina às que íaraiido o mal , naó de xao 
a pajrte leza , como he a ferida da fangria , e taes faõ 
a da Juftiça Divina , quando íe ajunta com a íua cle- 
mência. 

X. Defte modo fe porta Deos com as mais das ai- 
mas , qae manda ao Purgatório : procede com cilas 
íuave , porém reclo : fuave porque lhes perdoou a pe- 
na eterna : redo , porque lhe naó perdoou a temporal. 
Sua jull ça com fua clemência as terc fielmente ; por- 
que purgando-as da cuipa , lhes grangea a faude eter- 
na. Para vedar a entrada do Paraizo terreftre , poz 
Deos huma efpada de fogo , veríatil , ou m.ovediça : 

Geurf'.3. tcrí. hlammtum gUditim , atqne verfattiem. Onde adverte 
*^* .Ruperto, que em fer efpada de fogo , moftrou o Se- 

nhor fua ira 5 porém çm fer verfatil , e que fc podia 
remover , moíirou fua clemência : Ira mmíjue Det efi 
guod pofit Í4A fit flammem gladtus: mifer tcoj dia vero^ qnod 
verfatilu Jít, Tal podemos chamar também eftoutro 
fogo , que retarda as íilmas de entrarem no Paraizo 
Celefle ; hs efpada , porque aquelle fogo he caftigo , 
poré n verfatii , porque aquelle caftigo naõ he eterno. 
Ha de acabarfe o caftigo , ha de removerfe aeípada; 
e aílim como a do Paraizo terreftre fe rcmovco para 
entrarem Enoch , e Elias , aíTim eftoutra do Paraizo 
Celcfte, (dixStrabo) fe remove para entrarem as al- 
mas, que íobem ao Ceo já purificadas: Ferf^ttlis cjl 
gladtus i quia poíeji remover i: remotus ejlemm Enoch ^ 
ét EUa , c^ quoddie removetur fiddibus de hac vtta ad 
ftípernam heatitudine^n afcendeyiubus, 

XI. Os peccados dofogeito defte exemplo, me- 
reciaõ efpada^ que nunca já mais íe removeíTe , como 

- -^^^ aquella 



^ 



Pú ra feguir obem^ efug ir o maL 139 
aqiiella de que o Profeta íalla , e he a que caftiga os 
condenados: O^ mticro Vommt^ quoufque nenqmejces^ 
Com tudo quiz Deos , que fe removeffe ; eíia foy fua 
mifericordia 5 porém , que fe removeífe muito tarde> 
eftafoyfuajuffiça. Oitenta annos de cfpad.i de fogo, 
e ainda fe naõ removera , ainda reftavaõ muitos mais! 
Oh que juítiça / Mas que eraõ oitenta annos y nem mil 
annos , que o reo pagava , comparados com infinitos 
que devia ? Oh que miíericordia ! Ferido eftava da ef. 
pada de Deos, porém ferido fielmente , porque.o mef- 
mo Senhor , que o feria, o amava 5 e as feridas de quem 
ama , faõ feridas fieis : Fidnera dtUgentu , vulmra Ji- 
delta No mefmo inftante em que o reo acabaffe de pa- 
gar a pena , começaria a gozar da gloria. Vede que 
mayor fidelidade ? 

XII. Oitenta annos de Purgatório já penados , e 
muitos mais por penar ; e ifto lendo os annos da ou- 
tra vida , como os fcculos defta j c ifto fobre três de 
aípera, e continua penitencia, que valem por mui- 
tos annos no Purgatório ? Oh que differcnte he o pe- 
zo dasbalanças de Deos, do que o dasnoffas. As nof- 
ías íaõ muito mentirofas : Mendaces fln homtmtm m Pfaim^i.io. 
Jtâteru ; porque contrapeza da outra parte o noíTo 
amor próprio. As de Deos íaô cei tiílimas : Pondus , 
& ftaíera Judicia Domini y porque fe tem refpeito aa 
pezo da Mageft :de ofTendida , que he infinita. Na Vi- 
da manufcrita da Serva de Deos Soror Marianna da 
Rofario, Religiofa Leiga no Morteiro do Salvador 
em Évora, fe refere, que havendo huma peffoa Eccle- 
fiaft;ca aconfelhado huma coufa, que era peccado 
mortal , e morrendo depois arrependida , o Senhor lhe 
revelou os annos que a tal peffoa penara no Purgató- 
rio , e que hum fora em pena do tal confelho. Eis-aqui 
hum. cfcandalo pezando nas balanças de Deos , ( de- 
pois 



1 4Ò Eftimtflo pratico , 

pois de perdoada a pena do inferno ) hum anno de 
Purgatório : e nas balanças dos homens , oh que leve 
pareceria! Em hum Holpital de Granada , do qual ti- 
nha cuidado o noUo S. Joaô de Deos , eftava hum en- 
feimo perto da morte , e querendo o Santo , que fe lhe 
déffe logo a Santa Unçaõ ) elle porque tinha horror à 
morte o differio , dizendo , que naò era ainda tempo. 
Succedeo morrer fem eíie Sacramento , eftando o San- 
to fora do Hofpital. E ao enterrallo , levantouíe com 
efpanto de todos, ediffe claramente} que por amor 
daquelle defcuido^e repugnância, eftava fentencia- 
do a vinte annos de Purgatório. Eis-aqui nas balan- 
ças dos homens pezariaõ muito pouco aquelle pccca- 
do , e os outros vcniaes , que pelo Sacramento fe lhe 
perdoariaõ 5 e nas balanças de Deos , pezaraõ vinte an- 
nos de fogo. 

XIII. Pois aíTim como na coníídèraçao da mife- 
ricordia Divina , tiramos por didlame pratico nunca 
dcfconfiar j aíTim agora na confideraçaõ da fua juftiça, 
tiramos por didame , fempre temer. Já que em Deos 
andaò juntas a mifericordía, e a juftiça, andem em 
nós juntos , a confiança , e o temor. A nao ha de ter 
laftro , e ha de ter velas ; tudo laftro , irá a pique : tu- 
do velas, correrá tormenta. A alma ha de temer a 
Deos, e confiar em Deos: tudo temer, fera oppreí- 
faõ: tudo confiança, íerá deívanecimento. Os Sera- 
fins, que vio Ifaias , humas azas tlnhaõ eftendidas j e 
denotaõ o amor, e confiança 5 porém outras encolhi- 
das , e denotaõ o temor, e reverencia. Quer Deos fer 
de nós fervido , com tremor , e com alegria , em final 
de que o reconhecemos por benigno, e por jufto; 
porPay, e por Senhor: ServtíeDõmmomUíttia, & 
exnlíateei cumtnmore, 

EXEM- 



Varafcguír o bem , e fugir o mal. 1 41 




EXEMPLO XVIII. 

Da reverencia , que fe eleve as PeJJnas , 
Lugares > e Myfterios Sagrados. 

O anno da falvaçaõ humana 1012. impe- Uàrtuituim- 
rando Henrique 11. fiiccedco cm Saxonia , pj* f^^^^^i'^^^- 
g que hum Sacerdote , por nome Rupcrto , *,. 
Presbítero da Igreja de S. Magno Martyr, 
tendo começado a celebrar a primeira Miffa da noite 
de Natal , a naò podia profeguir por fe achar difehi- 
do com o eftrondo , e eflrepito de hum baile , que alli 
perto fe fazia j c era^.ue hum certo homem picbeyo, 
por nome Otherio , com outros quinze com-panhci- 
ros , e três mulheres,d-ançando , e cantando todos jun- 
tos no cemeterio , faziaõ hum grande ruido. Man- 
doulhcs o Sacerdote dizer pelo Sacr^ftaô, que fe aquie- 
taffem, porque naõ era aquelle o modo. agradável a 
Deos de celebrar noite t^ò fanta. E zombando elks 
dorecido,^ o Sacerdote entrado do zelo da honra de 
Deos, e decoro, que aoíeu miiniflerio Sacerdotal fe 
ckvia , diíTe. Praza ao Omnipotente , que hum anno 
inteiro bailem , fem parar. Caio eftupcndo ,ninda fo- 
mente ouvido , quanto mais vifto ! A boca do Sacer- 
dote o diíTc , e a maô de Deos affim o executou. Aina- 
Hheceo, e anoiteceo o feguinte dia,e elles a bailar: 
entrou a roda de outro anão, c elies namefma roda 
da fua dança : paíTou hum mez , e cutro mez * acodia __,^ ^ 
a gente attonita com ta5 v?xo efpcfl:acuia,e dançando 
os deixava. Perguntavaõ-lhcs buns huacouía ^.outros^ 
©utraj a nadinefpondiaõ: ofeu deftino, a fua tare- 
fe. 



ij^n ' EJtirm/o pratico ^ 

fa , que continuavaõ com toda a infbancia , era fó an- 
dar à roda huns a traz dos outros , íeguindo aos que 
os feguiaõ. Na5 comiaõ, naôbebiaõ, naò canfavaõ, 
naõ íe lhes gaftou o calçado, naõ íe lhes rompeo o 
veítido , nem cahio f :bre elles calma y nem chuva. Da 
continua pifta , ou calcadura , fumiraõ-fe até mais aci- 
ma dos joelhos : a fi meímos p?.rece que intentavaõ 
fcpultarfe vivos. Hum mancebo quiz tirar da roda 
a fua irmãa , e pegandolhe com violência do braço, 
efte lhe veyo na maõ deímembrado do feu corpo j e 
cila, como fe o braço fora alheyo, nada diíTe , nem gé- 
meo, e foy continuando a andança do íeu fado , fcm 
manar langue da ferida, tinalmentc ao çumprirfeo 
anno , veyo àquelle lugar Santo Heriberto , Arcebif- 
po de Colónia , c os abfolveo da maldição, e intro- 
duzidos na Igreja , os reconciliou com Deos. As três 
mulheres efpiráraó logo. Pouco durarão também al- 
guns dos homens, dos quaes fe diz , que depois de 
mortos, fez Deos porelics alguns milagres, como 
íignificando o perdão de feus peccados, que por mcyo 
de taõ rija , e cuftofa penitencia tinhaõ alcançado. 
Os mais que íobrevi vcraõ , fempre com o tremor dos 
membros moftravaõ o horrível cafo , que por elles 
haviw-i paíTado. 

MORALIDADE. 

I. T^ T Ot^cfc em primeiro lugar , quanto defa- 
1^^ grada a Deos NoíTo Senhor, quccele- 
■^ bremos o Sagrado de fuás Feflas , com o 
.profano das noffas. Bem o fynificoujá antiguamente 
ípelo Profeta Malachias, dando a citas noÀTas feftas, 
ou íblemnidades c nome de eíierco , c immundicia; e 
dizendo , que o havia de augmentar na cara dos meí- 
mos. 



Pura feguir o bem , efugit o waL 1 43 

mos , que as cclebravaò : Dtjf ergam Juper vulíum ve- 
Jlrumjisrcus JUemnUatumveJirarum, Ena verdade fc 
applicaiPiOs eíta cenfura às lolemnidades , e feitas do 
tempo preícnte , nada tem de rija , fcnaò muito de 
adequada , e verdadeira. Porque íenaô , digaò me , 
que outro nome merecem as mquictaçoeos , empe- 
nhos , e faltas de obíervancia regular , que paíTaõ em 
hum Convento de Reiigiofas para í'e fazer huma Pro- 
ciíTaõ de Corpus , luftroía , e afamada y fenaó o de 
Stetcm fdemmtaíum vejlrarum^ Que outro nome 
merecem , o eftarcm diante do Santiílimo Sacramento 
exporto , homens^) e mulheres promifcuamente eícan- 
dalizandoíe,e fazerem à porta da Igreja apertoens, 
para fe commetterem horrendas proíanidades. O can- 
tarem na Miffa entre a Palavra Euangelica , e Sacro- 
íuitos myfterios , modilhos > e íarabandas próprias 
da Comedia. O ad:rnarem as Sagradas Imagens da 
May de Deos , e de outras Santas , daquelle modo, que 
pudera andar hum:i rameira ? O levarem nas Procif- 
loens, e introduzirem nos Templos danças de Siga*-*.^^ X 

nas , e mulherinhas impudicas. O quererem honrar ' fX 

os Santos com touros ^ e comedias , e romarias , onde ^ 

naõ ha mais que comezainas , brigas , e defcompoítu- 
tas, c perigofa commimicaçaõ das idades, e ícxos, 
cm que os demónios armão as fuás feiras, e tir^iô os 
feus lucros. O empenharem-fe os parentes , e devo- 
tos para que hum Sepulchro de Quinta feira Santa , 
í aya mais oftentofo que outros , e que fe diga por to- 
da a Cidade , que nunca íe fez melhor, que no tempd 
da Madre Fulana. O disfarçaremfe as Eípofas de 
Chriftocm traje de Anjos, com roupas como de glo- 
ria , e com cabeleiras, que competem coma fingida 
de ApoUo, ou com a verdadeira de Abfalaõ ) e com 
í^ochas acezas nas mãos y a titulo de acompanharem^ 

c moflra- 



14+ Eftmulo pratico , 

c moftrarcm algum PaíTo da Paixaõ; mns na verdade, 
para fc moftrarem a fi mefmas aos curiofos , que af- 
íiíiem na grade do Coro ? O comerem , e beberem nas 
Igrejas , e venderemfe goloíinas à porta delias , e dei- 
xarem nos cantos das Capellas os veliigios da fua gu- 
ia? Eftes , e outros muitos abufos , c indecencias ic- 
melhantesyque nome merecem, fcnaò o de immun- 
dicias das noffas folemnidades ? Oh porque naô dare- 
mos nós com eilas na cara dos que as fazem , e con- 
fentem , fe o mefmo Deos diz , que aflim o fará pelos 
feus Miniftros : DiJ pngam fuper vtdtum vtJtrumJUr» 
cus folemmtalttm Vèjtrarum^ 

II. Mas porque muitas vezes naõ bafla por cafli- 
. go a confufaô , por iffo Deos accrefcenta outras de- 
I monftraçoens mayores 5 porque naõ bafta a culpa lan- 
I cada em roíto , lhes lança a vara íbbre as coftas 5 co- 

I mo íe vio no noíTo exemplo , aonde íe aquelles dan* 

I cantes deraõ pela rcprchcnfeô, naõ vieraõ a dar pe- 

io azorrague. Meteo-fe a Juftiça Divina também ná 
roda 5 e accommodou os golpes da íua vara aocom- 
líaias )o. Tctf, paffo da mefma culpa : Et ertt tranfitm viiga funda- 
31. & )». tus^ quam requtefure faciet Dominusfi^per mm m iynjpa- 

nié , & (itharu. Será ., (diffe líaias) bem fundado o ir, 
c vir da vara do Senhor , e affentará bem, ou fará 
difcante com os adufes , e tambores , c inftrumentoi 
dos peccadores. Como o cafhgo de Deos he jufto , hè 
bem fundada a fua vara 5 e tanto aíTenta fobre a cul- 
pa , que parece > que alli defcança , e difcanta com el- 
4a. E como a culpa era muito bailar ,e tanger , e can- 
tar 5 por iíTo a Vara fazia também o íeu fom , ou dif- 
cante , indo , e vindo , e zinindo fobre as coifas dos 
pecc idores : Et ertt sraufifus vtrg^e fundatm , ^r. 

III. E naô cuftou a Deos efte caftigo taõ terrível 
jnais 5 que huma fimples permiíl^^ò , ou licença de que 

03 



Para fegulr o hem , efugk o mal. 14^ 

os demónios continuaffem o mcfmo baile , que tinhaô 
começado. O baile, ( diz o Padre Drexelio) naó hc Autifeáinac 
outra coufa , que hum circulo , cujo centro he o dia- pa«. 1. cap.4^ 
bo , e a circunferência faõ os anjos feus minijftros : 
Chorea efi ctrculus cujus ccmrum dtabolus , ^ ctrcumfe* 
rentia omms awgelt ejus. Poiscomo jáallinomeyoda- 
quelle feftim eiiava o diabo , e à roda hum demónio 
com cada hum dos dançantes : naõ foy neceffario mais 
para que a roda andaíTe, fenaõ deixar aos demónios 
tazer o que faziaõ ) porque no mcyo delia eftava o ef- 
pirito de vertigem : Domwus mtfcmt tn meàtâejus fpi» líaíâ^ i f ; fttf 
rúum verttginu, '4» 

IV. Noteíeem íegundo lugar , quanto hc para te-/ 
mida a maldição ^ ou praga de hum Sacerdote, PreiiT *^x 
do,pay, ou qualquer fuperior injuftamente ofFendi- 
do, e juftamente entrado do zelo da honra Divina , c 
obrigação do feu miniítcrio. Salamaõ diffe , que tao 
pouco fe devia fazer cafo de que nos cahiffe a maldi* 
çaõ , ou praga proferida temerariamente , como de 
íium paíTarinho , que vay voando : Skut avú ad alia Prof, 1^. tct^ 
iranfvolans , ér f^jf^^ quoltbet vadem , /íc maledtõlum *• 
frufira prohtum in (juemquam fnpervemet. Porém no- 
tou Beda , que naó falia o Texto de qualquer maldi- 
ção abíolutamente, fenaò em particular da que fe lan- 
ça temerariamente ; porque fe procede do juizo Divi- 
no contra os impios, efta coftuma ter cfFeito certo, 
como teve a de S, Pedro contra Simaô Mago : Non 
atitem Jine caufaâixit: Md(di6itim frufira prolatum: 
eft emm m^lediSíum pixta divma díjlrtãwnu iram m 
wipiõs emtffum ; nt efi illtid Dm Peíri m Simonetn Ma^ 
gum : Pecuma tua tecum fit tn perdiUoncm. Outro ex- 
emplo temos em Elifeo, de quem efcamecéraõ os mu- 
.chaclios de Bethel , e por praga do Profeta íahíraó 4. R^g. »♦ | 
logo do bofque dous urfos, e defpcdaçáraõ delles qua- ^^^' *^' 

K rcnta 



14a EJlmtilo pnitkoy 

renta e deus. Semelhantes maldiçoens naó fe compa- 
Xào ao paíTaro, que voa, (diz A Lapide) fenaò à efpada 
>^ . . . que corta, ou ao rayo,qu£ reduz àcinzas:7tf//J ngo non 
fe hibet inflar avu avolantts , jed tnjlar gUdn fecantts , 
tmo mftar fulgnríi Jideranlps. E dçfie modo tòy a do 
dito Sacerdote Ruperto ^ porque eftando adtuaí mente 
celebrando em moite taõ Santa, e devota^comohc a de 
Natal , c com. defejo da quietação , c íilencio conve- 
niente a myfteriQ taõ Sagrado, naô he crivei, que 
amaldiçoaíTe com efpirito de vingança própria , íe- 
n lõ infpirado de Deos , e com zelo da íua honra. Af- 
4. ■ j íim o moftrou o effeito : Deus meus pone ãlos ut rotam^ 

feri. Hv ' (DifleeUe com a Real Profeta.) Meu Deos fazey de 
todos elles como fe foraõ huma roda , que naó cefla. 
E andáraô à roda em quanto o Sol curíou a fua de 
hum anno inteiro. 

V. Notefe em terceiro lugar, que fe taô horri- 
^1 foy efte caftigo de Deos y nao durando mais , que 
hum anno , que horrível íerá a maldição do meímo 
.: Deos , condenando huma alma à roda perpetua dos 

tormentos , que nao tem fim ^ Fogo , blasfémias, com- 
panhia de demónios , bicho roedor da confciencia , 
trevas interiores e exteriores, defterro do fummo 
^ bem para que foy creada , confufaò , oppobrio , e em- 

"'% fim todo o género de mifèrias : eíles. íaô os dentes, ou 

navalhas daquella roda; e por quantos fcculos ha de 
andar gyrando efta roda fobre o mií cravei conde- 
jEiado ? Na5 tem numero ; até que Deos deixe de íer 
Deos. Coníidercmos ifto , Catholicos , e pafmemos , 
de que pornosnaô tirarmos da infame dançvi dosnoí- 
fos appctites,nos metemos nos dentes dèftâ roda eter- 
na, que femprenos haõ de defpedaçàr , e nunca nos 
kaõ de deftruir. Agora, agora he tempo de tirarmos 
o pè donde a roda nos pode colher 5 e levamos comíi- 



go> 



Para fegiíir o bem, e fugir o mal. 1 4? 

go > que ao depois naõ tem remédio , porque já Deos 
concluío a fentença, c naõ pode revogalla: Num- 
qttíd m eeíerfium projictet Deus > aut non apponet ut cutnn 
placttwr fit adhuc ? Dizia o Santo Rey David , admi- 
rado defta ira final ^ e irrevocável, He poflivel y que 
lia de Deos lançar de fi a huma alma para fempre^ 
E naõ ha de vir ]á mais tempo em que fe applaque , e 
dê por fatisfeita fua ira ? A razaõ da admiração > c 
affombro de David fundavaíe cm que , excepta a ira 
que Deos moftra contra os danados , todas as mais 
ir^ por grandes que foffem , vieraõ emfim a fc remit- 
tir,e applacar. Grande ira defte Senhor foy , a qúc 
pelo pcccado de Adaô alcançou a todo o género hu^ 
mano, fogcitando-o à morte, e a defterro doParai- 
zo, e a outras innumeravcis calamidades ? E com tu- 
do applâcouíc , e onde abundou o noffo delido ^ fo- 
breabundou a fua mifcricordia , com que nos vifitou 
delcendo do Ceo , e remio fobindo à Crtiz : Fífita^ 
vii^ & Jecit redemptiomm plebis fua. Grande ira a do 
Diluvio univeríal ,em que efte Senhor diffc , que lhe 
pezava de haver creado o homem , e de todo o mun- 
do deixou í ó efcapar oito peíToas. E com tudo appla- y 
coufe , e deftas oito peffoas tqrnou a povoar o mundo^ 
promettcndo de o naõ allagar mais : Non ultra ptt» 
€un<im omnem animam vivenrem ^Jicut feci. Grande ira 
a que moftrou contra o Povo idolatra , e murmurat 
dor no deferto , onde já com efta , já com aquella ca^- 
lamidade vieraõ a perecer feifcentasmilpeíToas, que 
haviaõ fahido do Egypto , fora mulheres , e meninos. 
£ com tudo applacouíe , e foraõ os filhos , ou netos 
de todos eíies introduzidos na terra promettida: /«- pfaim.77* 
duxít eos in montem JanBficationis jua. A mayor ira 
de todas , as que Deos teve , ou ha de ter , foy contra 
o Povo homicida de feu filho jESUChrifío: Oh que 

K ij caftigo 



EJlimulo pratico y 

calíigo taò cruel , taô grave , taò prolongado ! Quan- 
tos milhares de peíToas morrerão encerradas, em Jeru- 
falerh, e comidos da fome, guerra, e peftiknciaj e 
quantas fora delia ! Já faltavaô arvores , e madeiro:^ 
pára os íacrificarem. Emfim mereceo efta calamida- 
de as lagrimas domefmo Chriíio; Vidnis civitatem 
Jlevtt fuper illam. E com tudo hafe de applacar efta 

Ecíci.48.7.10 ira^e para iffo cftá guardado Elias: ^«z fcrip^us efi 
in judiciis temparum , lemre tracundiam D^mmi , conjí- 
Ikre eor Patru ad Filium , é* re/lituêre tréus Jacok 
Ha5-fc de converter , ainda que tarde : Convertentur 
ad vejperam, A fua cegueira nao ha de durarem todo^ 

fiipàíi» ti. ij. itmò em- parte : Cacttas ex parte conttgtt in Ifrael , do^ 
mcmtraret plenitudo gentium. Mas a ira de Deos con- 
tra 03 condenados , o furor do dia do Juizo : aqui naô 
ha fim : já fe naõ ha de applacar eternamente : In £m* 
numabfcindet mifericordiam: non apponet ut complact- 
tiorfit adhue. Andará perpetuamente a roda daquel- 
Ics tormentos , porque a faz andarotrovaòdaquella 
horrenda voz : Ite malediBt^ &c. Pois eis-aqui o que 
David ainda que cré , parece , que naó acaba de crer: 
Nunquid mn appomt , &c. e cis-aqui o que nós à vifta 
defte exemplo djs tormentos da roda de hum fóan^ 
no , devemos conííderar nos da roda de toda a eterni- 
dade. Oh eternidade , eternidade de tormentos , que 
.poucos te conííderaó! epor iíFo poucos feemendaõ; 
è porque poucos fe emendaõ , por iíTo tantos te expe-» 
rimentao. 

VL Nos fornos de cal he precifà diligencia , em 
quanto dura a fua fabrica, (quefaô quarenta, cin- 
coenta , ou mais dias) meter continuamente lenha de 
dia , c de noite -> para o que ferevezaõ homens de tan- 
tas a tantas horas , que eflejaõ cevando o incêndio. O 
mferno hcfemelhante ao forno de cal j porque nelU 

fç 



11^. 



II. 



Vava feguít o hem , e fugir o mal 14^ 

fcqueimaõ pedras 5 pois osquealli cftaò ericerrado§, 
laò os impenitentes , eobíHnados: Eruntpopuli (diz Uaíai í^.fcrf. 
Ifaias ) quaji de incêndio ctnis. Outros lem: Ertí>itpO' 
puU mcendia calas, A ira de Deos hc a que eftá ícm- 
prc eftendendo os vigores daquelle incêndio 5 e o que 
efte dura naõ faõ dias, nem annos, nem feculos, fc- 
naõ toda a eternidade. Incrível cegueira de tantos, 
que podendo fer pedras vivas , e preciofas do Tem- 
plo de Deos no Empyreo , fe fazem pedras queimadas 
na fornalha do inferno, de cujos incêndios fobiráo 
fumo por feculos de feculos , como eííá efcrito no 
Apocalypfe: Fumtis tormmterumeorumajcendettnja' Aper. i^.taft 
cuia faculorum. Por amor de Deos , ou ao menos por 
amor de nós mcfmos , que confideremos , eeftudemos 
nefte ponto , que fe efte "póíito tivera mais eftudiofos^ 
naõ teria aquelle forno tantas pedras. 



EXEMPLO XIX. 

Da inter cejpiõ da Virgem Santiffima , mm hú 
poderoja-^ e dos meyosda Divina Provi- 
dencia y como fad inopinaveis. 

M Lucerna , Cidade de Helvécia yque he P^ater fui/fa' 
o Eftado doá Suizaros , entre os nos Rhe- Zuj!''^ ^°' 
no, e Rhodano, e parte dos montes Al- 
IJ pes , vivia hum Tanoeiro , que bufcando 
hum dia por entre os matos madeira ac- 
commodada ao feu officio , fuccedeo embrenharfe taS 
dentro das efpeíTuras , que perdido o tino, naõ íc ^ 
foubo livrar daquelle labyrintho ; antes, quanto mais " 

K ii} pro:: 




procurava livrarfe, mais parece, quefe empenhava 
no erro , e alongava do caminho. Nefta confufaô , e 
trabalho o colherão as fombras da noite ; e foy necef- 
fario repararfe do cançaffo^ dormindo alli mefmo. 
Ao rompera manháa , procurou com nova diligencia 
íahirfe do bofquc > e andando com incertos paíTos a 
buma y e outra parte , como a luz era efcaíTa , e a pa- 
ragem incógnita, naó reparou onde punha os pés, e 
quando menos o imaginava íe defpenhou em huma 
profunda cova , ou greta , que a terra formava entre 
dous penhafcos talhados a pique. E da queda morre- 
ra íem duvida, feno fundo naõ eftivera muito lodo^ 
cm que ficou meyo atolado, Naõ padeceo lefaõ al-^ 
guma mais , que hum defmayo , do qual reflituido a 
fcus fentidos , c vendofe enterrado vivo em hum poP 
ço, donde naõ havia fahida por induftria humana , re- 
correo a Deos , e à Virgem Santiífima Senhora NoíTa^ 
cíMH enternecidos clamores , vivas lagrimas , earaç^ 
fervorofa. Mas foy o Senhor fervido de exçrcitallo 
€om outra nova , e mayor afflicçaõ. Eftavaõ no pro- 
fundo daquelle defpenhadeiro humas grutas efcurif- 
gmas , e baftantemente capazes , formadas damefmg 
pei>ha , e querendo o homem recolherfe a huma dellâè 
por mais commodidade, eis. que vê dentro dous feros 
dragoens , que alli tinhaõ íua morada. Com cuja vif- 
ta quafi ficou fem alento 5 e fugindo outra vez para o 
poço , ou lodaçal , que diíFcmos , começou com muir 
tas lagrimas a invocar a MARIA Santiííima, que lhe 
valeflfe em tribulação taô apertada, E quiz Deos , que 
os dragoens ainda que fe chegarão a elle, ço rodea- 
rão , jâ com os collos, já com as caudas , nenhum dam- 
po, ou violência lhe fizeraõ, nem em todo o mais 
te-mpo , que em fua companhia efteve , que fcraõ mais 
de cinco mezcsy defde 6. de Novembro , até 1.0.. dq 

Abril 



Para/èguir òhem \ efugTr o mal. i j i 

^"brir feguíntte. Defejará aqui o Leitor faber, com 
qtie fulknto manteve eíte pobre os dias , ou, para me- 
lhor dizer , as noites de taô trifte vida. Ifto he muito 
para^âdmirar, Vio , que íeus hofpedes , ou camaradas 
o« dragoens em todo o tempo do Inverno , naõ fe íuf- 
tcntavaó de outra coufa,fei^âõ com lamber hunx li- 
cor falíuginofo , que efcorriaò as fendas daquelies pe- 
rihafcos. E como naõ tiveffe outro remédio, e as leys 
da neceífidade faõ muy obedecidas , fez elle o mefmoj 
e efte era o feu jantar , e cea , e a fua bebida regalada. 
Chegando pois o tempo quente ,e querendo os dra* 
goensbufcar mais livremente preza, e pafto: hum 
delles bateo as azas com grande força , e voando aci- 
ma daquelle boqueirão , defapareceo. E querendo o 
outro fazer omcfmo , entaô o homem vendo taô op- 
portuna occafiaõ da íua liberdade , naõ a perdeor en- 
commendoufe de novo à Virgem Santiflima , tomou 
animo , c pegoufe fortemente à cauda da fera. E def ^ 
te modo pcios ares , fahio emfim daquelle abyfmo;e 
largando depois a cauda a tempo conveniente , cahio 
íaõ,e falvo em terra. Por difpofieaõ Divina, atinou 
logo com o caminho da Cidade , e entrou em fua ca- 
fa, aonde todos o tinhaõ por perdido , ou morto def-. 
eftradamente. Contou o cafo com adruiraçaõ de to- 
dos, e para memoria da fingular mercê, e providen- 
cia, queDeos ufára com elle, deu à Igreja huma Cai 
fuUa , aonde cftá debuxadíi de agulha toda a hiftoria,- 
e fe moftra aos peregrinos na dita Cidade de Lucerna^ 
na Igreja de S. Leodegario. O homem tendo corrom- 
pido o eftomago com as venenoílis qualidades do li- 
cor , que tanto tempo lhe fervio de fuftento , dentre» 
cm meyo anno acabou a fua carreira, eftando conver-; 
ddo a Deos de todo o coraçaõ,.e com moftras de grarii 
de religiaõj.e piedade. Eftexaíb refere q Padrç Kirkç^ 
^^ Kliij da 



tt^i E/Iimulo pratico y 

da Companhia de JESUS, no 2. tomo do feu Mundo 
Subterrâneo liv. 8. fecftione 4. cap, 2. 

NOTAS, E MORALIDADE, - 

I. TP^ Eftcs boquelroens , ou grutas da terrí* 
11 profundiflimas , e perigoíiíHmas , por 
citarem razas com o demais chaô, ha 
três, ou qu5tro na Serra da Arrábida , ( que os Lati- 
nos chamaõ Mons barbar íchó) naõ faõmais largas, ao 
qUQ^ fe moftra de fora , do que o que bafla para cahir 
hum corpo humano , e faõ fundas , que íelhe naõ acha; 
pê; Chamaõ-fe os Algares > e fey de hum Religiofo, 
que caminhando de noite por aquella parte , fe via 
cm ta5 próximo perigo j que fe dá mais hum paíTo fe 
defpenha dentro. : 

^ II, Naõ faça duvida poder o dragão voar com o 
pczo do corpo de hum homem pendente da cauda j 
ou montado nella. Porque do Grifo fe diz , que voa^ 
levando nas unhas por preza hum veado , ou hum 
H»ft.N»t. liy. boy. E fe cremos a Plinio , ha dragoens de vinte co- 
8.eap.i3. & vados, c mayores. E o mcfmo Author refere de hu- 
^^' ma ferpente de cento e vinte de comprimento , que 

para matalla foy neceffarioaífcftarlhe trabucos, e 
outras maquinas militares de que fe ufava naquelle 
tempo , e darlhe bateria , como fe foíTe muralha de al- 
guma fortaleza. E Eliano diz , que os ha na índia de 
fetenta covados. Pelo menos devefe credito ao que 
BoUaodus M. ^^ ^c^c^c na Vida. de Santo Apoilonio Abbade, de hum 
3anuariin.\í. Dragaõ dc quinzc covados, que deixava nos areaes 
cxPanadio. jr^f^Q como de huma grande trave. Pelo que fe eftes 
inohftros podem comíigo mefmos o que bafta para 
os feus voos , que faõ curtos a modo de faltos , tam-; 
bem poderáõ com o pezo de hum honrem. 

Também 



Pará fegmr o hem , efíígk o mal. i j^^ 

' III. Também naõ he incrível , que eftas feras, du- 
rante o Inverno , fe fuíkntem com pouca coufa , e 
cflejaõ entorpecidas, e íem muit^ fanha com os rigo- 
res do frio, habitando nas cavernas da terra. Muito 
mais admirável he o que traz Sennerto dchunsPo- Lib.j.r.atifTí 
vos de Lucomovia , rcgiacalém da Ssrmacia, os quaes part. i. íca. i. 
todos os annos por Novembro fe intiriçaõ , e enrege- "^* ** 
laõ com a força rigorofiífima do frio , e aíTim jazem 
como mortos , dormindo até o Abril feguinte , e cn^ 
taó acordando , parece que revivem. E ia razaõ 
porque o cérebro fe lhes naò corrompe, aponta o 
meírno Author dizendo, que a pituita dos narizes 1 

congelandoíe lhos tapa , ficando pendente delles , co- 
mo cá vemos pender das telhas o codaõ j e allim íuc- 
cede , que fe efle codaò lhes cahc , e o ar externo acha 
porta, os mata de repente. Parece efta narração fc 
chega à fabula \ porém muitos , como 4:10 dito Author 
fepódever, otçftificaõ. 

IV. O que naó obflante , tenho por efFeito mila* 
grofo da Divina Providencia , poder paíTar efte ho- 
niçm cinco mczes com fuftento taõ limitado , c con- 
trario à níM:ureza humana ,e naõ padecer leíao algu- 
ma na companhia daquellas íéras, antes, dormir tan- 
to tempo nos feus mefmos covis. E me parece ter et 
te prodigio femelhança com o de Santa Golinduca ^ il- Mcnslognim 
luftre Períiana , que tinha taõ amaníado hum Dragão, ^'*^* *>* J* 
que reclinava nelle a cabeça para dormir. Pelo quç 
fe deixa claramente entender , que o que Deos queria 
dellc^ era purgallo de feuspeccados , ou aperfeiçoai- 
lo nas virtudes , para o levar com boa morte. E a efíe 
fim lhe deu huns exercícios , com femelhanças de Pur* 
gatorio; a- companhia deDragoens em lugar da dos 
demónios, a gruta fubterranea, em lugar de cárcere 
infernal , e a tribulação do efpirito , em lugar de fogo., 



i\v 



EU.de tal forte difpenfòu as circunrtanciasdeftecáToi 

que o fez obíervar por neceífidade a clauíura , abftir 

ncncia , pobreza , compunção , íokdade , e frequcn-^ 

cda de oração, que cá fora nunca elle ferefol veria a 

obfervar porilia vontade. Deftas Cartuxa^ , ou ^x< 

.: .i:>^í rábidas edifica Dcos com huma íó permiffaõ , quanda 

'"x lhe parece, para bem de fcus efcolhidos. E oh que 

Jokj. vcrí. i8. certo hc , que a fua maó quando fere , cura : Pévcuttty 

(^manmejtisfánabunt. 

Oi V. Notefe , como aonde efte homem cuidou cn-í 
contrar a certeza da morte ;, achou o remédio da vidíi. 
Temeo , que foíTe fuftcnto dos Dragoens , e os Dra- 
goeiís o enfinaraô a bufcar fuftento 'y temeo , que o fe- 
piiltaffem em féus ventres, e elles odefenterrara5,e 
reftituiraó à fua liberdade. Orava com grande afilie-? 
çaõ , e lhe parecia , que na5 era ouvido ^e Dcos antes 
que elle cáhiíTe-naquelle abyfmo, lá dentro lhe tinha 
prevenido a efcada por onde fobiíTe. Até huma cou-? 
fa taò vil , c inútil , qual he huma pouca de lama entre 
huns penedos , naó eftava alli de balde, pois fervio dç 
colchão, em que a queda mais foífe defcida , do que 
precipício ; por quanto o Komem naô hia a morrer âN 
li, fenaó a recolherfe ; naò a acabar a vida, fenaóa 
renovaUa. •> 

sii*^c7iív. VI, Em nenhum aperto , por extremo que íeja ^ 

^. - ; . - - devemos largar da maõ o fio da efperança ; porque eni 
todos acha a Providencia Divina meyos muy oppor* 
tunos para nos livrar com modo taõ natural , que pa- 
rece, queeftavaó já de antes prevenidos , e que íuo 
Euícbio Nic cederão acafo. Ariftomenes , prezo por feus inimigí3S 
U D^íVacucia"^ «m huma mafmorra íubterranea, eftava já defefpè- 
caf. i©li rado davida, ao menos à violência da fome, e máç 

cheiro. Eis que huma rapoza, minando a terravey^^ 
^ íahlr onde elle eftavaje vendo dentro gente,:taf- 
z^jL " nou 



Vúra feguk ohm ^^e frigir ornai. tf^ 

noií a querer fahir por onde entrara. Pegalhe el!e dá- 
cauda com huma maõ , e com a outra hia affaflandoa^ 
terra, quanto podia. E defle modo fem foltar niínca? 
a fua guia , fahio livre ao campo , rindoíe das cautel-' 
las , e vigilância de feus inimigos. Malco , efcravo fU- s. Jíronymg nê 
gitivo, em companhia de outra Chriftãa , palTavaò o !^^f'^,^?,^'^'^^l 
rio, -montados em odres, que fízeraõ, matando duas geSamo» 
ijezes de fato de cabras , que paftavaô. Seguios o Se- 
nhor, e hum cr^i^o em ligeiros dromedários^ e y£ | 
quafi alcançados íe eíconderaõ em huma cova , fican-^ | 
do -a hum recanto da entrada. Quem na5 dirá , quc' í 
eftaõ colhidos íem remédio algum? Pois fby muita ? 

pelo contrario : mandou o Senhor entrar dentro ò-^ \ 
criado , e dle oseípera à boca com a eípada nua. Sa^ \ 

hé do interior da cova huma leoa , que alli parira , <? 
afoga p criado. O Senhor , que naõ íabia da delgraçay 
Q eftranhava,' que tardaffe tanto: entra também, d 
dando vozes, «fazendo ameaças. Torna a fahir a' 
leoa , e dalhe o mefmo deípacho , que ao criado- Os 
fugitivos, que tudo eftavaÔ vendo fem ferem viftos^' 
fahem alegres ; achaô dous dromedários, e o mais pro- 
vimento neceíTario para fazer a jornada , e falvaô-fe/ 
De forte, que bem coníidcrada a ordem da Providen- 
cia Divina , cftc amo nao hia a matar os efcravos> 
porque lhe fugirão , fenaò a levarlhes carruagem , e 
mantimentos para profeguircm a jornada com mais 
commodo,e fem nciíbum fufto. E os eícravos naõ fe 
recolherão na coVa para efcapar da morte , fenao para 
conduzirem alli feiís inimigos, onde mao alhea mais 
poderofa os efperava, c ferem teftemunhas da vin- ' ' 

ganç^jBuito a feu falvo. Eis-aqui pois , como* em ne- **^"*' 

nhum aperto devemos largara confiança cmDcoSy 
Ij nem omittir a oraçaõ com que folicitamos o fcu au-^^ 
xilio. Antes entaõ confiar mais ? porque efles fao os; 



jyS Avv Eflimnlo prático y 

lermos, cm que Deos coftuma acudir: Soht Deus 
(dbS.Joaõ Chryíbftomo) walaavertere: fed dimuf- 
que ad fummum venennt ^ é^crevermt , xummhilpríem 
termijfum fuerit ab hojiibus^ qum omnia experít fint: 
tum (imtil omnia m fummarn tranquilitatem converííty 
ac pr^ter ommum expettatwnem^ restpfas opttme con* 
Jlituit , a- firmat, 

VII. Tambcm nefte caíb , fe o efpiritualizarmos, 
a^charemos cxpreffa humi figura , ou parábola do que 
fucceds a hum peccador , quando íe enlaça com algu- 
ma amizade torpe. Porque ^fc bem fe confidera , ef- 
te mundo he huma grande mata brava , ou bofque 
cerrado , em que os mundanos andaõ vagueando a 
buícar as fuás conveniências i e goftos. E aqui impli- 
cados com a multiplidade das creaturas , fuccedc per- 
derem o tinb , errando o caminho da Ley de Deos 5 e 
porque a luz do conhecimento das coufas efpirituaes, 
c enganos do demónio, henellcs pouca, põem o pê 
cm falfo , e cahem no abyfmo de peccado mortal , e 
no lodaçal taõ immuodo da feníualidade. Os dragões 
enrofcando no homem os collos , e caudas, que faó^ 
fenaõ as Vcnus infames, que dllTimulando oícu ve- 
neno lifongeaõ , e affagaõ o miíeravel peccador. As 
gratas fubccrraneas faô os feus covis; c alli mora o 
peccador , coftumandofe a fuftentar com a immundi- 
cia dos deleites terrenos, e peftiferos, que bem fal- 
gado lhe fahe , e lhe c(!)rrompe a alma , e o corpo. Sa- 
hir deftc miferabiliíluno eftado ao caminho da vida^ 
e verdade he muy difficultofo ; por iffo íe diz no livro 
ProTcrb x.Tcrf. do3 Provcrbios : Omnes qmingredniníur adeam [ícír 
lícet meretrlcem) nonrevertentur ^ me aprebefidenífe*^ 
mitos vila. Já fe o coftome fe vay inveterando , até 
os defe'oi , e penfamentos de fahir delle fe apagaò, 
e morre m^ e folga o cativo com o feu mefmo cativei- 




19 



Pãvajegmr o bem , e fugir o mal. 1 57 

ro, como diffe Ofeas : Nondêhmt cogitaticnei Juas ofcc.^.yctr.^ 

m reveruntur ad Deumfuum : (jtna [pnitpu formcattO' 

num m mcMo eorum, A razaó deu o niefmo Profeta, 

comparando a luxuria à embriaguez , que ambas ti- / f t j1 

raò o fizo , e fazem appetecivel o íeu meímo damno, ' 

e goftoío o feu meímo veneno : Formcatw , & vmum^ ofee. 4.vetf, 

& ebncías aiifertirncor. ES. Clemente Alexandrino, ^^' 

comparou o mefmo vicio ao accidente de epilepcia, 

que também priva do juizo. Por iífo noffo commum 

inimigo folga exceífivamente^ que o homem caya 

nefte abyímo y e atoleiro ; porque por atoleiro , e por 

abyfmo tem a fahida muv diííicil : Dtabolm ( he dou- i:,.i*cu£çft 7^. 

trina do Angélico Doutor Santo Thomás) dmturgan^ 

dere maxtmè depeccato íusurta > quia ejl máxima aúba-^ 

renita , & dtfficile ah eo potejl homo enpt. Mas porque 

a Deos nada he impoíTivel ,. fucçede às vezes , que avi^ 

finhandofe mais pertaa Sol das fuás illuftraçoens ^ e 

aquecendo o coração do peccador, tem ventura de 

fahir y e voa fora par intcrceíTaõ da Virgem 5 eípecial- 

mente fe algum dos Dragoens com que morava , fe 

converte , e toma melhor camânhaf e ajudado com a 

feu exemplo, fahe também o pecçador^ e indireita 

os paffos para fua caf i , c pama , que.Ue o Cea 

VIII. Jufto foy fazer efte homem., que a memo- 
ria do beneficio da fua vida confervada , duraffe além 
da mefinavida. E fca coufa feria , que defcnterran- 
do-o Deos a elle daquelle abyfmo, elle enterraffc 
beneficio, no efquecimcnto. Ainda quando a mercê 
cm fi he limitada y por vir da maò de Deos he grande^ 
e como tal deve agradecer fe. Kempis.: St ãtgnitas dâ'^^ tíb.a. áeiraíi 
íorii- infpiatur , nuUum datumparvum , aut mmu vda **"o«cw£. 1*4 
videhttur. Non emmparvum ejtquod k fumm& Deo do-- 

EXE^fi- 



158 



Efiimulo pratico ^ 



IH otite ervare,. 
fieque fures, nc 
que avari. . . 
«tque repares 
tegnum D ti 
pojjídekuiit. I. 
Cdi. é.TCtf. 9, 




EXEMPLO XX. 

Da obrigação de reftittiir os bens hjuf- 
tumente po([uídos^ 



M Flandes , naó longe da Cidade de Bru- 
xellas , havia hum Caíkllo infcftado com 
eftrondos noíturnos , que a deshora fe 
ouviaõ 5 fem fe faber a cauía delles. O 



Fidalgo, dono do dito lugar, depois de 
haver padecido muitos defvelios, e íobreíaltos, c 
outras moleftias , fem lhe aproveitarem alguns remé- 
dios , que applicou de couías fagradas , ultimamente 
defamparou a habitação , e fe veyo viver a Bruxellas, 
onde mais por alliviar o coração, do que por buícar 
novo remédio, communicou o caíb a certo Padre gra- 
ve do Collegio da Companhia de JESU na dita Cida- 
de. Eraeftenaõ fó armado da fortaleza das virtudes, 
mas naturalmente animofo; e ofFereceo-fe a fazer 
( fuppofta a ajuda de Deos) com que ceffaíTem eftc$ 
ruidos , e pavores , e ficaíle o Caftello capaz de ícr ha- 
bitado. Com efFeito dalli a três dias, (conforme ajuf- 
taráõ) caminhou o Padre para o dito lugar, levando 
companheiro da mcfma Religião, accommodado ao 
intento 5 e recolhidos ambos em hum apofento, que 
ficava viíinho a hum falaõ, onde mais de ordinário 
fe fentíao as^ inquietaçoens , fecharão bem a porta, 
accendéraô luzes , e fe^iuzeraò em oração , (que tam- 
bém foy accender outra melhor luz) para terem mais 
junto de {\ a companhia dos Anjos ,c o favor Divi- 
no) quando lá perto da mcya noite ouvem correr pe- 
lo 



Para /eguir o bem , e fugir o mal. 159 

Io Íala5 , com cftranho ruido , c a carreira veyo a pa? 
rar na porta do tal apoíento , com três rijas pancadas* 
Os de dentro nada refpondéraõ , nemcicraò final al- 
gum de que entraffe. Mas quem batia , fem aguardar 
licença ^ mcteo as portas dentro, com ettranha facili- 
dade. E eis que vem entrar a formidável fombra , ou 
femclhança de hum homem, de cujos olhos fcintillava 
fogo negro , a lingua fora, as faces fumidas , o cabei- 
lo arripiado, e todo o alpcélo livido, macilento, e 
horrível. Entaôo Píidre,fem rufto,nem pavor, em 
voz alta , e intrépida , lhe perguntou : Quem es , e 
porque caufa inquietas efte lugar? A íomBra alTen- 
tandofe em humi cadeira , que ficava defronte do Pa- 
dre, lhe refpondço: logo virá quem te refponda. Con- 
tinuou o Padre a fua oraçaõ , e paíTado como hum 
quarto de hora , ouvio femelhante eftrondo ao pri- 
meiro , e entrou outra fombra na mefma forma. Fez- 
Iht o Padre a mefma pergunta , e elle oecupando a fe- 
guinte cadeira , relpondeo : Logo virá queai te ref- 
ponda, e faberás parque infeftamos efte Palácio. Paf- 
ia io outro quarto de hora , entrou terceira viíagem, 
p:ecedaido também grande ruido : affentoufe abaixo 
ài^ outras duas , e ao requerimento do Padre refpoL- 
deo do mefmo modo. Fmalmente depois de interval- 
lo femelhante , entrou a figura de outro homem , po- 
rém muy differente no aípc(ílo,e traje, e modo de 
andar: vinha quieta,, e f)(regadamente, veftida de 
branco , o rofta modeflamente alegre , as mãos juntas 
como quem ora. Falloulhe o Padre com brandura , c 
reverencia ,. perguntando a ca^ofa da fua vinda. E cl- 
le Ihereípondco-benis^nainente: Sou a alma dopay, 
do que por hora poíTiic efte Caftcllo , e vos mandou 
a elle. Os outros três que vedes, faõ meus aiitepaíTa- 
dos , fucceílivamente , a faber , meu pay , avô , e bifa- 



vò. 



1 6o Efiimulo pratico , 

Vô. Eílefoy Q primeiro , que ufurpou èfte Caflcllo a 
ftu legitimo fenhor, contra toda Y^LZdòy e direito, 
por occaíiaõ das guerras civis , que entaõ ardiaõ. Bem 
ofoubemcu avòi mas deixouíe licar com o que por 
nenhum titulo era feu. PaíTou a herança a meu pay, 
o qual entrou em duvida fobre a verdade do titulo 
porque lhe tocava ette dominio 3 porém naô quiz exa- 
minar o ponto, parecendolhe melhor coniervar a pof- 
fe, E aíTim todos três foraô por cfta caufa fentencia- 
do.s pelo Supremo Juiz a fogo eterno Chegando 
aquella alma bemdita a fazer mençaò defla íentcnça: 
os três condenados fe levantarão com grande furor, 
c correndo a todo o impeto pela porta fora , dcfappa- 
receráõ. E a alma continuou , dizendo : Eu , cpae fuy 
o quarto poffuidor , icmpre eiVivc em boa fé , naiõ me 
parecendo , que lograva íenaó o meu. Toda via , por 
fecretos juizos de Deos , eftarey detida no Purgató- 
rio , em quanto a reftituiçaó fe naõ fizer a quem toca, 
que he hum criado de meu próprio filho , por nome 
Joaõ, defangue muy nobre j porém que veyo a efta 
íorte inferior, pela continua mudança das coufas do 
mundo. Peço a meu filho, que lhe reftitua logo o Caf- 
tello , ou ao menos íe componha com elle por mcyo 
de alguma tranfacçaõ jufta, c amigável. E vos Padre, 
lembraivo5 também de mim quando facrificais. Aca-. 
badas efl^as palavras fe defpedio , e apartou quieta- 
mente. E o Padre muy admirado do que vira , e por 
outra parte contente do bom fucceffo , que tivera a 
fua diligencia; convidou feu companheiro a dormi- 
rem fem cuidado o que reftava da noite. Pela manhãa 
veyo o Fidalgo bufcar novas do que paffára ; e ouvi- 
da toda a narração , quiz alliviar a alma de feu pay , e 
cfcapar da infclíciflima forte dos outros feus antepaf- 
fados. Logo em prcfença do mcfmo Padre , chamou 

ao 



Para fegutr o bem , eftigir o mal. i6i 

ao dito Joaô, e lhe declarou, como cftava prompto 
para lhe dimittir o Caftello com toda a juriídiçaô 
que lhe tocava , falvo quizeíTe admittir algum parti- 
do honrado , e haver por treípaflado legitimamente 
o dito domínio , e poffe. Coníentio o criado ^já dalii 
por diante naó criado , mas amigo e companheiro» 
E ceffáraõ de todo as inquietaçoens , e eflrondos no- 
âurnos, quealli fe ouviaô. Eftc caio traz o Padre 
Theophilo Raynatido , no íeu Prado efpiritual jHiíi- 
S/.queheno tom. 17. de fuás obras, 

ANNOTAÇOENS. 

I. "¥ Ndubltavel he, que os condenados tem 
I certo , e particular lugar determinado pela 

Juftiça Divina , onde recluíbs penaõ. E ef- 
tc hc o inferno , que o Pfalmifta chama inferior , que 
commummente fe crê eftar no centro da terra, ou 
perto delk. O que naõ obftante , fe ia Iva bem o cre^ 
dito defta hiftoria , quando nella fe diz, e fuppoem i 
<juc cfías três almas réprobas andavaõ penando na- 
quclle Caflello. Porque, ou podemos entender , que 
álli appareciaõ , fuppofto, que alli naò eftiveíTem real- 
mente , ou que ifto foy cfpecial difpofiçaõ da Provi- 
dencia Divina , a qual naó implica com a difpofiçaõ 
geral acerca das mais almas. a ç 'ft ^ 

II. Efte fegundo modo me parece mais veroíimil, ^cf^hh!s.VC» 
Porque também para almas , que fe purgaõ , ha certo ^o»-- Angi, cap. 
lugar determinado , como enfinaó os Theologos , e íe ^.díft.to!'!* J^ 
colhe dos Santos Padres. Ecom tudo conôa de vários* i-dift n. 
exemplos , como muitas almas fe purgaráõ nos mef- R^y^Hct^rccí! 
mos lugares, em que nefla vida peccáraõ. Radero c<Eicft,& íq- 
conta de huma mulher , por nome Ottilia, que pena- {^^.'/yBM'*; 
va em huma pocilga de animaescerdofos, por naõ ha- n.5. 

L ver 



tév Eftinwlo pratico y 

Luzahsvhêsy Ver tratado, bem os pobres. A Madre Francifca do 

y 4íei(ttgatí) en Santiífimo Sacramento , Religiofa Carmelita Deícal- 

s^dJ^ReZças] Ç^ cm Pamplona, vio a alma de outra Religiofa da 

en-^o.(iasNo' mcfmi caía, quc penava no Coro, por faltas com- 

^' mettidas. na reza do Officio Divino. E Palafox , nas 

notas à Relação defta Serva de Deos , faz mençaò de 

hum GonfeíTor, que tinha o purgatório no feu Con- 

feffionario , por perguntas curioías , que naõ pcrten- 

cia5 àquellc lugar. 

Fr. Pedro Na. ^^^' ^ Venerável Joanna de la Cruz, que teve 

var. na fua Vi. frequente communicaçaô com as almas benditas , c 

dtJib.j.cap.g. porellas padccco muito, para alliviarfe dehumador 

applicou a huma ilharga numa pedra quente ^ que íe 

tinha tirado da entrada de huma cova do Convento , 

calli eftivera muito tempo^ Ouvio logo fahir da mef- 

ma pedra triftes gemidos. Perguntou quem era , c 

reípondeo a voz : Sou a alma de hum peccador , cu>- 

jo purgatório aíTmou Deos , alligandome a efta pedra^ 

que eftava ao longo do Tejo , e dalli foy trazida para 

as obras defte Convento : ajudame com tuas oraçoens.. 

AíTim o fez a Serva de Deos, eadmirandofe docafo^^ 

o íeu Anjo , com quem tratava familiarmente , a ti-^ 

rott da duvida, dizendo, que às vezes aílinava Deos 

femelhântea purgatórios conforme a qualidade das 

culpas. 

IV. Semelhante cafo refere Santo Antonino , de: 
outra alma ,que eftava alíigada a hum grande pedaço 
de caramelo, ou agua congelada em hum rio^ e le- 
vando-o huns pekadores ao ícu Bifpo ,. por nome 
Theoldo , que padecia exceífivos ardores nos pés , e fó 
os mitigava com refrigerantes , aíTim como íe appli- 
€ou à dita parte , foou queixofa e trifte huma voz , 
^ue declarou quem era , e pcdio íufFragios. 

Y. Tairàem do efpiritualiíTimo , e illuftrado Va- 
L,r rao 



Para feguir o bem , efupr o mal. j (5| 
ra5 Joaó Tiiaulero íe cfcrcvc , que apparecendo jTua tea-fnXo Ttah- 
alma àquelle feu amigo , e difcipulo que o converte- l',,tY'/«r*r 
ra, lhe declarou, como a pena do fentido Ihâcom- /w. 
jmurára Deos nos graves horrores, que padecera no 
artigo da morte ; e a de damno a padecera , e purgara . . r, 

no Paraizo terreal, onde cftiverarctardâdacinco dias >'» 

da poíTc do fummo Bem. ,: | 

VI. Naõ he logo fora de razaô, que efta alma^ .ííis 

que apparcceo em quarto lugar fe purgafle alli de ai* 
guns cxceffos 3 e quç as outras três condenadas tiveC- 
ícm alli também parte do feu inferno, pois a dema,- 
íiada cobiça e amor, que tiveraõ àquelle Caftdlo^ 
fora a principal caufa da fua condenação eterna. Ve- 
rificandoíe àquelle oráculo do Eípirito Santo : Ftr Sap.íf.cf; 
qua peecat quu , per hac & iõrquetur. 

VIL Confirma- fe com o cafo celebre daquclla 
moça, natural do Peru, por nome Catharina , que 
depois de ter commettido muitos facrilcgios de con- 
fiíToensnuUas por callar peccados , affim morreo im- 
penitente ) c logo fe fentiraõ na cafa notáveis inquie- 
taçoens cmoleííias; a hum moço otiráraõ arraftran-; 
do fora da cama pelo braço : a outra ferva lhe deraõ 
hum couce no hombro , onde os íinaes lhe ficarão im* 
preíTos por muitos^dias : outra ferva, que fora amiga ^ 

da dita Catharina , por três vezes a intentarão arraít 
trar por hum pê diante de fua mefma fenhora e de 
outras dez ou doze mulheres , fem ninguém ver 
quem ihe fazia violência. Outra entrando em huma 
guardaroupa a tirar hum vertido , vio claramente a 
meíma infeliz Catharina, que levantandofe arreba-^ 
tava furiofamente hum vafo para lhe fazer tiro corn 
elle. E fugindo a ferva com toda a preça dando gri- 
tos, o vafo fe fez em pedaços na parede contraria. 
Ao eftrondo acudio a fenhora , e entrando na guarda^ 

L ij roupa, 



i54 Epimuloprauco^ 

roupa , lhe atirou também com hum meyo ladrilhoi. 

Puzcraõ no apoíento huma eítampa de Chrifto Cru> 

cifícado , muy bem pregada na parede , e ao meímo 

ponto à vifta de todos a arrancarão , e raígáraô em 

KnxtíXt^ Soclc- três pedaços. Com muitas outras, moleftias infeftou- 

iKis jcfu anno efta alma condenada aquelle lugar. O fobredito bafta 

ProTiflcU Pero- P^^^ í^ provar , como bem pode por eípecial difpo- 

v^- fiçaõ Divina ter hum condenado parte do feuinferno. 

fobrc a terra , no lugar que lhe for íinalado. 

Vni. Defejarâ alguém fabcr^quc remédios fagra- 
dos faõ 08 que devem applicarjfe para livrar as cafas 
infeftadas de máos efpiritos y e porque razaô às vezc», 
naô aproveitaô 5 como fe vio no prefentc caio. Ref- 
pondeíe , que íao ; orarem no tal lugar os Sacerdotes 
c Miniftres da Igreja , e fazer afperfões de Agua Ben- 
ta , collocar Relíquias , e melhor quis tudo , celebrar 
Miffa, Ouçamos- o que refere Santo Agoftinho a cftc 
intento. Hefperio, (diz o Santo Padre) Varaô conf- 
tituido na dignidade de Tribuno, e que ao prefentc 
vive entrenós, poíTue no território Fuffalenfe hum 
campo chamado Zubcdi> e vendo > que a fiia cafa cf-- 
tava infeftada de mãos efpiritos , com naõ pequena 
vexação dos, criados , e animaes> rogou aos noíTos 
Presbíteros, ( achandomeeuentaòauíente) quizeffe 
algum delles. afugentar efla praga com fuás orações. 
Com effeito foy humSaccrdote^e celebrou alli oSa- 
crificiO' do Corpo de Chrifb , eorou largamente , c 
por mifericordiade Deos ceíToulogo o trabalho. Ha- 
via recebido o mefmo Hefperio da maô de hum feu 
amigo terra do Santo Sepulchro ^ onde Chrifto foy fe- 
pultado e reíurgio ao terceiro dia, trazida de Jcru- 
falem , e a tinha pendurada no íeu apofento , porque 
íf ír'8^*fft' B^õ Ibe coubefTe também, parte da pcrfeguiçaô. Ifto 
»cèà^' * ^° diz Santo Agoftinho. 

Se 



Parafeguir o bem , e fugir o mal. 1 6 y 
IX. Se o cadáver , cuja alma fc fofpeita haver 
partido em máo eftado , por fua vida efcandaiola , ef- 
tá fepultado nas mefmas cafas , ou em lugar vifinho, 
aproveitará paíTallo a outra fepultura diítante \ pof- 
jqiie os efpiritos, ou fejaõ diabólicos, ou humanos, 
íe naõ tem outro lugar affixo por Deos , folgaõ de an- 
dar à roda , e fazer affento nos corpos , queferviraõ 
ao peccado. FuIpoIío eícreve, queemAthenascfta» ^\}*^V^' 
vao humas calas míeitadas com a appariçao de huma Epift, 17, 
fombra , ou vifagem pallida e macilenta , que arraf- 
trava cadeas muy compridas com grande ruido de hu- 
ma parte para a outra. Tinhaõ por efla caufa defci- 
do a aluguer muy limitado , c com tudo naõ fe lhes 
achava alugador. Mas hum Athenodoro , convidado 
com o barato do preço quiz morar nellasj e apenas 
paz o pê dentro , quando vio a íombra: intrépido a 
foy feguindo até huma paragem , onde lhe defappare- 
ceo« Mandou cavar alli , e achou hum cadáver cerca- 
do de cadeas : mandou enterrallo em outra parte dif- 
tante ,e ceffáraõ os horrores noâurnos^ e ficou lo- 
grando as calas fem moleftia alguma. 

X. A razaõ porque às vezes eftes remédios naõ 
valem , fabe-a Deos , cujos juizos faõ occultiffimos. 
Podemos conjeílurar, que as peíToas que oraô lhe naõ 
faõ gratas^ncm provao bem a fua fé com fantas obras, 
ou faltaõ à perleverança na oração ; ou as pcíToas ve- 
xadas defmerecem efta mercê por peccados commet- 
tidos contra a reverencia das melmas coufas íagradas 
de que fe valem ; ou finalmente , que Deos Noífo Se- 
nhor pertende tirar daliimayor gloria fua, e provei- 
to noíTo por outros mcyos mais oppcrtunos, como 
foy no noíTo cafo, em que Deos Noffo Senhor que- 
ria juntamente tirar aquella alma de penas , e o criada 
Joaô de pobreza, e o dono intrufo do leu engano;. 6 

L iij propor 



1 66 Eftifnulo pruúco , 

propor manifcfto a todos os Fieis hum illuflrc cxcm- 
pio de que naõ ha faivítçaò fem reítituiçaô. 

XI. Repare íe attentamente cm algumas clrcuní- 
"►jaiicias da appariçaõ deftes quatro eípiritos. Naõ vic- 
. raõ juntos , íenaô a intervalios , cada hum de per fi ; 
para moftrar a hiifnà , a ordem natural com que fuc- 
ceili vãmente entrarão nefte mundo bifayò ^avò , pay, 
':f ' ; c filho : a outra ^ a ordem com que paíTárau para o our 

' tro mundo , fendo cada hum caufa de penarem os ou- 

tros C3ndenados. Traziaôeftes as linguas fora da bo- 
^ y e denegridas , para moftrar os intoleráveis ardo- 
res do fogo , que os atormentava 5 que nefta parte pe- 
jU mefma cauía pedia o rico Avarento a Lazaro o re- 
frigério , ao menos de huma pinga de a^a , que lhe to- 
tuc. lí. TMí. Ç^^^ ^^ íingua : Uirefngéreflmguammeam , quia cruy 
^4. €wr in hacfiamma. Se já naõ foy para fignificar , que 

tou naô confeffáraõ bem o feu peccado , ou naõ obe- 
^ ^ dccendo ao Confeffor, que lhes mandara reftituir^ 
tanto foy como fe o naõ confeíTaíTem. Naõrefpon- 
deo logo o primeiro , para efperar fe ajuntaíTe othea. 
jtrp todo, fendo huns como teflemunhas , e accuSdc- 
res dos outros. Abemdita alma naõ fe aíTentoncom 
as outras tr€s réprobas , porque era já o feu eftado 
muito difFerente , e fuperior , em que naõ communi- 
eava com cllcs , nem na graça ^ nem na efperança da 
gloria. Mais eftranho, mais dcfprefivel , e odiofo he 
hum pay réprobo para hum filho eícolhido ^ do que 
fiefta vida feria acompanhia dehumafcrpente^ ou de 
kumfapo para qualquer homem. Além de que,eftc 
naõ fe aíTentar com o;; mais , foy moflrar , que naô ti- 
vera, como elles, affcdlo injuflo à confervaçaõ da 
poífe daquelle Palácio. Os trcs réprobos entrarão 
com violência , eftrondo , e geflo trifte 5 pelo contra- 
rio j a alma fanta entrou com modeftia, ioffe^o , a!e- 

^5ss^'" gr ia, 



Para feguir o bem , e fugir o mal. 1 67 

gria , c benignidade , pedindo oraçoens, e folicitan- 

ck) o bem do próximo , e f9jgando de communicar 

com o Servo de Dcos. Eíics íaõ os íínaes do efpirito 

de Deos , c os indicou o A poftolo Santiago , dizendo: 

§luie autem dejnrfum ejt faptentta ^ primum qutdempu- jacob.j.fafc 

dtta ejl , ddndc pacifica , modefta ^fuadibãU , homs com 

fenttens , plena mifencordià , & fris£itbus bmts. E o 

contrario he íínal de cípirito contrario a Deos, 

XII. O principal ponto de doutrina , que fe co- 
lhe de todo efte cafo, he a obrigação precila, que 
hum tem de reftituir o que poíTue injuftamentc ,fob- 
pena de perder o ReynodeDcos; porque nciic naô 
cntraò ladroens j nem eftava pofto em razaõ , que lo- 
graffe os bens cdeftiaes e eternos, quem taô bai-* 
xamcnte os eftimou , que lhe preferio os terrenos , e 
caducos: Nolue enaré (clama o Apoftolo) nequefu^ 
res , fje<jue avari,.. . ne^ue rapaces regnum Dei poffi- 
debunt. Com grande enfaíi diz; naõ queirais errai: 
Nõlíte errare ^ porque fendo efte defengano taó clara, 
alguns fc cegaõ tanto da cobiça , c afFedlaõ tanto dcf- 
cuido da obrigação de reftituir, como fe depropcíi^ 
tò quizeffcm errar, ou efperaíTem mudar os decretos 
Divinos , c accommodallos ao feu di Aamc. Pois con- 
tra eftes diz o Apoftolo: Naõ queirais errar; ladroe?^ ^ 
c avarentos , e todos os que vivem de rapina , he cer- 
to, que naô ha5 de poffuir o Reyno de Deos. Com 
mayor aiTeveraçaô aítentou efta verdade Chrifto Sal- 
vador Noffo, fallando com íua Serva Santa Brigi^ 
acerca de hum ca fo fcmelhante: §uid credunt hemi- tife.^.RcTe!: 
ncs mda fidetpojfejfures , qm detinent wjfffie obteritafci- cap 85. 
mier \ numqutd qtihd mír^hunt in reqvtem meam ? lerte' 
non m/igis quàm Lúcifer, Que cuidaô, (diíTe o SenhoíV 
os homens poííuídorcs de má fé , que retém na fua 
maó o mal levado , fabendo , que hemal levado ? Que 

L iii] haa 



168 Ef}imulopratic(rj 

haõ de entrar no defcanço da minha gloria? Digo, 
que tanto entrarás elles como Lúcifer: S^d nec etee- 
mofina ( accrefccntou o Senhor) de male acqm/iús prõ'> 
derunt eis : fed proÂcrunt ^ (^ convertemur ad confoU- 
t tonem verorum dominorum , quorum tila honã futrunt. 
Pois ncm.ainda as eímolas,queda5doqucadquiríraã 
malylhe aproveitaráô , e o proveito^ e coníolaçaò fera 
dos verdadeiros donos deffa fazenda. Tremendas pa- 
lavras ! A quem ellas batem na cojifcicncia , acorde y 
e de-íe por entendido. 

XIII Os que mais ordinariamente naô coflumaô 
acordar y nem darfe por entendidos , faó os Senhores, 
€ Magnates da primeira nobreza , fe acafa chegaô a 
enredarfe com o laço da fazenda alheya. Porque co- 
mo a reftituiçaô por huma parte topa em quantidades 
grandes ; e por outra julgaô ímpoífivel diminuir do 
tftado cm que huma vez lepuzeraò ; c por outra nao 
faltaô pretextos^ e opinioens largas, pa^ra a dilação 
da paga , c para a juftiça do titulo com que fe poífue, 
ou reftituem mal , e tarde , ou totalmente naô refti- 
íuem 5 etudo redunda em dano de fuás almas, Taes 
foraõ as dcfte exemplo j e taes. as de outros muitos , 
«aron; Aano ^^ ^ encontraô pelos livros. Apontarey hum por 
ChEifti io^y muito ícmclhante aonoíTo , eo. traz Baronio. Hum 
Fidalgo principal de Al§çaanha,invadio,efe apode- 
rou injuftamente dos bens da Igreja Metenfc. Mor- 
reo íem reftituir , e a fua infeliz alma foy vifta por 
hum Varão dcDeos. entre horríveis , e fonóras laba- 
redas de fogo infernal , aíTentada era huma eícada , e 
como efperando , preparada para receber todos os 
mais da íiia profapia, que àquelle lugar deíceíTem. E 
€o:n efFeita os feus deícendentes hiaõ entrando , c af- 
fim como o ultimo encrava , os mais progenitores íc 
âfaftavaõ. paracsdcgraos mais altos, dando lugar no 

"^^ Ínfimo 



tom. X2. 



Pura fegiiir o bem , e fingir o rnaL 1 6<) 

Ínfimo ao íeu novo hofpedc. Para qne aílim como fc 
haviaó fcguido na culpa , fe acompanhaffem também 
no tormento : Ut fitut eos ( íaõ palavras de S. Pedro 
Damião , donde tomou a hlíloria Baronio). par rapina 
fa€ra pojfejfw CQnjuuxU ^tta fana quoque copularei, No- 
tefe^ que taõ certo coftuma fcr naõ rcftituirem os def- 
cendentes o que feus mayores naô rettituiraõ ; que 
aqueila primeira alma entrando no inferno y cftava já 
preparada para receber as outras. 

XIV* Quando alguns fc dèterminaô a reftituir, 
fuccede fer por taò roins modos, que ainda a fua 
confciencia naõ fica deiencarregada. O modo legiti- 
mo de fe fazer huma refíituiçaò , nosenfinou a Sagra- 
da Efcritura y no cafo que paliou ao Profeta Elizeo 
com huma viuva pobre. Veyo efta communicarlhe a 
fua neccflidade y e tribulação , dizendo j como havia 
fallecido feu m.arido, que era homem temente a Deos, 
como o mefmo Profeta conhecia 3 e que por fua mor* 
te lhe naõ ficáraõ fenaô dividas y e filhos , que faõ oiir' 
trás mais apertadas dividas da natureza.E que vinha o 
acredor, e fe queria penhorar em dous filhos^levando* 
lhos por efcravos.Corapadeceo-fe Elizeo, e como feií^^ 
do amigo de Deos y era o mcímo , que fer riquiíTimo, a 
efmola que lhe deu , íoy multiplicarihe humas pingas 
de azeite , que remanecéraõ no fundo de hum vafo, 
com taõ_fermofa bençaõ, que naõ ceifou de correr 
em bica, fenaõ quando à viuva faltou louça em que 
aparallo. E indo logo dar conta do fuccedido , e gra- 
ças pelo beneficio ao Santo Profeta , elle lhe diíTe aA 
fim : Fade : vei^de olenm , ^ redde credífõrt tm ; tu au-- 4. Rcg.4.Kr£ 
tem , ó-flnímvivHe ae reltqtw. Vay, e vende eíTc azei- s- 
te , e paga ao teu acredor , e tu , e mais teus filhos vi- 
vey do mais que íobra. 

XV. Notefe pois ao noíTo intento , que primeiro 
"'''^^-^-— ^--^ eM 



A 



Í70 Efliffiulo pratico , 

cftá o pagar as dividas ; e depois accommodar a caía 
conforme o que relia. De naõ obfervarem efta boa 
ordem ^ fe fegue a deítruicao de muitos, que taô lon- 
ge ettaò de íe contentar com viver dorelio: f^tvtte 
de reliquo ; que ainda fe achaõ apertados com viver 
de tudo, Eliesgizaó,e talhão para íi, e para os feus 
tudo , ou quaíi tudo o que tem , com que he força , ou 
naõ pagarem , ou pagarem íò de reliquo. Eiftohe en- 
gano manifefto 5 porque o viver he o que ha de íer 
de reltquo , e o pagar ha de fer do monte. A razaô dcf- 
tcdef mancho he, porque naõ pertendem fó viver: 
f^ivite ti^n^LÒ ofienrar, bizarrear, e regalarfe; e íe 
bem para viverem o pouco bafíava j para eíToutros 
cxceíTos ainda o muito naõ chega: Natura (diffe 
Séneca) panimjatts eji , cttptditati «/^//.Principalmente 
quando hum dcftes endividados naõ trata fó de viver 
jeilc^e ícus filhos \ Tu y ér jilti tm^ fenaõ elle, c 0$ 
feus mulatos , os feus cães , os íeus cavallos , os feus 
paíTáros , os feus lifongeiros , as fuás amigas , e as fuás 
terceiras : que azeite ha de baftar para allumiar a tan- 
tos ? E mais , quando effes caens , e cavallos , e paíTa* 
ros , às vezes tem tratamento como de filhos : naõ o 
digo a vulto ; porque me confta, que quando o cachor- 
rinho adoece , lhe fazem talvez cama branda, com 
Icnçocsde hqllandj, e cobertores de tella, e Ihechn^ 
mao quem applique medicinas , naõ fe perdoando às 
moedas de ouro. E outro fim , me confta , que pelo 
ridiculo empenho de farar humagallinha tí*opega do 
continuo cftar deitada no eftrado de fua íenhora , fc 
deu o valor de muitas dúzias dcgailinhas. Ifto he o 
que eu dizia , que era tratar os animaes como filhos; 
mas naõ faõ eftes os filhos, que o Profeta manda fuf. 
tentar De reltquo tu^ éfiln tut. Succede também 
muito ordinariamente, que quando fedeterminaõ a 



Parafeguir o hem^ e fugir o mal. sJ^yi i 

pagar , he em frutos nas fuás terras, ou eícrilos de 
. outras dividas fuás inai paradas , que hc pagar , na5 
cm frutos, mas em folhas, naõ em frutos, terrena», 
,mas cm foinas aéreas , impondo aos pobres acredorcs 
a carga , e trabalho de cobrar mal , e tarde , c às jga^l- 
las. E naõ he iílo o que Deos mandava pelo Pfoíeta 
àquella viuva , fenaõ , que venda cila o azeite , e arre- 
cade o pre^o , e delle pague as dividas : yende oíeum.y 
& ledde et editou íuo. Mas qyçí;grq^ vós^que vos em- 
prefte o meu dinheiro , moeda fobre moeda , e depois 
pagarme em azeite , vendido , e reduzido a prata por 
mim : efte modo de pagar , bem vejo eu j .que naò hc 
fora do coftume 5 mas bem vedes vós , que he fora de 
razâõ-Finalmente^naõ diíTe Elizeo à viuva : venderás, 
e pagarás: Fendes eleum , e^ reddes j fenaõ , vende, e 
paga: ifto he, logo, ou já de ^xcícnlt: Fende oleum-^ 
& redde'-, porque poder pagar logo e já, e diííerir 
para depois, nem he licito, nemíèguro. Naõ he li- 
cito j porque he confervar o pcccado da retenção do 
alheyo contra vontade , ou expreffa, ou tacita de feu 
dono, ainda no cafo, que a; divida procedeffe de conr 
trato (qual era a defta viuva ) quanto mais , fe he a di- 
vida procedida de delido, qual he o furto. N^ke 
feguro , porque podendo pagar lego, diflerir pafS de- 
pois, he empurrar a paga para a hora da morte; por 
quanto de hum depois para outro depois naõ ha 
mayor razaõ,até topar com a morte; e poderá íer, 
que até topando com a morte , deixe ainda efte depois 
entregue à.difpofíçaõ dos herde ros: e qualquer deftas 
couías he arrífcadiirima. Primeiramente, he arrifcado 
o reflituir íó à hora da morte , porque padece , que o 
moribundo tem alguma vontade fecreta , de que fe a 
morte o naõ executara à reftituiçaõ, naõ íe faria ; qiíc 
he pcílima difpoíiçaõ para entrar em juizo com queni 

pene- 



J71 EJIimu/o prático y 

■penetra coraçoens. E cfte máo peníamento oculto , 
ainda depois do moribundo bem confcffado , lho po- 
de pôr o demónio , e elle pelo máo Iiabito anteceden- 
te confentillo , pcrmittindo-o aífim juflamente Deos, 
cm caítigo do mefmo peccado habitual , em que fe 
deteve voluntariamente. Aflim paíTou em termos y 
em hum cafo, que refere Fr, Bernardino deBuftos> 
bem celebre, e conhecido Author da Ordem Seráfi- 
ca. Fizera certo Miffionario , que hum onzeneiro pu- 
blico reílituiííe tudo o que devia , e que fe confef- 
ííiíTe , e commungaffej e aíTim paíTou defta vida com 
finaes de verdadeiro arrependimento , e grande con- 
folaçaó fua. Porém fahindo logo da Cidade , encon- 
trou com hum endemonmhado , o qual fe começou a 
rir do Padre ; c perguntandoíhe efte a caufa ydiffe : Tu 
eftás muito contente , porque fuppoens , que metefte 
no Reyno do Cco aquelle onzeneiro je enganas-te, 
que eftá íepultado no inferno. Naõ o queria crer o 
Padre, fundandofe nos adlos que vira de reftituiçaô, 
e recepção dos Sacramentos. E o efpirito maligno lhe 
replicou. He verdade , que íe cpnfeíTou , e commun- 
gou , e rertituío. Porém tinha à hora da morte eííc 
peníamento confentido : fe eu cfcapára defta , ainda 
agora naõ havia de reftituir. Qy^]o então o Padre na^ 
conta , e difcorreo comfigo , como podem diícorrel: 
os que ifto lerem. Bem pode fer, que cfte demónio 
minta , para me defconíolar ; mas também pôde fer y 
queDeoso mande fdlar verdade para me enfinar, e 
por mim no Púlpito aviíar aos mais Fieis 5 e à cabecei- 
ra dos moribundos acautclarlhc efte perigo. Bem fe 
conhece logQ , que he arrifcado reftituir por íl mefmo 
à hora da morte. Mas muito mais arrifcado he o ref- 
tituir depois da morte pelos herdeiros , e he mal fun- 
dada a confiança , de que eftes fejaõ mais foiicitos em 

livrar 



/ 



Para feguk o hem , t fugir o mal. vi 73 

livrar a alma alheya do que o teítador o f oy em livrar 
a própria > porque fuppofto ^ que põem luto 5 emof- 
traò magoa de íallccer a peffoa , que lierdáraô , muito 
mais lhes pczarâ y que fc lhe diminua a herança pagan- 
do pelo defunto* 

XVI. E naõ íó corre efíe rifco , quem aífim entra 
na hora da morte > fenaõ também quem aflim entra 
aos pés do ConfeíTor 5 porque hc final, que nâó leva 
dor e propofitQ de emenda , que para aquelle Sacra- 
mento fao nceeíTarios. A Venerável Virgem D. Ma- Tom. i. áa íua 
rina de Efcobar teve huma vez efta vifaõ imaginaria, ^p^V/^*^^ ^* 
em hum dia da Semana Santa : fahio debaixo da fua 
cama , (onde quafi todoo anno jazia enferma) huma 
terrível ferpente,ou lagarto, com fuás mãos e pés 
c cauda muy comprida , c daqui foy fobindo pelo te- 
(flo da cafa , e o vio a Serva de Deos ir muy longe a 
hum campo muy apartado , onde eftava grande multi- 
dão de huns homens enlutados , com lutos muy com- 
pridos? c em chegando alli o lagarto fc dependurou 
por hum boqueirão abaixo na profundeza do infer- 
no 5 c todos aquelles enlutados cahíraõ atraz delk. E 
cftando admirada difto , lhe diffe o Senhor : Eftes do 
luto , que vifte , faô os que fe confeílaõ , e tendo obri- 
gação de reítituir fazenda ou honra , o naõ fazem , e 
por iífo íc perdem. Notem-fe neftc myftcriofo lym- 
bolo três coufas. Primeira, que os que fe confeíTaó 
íem verdadeira vontade de reftituirlogo, fe compa- 
raô muy propriamente aos enlutados.. Porque eftes fe 
ficaô com a fazenda, e o luto e triftcza exterior hc 
fóporcomprix comoseftylos. Aâim aquelles coma 
boca dízem, quelhes peza; e eis-aqui o luto àraflo: 
mas o alheyo fica cm cafa. Segunda , que eíla vifaô 
foy na Semana Santa , tempo ordinário em que os raes 
lançaõ fobre fi,o4uto do íeu pezame , para vir com* 

piir 




íj74 Efiiwulopratkoy 

prir com a obrigação da Quarefma. E aíTim nao ha 
que fiar muito deites enlutados da Semana Santa j por^- 
que em tornando para cafa , põem de parte o capuz, 
e fevdçfencaimaò dos cuidados e affliçaô de reflituin 
Terceira , que cfte lagarto , figura do diabo que os 
tenta da cobija , tinha a cauda muy comprida , para 
que fe entenda , que cuidar que fatisfazem a Deos^ 
confeffandofc , e naó rcftituindo , he huma ignorân- 
cia grandiílima , c he manií efta necedadc , com cauda, 
que chega deíde eiie mundo até o inferno , defdc o 
feu erro até o íeu defengano 5 e quanto mais fingida 
he a cauda dos feus lutos , tanto mais verdadeira he 
a cauda da fua eftuiticia. Tiremos pois daqui por con- 
cluí aó, que a reiltuiçaò y ( principalmente fe he por 
divida de deiiífto) para dcfcncarrcgar bem a conícien- 
cia 5 fe ha de fazer logo que pode fer , mas que fe ven- 
da alguma coufa de cala; Fende oleum , & reãde cre- 
ditorituo. E porque os três réprobos donoíTo exem- 
plo o naõ fizeraõ aíTim , por iffo nunca pagáraò , c fc 
perderão para fempre; e a cauda do primeiro im- 
plicou o fegundo , c a do fegundo o terceiro ,c a to- 
dos trcs a do lagarto. 

X VIL Porém efle terceiro , ainda que teve me- 
nos culpa , teve mais huma circunflancia de nefcio ; e 
foy 5 que vendo o principio da cauda do feu erro, 
quiz tapalla por naõ apparecer de todoj como que naõ 
a vendo elle , naô via Deos , que elle a naõ queria ver. 
Entrou em má fé a feu pezar , e naô fe quiz tirar da 
má fé por feu gofto. Antes quiz a poíTe com ignorân- 
cia vincivel^ do que a íciencia clara com reftituiçaõ. 
Pareceme , que o cftou ouvindo dizer comfigo. O 
Caftello he meu ; meu pay o logrou , e já meu avô o 
lograva , e pode fer , que os outros meus afcenden- 
tcs o lograíTem : Reatt pojjidentes. Masnaõíey fe in- 
quira 




Pura fegiúr o hem , é fugir o mal. i 7 1 

qulra de fulano , eilcrano, que laõ creados antiguos 
decafa. Porém quem me me te .nmim em eícrupulos: 
lá íe avenhaõ meus antepaffados, que clks teriaò íuas 
razoens para iíTo ^e as differaò fe toraõ vivos. E que 
íey eu feo retiveraò por titulo de prefcripçaó , ou 
de compenfaçao jufta* Todavia o remorfo naõ fe 
calava , fundado cm algumas noticias confufas, que 
fe podiao aclarar. E a cobiça tornava a repugnar , di- 
zendo: Ifto deve íer humor melancólico^ que neíta 
lua fe meaggrava: perdoe Dcos a fulano^ que com 
tal palavra me meteo em eícrupulos. A mim baftame 
eftar prompto , para que fe alguém me demandar , e 
provar claramente^ que o Caftellonao he meu, lho 
reftitua. E em conclufaõ o iitio he aprafivel , acho- 
me aqui bem. Nefta hora chegaria a de fahir à caça , 
ou a de receber as vi fitas , e punhafe de parte o cuida- 
do , e infpiraçaõ do Anjo bom : Sapiens ttmtt , & de- Pto^»M« f«í 
clinat k maio \Jlultus tranjiht y c^ coiofidtt, 

XVIII. Reftava refpondermos a huma duvida , que 
parece derogar^ ou enfraquecer o credita delia hifto- 
ria 5 e he dizerfe nella , que aquclla alma bemdíta naõ 
fahiria do Purgatório > em quanto fe naõ fizeíTe a ref- 
tituiçaõ do Caftello. Propofiçaõ , que à primeira vifta 
parece repugnar com a doutrina commua dos Thco- 
logos. Mas como fobre eftamefma matéria tratey iá^"**"'* 
no tomo quinto da Nova Florefta letra I y Apophtheg- 
ma XVIII. e ahi deixo declarado , de que modo fe po- 
de y e deve entender efta circunftancia ; por iíTo naõ 
faço aquiiobre ella eípecial annotaçaô y pois no li%ar 
citado a poderá ver o Leitor. 



EXEM- 




ijé EJlimulo pratico 'j 

-M r~'~'*'-'~-' I ' '^ 

EXEMPLO XXI. 

Da efficacia^ e fuavidade com que a Provia 

dencia Divina ordena a converfat , Q 

falvaçaÕ das Gentes. 

:Attmgit afine ujqtie in finem fortiter ^ &difponit 
omma fnavíter. Sapicnt,S,ycYLi. 

UIZ aquelle Soberano Senhor , que defdc 
os montes eternos allumia maravilhofa- 
inente a todo o homem , que entra nefte 
mundo 5 converter à Religião Chriftãa os 
Povos de Inglaterra Boreal , por outro nome Nord- 
humbria, que eftavao fepultados nas trevas da infi- 
delidade > e os bem ordenados paíTos , que fua admi- 
rável Providencia deu nefta empreza, foraô pelo mo- 
BídaJíbi.Hi. do íeguinte, conforme refere o Venerável Beda, e 

f "*'&'!' ^ Ba* ^^^^^ ^ "^^^ Cardeal Baronio» 
rcfn. Anlicbrt Eduino Rey daquelle Reyno , perfeguido por 

^* l^t'Í "' '!' Edelfrido , que antes delle empunhara o mcfmo Scep- 
tro , viofeobrigadoa andar vagando por diverías ter- 
ras para falvar a vida. Ultimamente foy bufcar o am- 
paro de Reduâldo,Rey de Anglia Oriental, o qual 
lhe prometteo fcgurança , e o recebeo benignamente 
cm feu Palácio. Mas o perfeguidor Edelfrido, tanto 
que difto foy fabedor , enviou a Redualdo feus Em- 
baixadores armados de muito ouro, para lhe compra- 
rem â vida de feu emulo fugitivo. E dedign^.ndc-le 
cUc de ouvir taó fea propoíía ; mandou fegunda , e 
terceira vezcombatcrlhe^o animo cora muito mais 

groíTas 



& ^ty.in,! 



Para feguir o hem , e fugir o mal. xy? 

groffas quantias , ajuntandolhe ameaças de rompi- 
mento de guerra. Rcduaido cmfim, oupor temor, 
ou por intcreiTe , ou por naò admittir o ferro , ou por 
naõ dimittir o ouro, deliberou entregar aos Embaixa- 
dores o feu hofpede Eduino. 

Succedeo , que hum amigo defte teve noticia dei- 
ta pérfida deliberação ; e fem demora alguma , ( pelo 
perigo, que nella havia} chamando-o à noite fora do 
íèu quarto, a horas, que eftava já para rccolherfe àt 
dcfcançai , lhe revelou fielmente o que fabia ; e ac-i 
crefcentou , que fe elle queria , o levaria logo a lugar, 
onde nem do Tyranno Edelfrido , nem do traidor Re- 
áualdo pudeffe fer achado. Grande abalo caufou no 
real peito de Eduino efte inopinado lance. Arefolu- 
çaõ pedia pre:ça, e juntamente efludo; porque pela 
mcfmá via, que pertendeffe evadir o rifco, por ventu- 
ra íc defpenhava nelle. O coração afflidlo confundia 
o difcurío; e o difcurfo vacillante dobrava as affliçôcs 
do coração. Refpondeo emfim , que elle naô havia 
de quebrar primeiro da fua parte a fé que tinha com 
Redualdo , que fc efte o mataffe , mais convinha ao 
decoro de fua Real Peffoa , c ao credito da fua inno 
cencia , morrer à traição em Palácio , do que às mãos 
de qualquer píebcyo, vagando incertamente pelo 
mundo , onde naô havia canto, que ignoraffe a fua cá- 
kinida Jc , e em que o naó bufcaíTem para o fuppliciò. 
Dizendo ifto, voltou para dentro o tal amigo , e Edui- 
no ficou de fora fentado em huma pedra, trifte, e pen- 
fativo , fem atinar para onde caminharia , nem com 
os pés , nem com o juizo. " ' ■ 

Nefte ponto vio chegar a fi hum homem , de rof- 
to , e trage incógnito , com cuja vifta teve naõ peque- 
qoj payor,.0 homem íaudando-o, lhe perguntou, 
que fazia alli a tal hora , e fora de Palácio , e^m vigia 

M quando 



178 EJlimuIo pratica y 

quando todos eftavaô dcícançando? Refpondco Eduw 
no , que lhe importava a cllc y que eftiveíTc fora , ou 
dçntro de Palácio ^dormindo , ou velando ? Nap cui- 
des , ( tornou cntâó o homem ) qiie pelo perguntar 
ignoro a cauía da tua trifteza : antes muito bem co- 
nheço, que peífoa es ^ que. cuidados te atribulaô^ e 
^ue males muy de próximo temes. Mas dizeme :.que 
rçcompenfa darás tu a quem naõ fó te livrar deite 
aperto , mas também períuadir a Reduzido , que nem. 
te entregue a teus cmulos , nem te faça oflenía algu- 
ma? Refpondeo Eduino , que a taõiníigne bemfeitor 
daria tudo quanto pudeíTe. E que darás , (continuou 
o homem) fe vencidos teus inimigos , te prometteffe 
feres certamente Rey , miis podcrofo que teus pro« 
genitores , e que todpsosReys de Inglaterra > que tem 
precedido ? Eduino já mais alentado com eftas per- 
guntas, diffe ^que ficaria feu coração perpetuamente 
agradecido , e o moftraria em quantas occafioens fe 
offereceffem, Tornou O; homem terceira vez ; c le ef- 
te tal , que tantos bcneficios te fízeffe , te prometteffe 
íobre iíTo tudo a faivaçaó , e huma vida , e Rcynp in- 
comparavelmente de mayor honra^e utilidade doque 
teus pays ^ e antepaffados fouberao nunca alcançar , 
ncrn com a imaginação ; ftguii;ias tu os confelhos , e 
doutrina defle. tal homem, que ifto: te mofíraffe, e 
^gzeíTe ? Refpondeo promptamente Eduino , que pro- 
itiettia aceitar, e fcguir a douírií^a deffa. tal peffo?., 
Entaõ o homem eftendcndo a maõ lha poz fobre a ca- 
beça, e diíTe: Pois qijandoi çfie írnal te. acontecer, 
Icmbrate defle tempo, e da pratica , que nefíelugar ti- 
vemos, e naõ dilates cumprir tu^i promeffa. Acaba- 
das efías palavras, fubitamente defappareceo^^ para 
que Eduino entendeffe naõ fer corpo , mas cfpirito, 
quem CQin elk xinha^falladQ, . 

:,; Efic:m- 



Parajegulr o bem , e fugir o ma!. 179 

E ficando alTcntado no mcfmo lugar, confolado 
com tacs efperanças , c recordando na imaginação o 
que tinha vifto , c ouvido 5 tornou a fahir ^quelic fcu 
fiel amigo , cheyo de alegre alvoroço ^ c lhe diffe : Lc- 
vantate, òRey^ entra , ercpouía jáfcm o minimo 
furto : Rcdualdo mudou de reíòluçaô , communican- 
do-a à Rainha , ella lhe afeou o caio ^dizendo , que dfii 
nenhum modo citava bem ao credito de fuaReaiPef^ 
foá,naò gtiardarafc, c vender por dinheiro^â hujii 
amigo íeu, porto em defamparo^e fiado da íua gran- 
deza. Admiroufe Eduino de quam preftamente Te hia 
voltando a roda da fua fortuna ^ e comprindo a pro- 
fecia 5 que naquella mefma hora ouvira. Agradeceo 
ao amigo os bons officios, que com elle tinha feito. 
E finalmente Redualdo anticipandofe por razaô de 
crtado às ameaças de Edeifrido , o foy demandar com 
exercito numerofoj e fahindolhe efte ao encontro 
com menores forças, lhas dertruío, e logo reftituio no 
Throno a Eduino , conforme o Divino Oráculo úr 
nha prenunciado. 

Chegou o tempo de fe cumprir o que ainda fal- 
tava , e Eduino fua palavra ,e foy na feguinte forma. 
Andava naquellc Reyno Paulino Bifpo , mandado pe- 
lo Papa Bonifácio afemear naquellas regioens a pala- 
vra Euangelica , e femente da vida eterna Muitos fe 
convertias : ao coração do Rey , que Paulino princi- 
palmente bufcava , naõ podia ter entrada. Succedeo, 
que por mandado de hum Rey de Saxonia Occiden- 
tal , inimigo de Eduino , veyo à fua Corte hum affaí- 
fino^ homem audaz, e de confcicncia perdida, por 
nome Eumero , com ordem de o mgtgr à traição. Pa- 
ra efte efíeito o bufcou na íua cafa de prazer , e pedin- 
do audiência com certo pretexto veroiímil, e íendo 
porto em prefença do Rey , de improvifo levou de 

M ij hum 



i8o Eftimulo pratico >y 

hum punhal ervado , para o cravar pela garganta, 
Achavafe ao feu lado hum fideliflimo vaffailo , por 
nome Lilla , o qual vendo a acçaó do traidor , e naó 
tendo outro mais prompto efcudo ^ que o de íeu meí- 
mo corpo , fe arremeffou íobre o Rey, cobrindo-o 
quanto pode. Eumero defcahindo com a penetrante 
arma , o atraveíTou taõ profundamente ^ que matan- 
do-o logo ^ chegou ainda a ofFender gravemente a 
Eduino. Cliovéraó logo íobre o miferavel as feridas, 
e eftocadas , defcndendofe elle em quanto pode, ain- 
da à cufta da morte de mais outro. 

Recolheofe ElRey , ponderando comíigo nas ba- 
lanças dofeujuizOjporhuma parte a traição deíeus 
inimigos , por outra a fidelidade de feus vaffallos , e 
no meyo de ambas os perigos manifeftos dafua vida, 
Jíaquella mefma noite teve hum faufto annuncio^ 
que o ajudou muito a convalecer , e foy o do nafci- 
mento de huma filha. Pelo qual beneficio rendendo 
graças aos feus Deofes, Paulino, que íc achava pre- 
íente , as começou a dar a JESU Chrifto , declarando- 
lhe Gomo defte Senhor , que era íó o verdadeiro Deos, 
Jhe havia impetrado o tal beneficio , e que a Rainha 
tivera hora feliz, fcm trabalho. Com eftas palavras 
alegrandofe o Rey , lhe prometteo feguir a Chrifto, 
fc delle lhe alcançaffe também vitoria daquelle Rey, 
que havia armado traiçoens à fua vida , e que em pe- 
nhor lhe entregava eíTa fiiha recem-naícida para que 
a bautizaíTe. E aflim fe fez dia de Pentecofíes, com 
mais doze peffoas da família. E foy efta Princeza as 
primicias dos Nordhumbros, que fe recolherão no 
celeiro da Igreja Catholica. 

Convalefcido Eduino, procurou efíabelecer o 
feu Throno, deftruindo aquelleRey de Saxonia, c 
íahindoa campanlia com íeus exércitos, todos os 

com- 



Para/eguirobem , e fugir o mal. i8 1 

complices na traição ou matou , ou cativou, Rcco- 
Ihendofc triunfante , naò quiz fervir mais aos idolosj 
porém taõ pouco íc determinava em fervir a Chrifto, 
conferindo primeiro em feu coração as couías , que 
Paulino lhe enlínava. Nefte tempo o Servo de Deos, 
que via quam difficultofo he fobmetcrfe a íobcrania 
do Throno Real à humildade da Cruz de Chrirto , que 
para as Gentes , ( como diffe o Apoflolo delias ) na5 
parece fenaõ eftulticia j e da liberdade da carne , onde 
os demónios fe acaftellaõ, paffar ao jugo da Ley Euan- 
gelica , em que as fuás pompas íc renunciaô : orava 
inftantemente pela converfaõ do Rey , da qual pendia 
também a de feus cílados j e lhe foy , { como íè crê ) 
divinamente revelado o Oráculo acima dito. Então 
naõ dilatou mais fallar ao Rey 5 e entrando à fua pre- 
fença lhe poz íbbre a cabeça a fua maô direita , dizen- 
do : Conheces efte final Eduino ? E o Rey cheyo de 
admiração , e como que de repente lhe ferira os olhos 
hum relâmpago, fe foy tremendo a lançar aos pés do 
Varaó de Deos , o qual o levantou nos braços , e con- 
tinuou , dizendo: Eis-aqui te cumprio Deos fuás pror 
meíTas , livrandote das mãos de teus inimigos , e affen^ 
tandote no Throno Real: refta fó o terceiro ponto ^ 
que hedarte outro Reyno melhor, e vida eterna^ pa- 
ra o que tu deves correfponder como promettefte , 
feguindo a doutrina de Chrifto , que te euangelizó, 
Refpondeo o Rey , que e!íe devia , e queria receber a 
Fé 5 mas que lhe permittiffe ajuntar Çortçs^^ e com- 

í^^iSÍSâr.i^e,SgSai?ã.^ hum 

Reyno de Religião, k íeus Principados, e Pontífices 5 e 
fem duvida feria mais cm proveito do que fe intenta- 
va. 

Veyo nifto o Varaó de Deos: e fendo convocado o 
melhor de todos os Ertados : o primeiro voto tocou ao 

M iij Sum- 



iSz. Eftmulo pratico ^ 

Summo Sacerdote dos Deofes , chamado Coifi , o qual 
perguntado, refpondeo movido dç Deps. Vós, oh 
Rcy 5 vede , que Icy he a que agora de novo fç nos pré- 
ga, que quanto a que atéqui profeffamos , certiffima- 
mente V03 affirmp , nenhuma virtude tem. E aflim co- 
mo ic em tempo de Inverno fe accendeffe cm huma 
caía copiofo fogo, e hum paíTaro entraíTe pqr huma 
janelia , e fahiíTç por outra, naõ lograria o abrigo mais 
que por aquclle breve inftante em que paíTaffe ; aflim 
vej o eu ^ que nós vamos paffando pelas confolaçoens 
defta vida caduca ,fem faber donde viemos, nem pa- 
ra onde vamos, nem. o que foy, nem o que lerá de 
nós. A efte voto fe feguio o de outro Príncipe , que 
fentia mefmo , e a traz defles todos os mais. Coifi pe- 
dio, que queria ouvir pregar a Paulino. Aflim fe fez 
em prefença de todos , e o Sacerdote exclamou , que 
aquella íèntia fer a verdade , e caminho da vida éter-- 
tilíi Então o Rey aftfêSúhciando íblemfnemente a ido- 
latria^ deu affenfo à nova Ley da graça. Moveo-fe 
queftaô quem deftruíria os Templos , e Àltares.anti-: 
gos. Coifi reípondeo , que a ninguém tocaya mais que 
âelle,que tanto íedeíyelára em os edificar. E aflim 
pedindo armas a ElRey , montou a cavallo feguido de 
mu'tos, e foy correndo por nicyo da Cidade ,e che- 
gando a hum Templo principal , atirou,^ com a lança 
contra os idplps , e mandou pôr fogo a tudo ; o que 
logo fe executou com extraordinário alvoroço. Suc- 
cedeoiflo noanno do Senhor de íeiícentos^ e vinte e. 
íeis : e hojeem Eboracp , Cidade onde o Rey eftava, 
fe moflrap lugar onde efte Sacerdote movido de Deos 
profanou os A! tares , queelíe mefmo edificara , e íc. 
chama vulgarmente Gormundin gabam, Ediíino, de- 
pois de bem catequizado, fe bautizcu pela Pafçhoa do 
feguinte anno.. Com efle exemplo todos os Povos fc 

conver- 



Para feguir o bem , e fugir o waL 183 

converterão > e tanta multidão concorria a Paulino , 
por onde quer que caminhava , que occupava ao lon- 
go dos rios dias inteiros , em bautizar com grande 
gloria daquelle Soberano Senhor , que naô duvtda dar 
todo feu fangue para lavar com elle os peccados do 
mun4o. 



C 



TSI O T A S. 

OM efta narração ficao mais illuftradas 
âs feguintes verdades. Primeira , que no 
mayor aperto acode a maõ de Dcos, eo* 
mo acudio a Eduino, convertendo de repente a mayor 
tempeftadcna mayor bonança : Sokt Dein (diz Chry- 
foftomo ) non a princípio mala avertere fed cUm ufque 
ádfummum vencrmt , á* crevermt , chmnihtl pratef' 
mtjfum fuerií ah hojitbus , qutn omma experujint : íum 
fimul omma in fummam tranqutíttatem cônvcrttt s & 
fraur ommumixpeBationem res ipfas ofúme conjlitmt^ 
^firmáU 

II. Segunda:Quc devemos pôr noíTa con iSança cm 
Deos, e naô cm outro homem, que ainda que feja 
Príncipe poderoío , cmfim he homem frágil , c incont» 
tante : Nolm confidere in prinaptbm : m film homtnum vuxm. 14^ 
w^f//Wní?w^/íí/ííí. Por confiar Eduino na fé daqucl- ^«í.i. 
le Rey, que o hofpedáravfehia perdendo, por con- 
fiar nas promeíTas do Ceo fe falvou , e as vio cumpri- 
das todas. Por Jeremias amaldiçoa Deos a todo o ho- g- 
mem , que põem a íua confiança em outro homem ^ e ^ \. ^ 
toma por arrimo feguro o que he carne fragU: Male- Jpm.iy.itl 
âiãm hõntêy qm cenfidn tnhomine j & ponitcarnem hra- 
chium fuum, 

III. Terceira: Ordinariamente quem tem inim!*f 
gos grandes, tem também grandes amigos. A David i 

M iiij pro- 



í'-'"'^ 



184 Eftimuk pruúco y 

' procurava Saiil tirar a vida ; c Jonathas filho do meí- 

mo Saul procurava falvalio. Hum atirava com a lança 

para o pregar na parede , e outro atirava com a fetta, 

para final de que fugiíTe. Daniel tinha contra fi os Sa- 

, trapas de Babylonia y que quizeraõ fofle lançado no 

lago dos leoens; porém teve por fia ElRey Daria, 

que depois os lançou a elles. Jofeph foy perfcguido, 

c vendido de fcus mcfmosârmâos > e foy exaltado , e 

applaudido por Faraó , c feu Povo. Afllm no cafo pre- 

fente , Eduino na meímo tempo , que Rcdualdo ojn- 

tentaAra entregar > teve hum amigo fiel > que o aviíbu^ 

I c fc lhe offerecia a falvallo y e na mefma occafiaõ , que 

I o affaflino o inveftio para o matar , achou a hum vaf- 

I fallo fidcliflimo , que lhe defendeo a vida à cufta da 

I dRia própria. Ifto he o que diz o Píalmifta , que dá 

Deos o frio conforme o panno: Dat mvemficut lanamy 

I c o dia da fortuna proípera conforme a noite da for- 

^ tuna advería : Stcut tenehra ejus , ita & lurmn ejus. 

IV. Quarta : Converteo-fe todo o R eyno , por- 
que fe converterão Eduino, c Coifi ; âqucUe Rcy , g 
cfle Sacerdote Summo. O bom exemplo dos grandes 
traz comfigo fem muita diligencia imínenfos lucros; 
aíBmcomo o efcandalagrandiíBmas ruinas : e aflim os 
cfpera, ou grande premio noCeo^ ou grande pena 
Ifift é.cip.i, ^^ inferno. S.Fulgencio: Converjio potentum facuU 
multiim militat acquijimnibus fíeculi, E cm outro lugar: 
Itãfit , ut qutjunt inf^cuU (ulmtm conjlttuti , ant phri^ 
mos fecum perdant ; aut fecum muitos m viam falutis ac* 
qnirãnt, Mngna taíesatnpanamanet ,fimtiUnpréfbeant 
mala tmiíatwms hqueum j aut gloria ifimulús qfiendant 
lòB. 3^. Tcrí. f . fànEía comer fatwms et^emphm. Por iffo toda Ninivc 
jejuou , c fe converteo à pregação de Jonas ; porque o 
Rey foy o primeiro, que íe levantou do Throno , e 
íe affentou na cinzíi j fc defpio da purpura , c fe veftia 

de 



Parajegutr o bení > e fugir o mal. i S j 

de faço. He ponderação de Santo Ambrofio : Uttotã in euarritino. 

ctvtíasjcjmaret ,famem fibi Rex primus mdtxu : érfa^ J'„"'''"''* 
líu ommum caufí prior c^pit ejurire , qukm rmlt$ 3 necejft ' 
emm erat , uí qm potmtm cuníítsfmraíydevoíwrjctet 

umverjis. 

V. Pregando Paulino cm prefcnça dos Sacerdo^ 
tcs c Príncipes, reduzio a todos , porque a Lcy Divina 
com fua mcfma pureza converte as aimas : Lex Da- 
mtm immmaculata convertem anmas. Como os olhos 
faõ amigos da luz , aífim o entendimento da verdade. 
A Ley de Deos he luz ; Lcx lux > e he verdade : Lex 
tua 'uettíasy e aflim naõ pode deixar de afeiçoar, c 
convencer os entendimentos. Mas toda via he necef- 
fario , que a graça de Deos concorra , para que os ho- 
mens, fechando os olhos à luz, naõ amem antes as fuás 
trevas : Lux vemt in mandum , ^ dilexntint homwes 
magts tenehras , pikm lucern ; e antes quizeraõ ouvir 
fabulas do que verda des : A^ ver ttate qmdem audnum 
avertent yad fabulas autem convgrttntur. 

VI.. Depois de tantas maravilhas., c íinacs ainda 
cfte Rey fe meteo a confultar em Cortes a lua conver- 
íaõ: entendo, que de tal íortc defejava o Rcynodo 
Ce.o, que naõ queria defpojaríe do da terra : Nolumus 
expoltart , fed fupervejlirt. Quem qu izer feguir de ve- 
ras a Chrifto ha de deixar como os Apoftolos o mar, 
e mais as redes ^ iílo he, o mundo, e mais as fuás ef- 
pcranças : Relíeis retthus fecuti funt eum > e quanta 
menos lhe ficar dojriundo , mais poíTuirá de Chrifi? 
to,. S» Máxima: Chrtjlmníis (juimundum mn ppjffidety ApuáP^ta» 
hk íoíumpoj/ldet Saivaíorem. Ainda aílim barato com- f^5^;fj- f^^* 
• pra 5 pois dá o temporal peio eterno, c o quehcqua- 
fy nada ^ pelo que verdadeiramente he tudo. O que 
faltou a Eduino de valor, ereíoluçaõfepódc fuprir 
com outro exemplo da que mofti;ou o Princip/C Dom. 

Luis^j. 



loicph.Dj 7<v 



y S 6 Efthnulo praúco , 

Luís, primogénito dclRey de Gotto , Ilha no Impe* 
- rio dojapaó. Cobrou elie dentro cm hum anno tan- 

ta fortaleza na Fé , que acoDÍelhandolhe feu pay a dei- 
xaffe , ao menos no ex terior^por naõ alterar os Povos, 
coccafionar alguma rebelliaô , reípondeo magnâni- 
mo: A Ley de Chriílo naôperniitte eíles fingimentos; 
por ella eftou aparelhado para dar a vida , quanto nvais 
largar o Reyno. E bem confirmou cftas palavras com 
a leguinte acçaó ; Que fogindo os Japoens Chriftãos 
^ para o Toiíplo por medo dos Gentios , que fe amoti- 
narão; o dito Príncipe também os acompanhou, e 
lhes mandou ter animo , e cftar confiantes ; e indoíe 
pôr â porta da Igreja , lhes diffe , que fe aíTeguraffem^ 
que nenhum deiles havia de receber dano , fem pri- 
meiro o fazerem a cUe cm pedaços. 

VIÍ. Ainda aílim naò fez pouco Eduino, Rey, 
Gentio , Idolatra , e cofítimado à liberdade da carne, 
cm fc render à Ley ., e Pé de JESU Chrifto, c entrar 
peio caminho eftrcito do Ceo] e neceíTarias foraó para 
amollecer feu coração tantas unçoens da graça Divi- 
na, íe confí déramos , (como aquelk Santo Bifpo con- 
íidcrava) a fumma difficuldade com que o coração hu- 
mano deixa de fc goYcrnar pelo fentido das coufas 
vifiveis , tomando em feu lugar a fé das inviíiyeis: ma- 
ravilha ta5 íingularmente admirável , e taõ admira- 
velmente fingular , que S. Eerní^irdo a compara , c alií- 
ta com a de fazcrfe Dcos Homem , c ter por Máy hu- 
ma Virgem: Tr ta opera {d\x o Simo) três mixtur as 
Serm.vinyig, fectt omuijxrtens tllã Maicftãs w ajfnmpttone nofira car- 
^■^**" ni4 'yíta fingulanter fntrãUlia , & mirabiliter fingular ia , 

ut íalta me faHafint , nn fâctenda fint amplius fuper Ur* 
ram. Conjunãa quippeftmt ad tnvtticem Deus, ^ homo-, 
M^ter , cr l^trgõ ; fides , & cor humanum. 
' VIII. Quando ouvirmos , ou lermos alguma con- 

verfa5 



Parafegtnro bem , ef}^gh' o mal. 187 

verfaó dos infiéis à Fé, ou qualquer augmento da Igre- 
ja Catholiça , devemos dar muitas graças , e louvores 
aChrifto, cuja íobida àCruz foy a que amabio a íi 
o mundo, ecujo fanguehe o que conglutina. todos 
os Povos , e naçoens no cor^^o de huma íó Igreja , e, 
cujo eípirito influc nos Miflionar ios ^para que dilcor- 
taõpor todas as partes do mundo, annunciando a Lejr 
Euangelica. Diodoro Siculo, , Author ethnico , e gra- 
TC , quaíí no mefmo anno , que nafceo Chrifto, elcrc- 
vco 5 que hum mercador de aromas , por nome Jam - 
bulo , de:.naçaõ Grego aportara a huma Ilha incógni- 
ta no Oceano r Au lirai , onde entre outras coufas dig- 
nas de admiração , vira o feguinte animal , cuja def- 
çripçaô , como a traz Boflio , traduzido em Latim he 
a íeguinte : Effe infuper ammatta ea in mfulíifnagmtU" 
dtne quidem parva yfeànaUira ac fangutrm viríttte ad* 
nnrabiU. Cor for e. junt rotundo % ac tefiudtmbus Jirmlt , 
duahus Imns mvtamper meáimn írafffverjii , in quarum^ 
utrttifque extremo ejl auris , ár oculus j ut quatuar ocuUí 
vtdeant^ ^ tottdem audtant anribus : untcts ventre ai que 
intejlnmytnqme comejia conjiiiunt. Pedes ar cum hahmt 
fluresYpiíbus m uíramqne partem ambulam.Hujfnbelluat: 
fanguiymirabiU ojftrHnrvtrtute,. Ornm enim. corpus oC" 
csfumydum Jpirat -i hoctmíitimfanginm èvejitgto coh^' 
rei. SimiUter (^ manus cafa , rehquéfque cor por ts , dum 
vtta fuppetit y partes refarcifintur yfírecenti adhuc appli* 
ceníurvulneri. Quer dizer : Que ha na tal llhabuns. 
animaes , pequenos no tamanho, porém admiráveis 
na forma , c:na virtude do feufcngiie. O corpo hcrc- 
dondo , pai^cido com o das tartarugas j e fobre as cof- 
ias atraveíTao em cruz d^,i;icQmO' linhas,,, em cujas 
quíitroextremidíides. tem burros tantos olhos., eou- 
vidos , a fabcr , cm cada ponta daeruz fcuclha^ e feu: 
ouvido. Mas.o ventre, c inteftlnos hum lo, onde re- 

calhe.. 



i88 Eflitnnlo pratico ^ 

colhe o comer. A' roda muitos pés com que para qual- 
quer parte anda. O* fangue deite animal fe affirma ter 
tal virtude^ que fc algum corpo morto, que ainda 
tem efpiritos , he ungido com elle , logo fe unem , c 
fechaõ as fuás feridas. E do mefmo modo fe huma 
maõ cortada , ou qualquer outra parte fe ajunta ao 
corpo cftando vivo ,folda , e fe une como de antes, 
fendo a ferida ainda frefca. 

IX. Nefla maravilha da natureza , me parece de- 
buxou Deos as do myfterio da Cruz , pelo qual con- 
verteo , e vivificou o mundo por meyo da pregação 
dos Apoitolos , e mais Varoens Apoftolicos > c cíks íc 
líaifi 5t. Tcrf %^^^^ "^s P^^ -y ftguindo aquillo de Ifaias : §uam 
' fpecwfi pedes evangeltfanttum pacem. E eftarem neftc 
animal os pés à roda de todo o feu corpo, e andarem 
para qualquer parte parece infinúa , que os Apoftolos 
correrão a redondeza da terra. Por onde diíTe Santo 
Agoftinho: §lut funt pedes Domim^ Âpojloh mtffi per 
ioium Gr bem tenarutn. §uifunt pedes Vommt^ omnes 
Euangeíifiíe m qmbus peragrat Dommus univerfas gen^ 
/?f . Os quatros olhos., e ouvidos rcprefentaõ , que cm 
toda a parte íè ouvio o Euangclho , e íe víraô qs fru- 
tos dâ Cruz : In omnem t erram extvtt fonus eorum^ á* 
in filies orhis tet r^e verba eorum. E que pela novaLey 
da graça fe haviao de abrir os olhos dos cegos , e ou- 
vidos dos furdos : Tunc apertentur oculi cacorum , ó* 
aures furdotam patehunt. Que eftcs faò os dous fenti- 
dos , que o Efpofo Chrifto pede à fua nova Eípofa a 
Igreja; Audifilta-^ ér vide. A medicina, e virtude 
do fangue claramente moftra o valor , c remédio effi- 
eaz do de Chrifto noíTo Salvador , que fárou aquella 
ferida de morte eterna , dada no corpo de todo o gé- 
nero humano , e une todos os que crem em hum íó 
- corpo myftÍGo da fua Igreja. S. Sernardo: Nonreqtii- 

Jivit 



Varafegmr o hem\ e fugir o mal. 1 89 

fivit Deus Pater Sangmnem Filit ^ (td íamenacceptaztt; ^^-^^ ^^^ ^^ 

qm^fiúus erat mjangumc : Ji quiátm pr o quolitaít tulrte- iniic«iiuum 

iisalíata eft mcdicma, E cm outra parte: Savgm^ Chru £pX^ ^^ 

Jli ^ffujus eji pro difpírfis Jiim Dct , i^í ^os congregarei tn Adam wona- 

urjuw. ^^"«^• 

X. Efle Sangue pois de Chriflo Crucificado , foy 
o que conglutinou naqucUe tempo os Povos de Ingla- 
terra à Igreja Catholica , que agora , ( oh grande laiti- 
ma ! } vemos feparados , e divididos pela cfpada do 
fcifma. Porém íc damos pio credito a huma vifaõ , 
que teve a Venerável Virgem Dona Marina de Efco- 
bar, ha efperança de que em virtude do meímo San- 
gue íoldc outra vez cfta ferida. 



EXEMPLO XXII. 

Quanto cafo devem fazer de miudezas os que 

[ervem a Deos , para lhe agradar , e mõ 

perder fcus favores. 

Amhula m vns cordts tm , a- in mtmíu oculorum tm- Ecdcí.i 1 .Ycif. 
mm : á- jeito âjmd pro ommbm his adducet te ^' 

Dominus mpdtcium. 

SERVA de Deos Marianna de JESUS y 
irmãa da Terceira Ordem de S. Francif- 
CO, que florcceo em Toledo , foy mulher 
de grande efpirito. E hum dos melhores 
finaes delle era fer humilhada, e reprc- 
hendida de Chriflo Salvador noíTo , cm foltas miudií:- 
fimas equaíi imperceptíveis. Reparou huma vez no 
bom talhe, ou eiktura de certo homem ; ainda que 




no 



ipo EJlmuh prolicd , 

no breve tempo , que o vio ^íiaõ lhe fobio , nem à fan- 
tafia imagem impura , nem ao coração mao delcjoj 
mas fomente faltou cntaó em acudira prefença Di- 
vina. Depois quando tornoti a bufcalla,naò a achou, 
fenaõ em feu lugar a efpecie , ou reprcfcntaçaõ da- 
quclle homem. Procurava recolherfe^enaõ erapof- 
fivel , nem atinava qual foíTe a caufa. Receofa porém 
de que folTe alguma falta fua , chorava muito , pedin- 
_da-aJ>ÍQÍrg Senhorjh^ delia. Aílim paffou 

quatro ou cinco dias em cfcuridade c aufcncia do 
\ Senhor, eno fim dellcs perfeverando cm o bufcar , 

I vio huina como nevoi efpcffa,e conhcceo, que de 

I t raz ãcl ía cft a va Noffo Senhor JES U Chrifto, í uppofr 

/ to 5 que o naò via. O amor a impei lia a chegarfe a el- 

le; porém a mefma névoa J|[oeftorvava , e por mais 
diligencias que fazia , naõ a podia romper, E aílim 
com grandes demonftraçoens de fentimento pedia ao 
Senhor , que fe a caufa daquella cfcuridade eraõ feus 
peccados , fe dignaffc de a purificar delles , ainda que 
f oíTe pelos meyos mais trabalhofos. Eftando nefta pe- 
tição fahio por entre a névoa hum fermofo rayo de 
luz , que deu no coração da Serva de Deos , e por hu- 
ma parte cauíavanclla grande e fenfivel dor defcus 
peccados , e por outra conhecimento claro da falta, 
que havia commettido^ Ouvio logo a voz do Senhor, 
que afperamente a reprehcndco do defcnido , em fal- 
7 tar à íua preíença por attender à dajgrgitura. Mais de 

. ' três horas efteve aíTim penando , até queTc coníumio, 

jj . . c diffipou de todo aquella névoa. E quando pode ver 
o dulciííimo Eípofo da fua alma , que tanto delêjava, 
fe abalançou a beFjarlhc os pés j porém o Senhor pon- 
dolhe a maõna tefta a deteve, dizendo com modo 
grave : Afafta , naõ me toques , até confeffarte , e re- 
ceber penitencia. Palavra, que a penetrou tao alta- 
mente, 



Pura feguir o hevi , e fugir o maL 1 9 1 

mente , que toda fe refolvia cm lagrimas. Depois fe 
confeffoLi, e recebco a Communhaò Sagrada , e Sui 
Magcílade Divina lhe fez a collumada mercê, uninr 
do-a comfigp. Ajuntemos a eíte caio outro da meím^ 
Serva de Deos , por íer muy lemelhante. Olhando ou- 
tra vez. para hum feairmaò , reparou , que nos olhos, 
fe parecia com ella , e diíto teve complacência , a qual 
a fez deter hum pouco no tal objcdlo , íem levantar o. 
efpirito a louvar a Deos , comoÁuthor daquclla per- 
feição , que na creatura lhe agradava. Depois fazen- 
dolhcNoíTo Senhor JESU Chrifla mercê dea vificar 
na.oraçaõ, íc lhe moiirou.com. grave, feveridade , c 
com feus Divinos olhos cerrados. Conhecep ella , que 
o Senhor citava defgoílado, mas ignorava a cauía. E 
aífim proftrada a íeus Soberanos pés , dizia com mui- 
tas lagrimas: Meu,Scnhor,rq^íg^^,n^ digais, por- 
que naò abris eíTes fcrmofos ol^^pW^éfta peccado- 
ra , íuppofto- que indigniflima da voffa prefença.. 
Oihay paramim , amor meu ; que íem a lu2 de voíTos. 
olhos como poderey ter vida? Olhay paraa voíTé cixa-^ 
l<ura , Senhor , e dizcy-me , em que vos ofFendeo ? Que. 
antes quero fogcitarme a qualquer outra; pena, do^ 
que carecer da amável vifta de voílos olhos. Inflan- 
do neftafuppiica com vários , e fervorofos afFcd:os j; 
reípondça o Senhor com grande Mageitade :. Vê os 
olhos de teu irmão , que os meus deíiaveí?:na&o& ve- 
rás. Eftas palavrascaufáraòncíiaJnexplicaveldor,e: 
juntamente lhe deraô canhecimçnto de trcs fiiltas, 
em que naquella vifta havia cahido ^ primeira , omií- 
faõ da prefença de Deos, durante aqiielle brevejn- 
terv.allo i fegunda , amor próprio- com prazendòle. de 
fe parecer com feu irmaô ; terceira , defcuido de dar 
graças a Deos pela fermofura , que puzera naquella 
ciieatura. Muita foy a ycrgonh^ c confufaõ ,, q^c 

ELeflaa 



1 9 1 Efthnulo pratico , 

nefta occafiaS padeceo ; mas todavia naôquiz o Se- 
nhor porlhe os olhos lena5 dalli a dons dias , cm que 
lhe fez mercê de a confolar, c o havia bem mifier pe- 
lo muito que fentíra íer efta auíencia ciiuíada por ília 
Refere ambos culpa. Eiitaõ ciicheo toda fua alma de alegria , como 
ejics cafos o p. q bol quando derrama íobre os campos íeus primei- 
cZpfortP rosrayosdefdc.QsbaIcoens do Oriente. E de novo lhe 
Serva de Decsy advertia, e recomendou o cuidado com que fe devia 
T^'J\^'/^!!!!' portar cm naõ olhar para as creaturas , ienaô dentro 
xo. de lua Divina Magcítade. ^^-~- ^"" 

PONDERAÇÃO. 

I. w^ Ondcre-fe o primeiro y como a falta de 
r^ mortificação da vifta hccaufa de muitos 
"•^ detrimentos do efpirito. Primeiramente 
abre porta para fahir a devoção da alma , e entrar a 
; vaidade do mundo. Por onde Hugo de S.Viílor cha- 
mou à modettia dos olhos porteiro do cor^çaòiPrJtCfis 
I ocnlus jamtor ejl cordis , fedet adjanuam^ necfermtttit 
mirare quod mceaí. Logo onde naõ houver cfle por- 
teiro fahiráõ os bons pcníamentcs, c entraráô as cfpe- 
cies vans , e nocivas. Efta porta he a que Efdras , (fc- 
gundo o íentido eípiritual) chamou porta dospcíca- 
i.iídr.j.Tcrí. dores: ReJUtuatur fona pifiatona. AíTim lem alguns: 
5- porque por elia fahem os olhos ao mar deftc mundo a 

peícar na rede da fua mefma vifla quanto encontrão : 
Epiftoi. De rc. l^orta ptfcatorta , ( explica B'acchiario ) id eft, vifuum 
cipicndis lapfii. fjojhorum vãgã ftmper natura -^ aç per femttas marU^ 
hoc cji , vias mundt ijitm oculorum velox , acfugitivm 
femper rjjpe^m j quia tpfe vifm pro fagena potertt aJU- 
mari. ^ndquid afpexitjlaíim capit : & captum ad cor- 
dn celíarta interior a iranfmiiUt. E por iffo fc lhe man- 
darão alli pôr novas portas , c fechaduras, e ferrolhos: 
m3£^ ' ' Ttxc- 



Para feguir o htm , e fugir o 7nal. 1 93 

TfXcrunt eam , ^Jiatuerunt valvoó Cjm , & feras , cí^ 
ijeães, 

II. Daqui procede outro dano grandiíTiiTiO , que 
he a inquietação do efpirito na oraçaò , de forte , que 
naõ poffa fitar a vifta tremula na prefença de Dcos> 
porque os fantafmas da imaginação anciaõ dentro 
difcorrendo dehumaa outra parte, e comoinimun- 
das harpias arrebataÓ5e conlpurcaõ o melhor boca- 
do da alma 5 que he a palavra interna de Deos. Difto 

fe queixava Santo Agoftinho fallando com Deos ; Cor lib 10 Cobfcff' 
mjirumportat copiou e vamtatts catervas] hirjc & ora- «P»55» . 
iiones nojtra f^pe interrnmpuntur ^ atque turbantur : c?* 
ante confpeíium tuum , dum ad aures tuas vocem corda 
intendtmus , neÇcio unde irruentikts nugatorns cogttattO'- 
mbus res tanta praciditur. 

III. Além diíTo ha o perigo de confentir algum 
defejo illicito , que por iíTo o Santo Job dizia , que fi- 
zera concerto com os ícus olhos para naõ cu dar em \ 
mulher alguma, nem ainda virgem honcfta: Pepigi ; 
fadus cum cculis mm , ut nec de virgine cogitarem ; pa- 
rece, que cfte paélo, ou concerto, naõ fe celebrou 

com a parte que devia ler ; porque o pado he de naô i. ^ ^ 
cuidar 5 e a parte com quem íe fez íaõ os olhos h c aos ;;? ^#0^^ 
olhos naõ pertence o cuidar ou naô cuidar , íe naõ '\ I 

o ver ou naõ ver. Porém o Santo Job como expcri» *^ 
mcntado c prudente fabia , que do ver ou naõ ver [" 
procedia o cuidar ou naò cuidar, e que muito mais Ji '. 
faciJ era naõ ver do que naò cuidar depois de ver 5 ç . | ' 
aífim para evitar o deíejo na vontade, quiz evitar . | 
primeiro a imaginação na fantafiaj e para evitar a ima- ' 
ginaçaò na fantafia, tratou de cortar a liberdade na 
vifta ; Ptpigtf^dus cUm oculis mets , ut nec de virgine co* 
gttatem, S. Clemente Alexandrino : Eiji fim fotrji Lib.3. Pcwggi 
ut qm vídtt for titerfc gerai: veruntamen.m cadat cavm- "^' "^ 
' ..''.:. N dam 



1 94 Eftimulo pratico , 

dum eft. hen enim foíejt ui qut viderit labatur ifedjícri 

nonpoteJlyUt qmnonvidertt ^ comuptjcaí. E S Jerony- 

j,,'*"' a. vcrf . ^^ ÇoÍQi^c aquiilo dos Thrcnos : Oculus meus dep) a da* 

tus eji animam rneant, Intutri non dehet , quod mn dtbet 

xonmpifct : m munda mens tn cogitatione/ervetur , aept i* 

ntendt funt ocult quáfiquidam r apíores ad culpam. Ncíte 

conhecimento citava o Padre j oaõ Sabattiaô Pa tricio, 

da Companhia de JESU , Varaõ illuftrc em virtudes, 

1 1 I que vifitando humas Senhoras y onde havia grande tu- 

I multo de homens y e mulheres ; apouco eípa^o diíTe, 

/v^ ^ para o companheiro ; f^mo-nos^^ que ne/las romarias 

' : - quem menos reza mais indulgências ganha. 

J •: IV. Por confeguinte impede também a falta def- 

^^ I ta mortificação os favores Divinos , (como fe vio ncC- 

tes douscafos) conforme o que diífcDeos: Non vi" 

debit me homo y & vtvet j naô me verá o homem , que 

ainda vive. Ifto hc, (como expõem Santo Ambrofio, 

e S. Bernardo ) naô poderá lograr minha prefcnça 

quanta ao efpirito, quem naô morreo quanto ao amor 

próprio. O manná começou a chover quando aos If- 

raelitas fc acabou a farinha, que haviaõ tra;zído do 

Egypto. Se a alguém áifíife; efia farinha lhe dura , naô 

fc admire , qnc ainda aquelle manná lhe naô chova: 

Porque confolaçaô doCeo, c mais da terra implicaó. 

manná do Ceo , c farinha do Egypto naô fazem boa 

farinha. 

' V. Por ejftas^ razoens os Santos, e todos os que 
querem aproveitar no caminho cípiritual, tiveraô 

i muito refcuardo nas fechaduras dcík norta dos pef- 

xadores. S. Pedro de Alcântara , (cujas virtudes quan- 
do íe mencionaô , íempre deícobrcm eítatura agigan- 
tada) efíeve tresannos em hum Convento íem cc- 
^hccer Religiofo algum delle , íenaô pela falia , nem 
faber onde eftavaô as oficinas da Communidade j c 

diíio 



Para feguir o he?n , e fugir o mal. 1 9 y 

difto he tcftemunha mayor , que toda cxceíçaõ Santéi 
Thcrcía de JESUS , que affirma iho diíTera o mcímo 
Santo, e que para elle já omefmo era ver, que naô 
ver. 

VI. Santa Rofa, ( que florecco cm Lima, c re- 
cende em todo o mundo ) para efcufar íahidas , ou 
ainda que fahiíTe levar enfreada a vifta gue faria ? O 
amor Divino , que hc muy induftrioiO ihe enjgçju eí- 
ta traça : esfregava os olhos com pimenta , com o que 
felhe puhliaõ inchados , chorofos, e vermelhos, re- 
prefentando fer corrimento. Tantas vezes o fez , até 
que fua mãy reparou cjugu^^ corrimento femprc 
acodia pontuàimcntc crn òccafiaô de vifita , ou paf- 
fcyo. Chegou o rofto , c cheir ulhe a pimenta , aca- 
bou de experimentar a verdade com a lingua , e rc- 
prehendcndo a invenção porque a podia cegar, r cC- 
pondeo a Virgem : Melhor hc cegar do que ver as 
vaidades do mundo. Dalli por diante teve licença pa- 
ra naò fahir , com tal que naô falpimentaffe os olhos. 

VIL O Venerável Padre Bálthazar ÃTvarcs , da 
Companhia de JESU, e Confcflbr de Santa Thercfa, 
íendo chamado para affiftir a hum Aíílo da Fé , e nao 
ficando em lugar, e mo^^^ie^ vi|fe o Tribunal e 
theatrofem ver iuntamêntè 'muitas mulheres, tirou 
do peito huma Imagem da Virgem Senhora Noffa , c 
cravou nella os olhos com tal mortificação, que em 
cípaço de fete horas os naõ mudou , nem divertio para 
outro objcdo. Em outra occafiaõ indo a Roma , nada 
quiz ver de fuás grandezas , com ferem tantas; e taõ 
limpa nefte particular trouxe a Imaginativa , como 
fe lá naõ fora. 

VIII. No Collcgio dos Padres Carmelitas Defcal- 
ços em CoiíTibra, muitos Coriftas acabavaôos cflu- 
dos, fem ainda conhecerem de roflo a fcus Mcflrcs. 

N ij Taô 



ipó Eftimuloprntico y 

Ta5 atilada era fua modcflia nos principlos de íua fui> 
daçaõ. 

IX. Bafta5,efobra5 os fobreditos exemplos pa- 
ra reprehsníaõ , e doutrina dos Religiofos, c homens 
de oraçaô , que todo o dia queremos trazer dejjar ern 
par eíks janellas da alma \ e.toda via , qiiè náo entrem 
helía vento, pô , emofcas^ fenaò , que ao tempo do 
exercício nos achemos, como por milagre , muy re- 
colhidos no facrario da prefença de Deos.Quem defe- 
ja oração, como a dos Santos,tcnha mortificação como 
a dos Santos 5 e naõ eflranhe osefFeitos ,, pois nao dcf- 
conhece as caufas. 

X. Ponderefe o fegundo^como hc próprio final 
de bom efpirito , o fer reprehendido de Deos , e caíli- 
gado feveramente ainda por faltas minimas. A razaô 

»p<«. i. Tcif . í^e^lâi^a h porque o zelar nafce do amar : Ego qms atno^ 
«^ ãYgm , é* cajltgo \ c como pódc Dcos amar a qualquer 

alma fem lhe communicar muito de fua bondade? Pois 
o amor de Deos para com a homem he caufa dos, do- 
tes c prendas-, que aadornaô e enriquecem ^ e nao 
pelo contrario eífes dotes c prendas, íaô caufa de o 
amar Dcos> que por iffo a Efcrituranaõ diz ^que Deos. 
adornou a humSanto, e o araou5 fenaõ voltando a 
ordem dos termos , que o amou , c o adarnou : Ama^ 
vit eum Domintis , S' Grmvií eum. Logaoefpirito a 
quem Deos zela , e ama ,. tem muito de Deos j por on- 
de como os Santos íao mais amados do Senhor , faã 
mais repixliendldos. Vereis humfcnhor, ou pay de 
famílias , qut ri\aó faz cafo dos defeitos nos. feus cria- 
^ dos , e fa;z muito dos. defeitos emícus filhos j h^^^c 
"' ama mais os fiihos do que os criados. Vereis , que aia- 
da entre eftes naôíe repara tanto nos de efcada abai- 
>'o , como nos que entraô na fua fala , e muito mais 
íjos que entrao. na fua camera : qual he a caufa defta 

diffc- 



Para feguir o bem , e fugir o maL i p7 

difFcrcnça, fcnaô, que ama mais os pages do que os 
peões ^ e mais os filhos do que os pages ? E affim íc al- 
guém acha , que Dcos o naõ rcprehende afpcraincntc 
na lua confcicncia , tenha por certo , que o íeu lugar 
na Cafa de Dcos, naô he de filho , fenaõ de peaô. 

XI. Saõ também os Santos rr^ais reprehendidos e 
CwUtigados , porque Dcos lhes pede mais , em razaõ de 
que iiies tem dado mais: Cm flué digmtatis fifivibitur ll^^^^X^ 
(diiTe S. Cypriano ) pluí ah eo extguur fervttuttsi os |ixiat<í£% 
líraelitas por olharem para a Arca, morrerão , e os ""' 
Filiítheos , que a tocarão, naõ. He, que nao demanda- 
va Deos tantos refpeitos aos Filithcos idplatras, co- 
mo aos Ifraelitas fieis. S. Pedro caftigou a Ananias c 
Safira com morte por lhe mentirem j e a Simaô Ma- 
go, que queria comprar lhe o Efpiri to Santo , fó o caf- 
tigou com a palavra. He , que Ananias c Safira eraõ 
diícipulos do Santo ; c Simaô era eftranho. Santa Ve- 
rónica de Milaò eftandoà MiíTa, divertiq^os olhos 
para íua irmâa fem íc apartar^WTintençáõ de 
orar; c logo o feu Anjo a reprehendeo com gefto taó 
irada, que dizia a Santa y que íe lhe fuccedéra o cafo 
fora da viíaõ imaginaria , morrera. Nós cftamos à ^ 
MiíTa divertidos , converftndo , e rindo j e o remorfo 
interior , ou lenao fente , ou íe lente pouco. He , que ^ 

nós a naõ fer inimigos de Deos, lomos quando muito 
criados de cfcada abaixo ; e Verónica era filha: e im- 
porta , que os filhos andeii fizudos ; naõ importa , que \ 
os peões dem rizadas , ou digaõ chiftès. "^ 

Xíl. Daqui fe colhe também , que fe alguém co 
nhecendo noíTos defeitos, os diílimula, enoslouva,^| 
naõ tem bomeípirito. Medina eícreve, que hum BiC- | 
po da íua Religião dos Pregadores veyo a entender, #''<:' ^'^^í^ Hb. 
como certa mulher, que tinha admiráveis viíoens ,c^"^'^'f"* 
parecia de vida muy fanta , eítava iliuía do demónios 

N iij CO 




%#• 



\ 



'€o final por oíide o dcfcernio , foy , que fcmprc quc 
fáilava com cUe p louvava, fendo que tinha muitas 
faltas no ícuofficio. 

^' Xm. Pondercfc o terceiro , como he certo , que 
qucmafpira à ptrfciçaó, deve lazer grande caio de 
poatiiihos mínimos $ pois ncíTes mínimos pontinhos 
acaba de fe conrtituir a perfeição. A perfeição de hum 
inftrumento bem temperada depende de huns Cro- 
mas, ou Scmi-Cr ornas: a da Orthografia , dchumas 
i;, . virgulas , e aecentos : a da pintura de huns retoques 

'\ le vilTimos ; aflim também a pratica das virtudes lá tem 

^l os íeus pontinhos e virgulas, os íeus ápices e reto- 

4 ^ quês, dos quacs quem naò fizer muito cafo, nunca 

À ^ 1 1 chegará a íer perfeito. Por onde diflc diícretamentc 

«^ ^^ I m Santo Heíychio Presbítero, que quem trata da virtu- 

^ ^ 1 1 de , ha de tomar por exemplo a aranha j e alfim como 

II a aranha fc occupacom grande eftuda^c vigilância 
\ i ^ ^"^ caçar moícas 5 aflim clle íe deve occupar em tirar 

s I defeitos mínimos ydc outro modo, nao poderá ter a 

j I paz e tranquilidade de eípirito , que íe requere : St 

\/\ É ^irtare ftaíuijlt^extguum ítbtpropone ammâhulum ara» 

""'^ è ^eam-, fin mtnm y tranqmllam , ut decet , nondum geris 

^animam: tila qmdtm minutas venaturmufcas. Porque 
cftas faltas miúdas entrando, na alma íaõ asmofcas, 
que dcitao arpcrctèr a fuavidade do unguento da ora- 
:'Çaò com que aEfpirito Santo ços unge: Mufea mO" 
'^rtentes perdunt fuavitatm ungueníi. 
''XI V. " E hè de^^^^^ , que fe huma peffba defpreza. 
faltas m'udas, naò fó naò chega à perfeição^ fenaô, 
que pouco e pouco dcfcahindo vem a dar cm pccca- 
dos gràvèà ; por iíTo nos adrnocfta o Ecçlefiaftíco , di- 
v.tM^^^yziL zendoc Minímwn pro magno flacta,i tibi , & imprope- 
30- rtun peregrinai tonis non audtes, Faze cafo do pouco ^ 

como fe forariiluíto , enaõ virás a padecer impropé- 



rio^ 



P^ra fegulr o heríi , e fugir o fiwl. i ç p 
rio Ciconfiifaõ no teu caminho. E em ôiitra p^rte: 
§lui (pnnu moduáy paulatim dectdtt,' Quem delpreza Ecciefi^.Tcrí^ 
as coufas poucas , poug(aj9i.pQiUCO vem a cahir de todo. «• 
Hum íimil muy pj:©prio.ao ihtento temos na refor- 
ma doKalcndarioRominotflÇflã^ fenaó fe fizeffe, 
poderia pelo tempo adiante vir a cahir a Pafchoa em 
Setembro; e a caufa deftc. abfurdo tiaó -era outra, 
que o dcícuido dç contar algumas horas, e minutos, 
cm que o anno folar excede ao Ecclefiaftico ; aflira 
também a vida cípiritual , e circulo continuo dos feus | 
exercícios^ tem os ícus minutos , ou pontinhos , que - 
fe cada dia íenaõ obfervaõ , virá no cabo a aeharíe a 
pcíToa em graviílimos erros , muito contra o que ima- 
ginava. Começaftes hoje a dizer huma palavrinha .^. 
ociofa , à manhãa fera, picante , ainda que levemqnte; ^ íf .^ji» 
ao outro dia feraõ duas ; c eis-aqui já o voffo Kaionr í' 
dario vay perdendo minutos. Vós vireis a dar en^ i 
murmuração grave , c maniíefta. Sentiftes huma boà 
infpiraçaô , c nàõ lhe acodiftes ; em lugar delia pedira 
o demónio licença para vos atirar com huma íiigeíV v 
taômá : talvez reíiftireis,nras'algumaxouÍa delia íe/ 
pegou ; nhi tem greta o inimigo para metei/ outra ^ é 
vós mais trabalho em vos defender , daqui podeis vir\^ 
a conícntilla; c depois a envergonharvos de a con- \ 
íeflTar ,e temos bum íacrilegio enormiflimo ^ por naô | 
iitiender a cooperar com huma infpiraçaô Divina. 
Hitm Sacerdote de íínalada virtude me contou por 
certo , de outro que tinha efpecial dom de oração , 
(que he muvrarocnrrc:osquç frequentaô eftecxer- . ^^ 
cicio) edepoisveyo acahír emtodo e género de vi- '*^^,^ ^^ 
cios : c a caufa foy , que p AÍlando pela rua huns noi- 
vos , que vinhaó de fc receber com a pompa c acom- 
panhamento de parentes e amigos, que fe ccfiuma, 
teve deícjo de fàhir à janella para os ver.j fcntio logo 

N iiij ' avifo 



zoo Eftimiilo pratico y 

avifo interior , que íe mortificaíTc > dcfprefou-o , c 
»ii3?.çi hl»:' vio por breve cípaço de tempo > porém já quando íe 
recolhco para dentro, fe achou frio, com outra tem'- 
pêra de eípirito muy contraria à que antes tinha. Da- 
qui começou a entibiarfe na oração , de modo que 
veyo a largalla , e com tila todos os bons hábitos ^ c 
cm feu lugar vieraò os dos vícios contrários; e eis- 
aqui verificado oqueadmoftava oEcclcfiaííico: Mi- 
nimumpro magno placeat tibiy ò- mpropermmperegt ma- 
tionis nm audtes» Faze conta do pouco , como do mui- 
to ^ c nao virás a padecer confufaõ c impropério. Ne- 
nhum dos que cahíraô do eftado da perfeição cahio de 
repente, fenaõ por dcgraos até vir a dar no abyfmo^ 
f . Pcrkreboú. ^^^ Origenes , e diz o que experimentamos : Nm ar" 
fâp. 3. bttror (juod altquis gx hts , qut tnfummo gradu perfeãto- 

ms cmjlttertnt t ad fúbttum tvacuetur aut deadat: fid 
paUlatmé^ per (>artes eumdecidere necejfe eji. 

XV. Eis-aqui pois porque os Santos íaõ taõ miu^ 
dos e pontuaes em todos feus exercicios , c taô cir- 
cunfpedlosemfuasacçocns. Mas porque alguém naõ 
troque os nómt^ das coufas , parecendolhc que fe 
porta com miudeza , quando na verdade he muy grof- 
leiro 5 nem julgue , que faz pa5 do mais mimofo da fa- 
rinha por eftar enganado com a peneira do feu exa^ 
me e conhecimento próprio, que he muy rara; po- 
rey aqui hum exame, que Santa Maria Magdakna de 
Pazzis fez huma vezaeíuas faltas , eftando arreba- 
tada em eíj>irito , e cuvindo-a as mais Religioías. 
y ^êaídéttitl^ XVI. Primçiramente rcfou o ^úmo Domine 
uLeza^an» quiá multipticãti funí \ logo O jg«í habitat ; depois faí- 
nt/':f/ ^ Iando<:om JESU Chrifto, diffe defta forte : O^ JESUS 
meu ! Qual foy o primeiro penfamento , que tive nc£- 
te dia ? Pczame , que nag foy de vós , fenaõ de recear^ 
que era tarde para chamar voífas efpofas a que vos 



u mp» 76* 



Para feguir o bem , e fugir o mal. lo i 

louvaffcm \ naô foy de offereccrme a vós, nem de hon- 
rarvos 5 depois, meu JESUS, fuy ao Coio para ofFcr 
rcccrme toda a vós ; mas naõ o fiz cm tudo , e por tu- 
do , conforme era voffa vontade. Oh benigniflimo Se- 
nhor , que mifericordia poderey receber ae vós , pois 
que naõ foube entregarmc toda a vós ? Uiay, Senhor^ 
comigo de voffa miíericordia , ainda que a naô mere- 
ço, fcnaõ mii infernos. 

XVÍL Eftando cm voflos louvores, tive mayor 
pena de ver , que algumas faltavaô nas cercmonias , e 
inclinaçoens devidas : que cuidado em vos honrar, c -^5 

ofFerecer as minhas , em uniaô das que vos daõ os efpi- ^^ 

ritos bemaventurados! Poffo com razaõ , oh grande 
Deos meu , pedir mifericordia , pois em voffas coufas, 
iílo he , no Ofticio Divino commetti tantos defeitos, 
<:í X V''!!!. Depois , JESUS meu , qu:?.ndo chegucy a - \ \k ^ 
receber voffo Corpo e Sangue , coufa que devia fazer 
com o affedlo poíTivel , me peza , que naò tive inten- 
ção de a fazer em memoria de voffa Paixaò , como 
vós me tendes mandado que o faça ; nem taõ pouco 
cuidcy em unir minha alma com vofco, cuidando mais 
em aquietar o meu coração. 

XIX. . Ouvi a Palavra Divina, porém mais me oc- 
cupey em cuidar íe era verdade , que foffemos como 

vós fazieis diffeffe o voffo Chrifto , do que no amor, ^A ^« • ^^(«r^ 
que me tendes. Por iffo, Senhor meu, naó vos poffo ^^J^ ^^^^ P^^i^' 
pedir outra coufa , fena5 mifericordia^. 

XX. Quando fuy a receber o fruto de voffo San- 
gue no Sacramento da penitencia , confiderey mais no 
que devia dizer ao voffo Chrifto psra aquietar a mi- 
nha alma , do que no beneficio, que vós me fazeis la- 
yando-a com voffo Sang;ue 5 e ainda me naõ confiey ,v -a 
perteitamente de vos , que díiretsi^/aça para lílo. ^ueem ped^po- 

XXI. Oh Senhor meu? Que pakwras foraõ as pri- ^'^ ' '/f '=;* '^* 

^**- * • / {''iH^'d(i hum» 

mciras, i^txi^a. 



20Z Éflimulo pratico , 

mciras , que eu diffe ? Foraó de rcprehcnfaô; o meu 
failar pouco manío e dcce foy caufa de que fc ii>- 
quietaffcj e o que peyor he, faltay à charidade ^ porque 
quanao a vi inquieta ^ a naõ procurey aquietar para 
' que fe pudeííe unir com voíco ; e eis-aqui , Senhor , o 
que tiro da luz e uniaõ , que me concedeis ; a qual fc 
houveíTeis concedido à outra çreatura , vos fora mais 
agradecida j e eu miíeravel , exiefgraçada naò fey ti- 
rar fruto algum .porque falto nacharidade com voffas 
efpoíàs. Perdoay~me , Senhor , por voffa Paixaó. 
Víz i/lo , p9y' ^XII. Depois quando fuy a failar àquella çrca- 
q^ie [aliando n» jcura , mc pcza dc havcr feito huma grande hypocriíia, 
/ocutorio <9m fazcndome ter pela que naõ fou ; c fc bem fiz final às 
tou^r^ehatatia voílas crcaturas , nao mereci que me entcndeíiemj 
vn esetétjis, porGue dcv â cntcndcr , que cftava minha alma unida 

Jiuba adverti' ^ -^ r "^ / r i • i i 

d, is Freiras , com VOÍCO j c voá laoeis bem quantas vezes me tenho 
que quâdo vief- apartado de vós: moftrey fer verdadeira Religiofa ; c 
an-thatal}^, ^ vós fabcis bcm a que fou. Peço perdaô , Senhor , def- 
a tivajjzm do iu- ta ^randc hypocrifía, e vos oli ereco voffo Sans^ue, der- 
ÈiY vi/a ', e ««- ramado por mmi com tanto amor : ie me lançais , be- 
»«5 deu ftr.ai , nhor , no inferno , como mereço , juftamente me po- 
^jM n^í a wa- j^j^^j^ p^^. ^^^ p^^ dc Judas , pois quc tanto vos tenho 
oííendido. 

XXIIL Fuy depois dar o fuftento ncceffario a 
meu corpo ; porém , que intenção tive nifto de glori- 
"i ficarvos ? E mais naô me lembrou oftcrecervos tantos 

pobrefinhos , que haveriaõ difcorrido , c chamado de 
porta em porta , para ter hum bocado de paõ ; e por 
ventura lho naõdariaój c a mim miferavel c ro im, 
fem trabalho algum, e o que peyor he , fcm o merecer, 
me deu a Religião o fuftento. 

XXIV. Naô fó vos fiz efta offenfa, fenaô tam- 
bém outra , pois fuy caufa de que aquella voffa efpofa 
diffeffe algumas palavras , fabendo que fe naõ podia 

failar 



Parafegulr o bem , e fugir o mal* icj 
fallar naquellc lugar 5 e eis-aqui, Senhor meu, como 
em todas minhas obras acho > que vos tenho offendi- 
do : com ) pois poderey apparecer em voíTa prefcnça.^ 
para vos pedir mercês, e encomcndarvos as voíías 
creaturas , tendo- vos agravado tanto , e naõ mere- 
cendo mifericordia > porém aquelle amor , que vos fez 
vir ao mundo a derramar voffo fangue , vos obrigue a 
compadecervos deita alma peccadora. 

XXV. Depois quando naófuy a louvar vos com 
as demais efpolas voffas , foy íó por culpa minha, por- 
que quando aquella alma me diffc que naò foffe , na 
mefmo ponto confenti niiTo. Oh JESU meu ? Se me 
pedira fizcffe alguma obra de charidadc , naõ rcfpon- 
déra que fim taõ dcpreíTa. Oh Senhor meu , como 
poíTo ter cíperança de vos fallar em companhia dos 
Efpiritos bcmaventurados , falt indo em o fazer na de 
voffas çfpoías l OfFercçovos o voffo Sangue para que 
aílim ufeis comigo de voffa mifericordia. 

XXVI. E na outra obra, que intenção tive de paiu /ft» temp9> 
vo&glorificar, oh meu Senhor? Pois que mais mcpc- que efitve athed 
zou do tempo , que me faltou , que de naõ haverme '''^ '^"•«/w'''»*- 
offerecído toda a vós ? 

XX VIL Fiz final às voffas virgens para que guar- 
daffem fílcncio 5 mas naõ confidercy , que may or obri- 
gação tinha de me unir com vofco. Depois quando 
tnvoquey oEfpirito Santo, criava com oefpJrito taõ 
longe de vós ,que naõ me iembrey do modo com que 
o devia fazer : de forte, que as que tem menos tempo 
de Religião do que eu, tiveraô maisadvertencia > ve- 
des aqui , meu JESUS y como em todas minhas obras 
commctta faltas y como podérey pois apparecer em 
voffa prefença com tantas culpas: de novo vosoffe- 
reco o voffo Sangue , porque por cite meyo cfpero o 
perdiõo 



204 Eftimulo pratico j 

XX VIIL E quanto faltey , oh Deos, quando fuy fa- 
zer aguclloutra obra , por naó andar hum pouco mais 
depreíTa; ftltcy no q tinha obrigaçaôjpedi a outras me 
fizeíTem charidade, c eu a naô tive com a minha alma. 
XXIX Tive mais cuidado em naó trabalhar hum 
pouco, que naò , em que vós vos naó apartaffeis de 
mim : em todas minhas obras acho muitas faltas, Deos 
meu; porém vós nao reparando nellas, íó por voíTa 
bondade , de novo me levaíks a vós , dandomc tanta 
luz , que fe a deíTeis a outra alma , aproveitara mais 
do que eu mifcravel. 

XXX. Fuy depois dar refeição a meu corpo, nâó 
me lembrando de tantos pobrcfinhos , que naó tem 
com que ; ay de mim Senhor , que tanto amo as trevas, 
e naó foço coufa em que vos naò offenda ! Que devo 
fazer, ohDcôTiineu, eu que tanto vos tenho offendido 
nclte dia ? Naó quero oflcndervos ainda mais , defcon- 
fiando de voíTa miíericordia. Bem íey , Senhor y que 
naó mereço perdaõ ; porém o Sangue , que derramai- 
tes por mim , me faz por nelle a efperança de que me 
haveis de perdoar. 

XXXI . Aqui acabou o exame , porém naó o rap- 
to; porque eftando ainda nelle, fe retirou a huma par- 
te occulta do Morteiro, onde tomou huma afpera dif- 
ciplina pelas culpas ajTeu jiircccr commettidas. 

XXXII. Eftc hc o relatono das cul pas defta Scrar 
fica Virgem , feito por ella meíma diante do Tribunal 
Divino 5 de que femoftraó principalmente duas cou- 
fas. Primeira , que os mais fantos , mais temem a Deos, 
c quanto mais alto edifício de virtudes tem levantado, 
tanto mais profundos íaõosaiicerfes do feu conhe- 
cimento próprio. A razaó deu Santo Thomás, cuja 
he cfta doutrina: Tmor fiddts neceffe cfiqmd crefcat 
erefcente chartlate,/ícu(efeélus crefcit crefcente caufa'^ 

quanto 



Para fegulr o bem , efiígir o v.aL laj 

quanto emm ahqms niúgis aliquem ãiligtt , tátito magis 
ttmet tílum ojfmdere ^0- ab eo feparatt 3 os Afíros tem 
hum próprio movimento que os Mathcmaticcs eha- 
maõ de tremor ou trepidação , e como os Santos na 
Igreja deDeos faóAftros: Lucetts ficutlummana m phiiip.t.tetí. 
mundo y por iffo he próprio movimento dos Santos o 15- 
tremer^ e trepidar: Ttmete Dominum omnzi San^ífy 
mas ditofos dos que agora tremem : Beâtm vir , qui p/aim. 
femper ejl pavidus j porque quanto agora mais treme- 
rem y tanto depois le acharáò mais leguros : Stabunt 
jujli tn magna eonjtantta. 

XXXIII. Segunda , moftraíe também , como o 
proceder de muitos , que fe reputaó por eípirituaes , 
comparado com o dos Santos ^he como huma groíTei- 
ra almafega a par de iiuma tela de flores de ouro re- 
paffada , ou hum brocado de três altos j c fendo tantas 
as fuás imperfeições, e taò claros feus peccados , to- 
davia lhos encobre , ou diminue o demónio , e o amor 
próprio, { que faõ o mefmo) cevado em mil jpegui- 
lhos de çreaturas , que fenaô deterfíiinao a iargar ^ i 
que manchaõ,eeícurecem fuás almas. Aquefefeguc 
outro craffiflimo engano, que he remetter a purgação 
dcftas faltas para o foga do Purgatório ; porque iíto hc 
expreffamente fazer aífcnto neíTas imperfeiçoens , e 
peccados 'y e privar a Deos da gloria, que tem de fe 
comraunicar a almas perfeitas > e fogeitarfe , (quando 
bem livrem ) a pagar à Divina Juftiça por mil talentos, 
o que fe pudera pagar agora com poucos reaes.. Pela 
que toda a peffoa , que trata de vida efpiritual , e fan- 
tos exercícios y deve pedir inftsrntantemcnte a Deos,, 
que o purifique nefta vida > e attcndcr com fumma vi- 
gilância, em correfpooder aos impulfos c luzes- da 
fua graça , com que o vay continuamente attrahindo,, 
e cníinando y porque o que mais nos retarda o chegar- 



mo^ 



2 0.6 E/Iimu/o pratico , 

mos à perfeição , he a defatcnçaõ , e abuío defla graça. 

XXXIV. Ponderefc o quarto , como íe huma fal- 
ta taõ leve 5 qual hc reparar no bom ralhe de huma 
peíToa fem máo penfamcnto , deícuidandofe da prc- 
íença de Deos , baftou para interpor entre aquella alr 
ma e Chriflo huma névoa taô efpeffa , que eícuridaõ^ 
c impedimento porá entre Deos e huma alma qual- 
quer pcccado mortal ; ou , o que pç^^r hç , o coítumc 
inveterado de muitos peccados mortaes? He certo, 
(como adverte Boctio ) que nas coufas efpirituaes as 
diftancias naõ íb fazem por lugares , fenaõ por dific- 

©e Trinitatc renças : Ommm magnee regn]a eji vertias : in rebus m* 
cap. 5. corporalihus dijianítas ejjict diffntntits , mn loas. Sendo 

logo entre Deos c huma alma cm peccado mortal , in- 
finita a difierença, infinita he também a diftancia c 
feparaçaò , infinito o impedimento que os fepara ; por 
iffo diz o Profeta : Imqtntaíes veftra ãtviferunt tnter 
vfís , c^ Deum vejlrum , & peccata vejlra abjconderunt 
faciem ejus i vobis 5 e aílim fc a mifericordia Divina , c 
GS merecimentos de Chrií io naó foraó também infini- 
tos , nunca efta diftancia fe vencera , nunca eftc impe- 
dimento fc tirara , nunca efta névoa efpeffa fe disfize- 
ra , como com efFeito íenaõ desfará já mais nos con- 
denados , porque nelles fempre dura o mefmo pccca- 
do. 

XXXV. Nos pccca^lores arrependidos fe desfaz 
mediante a luz , que o mefmo Senhor ofFcndido fe dig- 
na mifericordioíamente dcarremeffar na alma. Mas 
le primeiro que efta luz fahiffe a desfazer aquella nc- 
yoa , foraõ neceffarias tantas lagrimas , e gemidos , e 
orações , ebumiliações, eperícverança^ que diligen- 
cias feraó ncceílarias a hum peccador para que fe pu- 
rifique de modo , que poffa ver a Deos , ou ao menos 
contcmplallo nefta vida ? E fe o acliarfe culpada huma 

Santa 



Jíaias59*vcrí.t 



Farafeguir o hem , cftigir o mal. 207 
Santa em pontos taô leves a cobrio de tanta vergonha 
e confufaô j que confuíaò e vergonha cahirá iobrc 
huma alma , quando fc veja diante de Deos , c de todo 
o mundo convencida de graviífimas abominações, c 
fealdades ? Se taõ afpera íoy aquella palavra de Chrií- 
to ; f^ê ss olhos de teu trmai , que os meus ejia vez nai 
ús verÁs'y quanto mais o íerá aqucUoutra no dia da con- 
ta, que ha dç dizer aos Ímpios: Jlçattatvos de mua 
malditos para o jogo tterm i tde ver $s demomos a qutm 
fcgf^fft^s , que a mim naíme vereis já mau ? Naõ ha pe- 
na comparável à que nos corações daquclles miíera- 
Ycis caufará cila, naõ íey fe lhe chame palavra 5 Jc^^ííi^^í 
rayo , fe garrote , que os afogará , c partirá etcrna- 
mentTj e com tudo naõ a temem os impios \ Pode-íe 
duvidar fe o crem de verdade , ou fe fufpeitaõ fer irto 
mafcara fea para atimorizar meninos , cu efpantaiho 
para afugentar paíTaros. Joaõ Chio novo Herefiarca, 
diíTe , que o Querubim , que Deos poz de preíidio , c 
lentinella à porta do Paraizo (como fe lê no Gencíis) 
naõ era fenaõ huma figura horrível de hum homem, 
com fua mafcara a modo de eípantalhos , que os ruf* 
ticos põem nas arvores, e campos contra as aves ô 
feras; efte dizer eíentir, claro eflá, que naõ he er- 
ro 5 fenaõ fatuidade \ mas todavia he certo, que quan- 
do fomos impios c cegos , naõ ha ameaça de Deos que 
nos penetre 5 até hum Querubim com hum montante 
de fogo, fe nos figura fer hum vaõ efpantaiho jc 
quando nos pintaõ o inferno , nos parece coufe de 
mafcara. Oh Deos por fua infinita piedade nos livre 
de que fó a própria experiência nos enfine o defenga- 
no. 



EXEM- 



xo8 Eftimulo pratico j 




EXEMPLO XXIII. 

De quanto Deos ama , e remunera a vir-- 
tude dajufiiça. 

Linguãmyquam non noverat^audwit. Pfal. 8o.verf.6. 

ULTIVANDO hum Lavrador as fuás 
herdades , entre as raizes e torrões 5 que 
as aveças do arado revolviâõ , defcobrio 
huma lingua humana taõ freíca , trata- 
vel , e corada , como íe naquella hora fe 
arrancara de algum homem vivo.Naõ foy efta a mayor 
maravilhai fenaõ, que a lingua , fazendo perfeita- 
mente íeu antigo e natural officio , começou logo â 
fallar. i O ruftico ( recobrandofe do primeiro fuíro ) 
com fincera confiança lhe perguntou , quem era ? Sou 
(refpondco a lingua) hum Gentio, que vivi no paga- 
nifmo^ e me fepultáraó nefte lugar. Tive na Repu- 
blica officío de Juiz 5 e ainda quç naõ conheci o ver- 
dadeiro Deos , amey taõ de veras a Juftiça , que nunca 
pronunciey íenteiiça difconformc às regras delia. 
Em premio defta virtude naõ ccnfcfite o Omnipoten- 
te e ClementilTimo Senhor , que morra fem bautifmoj 
antes para o pedir , e receber , conferva minha akna 
unida a ella lingua. Vay logo dar conta defle caio ao 
Bifpo 5 c da parte de Deos lhe dize , venha bnutizar- 
me^e para final de íer verdade o que digo, em rece- 
bendo cfte Sacramento efta lingua fe refolverá em 
cinza?. Entaõ o Lavrador defemparando boys , e 
charrua no meyo do campo , voou nas azas da fua di- 
ligencia a levar o recado , que era hum dos mais ex- 

traordi- 



Para fegttW o bem , efugtr o mal. 2 o e> 

traordinarios , que fe tem ouvido. Informado o Bif- 
po quanto era neccíTario para naô proceder levemen- 
te em cafo taô íingular e novo, fez congregar o Cle- 
ro , e veyo ao dito lugar com outras muitas peffoas : 
onde reconhecidas por feus olhos as mefmas maravi- 
lhas ; e feitas primeiro à lingua as perguntas , que pa- 
recerão convenientes, lhe adminiftrou cm prefençn 
de todos aquelle Sacramento da regeneração dos filhos 
de Dcos 5 e no mefmo ponto a lingua fiel à íua pro- 
meíTa , ( como o tinha fido no feu officio ) fe defatou 
cm cinzas , fobindo o vcnturofo efpirito às eternas 
moradas para receber , e lograr aquelle ineffavel bem^ 
que juntamente he coroa de juftiça, e dom dagraçaí 
c miíericordia Divina. 

ANNOTAÇOENS. 

AMaravilhofa incorrupçao > c locução defta lin- 
gua ( ainda no cafo , que a alma cíliveífe delU 
íeparada) nao excede ai forças naturacs do de- 
mónio. Pelo que bem podia fer obra fua , ou fó por 
illufap externa dos fentidos j ou na verdade remo- 
vendo por movimento local as caufas da corrupção , 
c fupprindo o officio dos inftrumentos , que fervem à 
organização da voz humana. Com tudo tenho efte ca- 
fo por ccleftial prodigio , c que nellc nao interveyo 
fenao a miò de Deos.Porque naô apparece , que gran- 5 Aí^tonío ^ 
geo intentaííe aqui oconimum inimigo; epor outra A.tk.i.cap i^* 
parte accredita a grandeza da Omnipotência , cMi~ com^im"'-^* 
fcricordia Divina, a força ineludlavel do benefício Fujng. ii%a. 
da predeftinaçaô , a cxccllencia da virtude da Juftiça, \^f^\^*^^^^*^^ 
c a neceíTidade do Sacramento do Bautifmo; e por tan- tem. BsurouN 
to ni5 fuípeitárao mal defta hiftoriaos craves Autho- ""! ^?p* ^\^.^ 
res,quea retcrem, dt.115. $. 7. 

O §. I. 



1 lõ E/limu/o prcttico, 

§. I. 



A 



Chir aquelle Lavrador efcondida no campo a 
lingua de hum Sábio 5 fo/ o mefmo , que achar 
huma peça de ouro ; porque de ouro diffe Santo Am- 
Ambrof.iib. v. broíio ícr a lingua dos Sabios : Lmgua japienium au- 
Vaícot. ímvl^. ^^^' ^^^^ convcnicricia myfteriofa teve y que ao culti- 
varíc hum campo appareccííc huma lingua humana ; 
Gcrardus Lco> porquc cíta , ( como diffe hum Douto ) também hc 
Novarinl/uia. ^"^'^^P^ ' 9^^ neceíTita de cultura : Magniis ager eji Itn- 
tom-a; fpiriwa- g^^ 5 ^«^ mfiexcuUm per multam exammaíionem fuertty 
Usa. 1^6, [pinas , ó' trihulos^ germmahu,. Bem cultivara efte fea 
campo aquelle Gentio; e ajiaftiça, e verdade, que 
nelle íemeára , fó efperavaô pela agua do Cco , que 
íoy o Bautifíno y para produzirem frutos de gloria. 
A Lípide in Ao arado comparou o A Lapide a lingua humana ; c 
EK'.cap,i 7. conforme a ifto , hum arado deícobrio aqui outro ara- 
do; o arado,que rompia as terras para femearfe o graõ, 
deícobrio outro arado, que rompia os litígios para 
Ifiáor. ciariai fcmearfe a paz. Gloria , e lingua no Hebraico às ve- 
in pfaK 5. yetí. ^es fc exprimem com o meímo vocábulo : no noffo 
píau^iéTyçíf. cafo ainda fe equivocarão mais 5 pois à fua lingua de- 
*«• ve eík Juiz a fua gloria. 

Incorrupta fe confervou efta lingua : a raza5 apa- 
drinha aqui a maravilha ; porque era bem » que fen.Io 
a corrupção pena do peccado, a incorrupçaô foffe 
premio da virtude 5 e que o Author da graça , e da na- 
tureza naõ déíTe para efte effeito mais efficacia ao bal- 
5acchínm in íamo , c mirrha , do que à juAiça , e verdade. A lin- 
socicc. Hiítor. g^a do Padre Luís de Molina , Varaô illuftrc cm vir- 
par^t.h .1.. D. ^^^^^ ç letras , da Companhia de JESUS , abrindofe o 
feujazigodozc annos depois de enterrado, fe achou 
incorrupta , rubic;anda , e vigorofa , como quando 

viva. 



Para fegnir o bem , e fugir o mal. t\i 

viva. Erte raro privilegio contra as íevéras Içys da 
morte íe attribuio ao coiiftante amor , que aquelle Sa- 
cerdote teve à veracidade , fendo fama , que nunca 
proferio mentira com advertência. A meíma mara- 
vilha , ( íe bem mais publica , e famofa) oftenta Pádua 
na lingua do noíTo infignc Patricio Santo António. E 
fendo feu interprete o gloriofo Doutor da Igreja S, 
Boaventura, nos explicou fer premio do fervor, e 
devoção , com que apregoara os louvores de Deos , c 
cnfinára outros a que o louvaíTem : O' Iwgua benedi" 
ita , qu/e Domtnum femper henedixijii , & altos benedi- 
cere àocutJU : nunc pcrlpuue cermfttr sjuanti menti fturis 
apud Deum. 

Com íemelhante privilegio honrou DeosamaS Carthuízíuf 
direita de Santo Eíkvaô Rcy de Hungria; porque ftjj"c"íw?uf"^ 
nunca etteve vazia , nem fechada para os pobres 5 e a iib.x4.caF. 47, 
de Ricardo Monge de Cifter , de Naçaõ Inglez ; por- 
que fc occupára em trasladar diligentiíTimamente os 
livros Sagrados. Item , os olhos da Beata Rozellina 
Virgem , defccndentc da illuftriffima Cafa dos Mar- 
quezes de Ars , por caufa da fua fingular modeftia , c 
intenção recfla no obrar. Item , o dedo polegar de San- 
ta Editha Virgem ; e a caufa declarou ella mefma , ap- 
pareccndo treze annos depois da fua morte a S. Dunf- 
tano Arcebifpo , para o avifar da trasladação das fuás 
Relíquias ; e confeffandolhe , que com os olhos , máos, 
c pés deiiaquira levemente, e por iffo os acharia dei- 
feitos , mas aquelle dedo , com que fc benzera , c per- pan.Thro^pTd 
fignára com grande devoção , c frequência , o acharia AuguaiBcnfís 
illefo, para que feconheceíTe em Deos juntamente o ^^J^'ll If^^y.l' 
caftigo deP.iy^e a clemência de Senhor. Item, oco» i»b <5 'cVtas. 
raçaÔ de Santo Agoftinho, do qual fc efcreve, que 7 "l^^^l^',', "^ 
dentro do crirtal, onde fe guarda encerrado, dá fal- Lancviorusiib, 
tos, como vivo, e cheyo de iubiío^ todas as vezes., v ^'' ^'^^ ^' 

^ -^ ^ •. ' Aue. cap.43. 

O ij que ^ ^^ 



au Ellimulo pratico y 

que em fua prefen^a fc nomca a Santiffima Trindade, 
ou le canta o Triíagio dos Serafins : Sanííuí , SatictuSy 
Hanãíis , ou íc abre o livro, que efte Santo Doutor ef- 
Greveo de Tnmtate. 

A' Virta pois dcftes exemplos fe moftra bem , co- 
mo a incorrupçaô da lingua deite Juizpagaõ, ainda. 
que foy próximo e natural efFçito da alma > que alli 
eítava unida : com tudo fe deve attribuir às virtudes. 
da jurtiça , c verdade , que obíer vou quanto pode ; por 
cujo intuito quiz Deos confervar alli a tal alma y po-. 
dcndo cm outro qtialquer membro 5 porque (como. 

Íipiew.i.i5. diz o Sábio ) a juft.iça hc perpetua , e immoi:tal ; Ju-^ 
Jlttia entm perpetua eji , & immortúlts > ç a obícrvancia, 

Sipi€ot. ^.Tctí. das Icys he incorrupçaô perfeita : Cujfodttio autem /e- 

*'• gis confttmmatto mcorrupmms^ eft.. E pelo contrario a 

iniquidade com obras , e palavras eftá clamando pel a 

f apiem. », u. mortc : Impii amemmambm , ^ v^rbis accer/ierunt tU 



Joan. Maior in Bem contrarlo fucceffò teve a lingua de hum 

Y^* a"*o^^uis ^^v^g^d^vO qual deixandofc corrompei com peitas> 
fiKmp. 4, patrocinava qualquer caufa femmaisattençaõ, que 
ao lucro torpe j porque quanto mais moedas Iheoffc- 
rcciao, mais textos achava , c mais torcia o Direito 
para o íeu perverfo intento. Morreo, e quando o 
forao amortalhar , naõ lhe acháraõ lingua. Mas como 
Ihahaviaõ deacliar^ fe a tinha vendida ? Parece quiz 
Deos dar a entender , como diante do Tribunal de fqa 
Juftiça fe acharia mudo quem diante dos Tribunaes 
da Jufliça humana íallava tantoafavor da maldade ;. 
E eis-aqui temos duas línguas , huma de hum Juiz pe-- 
lo qual avogou a fua verdade y e outra dç hum Advo-» 
Çado^ a quem julgou, e condenou a fua mentira: aquek 
% fe confcrvou íãa , ainda depois da fepultura * cfta^ 
úxsà^ antes da morte citava ja corriipta : huma appa- 

recco 



Para fegtiir o htm , e fugir o mal. 115 

rcccopara declarar a grande miíericordia dcDeos: 
outra defapparcceo para nos intimar íiia rigoroía juf- 
tiça : huma foy guardada muitos tempos , para fe ba- 
nhar na agua da bautifmo : outra foy arrebatada antes 
de tempo , paissa fe abrazar no fogo do inferno. Efta 
lingua fem corpo , e efte corpo ícm lingua compõem 
as duas partes da fentença do Sábio , que allegavamos: 
Jujliíta perpetua cfi^ & immortalis : tmpn autem mani'- 
bus j & verbts accerjierunt mortem. 

FalIouentaôaquòUa lingua pecRndo remédio ^c 
ainda agora falia dando-nos doutrina, Mas que dou- 
trina ? Que 0$ que tem íem.elhantc oíficio y tenhaô fe-» 
melhante inteireza : Ddtgtte Jujliam , quijudicatis ter^ 
ram. Oh de quantos juizes iniquos, fuppofto que 
Catholicos, hl de fer algum dia accufador efte Juiz 
redto 5 íuppofto que Gentio^ pois obrou fó com a luz 
da razaõ , o quç cllcs naõ obráraõ , nem com a da Féí 
Infelices , os què conhecendo taô claramente a verda- 
de , a naõ feguíraõ ! E di tofo efte homem , que aman-? 
do a verdade , amou a Chrifto , fem fabcr , que o ama- 
va 5 pois Chrifto hc a verdade : Ego [um ventas. 

§. 11. 

17 M premio defta virtude, ( diíTe a lingua ) naõ 
u coníèntc Deos , morra fem bautifmo , &c. Com 
efte cafo íe comprova aquella doutrina commum dos 
Theologos , que affirma , que fe hum Gentio, ou qual-, 
quer infiel ignorar inculpavclmente as verdades, que 
Deos revelou , nem lhe chegar à noticia , que efte Se- . 
nhor revelou algumas verdades neceíTarias para al- 
cançar a vida eterna -, e por outra parte fizer quanto 
cm íi hc , e alcançao as forças da natureza , com os au* 
xilios communs da graça, efte ral ha Deos deallu- 

O iij miallo, 



2 14 Bftirnido prciiiÉo , 

miallo , daadolhe fé , e os mais. dons nccclTarios para 
âquelicíim. E primeiramente, que cita tal ignorân- 
cia invincivel fe poffa dar em muitos infiéis lem pec- 
cado de infidelidade , he fentença recebida de graves 
Viácíaoehcz Dautorcs. E parecc fe demoítra pela experiência de 
hom ca ^1"'°' ^'-^^^^^ MiíTionarios defte Reyno , os quaes teftimu- 
^r.Palao tom"* nhaõ havcr achado Províncias inteiras , onde nem íuf- 
i,iraa.4.D.i: peita havia de que Deos revelara alguma coufa para 
íug.de Fidc D. ^^ crer , e como meyo neceffario para a lalvaçao. El- 
ij.ka. i.n.iK pecialmcnte fe vio ifto no Brafil , c rio das Amazonas^ 
que corta mais de mil e trezentas léguas de Sertão y c 
defcmboca no Oceano por foz de oitenta 5 a cujas ri- 
beiras de huma, e outra banda pertencem mais de 
cento e cincoenta naçoens de diverfo idioma ; e em 
nenhuma tinha amanhecido a luz do Euangelho , ou 
fe algum tempo amanhecera , eftava já taõ extiníta , 
€omo fe nunca a houveífe. 

Donde fe fegue , que pode haver cafo y em que 
hum idolatra adore os ídolos, tendo e coníervando 
juntamente o habito da Fé* Porque íe hum menina 
recém bautizado for cativo entre Pagãos 5 ou Maho- 
metanos, c enfinado nafuafalfa crença, femjámais 
ouvir os Myfterios de noffa Santa Fé. Efte tal fe ado- 
rar os ídolos quando já adulto , e capaz de razaõ > 
verdadeiramente eommettepeccado de idolatria : mas 
laaó perde o habito da Fé 5 porque eflepeccado, fup- 
poflo , que he contra a luz da razaõ natural , naò he 
de infidelidade ; e por confeguinte naô lhe pode def- 
truir a Fé ^ que Deos lhe infundio no bautifmo. Na5 
he peccado de infidelidade , porque para o fer j reque- 
ri?íc culpa no defcrcr , ou negar as verdades revela- 
das; e he incompoffivel efta culpa com aquellaigno- 
ipancia. Por confeguinte naò lhe pode deftruir a Fé 
infufa. Parque efta , íegundo enfina o Concilio Tri- 

dentino^ 



Para feguir o bem , efug ir o mal. 2 1 < 

dcntino , lómcnte fe deftroe pelo peccado de infidcli- vWe P. Saan 
dade; logo efte tal homem he idolatra verdadeiro, ?ca.i.n.j!díí 
fcm fer poíítivamente infiel. 

Quanto à outra parte da fobredita propofiçaõ : 
convém a faber , que a qualquer deftes Gentiosjfe fizer 
o que em fi he , conforme a ley natural, ha Deos de 
o ailumiar, e darlhe Fé: provafe manifeftamentè ; 
porque a vontade , que Deos tem de falvar atodcs: 
Omnes hommes vultf alvos ficrt , naô hc fidicia , c coma 
de comprimento , fenaõ fincera , e verdadeira ; c nao 
o fora , fe lhes negara os meyos precifos para a faiva- 
çaõ 5 dos quaes o primeiro he a Fé. E fe efte iSenhor 
lhes manda que o amem : claro eflá , que fenaõ puze- 
rem da fua parte impedimento , lhes ha de conceder 
que o conheçaõ ; pois impoífivel he amar fem pri- 
meiro conhecer. Por onde diíTeraõ os Padres dó Con- 
cilio Tridentino; que Dcosnaò manda impoíTiveis; 
porém mandando , nos move a fazer o que podemos, 
e a pedir ó que naõ podemos , e nos ajuda , para que 
poítamos: Deus tmpéjjibittanonjubet: fedjulfenÀomo' ^cff.^eap.u.' 
i)etf acere (juod pojfis /& petere quod non pojjis ^ à' aà 
jttvatutpcffis, / 

Efta doutrina fç confirma com vários caíos ad- 
miráveis: darey hum, que anda na Vida do illuftre 
Varaõ Joaõ Thaulcro , a quem hum íeu diícipulo, e 
confeífado converteo ávida cfpiritual e perfeita. E 
efte tal rcfcrindolhe algumas coufas da fua vida , diíTc 
aífim : Era hum homem Pagaõ f de coração boniffimo, 
e quanto permittia a fua esfera , jufto, e timorato. Eí- 
te por muito tempo continuou em clamar ao Geo, 
invocando aP rimeira Cauf??^ donde procederão todas 
as maiscreaturas,e dizia defte modo: Senhor, que 
fizcftes todas as couf :s ; eu nafci nefta região remota, 
e vivo na crença , que aqui fe enfina : outras naçoens 

O iiij tem 



II é EfthmilQpvatkdy 

tem outros vários modos de religião: qual dellcsvos 
agrada , e devo feguir , eu o naò fey : vós , Senhor, 
que fois fobrc tudo , me eníinay íe ha outra Fé me- 
lhor y OU mais verdadeira , que efta , em que eu nafci, 
que aparelhado eiíou para íéguir o caminho , que me 
moftrardes. Mas fcrecufais manifeftarme efta verda- 
de , e eu morrer nefta fé , protefto , que fe me faz in- 
juria manifefta. Orando nefta forma aquelle Gentio, 
ordenou-me Deos Noffo Senhor , que lhe efcreveffe 
huma carta , a qual lhe fay levada \ e elle a foube ler,, 
e entender, c por ella fe converteo à verdadeira Fé, 
c me refpondco y ccr tificandome do que paíTava ; c vi- 
nha a repofta na minha lingua materna , que he a Ale- 
mâa. Até aqui a narração daquelle Servo de Deos, 
difcipulo do Padre Thaulero, da qualfemoftra, co- 
mo Deos 5 que por maravilhofos modos allumia a to- 
dos defde osrRontes eternos , onde habita , na5 nega 
os meyos neceffarios para a falvaçaô. Antes fe ha co- 
mo hum 5oI refplandccente , que cm lhe abrinda 
refquicio , ou fenda , por onde entre , logo introduz 
fcus rayos 5 mais ou menos , conforme a porta , que 
lhe fazemos- Por onde as almas do Gcntilifmo , que. 
com efta tal ignorância invencivcl fe condenarem y 
naõ haõ ds íer julgadas pela ky da gm<^^ , fenaõ pela 
da natureza , que naõ po^aó ignorar , pois atem ef- 
R«ffl,i.Tcrí.i4 ^^^^^ emíuas coníciencia^: Genm^ qtia legem mn ha- 
bent ( diz S. Paulo ) fmífírahíer ta y qua hgts funt , fa • 
ciunti ejufmodi legem nm habenttbuSy ipfi fibi funt lex y 
^tiioftendunt opus Icgtsfcrtptum tncordibus fuis^ íejlimo»^ 
mum reddente dhs conjcimtia ipforum.. 



§. III. 



Víirafegnir o hem , € fttgk o mal. i tj 
§. III. 

COntra efta doutrina poderá alguém replicar: que 
fuppofto , que nas peffoas adultas e capazes de 
razaõ , fempre íua condenação fe refunde na lua cul- 
pa , por quanto com fcus peccados puzcraõ obfíacu- 
lo à luz^q eflava Deos prompto para lhes dar; toda via 
nos meninos innoccntes, que morrem fembautifmo, 
naõ tem lugar efta repofta y e com tudo he certo , fe 
condenaõ. E apparece mais a duvida no cafo , que 
naícidos dous meninos do mefmo ventre , a hum dei- 
ks difpoem a Providencia Divina opportun idade de 
íe bautizar , e a outro permitte y que a naõ tenha ; e 
morrendo logo ambos , aquellc logra para fempre o 
Reyno de Deos , c efte para fempre fica excluido. Tal 
foy em termos o cafo , que fuccedeo ao Venerável 
Padre Diogo Martins da Companhia de JESUS, in- Andraáe»aViA 
cançavel obreiro da vinha do Senhor , nas índias Oc* j*rí^*^^ ^^'''^ 
cidcntaes. O qual cjftando catequizando cm huma tom Téclkx- 
povoação dos Gorgçítoquies , chegou de cutro lugar rôísiiiuftresd» 
hums mulher com huma criança nos braços , e lhe dif- °"^^^ '^ 
fe : Padre , dey a luz a duas creaturas juntas : huma 
logo efpirou ; aqui vos^irago a outra ^ para que rece- 
ba o bautifmo antes qne morra. O Padre a bautizou^ 
e logomorreo. Quem ha de difçcrnir agora entre ef~ 
tas duas creaturas geradas do& mefmos pays , e nafci- 
das no mefmo tempo , a mayor raztó de fe falvar hu- 
ma , e fe perder a outra ? Que culpa teve a primeira^ 
ou que merecimento a fegunda , para fe lhe difíerir^, 
ou nau differii: o petiodp da vida por mais algumasr 
horas? 

A efta objecção fe reípondè primeiramente : que 
nzvci o filvarfe huai deftes gémeos foy fem mereci- 



II 8 Efthnulo pratico^ 

mento , nem o perderfe o outro foy íem culpa ; po- 
rém aflim a culpa ^ como o merecimento naõ íoraó 
próprios, fenaõ alheyos ; porque o merecimento, por 
onde hum fe falvou , foy de Chriíto ; e a culpa , por 
onde outro fe perdeo , foy de Adaõ. E fuppofto , que 
efta culpa eftava em ambos, com tudo , eík mereci- 
mento hc íó daquellc , a quem Chrifto o quizer com- 
municar , porque a transíufaõ da culpa nos filhos de 
Adaò , communicaíe pela natureza , e a participação 
dos merecimentos de Chrifto, concedefe por graça, 
e iíTo mefmo he graça , darfe a quem o Senhor qui- 
zer. Por onde falvaríe huma deftas creaturas , deven- 
do perderfe ambas , bem fe moftra naò fer em Deos 
falta de juftiça, fenaó abundância de mifericordia. 
E pelo contrario, perderfe huma, podendo ambas 
íalvarfe , naõ he em Deos falta de mifericordia , fe- 
naõ excellencia da fua graça, e gloria da lua liberda- 
pfaim.93.vcrf. de , conforme aquillo do Píalmo : Dem ultwnum Do^ 
*• mtnm , Veid^ tãtionum hhere egtt, O Senhor Deos das 

vinganças , ( ifto he dos ados da fua juftiça ) o Deos 
das vinganças obrou livremente. AíTim como , fe hum 
Rey perdoaíTe a forca a hum malfeitor, deixando 
pendurar outro, nem obraria contra íua juftiça por 
conceder a hum a vida, nem contra fua clemência por 
ordenar , ou permittir a morte de outro. 

Erramos torpemente , fe fingimos , oudefejamos 
hum Deos , em que falte alguma perfeição. E igual 
perfeição em Deos , he fer jufto , que fer mifericor- 
diofo: efcolher 5 quando ha de fer miíericordiofo, € 
quando jufto , toca a outra igual perfeição de íer li- 
vre , como o mefmo Senhor diíTe , failando com Moy- 
Exodi 3^ ycrí. fés : MifereboT cm voluero , é^ clemms ero , tn quem mi- 
>o- hi placuerit. Haversy mifericordia de quem eu qui- 

zer , e ferey clemente para quem for meu agrado. E 

fe 



Vara [igjiir o htm , e fugir o mal. i ip 

fe até hum eícravo hc livre, para dar a íua efmola do 
que pode aquém quizer^ Deos, porque fera cativo, 
para naô poder dar a quem quizcr a vida eterna ? Sal- 
vou aquelle menino de elmola , iffo ioy graça de 
Chrifto y naõ deu aquelia efeola ao outro , cila íoy 
liberdade de Deos : liberdade , digo y naò peia quai 
quizeíTe condenadallo , fenaõ pela qual deixou nelle a 
culpa 5 que em Adaò contrahira. Por ventura enten- 
deremos, (diz Santo Agottinho a efte intento ) que 
he fem razaô em Deos lazer execução em hum deve- 
dor y e fazer quita a outro 5 pois nem pede o que fe lhe 
naô deve, nem dá o que naõ he íeu ? Nnnguid tmqtn- Lib. i.adsim. 
tas ejt dpud Deum exigeniem a qm poíiji , donãníem cm pHcianum. 
placeí , (jui nequaqnam e^Ktgit mdebíium , ^ tiequaquatn 
donat altemm r Naõ por certo ; c affim a perdição íem- 
pre he noíTa , e a mifericordia íempre fua : Perdttta 
tua Iftael: tamummedo mme auxtlwm tuum. Ao que 
fe accrefcenta, que efta liberdade de Deos, como hc 
hum ado de fua vontade indiftinfío de fua mefma Ef- 
íencia , impoflivel he naõ fer fantillima, e perfeitif- 
ifima , e importar mais que a falvaçaõ de mil milhoens 
de mundos, e iftonaõ fó porque todos eíTes mundos 
faõ creaturas , e aquelia vontade he Ente Divino 5 fe- 
naõ tan-ibem , porque para gloria de Deos faõ todas 
as creaturas , affim feitas , como futuras , ou poífiveis. 
Mas como nós os mortaes naõ podemos aprekender, 
ou avaliar quanto importa a vontade de Deos j e por 
outra parte concebemos nimia eftimaçaõ donoífofer: 
daqui vay , que nos pomos a difputar com elle, e que- 
remos prevalecer. Bem fora defíe erro eftava aqueilc 
Servo de Deos por nome Anron Martines , compa- 
nheiro de S. Joaõ de Deos , o qual coníiderando os fe- 
gredos da prcdeftinaçaõ, dizia : Bumo es tu CtelOime' 
júi tu vahntad. 



2 10 E/llmulo pratico , 

§. IV. 

REÍpondeíeem fegundo lugar à íbbredita objec- 
ção: que as difpoííçôes^e pcrmiíToens da Pro- 
videncia do Altíffimo , como vaõ tecidas , dependen- 
tes 5 c travadas entre íi , naô as podemos julgar por 
partes fem ínanifcfto perigo de errar. Declaremolo 
com efte íimil. Se alguém viffe as peças , ou retalhos, 
de que ie compõem hum pano de Arraz ., cada hum de 
per íl, e cm difterentes officinas, nao entenderia a 
pintura , c u lavor , que formaô juntos : veria nefta pe- 
ça hum f unhai deftroncando huma cabeç i : em outra 
iiuma maÕ enlaçada com huma madexa de cabellos : 
em Qútra hum corpo fem mãos , e outro fem cabeça. 
E nao vendo , nem a maõ daquelle punhal , nem o cor- 
po daquella maô , nem as cabeças defte corpo , e da- 
quelles cabellos , diria comfigo : Ifto he pintar como 
querer : faó fonhos da fantaíia quimérica do Artifice. 
Mas fufpendey o juizo , que vós íois o que errais : 
ajuntay effas peças : cozey effes retalhos , e de repente 
vereis, quehe a hiRoriada famofajudith, prenden- 
do em huma maõ os cabellos do bárbaro Holofernes, 
e com outra degoUando-o. Eis-ahi,como a que ima- 
gináveis quimera , ou jogo vaõ da fantaíia , he primo- 
rofa invenção da Arte , para lograres prefente aos 
olhos, debuxada , e colorida cm huns fies huma Hif- 
toria Sagrada, que paíTou ha tantos feculos, 

Aílim pois também os cafos , que vaõ acontecen- 
do neftc mundo , naô os pode ajuizar com certeza ^ 
quem os naô vè juntos com ordem , por quanto a fo- 
Éerana Providencia , que os d'fpenfa , e regiftra , toca 
de extremo a extremo toda a ferie dos feculos , e todo 
o âmbito do Univerfo. Com que muitas tem depen- 

* dencía 



I 



VarafegutY o bem^e fugir o maL 2 x 1 

dencia o prcícnte do futuro , c o futuro do já paíTado, 
c o já paíTado do poffivcl : muitas vezes diz ordem 
e connexaó o que diípoem em Roma com o que íe ha 
de prohibir nas índias ; ou o que íe permitte na terra 
com o que íe gofa no Cco , ou padece no inferno. Ap- 
pi içando cita doutrina ao cafo da objecção; que fabc- 
mos nós , fe aquellc menino morreo ícm bautiírno por 
alguma caufa occulta , que fe naõ podia impedir lem 
milagre, ao qual Deos naõ efíá obrigado > e fe no ca- 
ía, que viveífe havia de apoftatar da fé , e condenar- 
íe com mayor culpa. Eis já aqui termos, em que o. 
morrer pagaõ foy piedade do Senhor. Queíabemos, 
fe aIafHma,queasoutrasmãys fentíraô com perecer 
cita creatura lem agua do bautifmo , as fez maia vigi- 
lantes e folicitas com feus filhinhos em íemclhantc 
lance; eque por onde hum fe pcrdeo, fe ganhar aô? 
muitos. Que fabemos , fe algum folitario amigo de 
Deos , ou alguma Santa Religiofa tinhaó lano feu re- 
tiro pedido , e alcançado luz da Fé para certo nume- 
ro de almas da Gentilidade , o qual fe acabou de en- 
cher com a daquelle menino , que naíceo primeiro , c 
que cíle foy o que fe bautizou ? Pois fc nós defenro- 
lando eftc pano taõ pouco , já apparcccm tantas pro- 
porções , e lavores, que antes naõ viamos , que fcria^ 
fc o viíTcmos dcfenrolado todo , aíTim como eíU no 
conhecimento de Deos. 

S. Simeaô SaloyCeve efte fobrenome, (que na fua 
lingua pátria quer dizer tolo ) porque todas fuás ac- 
^ çGês virtuofas foubc embuçar de modo, que fc repu* 
tavaõ por fatuidades, ou loucuras, e primeiro foy 
enterrado , do que conhecido. Efte hum dia recolhen- 
do huma abada de fcixos, começou a varejar toda a: 
praça, atirando a huma e outra parte , fem tento al- 
gum como fui:iofo. Çom loqcos nenhum íizudo tem 

partido^. 



1 2 X Efttmulo pratico , 

partido ; e affim ninguém por alli paffava : huns buC^ 
Cavaõ outro caminho , outros eftavaô de longe vendo, 
c rindo. Paffou acafo hum cnõ , e no mefmo tempo 
começou a uivar , efcumar, e morderfe , como dana- 
do: ceíTou cntaô o Santo da fua fúria , c bradou , di- 
zendo: O' tolos , paííay agora, que já podeis paffar. 
Atreve íe o Leitor a faber cite enigma, e interpretar o 
que aqueila loucura importava? Difficultoíamente. 
Pois o íegredo era , que naquella Praça eftava hum 
feroz demónio determinado a entrar em algum dos 
que paítaffem , e conhecendo ifto o Santo por eípecial 
luz do Gco, tomou aquelie arbítrio para defviar a 
gente : com que o dano , que havia caufar no próxi- 
mo , cahio fomente fobre aquelie animal , entrando 
nelle 5 e por ilTo cntaò deu vozes : já agora podeis paí- 
far; e de caminho ganhou Simeao o defprezo de ler ti- 
do por louco , como pertendia. 

Pois íe os Santos allim fabem encobrir os feus 
arbítrios, e intençocns : quanto mais profundas , e in- 
veftigaveis feraõ as de Deos ? Defenganemo-nos , que 
as que parecem pedras perdidas, ou arremcffadas fu- 
riofamente para fazer mal , vaõ governadas por hu- 
ma maô toda piedofa , c paternal , que naô he íeu def- 
tino ferimos, fenaõ deíviarnos. Todos os feus juí- 
zos já de antes eflavaõ pezados em fiel balança , e to- 
das eíTas pedras contadas antes de fahircm do faço: 
Promb 16. Pêndiis^ & JiaterajuMcía Domim funí i (^ êperaejns 
cmnes lapides facculi» 



▼cri. IX, 



§. V. 



p{. rajeguir o betn , e fugir o mal. 315 

§. V. 

Cautda contra a curiofidade no tnveftigar os fe- 
gredus da Fredejiinaçdí. 

ULtimamente advirtamos , que he neceffario re^ 
portar o orgulho , e loírer o prtirito da curioíi- 
dade do noffo entendimento no eíquadrinhar os fc- 
gredos da predeiftinaçao das almas. He muy pouco 
chumbo o noffo para íbndar pego taõ alto: par<^ fitar 
os olhos nefte Sol ninguém he águia , todos fomos 
aves noíturnas-i nem Deos he Senhor ^ â quem fe pof- 
ía perguntar : ^iare^ como nos adverte o Ecclefiaftes: E«lcí.s.verr^. 
Nec dícere n qtnfquam poteji : quare tta facú ? Porque^ 
fe como diz o Sábio , nem as coufas, que trazemos en- 
tre os fcntidos podemos comprehender , antes nellas 
encontramos frequentemente difficuldades infupera- ^^P'^"^' 9-Tcrf» 
veis : DiffiaU afitmamus qua m terra funt : & qu£ m 
prolpeãu funt invemmm cum Ubore*^ c\\ic temeridade 
nao fera o querer o efpirito humano abarcar o efpi- 
rito de Deos , e infinuaríè na profundeza de feus dc« 
fignios ? Ou que admiração fera vencerem eftes a 
noffi limjtada capacidade ? 

A quadratura do circulo , he hum fegredo y com 
que até o preíentc naò podéraõ atinar os Geómetras 
mais infignes. D.i;fcreva-fe-, ( co^mo aqui apparece) 
hum quadrangulo de lados iguaesD , C , A , E , e par- 
tâfe com a linha diametral A > C , c logo íe lance a 
porçaõ de circulo D , E , a qual corte no ponto B , a 
diametral A ^C. Ifto fuppoílo , perguntemosao mais 
perito Mathematico, que proporção tem alinha A, 
B , com a outra parte, que íc conriaua B ^ C. He tal 
a diíEcuIdade jque aqui fe encerra , que pelo mefma 

cafo^ 




2 24 Eftinmlo pratico '^ 

cafo, que íe der fabido , que a linha A , B , tem feís 
palmos V. g. naó fe poderá faber fcientificaii*.entc , e 
por dcmonftraçaõ legitima , quantos palmos tem a U* 
nha B , C. E do mefmo modo , íe der fab do , que a li- 
nha B , C , tem dous palmos v. g* naõ íe poderá fabcr 
fcientificamente ^ que palmos tem a linha A , B. E if- 
to , que dizemos no exemplo de palmos, procede tam- 
bém nas partes mínimas cm qualquer género de pro- 
porção , e defcendo a quantos quebrados pode imagi- 
nar a Ari thmetica. 

Pois fe os mayorcs entendimentos fc achao cnre- 
^ dados, e perplexos com quatro linhas breves, que 
tem diante dos olhos; que muito, que naó compre- 
hendaô , e definao as linhas , ou traços , que lançou a 
mente Divina nodcfenho dajeruíalem triunfante , os 
caminhos occulíiffimos por onde conduz as almas, c 
as proporçoens dos meyos da fua graça com o fim da- 
quella gloria ? Quem fabc deitas medidas r ( diíTc 
aquelle íiimmo Architeílo fallãdo com Job) ou quem 
Job3«.Tctf.5. me ajudu a lançar cilas linhas: Giuu pòjutt menfuram 
ejtís i/í mjit ? vel cjuis íetendit fuper eam líneam ? Por 
tanto a alma, que fe quizer livrar de perplexidades, 
triíkzas , e efcrupulos na matéria de íin prcdcílina- 
çaõ , deve aíT:ntar nas feguintes máximas , c naõ cui- 
dar mais no ponto. 

Primeira: Que Deos NoíTo Senhor com vonta- 
de verdadeira, fiel, e íincera defeja converter, e fal- 

1 . Timoth. 1. var a todos : Omms homirm (he hum texto de S. Pau- 

( 
^cr . 4 . j^^ ^^^^^ falvosfiert , ó' ^^ ^gnlt tonem vmtatis ventre. 

Tob3,tcrí.i». Nem fe deleita coma noffa perdição e míferia: Non 

^mm ddiãatitr tn ferditionihns nojirts. Nem quer a 

morte do peccador , fenaõ , que logre a vida da gra- 

tizch.}y.itrU ça, e gloria, como elle affirma por Ezequiel: Nclo 

"• m&rtem impii , fed ut cmvertatur tmpius a via fua , & 

vivaík 



Parafeguirobemy^fugiromal. 215 

vivat > c a prova de fer cfta vontade verdadeira foy 
mandar feu Unigénito Filho ao mundo, para falvar 
o mundo , como eftá efcrito no Euangelho : Non emm jom. j. t«Ci 
mifit D^us Filiíitnfuum m mundum , utjudtceí mundum^ *^ 
feduí falveiurmtíNdusperipfum, Eç^va.c{\c cíícito lo- 
bio à Cruz , c foy entregue à morte por nós todos : 
Pro Hobis ommbus tradidit illum, E fe efte clementiífi- Ro». t. ^uk 
mo Senhor 5 para naô deftruir a Ninive,tevc atten- ^** 
çaô até aos jumentos que naquella Cidade havia, c 
íc compadeceo dclies: É/ tgo nonparcam Nimve Civi- Jo"'4* Tctt 
tati magn£ , tn ífuafmjt plufquam cerJum vtgintt mtllia 
hominnm ::::/:;' jumenta multai Como he crivei , que 
deixará de tazer todas as diligencias, para que fenaS 
perca5 eternamente almas ^ que ellc creou à fua ima- 
gem e femelhança , para o fim de o louvarem ? 

Segunda : Que todos os que fe naô falvaõ , fe na5 
falvaõ , porque Deos Senhor NoíTo determinou dar 
a íalvaçaô por premio , o qual neccffariamente íup- 
pocm merecimento, co merecimento liberdade; c 
aflim quem naõ ufou bem da fua liberdade , cfte na5 
confeguc a lai vaçaõ : Deus ab miíio (diz o Ecclcfiafti- 
co) conjliimt hommem ^ é^ reltquit illum inmanucon» Eccfef 15 à 
Jítii ftn: adjecií pr^cepta é- mandata fua ^fi voluerts ''"^' \^*':' .,. ^ 
mãfid ata fer vare , confervahunt (e , ét ttt pe) petuum fi^ 
dttn placa am f acere-. AppoÇuit ttbi aquam^ ér ígnem: 
ad íjuod volucrupon tge manurn tuamxAnte hominem xit-* 
ta & mors^bonnm &malum^ quod phamit n ^da^ 
biturtlli, Deos defdc o principio creou o homem ,« 
o deixou na difpofiçaò do feu arbitrto ; pozlhe Ley e 
Mandamentos ; fe os quizeres guardar , e ter fé viya 
com que agrades a Deos , pari fempre feras eterniza-' 
do : Pozlhe diante dos olhos a agua , e o fogo : eften-^ 
de a miò ao que mais quizeres: diante do homem cif 
taõ a vida e a morte , o bem e o mal 5 o que efcolheri, 

P iífo 



ii6 E/liwu/o pratico 9 

iilo lhe darão. Por onde fe a mayor parte dos homens 
cahe na morte eterna , hc porque a mayor parte cfco- 
iheo o mal do peccado : naõ lhe faltou Deos com os 
auxilios ncceíTarios: cUcs fim faltarão ao aproveitar 
effcs auxil os 5 por iffo diz o Senhor nos Provérbios : 
fíercrb.1.14 Vocavi^ & renuijíts: extendt wamim meamy ér ^on 
fmt qm ajpceret. Chcimey-vo&, c naó quizeiics acu- 
dir: aceney-vos, e offerecia-vos amaô, c naõ hou- 
ve quem ao menos voltaíTe os olhos. E por Jeremias 
diz : Dcfcmparemos a Babylonia , porque naõ íarou, 
Jcrcm.55. Tcrí. Hi^s O naõ íarar , naô foy por falta de cura : Curavi-- 
'• mus Babylomam > & non efifanata , derdmquamus eam. 

Terceira : Que Deos NoíTo Senhor naõ nos man- 
dou, que cntendcíTemos y e penetraffemos o como fe 
concorda a liberdade humana com a predeftinaçaõ 
Divina. Baftà-nos crer firmemente eftes dous pontos. 
Primeiro , que Deos ab .xterno prévio certo numero 
de efcolhidos , que fe haõ de íalvar , o qual he impoC- 
fivel crefcer^nem diminuir. Segundo, que todo o 
homem , que tem ufo de razaõ he capaz com os auxi- 
lios da graça de merecer a vida eterna , a qual ]he eflá 
promettida pelo mefmo Deos. O primeiro ponto 
confta do que diz S. Paulo : Quôs pnefctvtt , é^ prade- 
(imavit conformes ficrtim>ígims Filtifui ^utfit ipfe prU 
mogemtus tn mtãtisfratribus ) quos auíem fraãcjli^iaztti 
hos & vocavít; S' qtiõs vocavitj bos & jnfiificanjv y 
quos auumjuftificavu , hos & glonficavit. O íegundo 
confta dos Textos , que agora acabo de allegar , e da 
fcntença, que o Sagrado Juiz ha de dar, dizendo : Vin- 
de bcmditos de meu Eterno Pay poíTuír o Rcyno , que 
vos eftá aparelhado dcíde a conftituiçaõ do mundo j 
porque tive fome , e me déftes de comxr , &c. Sendo 
pois ambos eftes pontosclaros^cexpreíTos naEfcri- 
tura , ambos faõ verdades infalliveis : fendo verdades, 

he 



lMm.S.&9. 



Parafegulr o bem , e fugir q mal. 117 
hc impoíTivel implicar huma com a outra j porque às 
falfidades bem íc podem encontrar entre fi^e huma 
deímentT a outra 5 mas as verdades , nunca. O como 
fe concordaô , iffohe o que dizíamos ^ que nos naõ to- 
ca , nem Dcos no lo mandou : a feu tempo o íabcrc- 
mos , quando já eftivermos livres da cfcuridaô deftc 
cego cárcere de noffos membros corruptiveis. Ou- 
çamos ao grande Filofofo Boccio , íobre eftc affump- Dc'Coofpi. 
^q; Phiioí. Kb.ií; 

Quéenam dtfcçrs federa rerum '"^^* 

Caufa re/õlvit y qua tanta Deus 

Vcris fiatuit beãa ãuohuSf 

Ut quéecarptimfingula conftent » 

Eademnolmt mtjia jfigart'^ 

An nuUa ejl difcordia v^ris 1 

Hemperque fibi certa coh/ermt í 

Sed mtm cacis obruta membrts 

Neqtiit opprcffo lumtnis tgne 

Rerum ténues nofcere nexus. 
E no tocante aos meninos pagãos , que perecem fem 
culpa própria ^ fó pela de Adaó , bem recompenfado 
fica com que também os que fe bautizaó, fc falvaó 
fem próprio merecimento , c fó pelo de Chrifto : com 
cfta ventagem de mais , que aquelles naõ padecerão 
pena alguma de fentldo ; e eftes lograráô naõ íó a vif- 
ta de Dcos , fenaõ também todos os prémios , c con- 
folações dos fentidos , que os Bcmaventurados lograõ 
noCeo- 

Quarta , c ultima : Que o melhor modo de en- 
tender a Thcologia da predeftinaçaõ, he affeguraJh 
cada dia mais com fantas obras, crendo o que Deos 
revelou , fazendo .0 que manda , e efperando o que 
promette: Ftatres ( nos eníina S. Pedro , a cujo cui- i.Pcttí i.Tett, 
dado entregou o Divino Paftor todo o feu rebanho ) ^°' 

P ij t»agtí 



Cornejo part. 
jí Ja Chioni 
a li .,<. cip. 

?9' 



1 1 S Eftimulo pratico , 

w;(!?^íí fat^gttc , í// pfr Z?í?w^ o/íí'^^ certam vcjlram vcca^ 
twnem , c^ eleãionemfaaaíts. Todos os mais cuidados 
devemos lançar nas íiias mãos ^onde a noíTa forte eftá 
muito mais fegura, que nas noffas 5 pois he certo , que 
ncnh'irn homem por muito íàbio que foffe , fc talva- 
ria , íe Dcos o delxaíTc obrar por íi o que quizeíf e. Ao 
Beato Fr. Gil , da Ordem do Seráfico Padre S. Francif- 
C3 , perguntoa outro Reiigiofo , que fcntia no pro- 
fandiflino myikrio da Prcdeíiinaçao , e refpondeor 
lhe: Irmaò, n^õ fou taônefcio, que podendo fem 
perigo lavarme à borda do mar y entre no pego a per- 
derme temerário. Deirc myfterio, a meu ver, mais 
jfabequcm melhor obra: venera tu os juizos deDeos,. 
fia das fuás promcffas, c naõ queiras faber mais do que 
viver bem , que ifto he lavarfe à borda do mar com fe- 
gurança , fem fc aventurar às ondas. 



EXEMPLO XXIV. 

Da cegueira do Hinor profano , ejjicacia da. orai- 
çaÕ dm "^uftos , e valor da penitencm. 

OS tempos , cm que florcciaS. Bafilio M ig- 
no , Arcebifpo de Cef uéa , ou Cappadocia^ 
houve niquella Cidade hum nobre Sena- 
dor , ou Magiflrado , por nome Proterio., 
o qual tinha huma filhi, cujos poucos annos^ c mui- 
tas prendas determinou coní agrar aoEípofo das Vir- 
gens no eftaio Reiigiofo^ Quando efte propofito naõ 
fora conhecidamente íanto e louvável , baftava para 
,:*aT. ; i//' cananízaHo a oppo(i;a5 , qu: logo lhe fez o demónio, 
Ih Soei. cap. 1. cfpirito eíquerdo, (coaio lhe chama S, Jeroay mo ) 

que 




Para feguir o hem \ e fugir o mal. 229 

que hâda confentc feito às direitas : Diaholus fempsr s. Petr. chryf. 



Scrm.i. 



f rtmor dia bom pui jiit i tentai rudimenta virtimim^fan- 
iía tn tpfo ertu fiftinjt extinguere , fctms , quod ea fub- 
verterefundatanon pojjit. Pofto poisdccmbofcada o 
iaimigo atirou ao coração de hum fervo de cafa , que 
olhava para fua fenliora , com as infernaes faí ícas do 
amor lafcivo; onde, pegando bem , íc atearão tanto, i 

que fabendo fer impoílivcl por outra qualquer via o | 

logro de taó nialnjíqi^^^È^iSas, determinou íoc- | 

correrfe das rnWm^suo mefmo^demonio ^ filiando 
para iffo a hum grande Magico / e promcttendo-lhe 
muito ouro , fenaõ o de que carecia 5 como pobre fer- 
vo , ao menos o que efpcrava , como futuro efpofo. 
Por mim nada poíTo , ( rcfpondeo o Mago ) mas íc 
queres : Irás com hum recado meu ao diabo , meu Se- AnRDí:i$i6 1. 
nhor, que clle fará a tua vontade , fc tu fizeres a fuít. 
DííTe o pertendente:Tudo o que ordenares cumprirey 
à rifca. Tornou o Mago : Renegas de Chrifto ? Rene- 
go (diffe o miferavel) : pois fe eflás pela tua palavra 
( replicou o Mago ) eu te ajudarey. Ratificoufe ellc 
outravez , dizendo : Para tudo eftou aparelhado , com Aniotaçaô A, 
tal 5 que configa o que defe jo ; e tenha por mulher cfta 
donzella. 

Efcreveo entaõ aquclle corretor da maldade , c cor- 
rcfpondentc do inferno huma carta para o Principc <^ 

dos demónios , cuja nota era a feguinte : Meu Senhor : 
Por quanto em razaõ de meu officio me corre por Annotaçaô iii. 
obrlgoc^p tratar com íumma diligerícííííe ajOTtar a^ 
alínasrdiFe,€ Religião Chriftãaj e encaminhallas a teu 
fer viço , para que teu Reyno fc augmente, ahi remet- * ^*f ''^ .^/^^ 
to o portador das prefentes letras , que eftá ardendo lllTx^ZZl-' 
no fogo do ícu appetite ; e peço te dignes , de que eftc Z^»'' » '''^«^ '''^' 
fe effeitue, para que eu tenha a gloria delia obra : * e ?;::;,:?saS 
çom mayor alvoroço ^ c fervor procure ajuntar mui- ^ • P* 

P iij t09 



230 Eftimulo pratico y 

tos outros^ que íc dediquem a teu agrado. Feita a 
carta , lha entregou , e diffe : Vay , e a tal hora da 

Anaciaçaõ IV. noite: Poem-te em pê fobre a fepultura de algum Gen- 
tio levanta o braço para o ar com efta carta , e chama 
pelos demónios , que logo acodiráõ muitos conduílo- 
res , que te introduzaò à preíença do Príncipe. 

Nenhum ponto defta diííicultofiílima liçaô Ihçef- 
queceoàquelle mifera vcl ^. que até defeu Deos le ti- 
nha eíquecido. E miiy contente com o bom defpacho 
do feu negocio , no finalado tempo, e lugar chamou 

líai^sM-i^. pelos demónios, osquaes (vede ^' fe tardariaô ? ) o 

• iituc (onare- Icváraô logo perante o Rey dos íoberbos Lúcifer. Pa- 
7u/7Ja7/f-^' reciaeftèvr elle entronizado cm hum lugar eminente, 
rum. no meyo de innumeravel caterva daqueiles Anjos no- 
cám Mp?io'' turnos , ( como lhe chamou Santo Ambroíio ) e cafta 
Pfovcrb io I ^^ rafeiros , que tem punhaes por dentes , como àiz 

Salama5. Tomou a carta da maõ do feu novo vaíTal- 

lo , e com gefto imperiofo lhe perguntou: Crés em 

mim? Refpondeo o trifte : Crcyo. Tornoy ó diabo : 

Renegas de teu Chrifto ? Refpondeo: Renego. Vós 

.. • outros os Chriftáos ( continuou o diabo ) fois pérfidos, 

9 Beee...ffíe. c muy varios ; Quando ^ neceíTitais do meu amparo, 

re leonh . . .'fa- bufcays-mc, e em tendo na maô o que deíèjaveis , paf- 

Tc,T^!%: '" fais-vos ao voíTo Chrifto ;e =^ como cllc he brando, 

* TiioryQuem c mifericordioíiílimo, logo vos abre o coração, e eu 
mTbi^'&Z7d fif9- illuío- Portanto =* eu me naô fio de ti,fe me 
vtréí.r , acci nao dás hum efcrito firmado com o teu nome , cm que 
dti ^063.15. proteftes renunciar efpontaneamente o teu Chrifto, 

c obautifmo, e promettas fcguirme , e cftar comigo 
no dia grande do Jnizo , difpofto a foportar a eterni- 
dade de penas, que me sftaô preparadas. Eftava aquel- 
la alma já de todo cega, fez, e aííinou o efcrito ná 
forma , que lhe foy pedido , celebrando psfío com o 
inferno j c morte eterna j fegundo aquillo dellaiás: 



P^ira feguir o hm , e fugir o mal. 131 

'Pncti[limmfocdu$ cnm nmtt^à* cum inferno fectmus{\^^^ ^t. ij. 
pafíum, I 

Defpachoii logo o grande eftragador das almas , | Annouçaô V* 
certo numero de demónios daquella clafle , que tem | 
a ícu cargo tentar de luxuria , còm ordem de accendc- | 
rcm corpo e alma da incauta donzella em vivas c | 
mordazes chammas daquelle abominável vicio. A i 
<]ual 5 por infcrutavel pcrmifTaõ do AltiíTimo, naó fa- 
bendo reíiftir a taõ furioíb affalto ,cahindo em terra,' 
dava vozes aíeu pay Proterio, dizendo, miíericor- 
dia , mifcricordia : compadecey-vos das voffas entra- 
nhas 5 c da filha que geraftcs 5 e logo totalmente alhea 
do pudor taõ connatural ao íeu íexo , accrefcentava * « ^^ inteihxtf- 
Day-me por efpofo a fulano ( nomeando aquelle fer- fet.orifuo im^ 
vo) ou fenaô, certamente morro, e dareis a Dcos ^^(o^fji^lt^^'^,^ 
conta de mim , como cruel homicida. Ouvindo o pay 
taõ abfurda demanda , e vendo taõ raras demonftra* 
çoens da paixaò forte , que opprimia aquelle efpirito, 
naõ fabia que cuidaffe , ou diíTeíTe ; e começou com 
muitas lagrimas a lamentarfe, Ay de mim ! Que fuc- 
cedeo a minha filha ? Quem me roubou o meu thefou* 
ro> Quem apagou a luz de meus olhos? Que mu- 
dança , que loucura he efta ? Eu te deftinava para os 
deí;")oíorios do Rey do Ceo , c tu efcolhes , e pedes , c 
nomeas hum viliflimo fervo ? Queres perdertc , e fol^ 
gas com a minha dor , e infâmia ? A eftas , e fcmelhan^ 
tes razoens naõ refpondia a miferavcl , feoaõ dobran- 
do os mefmos clamores , que os efpiritos immundoà 
davaõ por fua boca ; e depois de vários debates c air* 
titrios , que fe tomáraõ para foíTegalla , já por terror, .^ 
já por brandura; Proterio finalmente por confelho 
de feus amigos , ( que hc certo , que os demónios aíTo- 
prariaõ por todi a parte) condefcendeo como defati- 
^0 da filha; e quafi rebentando de magoa, lhe diffe: 
LI P iiij Yay, 



23 ^ Efthnulo pvútko , 

Vay mlferavel ; quanto chorarás algum dia ; arrepen- 
dendotc, quando naõ tenhas remédio ! 

Efteituado pois o caíamento , de que o demónio 
foy o Paranimfo , naõ paíTou muito tempo , que algu- 
# f^g,y,^ fotsfi "^^s pe (Toas naõ reparaffem, como aquelie moço =^ naõ 
duobus Donúnis fe bcuzia , ncm ouvia MiíTa , nem chegava à Divina 
{mum/i/Mft] Mefa do Paõ dos Anjos , nem ainda entrava nas Igre- 
& aílcnim cotm jas 5 c Haõ faltou qucm por zelo , ou loquacidade , Ic- 
umnçu Ma«h. ^^^jp^ ^^^ ^^^^^ ^^^ ouvidos da mulher , dizendo : O 

marido , qtie efcolheftes he pagaõ. Obfervou ella íuas 
acçoens , c achando , que nenhum final moltrava de 
Chriíbõ 5 naõ he fácil dizer , quaõ efcuro nublado de 
triftczas cobrio feu afflidlo coração j e arrancando 

Aiinotaçaõ VI. *'Um profundo fuípiro , d íTe : De verdade a nenhum 
deíbbediente a íeus payspódefucceder bem ! Oh er- 
rada , oh cega , oh trifte , em que abyfmo de males te 
precipitafte ! Eis-aqui por quem dcixey a JESU Chrif- 
to, por hum, em cuja alma he certo que eftaõ os 
demónios, Ouvio o marido cftas vozes , c trabalhou 
quanto pode peia diíTuadir defta opinião , ajErmando 
fer falia , e ainda qucixandoíe da injuria , que fe lhe 
fazia. Se naõ m.entes, (diffe a mulher), cheguemos am- 
bos à manhãa à Meíci da Communhaõ Sagrada : de ou- 
tro modo eftá confirmada a tua maldade, e minha def- 
graça. Elle entaõ , naõ podendo fahir ao partido , pe- 
io grande medo , que tinha aos (Tcmoffios7íe"lFaitaíre 
ao pado , fiou de fua mulher axekçaõ inteira de todo 
o fucceíTo j e de todos os erros pafíados , e fuás confc- 
quencias , o amor foy o que levou alli toda a culpa. 
Mas ella , ( pondo de parte todas as laftimas , e quei- 
xumes pmprios da fragilidade daquelle fexo ) allu- 
miada doCeò ,difcorreoccmfigo deflemodor Aqui 
«aõ ha para que tratar , fenaô do remédio : o remedia 

AnnoiaçáõYii' '^^ P^dc vir dc Dcos, Para Deos hc ncceíTario buícaj: 

' \ algum 



Vara fèguiY o hem , e fugir o mal. 1 5 j 

algum fervo e amigo feu, aílim como eíie moço buf- 
cou para o demónio hum fervo e amigo do demónio. 
DiíTe, e levantaíè logo , mete bom coração ao 
marido , e vay fem demora profírarfe aos pés de S. Ba- cc^njtwaifi 
filio ; falia primeiro com lagrimas, expõem logo a anima^mtvitm 
caiifa delias, clama por remedio.4áJxnpQri;uí]^l^^i^^^^ \'criíuJnfii^^ 
antes de repulfada. O Santo Paftor procedeo no cafo ju^iiih. lòlí^- 
comò PaííorVe com.o Santo : manda vir àfuaprefença 
o primeiro papel daquella tragedia , informale outra- 
vcz do cafo , c diz-lhe : Homem , he tua vontade tor- 
nar para teu Dcos , c Senhor JESU Chrifto ? Refpon- 
deo ellc ; Sim Padre ] mas naõ poíTo : Porque naõ pó- 
dcs , ( diffe o Santo ) e reípondeo o moço : Por amor 
da efcritura , cm que neguey a Chrifto y c profeíTey fe- 
guir ao diabo : Bafta , (tornou o Santo) naò te dê cui- 
dado : noffo Deos he mais benigno do que tu nem al- 
guém podem entender : elle te receberá , querendo tu 
arrependerte 5 porque a fua natureza, he compade-r 
cerfe de noíías mifcrias. Entretanto a mulher , abra- 
çada com os pés de feu Paftor , clamava com as pala- 
vras do Euangeiho : Servo de Deos , fe alguma coufa 
podeis , ajudaynos: DiíTe o Santo para o moço ; Crés 
que podes ter remédio , e falvaçaò ? Refpondeo tam- 
bém com palavras do Euangeiho , que fc feguem : 
Creyo , Senhor , ajuday a minha incredulidade. Pegou- ^^^ ^ ^^ 
lhe então o Santo da maõ , e fazendo íobre ellc o final Marc. ^i %%, 
da Cruz , e breve oraçaô , o levou a hum lugar inte- 
rior , onde fc guarda va5 algumas Veftcs fagradas, e 
alli o deixou fechado^ e advertido do que havia de 
fazer. 

O^ três feguintes dias gaftou o Santo , e vigilan- 
te Paftor em offerecer a Deos por aquella ovelha fa- 
crificio de lagrimas , e oraçaõ : paífados elles ,. o viff- 
tou y e lhe diffe : Como te vay , filho? Refpondeo o 

moca 



^34 Eftimulo pratico \ 

moço: efíouem grande tribulação ,€ defmayo^naõ 
poíTo foportar os alaridos c terrores dos demon:os> 
as lançai , e pedras , que íobrc mim chovem ; moftraõ- 
me o meu eícrito , como penhor da mnha divida , ou 
chave dos meus grilhoens, e daõ-me em rofto com 
hum continuo vitupério , dizendo : Tu vicfte deman- 
damos , nós naõ fomos ter contigo. Eya , filho meu , 
.( diffe o Santo) naô percas o animo, encomendote^ 
que eíkjas forte na Fé. Deulhe entaó de conaer mo- 
deradamente , e tornando a fazer íobre elle oraçaô^ e 
o final da Cruz , o deixou reclufo, Depois de alguns 
dias repetio a vifita , e o penitente lhe diffe : Padre, 
já naò vejo os inimigos, mas ainda os ouço ao longe, 
que me ameaçaò : Deulhí: elle a fua refeição corporal, 
orou como as outras vezes , e apartouíe. E ao qua- 
dragefímo dia tornou , perguntando , como havia 
Bonatftorath paffado. Muito bem ^ (refpondeoclle) porquejáme 
tuwjf junto. iiaõ perfeguem ; c hoje em fonhos vos vi peleijando 
em minha defenfa contra o diabo , e que o venceftes. 
Entaõ o Santo , dirigido por fuperior inftindo , 
o tirou daquella reclufaó , e o levou ao feu apofento, 
c logo convocou todo o Clero , Communidades PvC- 
ligiofas , e mais Povo fiel , e lhes fallou aíTira > Filhos 
meus dileítiíllmos , rendamos todos a Deos muitas 
graças , porque o bom Paflor ha de trazer brevemen- 
te ao feu rebanho fobre íeus hombros huma ovelha, 
q fe tinha deígarrado , e cftava em poder dos lobos in* 
fernacs ; importa obíervarmos efla noite vigilia todos 
juntos na Igreja , e cu com vofco em oração fervente; 
porque na5 fucceda por noffa negligencia fahir vito- 
riofo o corruptor das almas. Como o Santo Prelado 
ordenou ^aflim fc fez com grande promptidaô, e con-i 
formidade de ânimos, pelo cordealamor crcvercn-; 
cia, que todos lhe tinhaõ. 

Ao 



Tob.ii.8. 



Tara feguW o hem , efugtv o mal. 135 

Ao romper o dia foy o Santo bufcar o peniten- 
te , e o trouxe pela maõ , acompanhado de todo o Po- 
vo, cantando Píiilmos c Hymnos; e querendo já en- 
trar na Igreja, eis que o infernal lobo faminto, com 
muitos outros dafua alcatêa pega inviíivelmente do 
moço , forcejando por lho arrebatar das máos ; o po- 
bre todo aíTuftado levanta o grito : Santo de Deos 
valcyme. Naô largou Baíilio , íuppofto que a violên- 
cia era tal , que os levava a ambos , porém o Varaõ de 
Deos , como quem eftava bem ungido para a luta com 
a virtude de Chr ifto , e feu terrível Nome , diíTc para 
odiabocom voz imperíoía,e coração inteiro: Efpi- * 
rito apoftata, pay das trevas, e da perdição , naõ te 
bafta tua eterna miíeria,c dos que comtigo arruinafte; 
fcnaô que te atreves a corromper efta imagem de meu 
Deos ^ Refpondeo o inimigo : Baíilio tu me prejudi- Annotaçao 
cas; Baíilio, olha que ofFendes o meu direito. Eftas vm. 
rcpoftas ouviaõ muitos do Povo, e todos entretanto 
clamavaò : Senhor , mifericordia. Dizia o Santo : Sa- 
tanás , dom?ne-tc o Senhor. Reípondiaodiabo: Baíi- 
lio , pre)udícas-me : eu naõ fuy bufcallo , clle me veya 
requerer. Tornava o Santo : Solta , maligno , folta 
a obra de Deos. Replicava o adverfario : Fazes-me in- 
juftiça manifefta : elle por fua livre vontade negou a 
Chrifto, c me confeíTou a mim : na maô tenho o feu 
cfcrito , o qual hey de aprefentar no dia do Juizo. DiC- 
fe entaõ o Santo com eípirito vehemente, e coragem: 
Vive Deos, que he bemdito por íeculos de feculosí 
que naõ abaixará eíie Povoas mãos , nem ceffará de 
orar , até que me entregues o efcrito j e logo voltan-^ 
dopara o Povo, que todo eítava fuipenfo no efpe-^ 
ílaculo de tâõ eftranha difpura, bradou, dizcndar 
Fieis , acima os coraçoens , acima as mãos: todos a hu- 
ma pedi mifericordia : aperta/ com Deosy que Deos 



Mtiitum vãUt 



Paíium ve* 
fltum cum in* 
pruo non fia' 
kii. líaiar 



2^6 E flimn lo pratico <i 

apertará oícu adverfario. Bem como a mofquctaria 
dos efquadroens em campo , difpara iunta a certo fi- 
nal , cobrindo o inimigo com huma e outra carga : 
Qi/íXww a efe palavra do Santo , começou todo aqueile 
Povo Chriftaõ a clamar : Senhor, mifericordia, Chrif- 
to, miíericordia, Senhor^ mifericordia. E perfeve- 
rando nefta efpiritual bateria algumas horas, vi- 
rão todos vir defcendo pelo ar o efcrito , até fe pôr 
nas mãos do Santo , o qual pegando delle , e dando a 
Deos as graças com exceíTivo gofto de feu coração , e 
de todos os preíentes , diíTe para o homem: Irmaõ, 
. conheces erta letra ? Conheço , diíTe elle , pois he fei- 
ta pela minha maõ. Entaò rafgou o Santo aqucUe ne- 
fando papel 5 e logo introduzio noaprifco da Igreja 
aquella reduzida ovelha , a quem mandou afliílir ao 
tremendo facrificio da Miffa 3 e lhe adminiftrou o vi* 
vifico ç faudavel pafto do Corpo de Chrifto Sacra- 
mentado 5 e naquelle dia para mayor demonftraçaò de 
alegria publica , convidou a muitos do Povo à fu^ 
meia : e ultimamente inftruido aqueile moço com os 
documentos, quedallipor diante lhe importava fc- 
guir , o entregou a íua mulher , que naó ceifava de ihe 
agradecer o cathalico zelo , com que nefta efpiritual 
empreza tinha trabalhado. E todo o Povo , vendo taó 
raro e prodigiofo fucceífo, em confirmação das ver- 
dades da Fé, daeíficacia da penitencia , do valor da 
oraçaò, e da paciência e mifericordia Divina para 
com os pcccadores, ficou grandemente edificado , c 
deu por tudo a gloria ao que he Rey da Gloria , e Se- 
nhor das virtudes* 



ANNO- 



Para ftguir o hm , eftigtr o mal. 1 37 

A N N O T A Ç O E N S. 

ESta memorável hiftoria refere Santo Amfillo- Urfas s. r. é* 
quio, aquelle,quenofcntir degraves Autho- ^^^f^»«aí. »»« 
res foy Bifpo de Iconio, Cidade de Lyaconia, foquif.si^^cl'/.' 
c companheiro na vida Eremitica dos Santos Douto- »»^Cathaiogo \U 
res , Baíilio e Gregório Nazianzeno. Affirma Iba con- tor. «p^^yl^síxr. 
tara Heiladio, Varaò cfclarccido cm virtudes, e mi- scn. lib. 4. bí- 
lagres , difcipulo que foy do mefmo^ S. Baíilio ^ e por ^^^ '* 
cuja morte lhe fuccedco na Cadeira de Ccfaiéa , como 
eícreve S. Joaõ Damafeeno. E ainda que o Cardeal ^^^^[^^ °"^- 
Baronio entendendo fer outro diffcrcnte Amfiicquio BaronjnMar- 
oauthor da vida de S. Bafilio, cenfura nella muitas ^'[^]%^ Rena. 
coutas por apócrifas : toda via exceptua as relaçocns nuar. & fonj.4, 
alli incertas do dito Helladio 5 d^asquaes transferimos «""ochiifti 
cfta pelos termos, que anda no f^ú as Paír um deRo- Vki Patrum 
fucdio^e a toca Surio emendada. Ha nella muitas i»i^.i-suriu>u 
coufas dignas de ponderação, e pontos deutiliíTima J*"'-**'^" 
doutrina , a qual colheremos indo repifando as meC- 
mas palavras da relação. 

§■ I- 

IRás ( diíTé o Mago ) com hum recado meu ao âtabo^ 
mm Senhor. Puderafe perguntar a cfte miferavel,, 
porque ticuio era o diabo feafcnhor 5 fe pela haver 
criado , ou confervado-, ou remido ? Porém pode reí- 
ponder,que todoopeccador,que eílá fora da graça 
de Deos hc efcravo do diabo : Aquo cmm qtnsfuptra'^ ».PctrU.f«k 
tus eft, hn]H$ ér fervus efiy e]queo diabo he cabeça '^^ 
de todos os infiéis > e malvados : Capr^d ommum inftde- « . 

f 7 n , , 1 ^1' ' Kaba nas roca»». 

ííum,c^ tniíjumnm eji' dtmolus. Elegantemente tirou. j^.Eccití.ii^ 
efia vcrd.ade S. Gregório , daquelíe iugar dos Prover- 

b:QS> 



ProTCib. 5t9' 



|. parti Pifrof. 
a^tmodicione 



138 EJlimulo pratico , 

bios , onde o Efpirito Santo diz : Ne des ãlienis hom* 
rem ttium , & annos íuos crudels. Naô dés tua honra 
aos cíiranhos, c teus annos ao cruel. Entendeis vós, 
( diz o Santo Dcutor ) que quer ifto dizer ? Os cftra- 
nhos faó os demónios, porque já ertau ícparados c 
cxcluidos de forte da Pátria Cckrtial : a noffa honra , 
he fcrmos nós os hcmens criados à imagem e fcmc- 
Ihança de Deos , naõ obítantc a terrena c vil matéria, 
de que noíTos corpos faõ formados. O cruel he aquel- 
Ic primeiro Anjo apoftata , que íc matou a fi mcfmo 
eternamente com a lança da fua fobcrba , e o mefmo 
pcrtende fazer a todo o género humano ; pois como 
todo o peccador por obedecer aos demónios , desluf- 
tra e envilece cmfi a imagem de Deos , c emprega os 
efpaços da fua vida cm fervir a Satanás , andando por 
onde clie qucrjpor iffo o Eípirito Santo, mãdando nos 
abominar eftamiferavel efcravidaõ, diz: Que naô 
demos a noffa honra aos eftranhos , e os noffos annos 
ao cruel: hhnorem itâque fuum (faô palavras de S. 
Gregório) aíienn dat , qui ad Dei imíJgmem (^/imlitu- 
dmem conditus ^vtt^ejUée temporamahgnorum fpirttuum 
voluníãítbt44 admimjlret, Annos etiamfuos credíilt tra- 
dtt , qui ad voUmtatem male domtnantts adverfaru accep- 
ta vivmdijpfUta impfndit. 

Dos illuftres Martyrcs S. Joaõ c S. Paulo , ( ir- 
mãos no íangue, e muito mais na Fé , c conflancia) fc 
lê, que diffcraõ ao Perfeito Terenciano, quando lhes 
blafonava com o mandato do Emperador Juliano íeu 
Senhor: ScTuliano heteu fenhor látftAVcmcomcl- 
le, que nos nao reconhecemos outro Senhor mais, 
que a JESU Chriflo : St Vomm tuus efi Juhanus , ha- 
hei o pacem cum dlo : mhis alius mn efi , wfiDomtmts JE- 
SUS Chnflfís. A efietom pudéramos nós dizer a eftc 
impioi que fc o diabo era fcu fenhor , lá fe avieffe com 

cUe, 



t 



Parafegiiir o hem \ e fugir o mal. 139 
cUc; porque nós naõ conlxccmos por talfenaõ a JE- 
SU Chriito: Tãfolus Dor/nnus , tu folho aíujjimm Jt^ 
SUChnJte. 

§. II. 

PAra tudo eftou aparelhado , com tal , que cenfiga o 
que defejo, O peccado traz comíigo , conno efiei- 
to ricceffano efta cegueira c loucura , ícgundo aquil- 
lo do Profeta : Amhulabunt , ut cact , quia Domtmpec sophon.i. 17. 
caverunt. Andarão como cegos , ( eis-aqui o eflèito) 
porque peccáraõ contra o Senhor ( eis-aqui a caufa.) 
E por Ofeas diíTc Deos , que caíiigaria o íeu Povo 
por amor de fuás muitas maldades c loucuras: Prof- Oícas^.y. 
I Ur mulittiídmem tniqmtãiisfua 5 & multitudímm amen- 
I tt4e\ ufando dcftes dous termos , maldade , e loucura, 
como equivalentes e fynonymos 5 e com razaõ ; por- 
que , como ponderou Philo fobre aquillo do Geneíís : 
4yf//p/f^C^/í. Que mais confirmada cegueira pede íer, Gcncí i^ j. 
que a daquelle , que lhe parece melhor o ma! , que o 
bem ; o vicio , que a virtude j a perturbação , do que 
a paz do efpirito^e as coufas caducas do que as immor- 
taes : Sufptce Ccelum , ut arguas Céfaim vulgos homi- 
num , quod cum fíhi videatur cemere , 01 battim cji lumi^ 
mbus : ntfi forte non efi orbum , dum mala bonts anteferf^ 
jujlts inju/ia^peyturhatíGnes trarjqmíiíati ammi^ímmor* 
taltbcis mortalia. Por onde aíTcnta S. JoaôChryíofto- h mii.n in 
mo , que para com Dco^ naõ he cego o que naõ vê , '*^^"^* 
fcnaõaque!le,por cujos olhos naõ vê Deos , fenaõ o 
demónio : Caciis dpud Deum dicttur^ non qui corporali" 
ter caem tfi : fed per cujns óculos dtabolus vtdet , & mn 

Daqui fe íegue pois , que huma vez cego c lou- 
co o peccador , tanta differença faz defta ou daquclla 
mildade, com.oo cegodefte ou daquelle prccipicios 

e o 



1 40 Eflimulo pratico , 

e o louco defte ou daquelle defatino. Antes o mil ^ 
que deixa de fazer ^ mais hc falta de occaíiaõ , cu de 
advertência , ou de permiíTaõ Divina , do que de von- 
tade prompta para o commettcr. Porque nefte cllado 
já o peccador fegue arrebatadamente fua carreira , 
jcrcm. s.fcrí. como cavallo na batalha: Converfi funt ( diz Deos 
«• por Jeremias ) aá curfum fuum ^qtii'Jiçqnu4 ifnfeltt ^'tí- 

dens tn pr^lium. Saõ os impios no caminho da perdi- 
« i , r T Ç^õ í como 03 tafuy s na cafa do iogo : efles às vezes fc 
flus hb. I. de picao tanto , que jogao ate a uberdade , como dizem 
aIm. ftn- frequente nos naturaes do Peru^ e de S. Franco 

le lê , que jogou até os olhos da cara 5 e com effeito 
perdendo o lanço lhos tiráraô ? e entaô começou a ver 
as fuás miíerias , que he o primeiro paffo para o remé- 
dio delias. E aqui em Lisboa foy bem publico e ex- 
tra vagante o caio de hum Fidalgo , que jugou fua pró- 
pria mulher; fuppofto , que ella abominando a acçaò 
com a demonftraçaõ de fcntimento que era jufta , fc 
foy para hum Mofteiro a buícar melhor efpofo. A' 
vifta dos quaes lanços , já naô parecerá prodigalidade 
^ ,. „, ,. a do Emperador Nero , que parava a dez mil cruza- 
ginius lib. to. dos por cada ponto das cartas, 
antiquarum k- pois aíTim também os impios jugando nefta meia 

i4!'in'fiac. ^' do mundo huns com outros , e todos com o demónio^ 
tudo paraô , c tudo perdem ^fazenda , faude , honraj 
engenho, vida, e falvaçaõ; e de primeiro lanço a li- 
berdade de efpirito, que he a graça Divina , e os olhos 
da alma , que hc a luz da nizaõ Muy conforme a eí- 
ta verdade , diffe Henrique VIII. de Inglaterra já pró- 
ximo àmorte,e acabando de beber huma taça de vi- 
nho: Omntapadidimus. Perdemos tudo. Tinha me- 
tido o fcifma naquelie Reyno ; e por na5 imaginar em 
íuas miíerias^, queria adormecer o eftimulo da conf- 
çiencid á força dos vapores daquelle licor > porem 

naõ 



Parajeguir o bem , e fugir o mal. L141 

naô pode y porque a verdade he mais forte que o y{- 
»ho , e que a mulher , como refolvéraô em pleno con- 
fiftorio todos os Magiftrados de Daricj e aflim no pre- 
fente caio prevalecia o deíengano da verdade aos 
enganos de Anna Bolena^e aospoderofos effeitosde 
.Baco. ./.*.>..>,.- o. L.v./.ji^ X-..-- 

iVías fendo eftá cegueirar; c demência eíFeito ge- 
ral de todos os vícios : da luxuria o hc muito efpecial- , 
mente: C^aí^ (hefentença de S. Gregório Magno) 
fpecialiter Ubiámofis adfcrikmr \ qiua nulla Junt vtíia 1 Life. ^. ín ti 
quafptffiores tembra^ menu ingerant, quAtn Ithtdõ^ Hur ^^^' Monacfa * 
go Vitorino a declara com o íiinií dos corvos , que a lib.dc dcBcílUs 
primeira coufa^ que comem nos cadáveres íkó ós í*P-l5« 
olhos. E que íaõ os homens totw^lmente carnaes y íe- 
naô cadáveres ? Que íaó os demónios , íenaó corvos? 
E qiwcs fâò os olhos da alma , fenaõ a difcriçaó , e en- 
tendimento ? Gh quantos cadáveres ha deftes com os '^^^ -' -^«^ 
olhos comidos ! Porque rara , ou nenhuma vez íe vio ^^'* * 
(diz S. Bernardo, e diz a experiência) homem feníual, Tom.i.Scrm: 
que naõ tenha o entendimento lefo : Raroy áut num» ^^♦»"-^- "p-j. 
(juant reperitur ut homo carnaln , lafcivus , aut luxurio^ 
fus famconfihi fit. Por onde com muita" razaõ osanr 
tigos, ( como efcreve Ariftoteks) conftituíra5a Ve- Lib.t.Rcthort 
nus fuperintendente da demência : dando a entender,' "P-*4. 
que a noíTa alma quanto fe mancha mais com o íeníi- 
tivo, tanto íeefcurcce mais no racional. O grão da 
náturaza humana tem feu lugar entre brutos fc An- 
jos 5 e aííim como a caflidâdc nos eleva à esfera de An- 
jos , aflim o c:)ntrario vicio nos deprime à femeihança 
de brutos: Stctit virgim f as {difCcEukbio )homirjcm ^piÇk.zàDã- 
a^^uat Angelis ytmo pltis eum factt ^quam Angelum , íta ciafam, 
luxuria homiúem quáfi befiificat ^ éf.m tia dicam ^multô 
pnorem èe/ítaipfumfactf, 

Suppofta efia doutrina , maís he para fcntir, que 

Q_ para 



Id capuf ^ |a- 
4ic^ wctL ít^ 






Lib.i^ contra^ 
Qaeíticos. 



tib. I. coficrA 

Wag. 



Wtídíià 






142 Axim t^. Eftinwíapvatteò^ , 

para admirar, que aquclie mancebo, aíTumpto prin- 
-cipal da hiftoria , dcvoraffc taes abíurdos , pois cíiava 
já infaao com o furor da paixaò dcfordenada , cujo 
.: fogo fc parece com o do inferno , pois faó abr azado- 
•JDCS , a Qibos fétidos y e ambos tenebrofos. Todo o que 
fe rende à duriflima efcravidaõ defte vicio , defenga- 
-nefc , qtie ha de fcrvir por feu reípeito a outros mui- 
-tos; Sttnt vttia qua: damjic colUgata ( dizOleaflro) 
tit quamprimkm unum aàmittat , aUud te mvadat nectf- 
ítfit\ trahíi luxuria y éf Ubtdmu arder homtnem ad om^ 
nia quíçvuk iÊíiam fi máxima vitiajint y & peccata. EÍ- 
pecialmeate tem a luxuria eftreita parcntefco com a 
idolatria y c apoftaíia : taõ eftreito y que TertulUana 
lhe chamou irmãas. E S. Jeronymo tece hum largo ca- 
thalogo de Hereges > onde moflra como cada hum te- 
ve a? fua Eva enganadora , caufa de que por naô negar 
acarne^negaíTe aFé^e por feguiríc a {\y fcguiffe o dia- 
bo. E hc o que diffc Eftevao Eduenfe y que onde rey- 
nava a torpeza de procedimentos fe apagava , ou exi- 
nania a Santiílima Trindade: £i;d!f«tf/«r Sanita Tii- 
niías-i ubí tntervenit vita turfiiudo^ A infame , e dcplo- 
ijavel apoftaíia de tantos filhos difcolos das Religioens 
Sagradas , ainda mal , que a repetida experiência tem 
cníinado a caufa , apontando com o dedo para a in- 
continência : Cum mms y (diz S. Gregório). Sfthgere 
^ieleãationem carms renuir^pkr&mqm & adperfdiée vo-^ 
-ragmem ruit. A vida Religlofa encerra em fi o Rey- 
no de Deos > e o Reyna de Deos naõ o podem poííiiír 
carne , e far^gue : Caro , & fanguú m^ipo/Jidebunt reg^ 
num Dei. Dosfiliios hc pofflur , e permanecer no rey» 
fío de feu pa/ , e naô í ao filhos de Deos y os que o faã 
dh fua carne : Nm qui filíicarms hi pltiDeu 



§. IIL 



Para feguir o bem , efiiglr o mal. 245 
§. in. 

POr quanto em razoo do fneuofficiOy tne cerre por 
obriga fad tratar de apartar as aimas da lé y eRelt^ 
tiao Chnjtaa, Deiks palavras íe moltra como o dia* 
o pcrtcndcndo aiEgâ^de mono remedar , c contrai- 
fazer as obras de Dcos Noffo Senhor, inftituío tam- 
bém os ícus patriarchas, profetas, apoilolos, dou- 
tores, c martyres; ei ha de fahir também no fim do 
Mundo com o feu Meffias , que íerá o Anti-Ghrifto. 
Os patriarchas do diabo , faõ os fundadores de Seitas, 
cHereíiasv comoArrio, Neftorioj Luthcro, Calvi- 
no, Mafoma^ ícc. c mais modernamente hu.n Joa5 
Leydcfâ, quc^dc Alfayátefequiz: fo2«r Gabcça delm- 
pcrioV€GQmò tal foyaçGÍamado dos Hereges, c do 
vU'goj Dcpoí^ fendo achado cmLumaduitcr ò,poF 
encobrir íua torpeza fezlcy da Poligamia, cnfinando, 
c decretando fer ^licito o conforcio de muitas mulhc^ 
rcs ^^c^àós que naô ãceitáráô a nova Iby, puniocapi^ 
talmctíteíe die por dar exemplo na mefma matéria, 
que maridava , Iç^açjaammo^^ou^com dezafeis mulhc- 
res,Tomou também por titulo Reyijujlitta hujus mun- 
á^ Rey da juftiça deftc^m^ndo : c dosornamentos Sa- 
grados , e mais defpojos das Igrejas e Altares fc Ycfc 
tio a fi e aos íeus magnificamente ; é fingindo ter pre- 
ceito do Eterno Padre , diffe, que era fua vontade 
eleger Apoftolos para os mandar peto mundo a pregar 
novo Euangelho. Parar iíFo celebrou primeiro humi 
céya efplendida com abundância de carnes coTudas, à 
que aíTiftio com íua principal mulher ao lado,e a mais 
multidão de hum e outro íexo. Por j^^^J^^çyo huma 
baixclla , ou falva chea de bocadinhos de pa5 ; difíri-^ 
buío para cada hum o feu , dizeíndo : Acctpte , ó" co- 

Q^ij medite^ 



244 ^^^^ o 'Eftimulo pratico^ A^ ^: m ^ 
medite , & mortem Domint annunciate : Tomay , co- 
mey, e annunciajr a morte do Senhor. E a Rainha 
brindando com hama taça chea , diíTe : Bibtte\ & mor* 
tem Dvmtm anm^tiate. Bebcy , e annunciay a morte 
dõ Senhor. Depois perguntou feeftavaõ promptos 
pata morrer por aquella fé , e todos clamarão, que 
/ím. Ent i5 elegeo vinte e oito para apoftolos , aos 
h quaes ^ diíTc^ daya ampliffimo poder de obrar milagres. 

I Poréoj todo eftç guimeri(Q0-çQngIobadQ. J^ç.^^^ 

I veyo a pairar cm lerem , ou cáíliga<3os ícyeramente 

pela jull^jaydti reduzidos a feu fizò. Eis-aqui hum ex- 
emplar dos patriarchas do diabo. 

Os Teus profetas fao os Necromanticos , os Sa- 
cerdotes dos Ídolos, por quem os demónios davaõ orá- 
culos, que eliesintòrpretavaõ: as Sacerd<í>tiíras 5 que 
eflando íentadas no tripodc , lhe entrava por baixo o 
efpirito immundo, e as fazia veatriloquas , :e arrcpci* 
cias ; e finalmente toda a fort^e de adevinhadores, cí- 
piritps illafos , e embufteiros. Taes erao aquçlles dous 
que apparecéraõ cm Inglaterra , c repartindo entre fi 
efte officio publicavaõ fer hum o profeta dobem, e 
outro o do mal ; e^companbavaõ os lados do íobrc- 
dito Alfayate , que diziaõ fer o redemptor do mun- 
do quanto à efficacia , porque; Chrifto o fora íò quan- 
'íbàíiifficienteia^ 

"iiiq Gs feusají>oflolos^ pregadores,. c doutores, faõ 
o^uc cm lugar de propagar a Fé e reduzir almas , fe- 
meaò erros , cfcandolos , e de ide a cadeira da peftilen- 
cia^^diõ Hçoensda mialdide ^ cfiizcndodilu? trevas, 
Nicctas liv. 4. edasítrcvas iu^v defendem o peccado como virtude, 
' "'^' *"''"'' eimpugnáõ a virtude como peccado. Tal foy ( além 
dos já referidos ) o Herege Marciaô > que affirmava 
fer o d*abo benéfico, c amigo de fazer bem , ainda mai^s 
que D:o3 , (ca) \ bondade he certo nao permtttira taa 
OA^^:vm ■ \}J^ Ímpios, 



F»clcior;hodox. 
cap. 14 



Varafeguk o hetn , tftígtr o mal a 4 jr 

Ímpios c blasfemos delírios, fcnaô fora mayor do que 
podemos comprehender , conforme aquillo do Plal- 
mo : In multituàim vtríutts tuéf menttentur tibt mimei 
tuí. O mefmo defatino devia ter para fi outro da mef- 
ma farinha , que Marciao , por nome Joaõ Bruno No- 
lano , pois efcreveo em Vitcmberga hum livro em 
louvor do diabo Era amigo de Luthero , e ambos do 
aíTumpto louvado. O meímo Luthero , naô teve ver- Iq Afceticísari 
gonha de cnfinar^que todas as boas obras, ainda fei- fiuj^*'jjf"^®2' 
tas com íuas devidas circunftanciaseraòformalmcn- fign.EccícLcap. 
te peccidos e naò menos qiic mortaes, quanto ao ri- »«.uit. 
gor da Jurtiça Divina , í uppofto que veniaes por mifc- 
ricordia^ e em outra parte efcrçvco , que a graça de 
Deos tanto mais facilmente íe adquiria ^ quanto o ho- 
mem fc envolvia cm mais enormes delid:os e malda- 
des. E em outra occaíiaõ criminandolhe hum catholi- 
CO de que falíificava a Efcritura Sagrada , pois àquellc 
Texto de S. Pâulo : Arbitramur jujitficart homimm 
perfidem. Julgamos , que o homem fe iuftifica pela Fé; 
accreícentára a palavra Solum , julgamos, que o ho- 
mem fe juftifica fomente pela Féjifto he,fcm neceílitar 
de boas obrasrrefpondeo com atrevimento luciferino^ 
que he o próprio caracflcr dos Hereges : Doãor Mar-' 
tnius Lutherusvull Jic hâhere , á' àtctt Papfjlãm\ á* 
éifinum rem eff^ unam, Sk volo Jicjuheo , ff pro ratwne 
volunfds. Nobimus mim Papijlar um fchoUres ejífe ^ fcd 
judicgu Ltttherus tta vuU , ^ ait /r dotíorem fuper om» 
n''S Dofírres iotius Pap^ttis, Quer dizer: O Doutor 
Martim Luthero , affim quer que fe lea eflc texto i c 
diz, que homem Papifta e afno tudo he o meímo. Af- 
fim o quero , aílim o m:mdor em lugar da razaõ bafta 
a minha vontade ; porque naõ queremos fer diícipu- 
los dos Papiftis, fenaõ juizes. Luthero aíTim o difpoem 
c declara , que clle he Doutor fobre todos os Douto- 

Q^iij res 



24<í Eftimulo pratHQ y 

res do Papado. Repare o douto Leitor , que peflifero 
c cada]^jgj[Qjii£^o bafo deite impio ! Mas enifim , taí 
"iíeo bufo , qual ocflomago; Jbx abundantia cordis o$ 
Jopuíur. 

Os Martyres do diabo faõ os Hypocritas ,quc fc 
attenuaò e confomem com penitencias 5 como merce- 
nários da reputação de Santos. Item y muitos da Gen* 
tilidide cega, que ílicrificavaó as vidas em culto e 
obfcquio de fcus falfos Deofes. Taes eraõ aquelles j 
(fegundo refere Fernaó Mendes Pinto) que volunta- 
riamente fe lançavaô debaixo das rodas do carro tri- 
unfal do feu ídolo , o qual paffando por cima os re- 
bentava c partia miferavelmente ; e todo o Povo ap- 
plaudindo o heróico defta acçaò , levantava invejofas 
acclamaçocns repetindo : Pachdoo afuram , que quer 
dizer : A minha alma com a tua. E logo baixando do 
carro o Sacerdote com mais dez ou doze Miniftros , 
recolhias em bandejas as entranhas derramadas da- 
qucUes chamados Martyres ; e moftrando-as decima 
do carro ao Povo , lhes apregoava , dizendo : Rogay 
a Deos vos faça dignos de ferdes Santos,como efte que 
agora morreo em facrificio de cheiro fuave. Eftes ía- 
crificados diz o referido A'4thor, que fomente naquel- 
la occaíiao de quevayfallandOjlheaífirmáraôpaíTar 
de feiíccntos. 

Do fobredito colherá oX^ilpr a que claíTc deftas 
pertcnceB'MágD'^dD no(fò exemplo. Advirta porém 
todo aquelle , que efcandaliza o íeu próximo , ou lhe 
arma tropeço nos caminhos da virtude > todo o que 
aconfclha mal j todo o que faz irrifaõ dos Santos exer- 
cícios da oraçaõ , e mortificação , e toma por aíTump- 
to do íeu gracejo e chiftes as peíToas devotas , que os 
pratícíiõ ; todo o que pinta imagens inhoneftas , ou 
compõem livros c verfos obfcenos 5 todo o que moteja 

de 



Para fegtiir $hem^e fugir o mal 147 . 

de covardia o fanto temor de oftender a Deos ; todo o 
que inventa novos modos de maldade^, e hc caufa de fe 
introduzirem relaxaçoens nas Commuuidades e Fa- 
milias: advirtaõ ^yigo , eftes taes , que ifto he ferem 
Pregadores e Doutores do diabo, e léus câcs de caça; 
c naò eílranhem o nome , pais fe accommodao com o 
oíficio. Mas para deixarem o officio,enaô merece- 
rem o nome, confiderem , c temaó o que diz Chrifto Matth. ii .fcifw 
Salvador noffo no Euangellio , que mais ai conta eflá a ^. 
hum deftcá fer mergulhado ao mar com huma pedra 
de moinho ao pefcoço^do que ficar com vida para cau- 
far efcandalo em huma fó alma. Porque como diffe S. 
Nilo Abbade , naõ ha caminho mais arrlfcado a parar 
nas penas eternas , do que fazer hum muitos imitado- 
res de íua maldade : Nthil aque ad fainas mdeprecabiles Epift.444. ífyi 
ductí j acplurcs proprm um fctUrum tmttatúres J acere. "^«"° Epiíco- ' 

§. IV. 

POem-te em pê fobre a fepultura de algum Gentio , Matth. i. yttU 
&c. Os demónios , como efpiritos immundos , Hciuiq. Spoa- 
tenebrofos,e horríveis, íaô amigos de lugares íeir^j^.daflus i.s icSzi 
lhantesaclics,quaes fa5 as íepulturas c cadáveres f ^^^^^^^ 
como confia do Euangelho, c advertem alguns Au- Raynaud. infra, 
thorcs Razaó , porque a I^reia introduzio o rito pio ?"/*"'^* ^'^* l' 
ac benzer as íepulturas , para que eítes mãos mquih- n. i^. 
nos cedaõ e defpes;cm aouella habitação , para depoíí- ^^^'^- '^''««» 
to do corpo , que íe enterra ; e eita por ventura he i icm. Sacr. 
tambt^m a cauía de acccndermos luzes ao redor do tu* ^-y- <ca i/ 
mulo dos defuntos , para que dalli como in-migo da ^^'"gb!"^' ^^* 
luz fuja ô demónio , de cuja prefcnça naqueiie iugar tIiíí ph. Rap 
he final o horror, quefcntimos na companhia de ai- T^^t^paí^T 
gum cadáver ; fuppofto que cfte tal effeito miis vero- ka, 3. ^uúa! 
fiinilmente fe attribúa à difconveniencia de femeihan- 'IJ^'^[ q*'^ 

CLiiij te 45. 



34S E jlim alo pratico y 

te ob jecflo com o noíTo appctitc , c ti^ntafia > c aquella 
ccrciLonia de acccncicriTiOs luzes, íirva tai-ibem de 
proteilar cm nome do defunto a Fé de Chriuo^ e em 
noíTo acfperança de que pelos merecimentos deite Se- 
nhor iogrc fua aliiia os refplandores da luz perpetua, 
litoíuppofto : a fepultura dos Gentios hc lUj^ar 
ainda mais grato aos demónios por trcs razoens. Pri- 
meira , porque nao cílá em lugar Sagrado , onde pade- 
çaõ as aíperfòcs de Agua benta , c lejaõ vexados com 
ouvir Oraçoens ePíalmos^ e onde talvez encontrem 
com corpo sde Santos j couía , que gravemente os 
/ atormenta, c por ilTo fahem fugindo dos energume- 
fios , quando cftes faò levâdos ao ícpulciíro , e Rcli- 
in Paul» cptca- 4]tiias de algum M«rtyr , como tcíiifica S Jcronymo, 
t^"^ Segunda , porque os corpos de almas já conde- 

^^das^ os j(M||jgJu fezenda íua \ pois íabem , que 
aqucilcs oíTos lecÒs fòraõ inftrumentos das operações 
de maldade, que elles fugeriraõ e ajudarão, c faô le- 
nha deftinada para indefcdivel pafto dos eternos in- 
cêndios. Eaffim como as Relíquias dos Santos fc dc- 
poíitaò debaixo das aras , para fazerem aquelle lugar 
mais digno c grato a Chrifío Senhor NoíTo, que ha dc- 
baixar a elle quando o Sacerdote celebra : affim os 
corpos onde habitou o demónio , he lugar mais apto, 
para que Satanás o frequente c celebre alli íeus conci- 
iiabulos 5 pois também elle hc morto abominável , que 
já perdeo irrecuperavehnente a vida da graea , e gío- 
ria , como lhe chamou Ticonio applicando-lhc aquil- 
rJfrúii* regi?*. ^^ ^^ Ifaias ; lu autím projeíím es m mentes , velut 
líaiàs 14.WI. mortnus ahominabilts , cum omntbus (jmcedtderunt. 

Terceira , porque neftes tacs cadáveres de almas 
condena las, fiõ mais frequentes as licenças , que os 
demónios tem deufar mal delks. Porque reveflidos 
ncftes corpos cofla.naõ apparecer às bruxas , e fe mif 

turaô- 




it. 



VaraJcgiiiY o bem , e fugir o mal. 249 
turaô abom navelmcntc com cilas. Donde proceae, 
(diz Cardano) o fortiiai e máo haliro , que cíias de íí tib. ig. í«btíç 
lançaõ, como de defuntos e íepulturas abcvtas. Tam- •'"• 
bem mandaõ a eftas impiiffimas mulheres , que os de- 
íenterrem , e depois de lhos prefentarem em ofterta, 
os comaõ coíidos ou affados : abominação execravel, 
que conftou de huma fentença da luquifiçaõ de Ayi- 
nhaõ, dada no anno de mil quinhentos oitenta c dous, 
cujo traslado trás o Padre Delrio; e íc confirma do lib <. D;fquj. 
cue conta Lúcio Apuleyo, lhe fuccedéra cm huma (^ w-g^^ca.i^. 

J rr I • 1 1 T^ I fL tOJ. tTílh; 8®». 

terra deTheliaha, onde achou na Praça hum veiho l. Apji.Miicí. 

apregoando : quem lhe queria por aqueila noite vigiar j-^' * p^^j^^j^"* 

hum defunto , que ihc pagaria o que foífe razaò : e di- mamijc , cap.f. 

zendolhc cUe muito admirado : Porque Serhor ? Ncf- 

te Paiz os mortos fogem das fepulturas ? Reípondco 

o velho : Bem moftra V. M. fcr cftrangeiro , pois na5 

fabc fer aqui taõ numcrofa e iníolcnte acanalha das 

bruxas , que em hum voltar de olhos entraõ e roem a 

carne do defunto ; mas conform^e o damno , que fa- 

zem,aííim fe defconta no preço c paga de quem íerVio 

defcntinella. 

Naõ deixe nefte paíTo de ponderar a alma dcvo^ 
ta, a infinita difFcrença com queChrifto NoíToBem 
trata aos feus ^ dando-nos a comer feu Corpo vivo , e 
unida a elle a Divindade , que he a meíina vida , c re- 
galando nos com ascaftiffimas delicias doSantiffimo 
Sacramento em huma mcfalimpiíI]ma,nobiliiTima, c 
Sagrada , e fazcndo-nos templo vivo da Santiffima 
Trindade , e ordenando, que cftc precioíBmo penhor, 
o offereçamos a feu Eterno Padre , para fai vaçaõ c re- 
mediode vivos e defuntos, Efta he a fonte , que bro- ...- . .. 
tava do lugar do deleite para regar o ParaÍ2:o: F/tf- •^^^•'t^^ - 
Vtus egredi ibatur de Ico voluptãtts a d irr igandum Para^ 
^//W/?. Porque verdadeiramente lugar de deleite he 

oAl- 



1 f o Efltmulo pratica , > * ^'V 

o Altar ) c fonte he cfte Auguftiffimo c percnnc Sacra- 
mento , c Paraizo hc a Igreja Catholica , c toda a Igre- 
ja Catholica fe rega , fertiliza , c abençoa com eík Di- 
vino Sacramento. E quem poderá explicar o amor c 
âffecílo ardentiíTimo de charidade com que o Senhor 
nos faz efte excellentiíTimo beneficio? Agapito Diáco- 
no diíTe, que o Lavrador , e oRey tinha5 o mefmo 
officio , aquellc lemeando paò, e efte benefícios : Unum 
Regis-^ & Agrícola fiudtum ^ una curaejl congregarei 
htc qmdem fartí jrummtum , tile vero beneficia fertt. Mas 
o Rcy dos Ceos e Agricultor das almas Chrifto NoíTo 
Bem, juntamente lemea pa5 c benefícios; porque o 
mayor dos benefícios he o mefmo paô , que em nós 
fêmea > e tem por beneficio fcu o recebermos nós feus 
beneficios. Já o femear o paò para elleherecolhcilo; 
porque o fêmea para nós. Bemdito feja infinitas vezes 
tal amor , tal piedade , tal magnificência. O certo hc, 
que qual he o pay de familias, tal he a mefa, que põem 
aos feus ; Chrifto como he vida , dá a feus Fieis a co- 
mer a vida 5 e Satanás como he corrupção e morte , 
dá aos feus fequazes a comer a morte c corrupção» 

Efpachou logo o grande efiragador das almas ccrfo 

numero deãemorím dâí^ueVa clajfe ^quetem a ftu 

caigo tentar de Itixuria. Qualquer dcftes miniftros da 

maldade pode movemos guerra em qualquer vicio > 

pois lhe naô falta para tudo entendim.ento afíuto c 

vid Beiíaraiin. vontadc dcpravada. E com efieito o Anjo máo , que 

!ib. de Verbo (conforme a fentêça recebida dos Santos Padres) cada 

Suar!*iib*8?'dc homcm tcm por antagonifta , OU impugnador de fuâ 

Angeiíscapii. falvaçaô , Ordinariamente cm todos os vicios o tenta, 

num. iKu ^ j.^^1^ ^ muralha rodea c bate para ver íe pode abrir 

brecha, 




Para feguir o bem , eftig ir o ?nal. iKx 

brecha, c entrar naquella Cidade de Deos. E efte cf- 
piritual fitío começa deíde que o i.onicm fahe a luz, 
ou dcfdc a porta do fcu nalcimento (como diíTc Ter- 
tulliano): Ctii hominum non adharn [pintus nequam^ Lib.dc Anima 
abipfa ctiam jauua nativiíatts ammm amupábundm \ e "p. 39. 
naó íe levanta até a mortC) antes entaô íe aperta mais, 
que por iíToa Efcritura chama aos demónios Lobos Habaci.g.jux- 
vefpcr tinos; porque eí\a fera tem mais fome fobrca "Cí-Hici.ibL 
tarde. 

Masfallando dos combates, c affaltos extraor- 
dinários , he muj veroíimil, que eftes oíficios eftaõ 
diíiribuidos entre varias ciaffes de demónios pelas ef- 
pecies dos peccados , cm que tentaô. Aflim íe colhe 
íufficientemente de alguns lugares da Efcritura > eo 
tem cxpreflamentc Origenes, e S. Jeronymo; c he Orig.Hom. n. 
doutrina do Abbade Sereno, nas Conferencias de ^^^m^i^^u^ 
Cafliano; Nojfedebemns {à\7.ç\\c) fionor^nes damones incjp.^.kabac 
iimverfas homimbus mferre pajjiones ; fed umcuique vi- ^'^" ^"^"^ «°^ 
tio certos fpir nus invitare, E fe comprova com alguns j^'^^"*^. cap. 
fucceíTos das Vidas dos Santos. Na de Santo Hilariaõ 
fe refere , que fendo levado à fua prefença huma mu- 
lher fcmelhante a efta do noíTo exemplo , na qual ti- 
nha entrado o demónio para o mefmo cfFeito j per- 
guntou o Santo àquellccfpirito maligno: porque ra- 
zão naõ entrara antes no mancebo , que o conjurara. 
E refpondeo : para que havia de entrar fe lá eftava ou- 
tro demónio do amor, meu companheiro ? Na Vida 
de Santo Antaõ , efcrita por Santo Athanaíío fc lê, cap.^. 
que lhe appareceo hum rapaz feyo, negro , immundo 
c defprefivel ; e perguntado pelo Santo Abbade quem 
era : refpondeo , que fe chamava cfpirito de fornica- 
ção , c que tinha por oíFicio provocar os moços a eftc 
vicio. S. Nilo Abbade, VaraÕ exceljente na deferi- T^^f ;í«Vinií: 
çao acelpiritos, encarece muito os danos, que nas cap. lu 



z 5 1 Efliffitílo pratico , 

almas caiifa o demónio , que chama StoUàit^tis , ô 
qual tem por officio tornallas como eflupidas e iníen- 
fatas 5 de modo , que todos os pontos da noffa Santa 
^m\nx ^,ò: Fé à cerca da grandeza do premio , ou pena , que nos 
; ' cfpera conforme os méritos de cada bum , ouçaõ co- 
mo fc os naó ouviíTcm , e creaò como fe os naó cref- 
fem. E cm outro lugar trata do demónio da trifteza, 
que induzindo-nos todos os mais a que bufqucmos os 
deleites eaiiivios da natureza, íó cfte nosaconfelha 
fujamos de tudo oquche confolaçaõ, e gofto; por 
quanto oíeu intento he aterrar, confundir , e fazer 
pufiianime adma, de lorte,que fe tenha por inútil 
para tudo o que he ferviço de Deos , ou charidade do 
próximo. 

Efta diftribuiçâõ dos oflicios de tentar , a faz o 
príncipe das trevas Lúcifer: naõ cm razaõ de vcrda- 
- deiro lenhorio , c mando , que tenha fobrc os mais cf- 

piritos fei4s confederados , luppofto , que na natureza 
feja mais nobre , que ellcs \ fcnaó , porque huma vez, 
que a caufa de fua rebcUiaõ ao principio foy , ( como 
íintem graves Thcologos ) appetccer clle para â fua 
peíToa , e os mais para a íua natureza Angélica a ineí- 
favei graça da Uniaõ Hypoftatica , que fc condedeo à 
Humanidade de Chrifto Salvador noíTo: defde entaõ 
fícáraõ unidos por confpiraçaô ncfta cabeça'^ e perti- 
nazes em íuftentalla do m.odo , que podem , cm ódio 
e inveja do meímo Chriflo c íeu Reyno ; c aíllm lhe 
obedecem naò por amor, juftiça, ou obediência ho- 
nefta 5 fcnaõ , para que a fua monarchia fenaõ deflru.?, 
ou enfraqueça , conforme aquillo do Euangelho : St 
autem & Satanás m Jvpfum dtvtfíis eji , qmmoàofiabtt 
ffgnum ejm ? Até que no dia grande do Senhor feraõ 
i.Coriíuh. 15. <íesfeitas e defvanecidas , (como falia o Apoftolo) to- 
Y«í.i4. das cftas poteftades e principados, c os inimigos de 

Chrifto 



Pén-a fcgutr o hcvi , e fugir o ?naL a 53 

Chriflo póftos por eícabello de íeus pés , fcrao conf- Píaim. lo? . 
trangidos a adorallo , e pagaráò íeu louco atrcvimcn- '^^^' ** 
to nos incêndios eternos , que lhes eítaõ preparados. 

§. VI, 

DE verdade a nenhum dtfobedtente a /eus pays fa- 
de fucceder bem. Com razaõ nota o Angélico orufcuUy. 
Doutor Santo Thomás^ como logo immediatamentc 
aos preceitos da Ley deDeos, que pertencem a honra 
do mefmo Senhor , íe nos intima o de honrar os píiysj 
porque eftes em ícrem principio do nolTo fer e coníer- 
vaçaõ e na providencia e amor com que nos trataô, 
copiarão muitas femelhanças de Deos. EaílimPlataõ t.dcLcgibus. 
lhes chamou Deofes terreftres, e domefticos , e amigos 
conftantiíTimos 5 e S. Cyrillo Alexandrino diíTe , que 
os pays reprcíentao a figura de Deos: Parentes ítru^ Lib.4. inQc- 
gintm Det quodammodo gerunt. "c^* 

Donde fc fegue , que nenhuma honra humana 
com que os filhos proteftem a piedade e rendimento á 
feus pays , pode trafpaffar os limites da razaõ honeík, 
e devido tributo.Porquc fobre huma divida taõ gran- 
de , qual he a de ferem principio 5 ou infírumento da 
noíTo fer , todo o amor , toda a veneração e obíeqti io 
cahem taõ connaturalmentc, que até as creaturas ir- 
racionacs, parece , que percebem efta confonancia ^e 
fe dcleitaõ com ella. O mefmo Filho de Deos , dignan- 
dofe de íer filho do homem , nos deu excellcntiffimos 
exemplos nefta matéria. Porque a quem naõ :edifica^ 
confola 5 e enternece, confidcrar como a Jofeph , fó 
porque gofava do titulo de Pay de Chrifto ^ vivia fe* 
geito efte Senhor y a quem o Cco, a terra , e o inferno 
cftaõ fogcitos : Eí crat fuhdtrm ilhs. Mayormaravi- -• 

lha por certo foy efta ^^doquefufpender o Sol í^acâ^7 

rcirc!^ 



2 54- Eftlmulopraikoy 

reira por obedecar a voz de hum homem ; e do que 
enfrear Dcos a liberdade do Oceano com os humil- 
des marcos dos areaes nas prayas , como o Santo Job 
admirava \ porque , que Sol , ou que Oceano íqlrç çn- 
trqr em comparação €om o increado luzeiro da Di- 
^^-- vifidâde , e com o mar immcnío de íiias grandezas ? 

Se damos pio credito ao que efcrevc aqucUa mo- 
derna e celebre Chronifta da Senhora , acharemos 
também , que nove dias antes do tranfito do teliciííi- 
mo Patriarcha Jofeph , lhe aíGftíraõ revefadamentc 
Chrifto c a mcíiua Senhora , ícm faltarem da íua ca^ 
beceira hum fó ponto. E querendo o Santo por ulti- 
ma defpedida lançarfe aos pés do Senhor, (oh com 
quanta fé e amor o faria) clle o colheo em fcus amoro- 
los braços , c lhe diíTe entre outras , eftas íuaviffimas 
palavras : Pay meu , dcfcançay cm paz , e na graça 
cdeftial de meu Eterno Pay e minha. E tanto que Jo- 
feph niquelle leito mais que de flores , naqueile fo^ 
berano reclinatario mais que de ouro ^ deu o ultimo 
bocejo , o Senhor , que fecha as Eftrellas com o ícu fi- 
nete : Stellas claudit quaji fub/ignaculo %\hc fechou os 
olhos com feus dedos. 

Ainda no Empyreo já depois de glorificada afa- 
croíanta humanidade defte Senhor , moftra comedi- 
mento e reverencia a íeus progenitores. Digno hc 
de notar o Ceifo, que refere a Venerável Virgem Dona 
Marina de Efcobar : a qual eftando em huma celertial 
vifaô favorecida com as vifitas do noíTo pay Adaô, c 
do Santo Key David , íe dignou de vir também a viíf- 
tallaGbrifto Senhor NoíTo, o qual paíTando por cn»» 
trcelles inclinou hum pouco a cabeça. E reparando 
a Serva de Deos nefta acçaô do Senhor lhe acudio ao 
frcam' ^^^^' penfamcnto, refpondendo: Porque? Naófaõmeus 
wí.u": ^ pays quanto à carne? Oh Rcy dos Reys, c Senhor 

dos 



Varafeguir o hem , e fugir o mal. 1 5 5 

dos Senhores , cuja cabeça he o ouro opnmo de toda 
a glona, dominação ^ e m^geftade 5 e a cujo aceno íe 
inclinaóos poderios > que luftentaõo Univerloiama- j.bç.vctf.ij, 
do c reverenciado , e adorado lejais de n.finitos cora- 
çoens , porque fois digno j c em todos voflbs procedi- 
mentos refplandece o decoro , a graça , e Santidade. 

Ajuntemos aos exemplos de Chriiio Salvador 
noíTo^huiii de MARIA Santiflima. Huma devota dei- 
ta Soberana Virgem das Virgens , coíiumava cada an- 
no por religiofo tributo de íua piedade ^ fazcrlhe hu~ 
ma íolemne fefta , e outra à gloriofa Santa Anna. Ca- 
hindo em pobreza , (bom íinal de que a paga lhe efia- 
va coníignada nos bens eternos} fe achou inipoíTibili- 
tada para fazer ambwis ?* e indecifa fobrc qual deli s ce- 
lebraria, com fingeilcza de coração poz dou? cirios 
de igual pezo em hum Altar ^ em humdelks eícrito o 
Soberano Nome de MARIA , em outro o da gloriofa 
Santa Anna, determinando celebrar a fefla do que 
mais duraíTc. Cafo maravilhofo : Tanto que os accn- 
dco, logo o da Senhora federreteo egaftouà toda a 
preíTa , ficando o outro luminofo^e como triunfante^ 
cm íínal de que a Senhora cedia o lugar a Santa An- 
na , como a May, para que fecelebraíTe o dia da íua 
feíía; Stgmtm dmftfit ( pudéramos dizer com o Ec- Eccrcfc.4j.Tcri- 
clcíiaftico) lumiríare quod mimntur m confummútwne^ 7» 

Entre os bons diícipulos dcfla celeftial doutrina 
da piedade para com os pays , e eníinada pelos meiiresc 
de toda perfeição Chrifto Senhor NoíTo, e MARIA 
Santiflima , hum foy Domingos Gr imano , Cardeal da 
Santa Igreja de Roma. Seu pay António Grimano, 
fendo General da Armada de Veneza contra os Tur- 
cos, como naôiiíaíTeda occaííaôboa de osvencer> 
foy prezo pela Republica , e entre os OíSciaes de Juf- 
tiça 5 que o levarão ao cárcere , o acompan!K)U fai ê- 

lha 



1^6 Eftimulo pratico , 

lho cm Habito Cardinalício, c com fuás próprias 
miíos lhe ajudou a levar os grilhoensj e-com notável 
inftancia pedio, que o prendcíTem cm íeu lugar; e 
naõ o confegulndo , impetrou ^o menos ^ que o dei- 
xaflTcm aíllrtir no íbu íervico. Depois, fendo o pay dcf- 
terrado, oííllio o recebeoem Roma tratando-o como 
convinha a taõ apertada divida da natureza. Depois, 
que em Veneza fe acabarão feus antigos emulos , a 
Republica chamou aquelle mefmo que defterrára , c 
por votos de todos os Senadores o elegeo Duque , 
ícndo já de noventa annos: que parece naô achou 
Deos premio cá na terra mais grato à piedade dcíle 
filho 5 do que ver os augmcntos de honra em feu mef- 
mopay. 

Sendo pois efta divida do amor e honra aos pays, 
I taõ grande e juila : naõ pode a deíobediencia deixar 

de fer origem de muitas infelicidades e miferias; e 
àqucUe Senhor de quem fe diriva toda a razaõ de pay 
'no Ceo e na terra : Aqtio ijt omnis paternitas in Coelo^ 
& tn terra 5 taça naõ deixar impunida ingratidão taõ 
enorme. Ordinariamente a caftiga com pena de Ta- 
lião , permittindo , que eftes ingratos quando chcgaõ 
, a fer pays experimentem em feus filhos ajaçjmarc- 

J^gidi-i j c deíobedieiíçia ^quc elles ufáraõ com osTeus: 
Pittacus Mitiii- §íualiaifi contuleris tn par mus ( diíTe hum dos Sábios 
nxus. da Grécia) talta prorfus a tms líber is expeóta , ut bene , vel 

male habearis. Clariífima prova defta verdade foy hum 
rom.?!Bibiimh. cafo fucccdido cm Triíia, de hum filho , que arraftran- 
eit.i5.f.4,n.ii. doa feu pay pelos cabellos , quando chegou à porta, 
cftc lhe diffe : Bafta filho , bafta , que atéqui fiz eu o 
mefmo a meu pay , e teu avo. 
ExDd. 1. vcrí. Também cafliga Deos efte peccado com. encurtar 

drVlZ^xTcr! ^^ dias de vida: como pelo contrario galardoa apie- 
i7.aic.}.cap.i! dadc com alargallos. Naô louge da Cidade de Valen- 



^vx.v.^. .^^^.^^^^ 



Ça, 



Para feguW o hemye fiigír o nwi. 3;^ 

^VC^^^f^^' Bernardino em hum Sermaõ) hoiivp 
hum moço yque delprefando a boa educação econíe- 
lhos de feus pays , fe depravou em cofiumes taõ licen- 
ciofos , quç por íeus delicflos foy juftiçado em huma 
forca., Era entaõ de dezoito annos , { porque íe dera 
preíTa a íer provedo na maldade) e viraõ todos como 
de repente lhe nafceo e crefceo a barba , e fe lhe ne- 
vou de brancas toda a cabeça , de modo , que repre- 
lentava humanciaõ de noventa. Eeftando aílimad- 
mirados defte prodígio , o Bifpo occupando hum lu- 
gar mais alto , lhes pregou , dizendo : Que aquelle ta5 
raro e publico final era dado por Deos , em teftemu- 
nho de como carta os prazos da 3âda 4as rebeldes à 
doutrma de leus pays 5 porque leo nao fora aquelle 
moço., fçm duvida havia de chegar à idade larga , que 
xeprefcntava. 

Bem pode haver fido , que efta filha dcfobedien- 
tty de que trata o noíTo principal exemplo, experir 
mentafle também algum deftes caftigos? e que a hif- 
4;oria o nao mencione , porque fe compoz fó das noti* 
<ias , que pertenciaô à vida c Jouvox,^^^ S. Bafilio, Mas 
dado , que nenhuma outra pena fetílífie mais, qtiea 
publica infâmia de fcu marido renegando da Fé ? e fa- 
zendo pado com os demoniosjC a afflicçaõ e higrimas^ 
que lhe cuftou oremediallo: bem amargado levou Q 
íeuappetite. 

§. VIL 



PAra Deoí he necefariohufcar algum Servo amigo 
feu^&C' Acertadiflimoconfelkoi E para bem já í-^^uj^ix-íV^ 
.o velho Proterio havia de terufadodellena perplexi- j^^^a^X 
dade em que fe vio : atalharia todas as confequencias, 
que daqui íe encadearão. Deos foy quem inípirou eí-^ 
carbitr io y e já o fig nificar , que, queria fcr xogado ^ 



^jB Epwtih pratico l 

era prometterfemiíèricordiofo. O mefmo he infpi- 
rarmc Dcos o recurfo à interccffaõ defcu^ Servos, do 
que moftrarme huma fortiílima atadura, dizendo-mc: 
Olha fraco , com efta me poderás apertar. Porque os 
Santos faõ a atadura ou cingulo ^ que aperta e cohi- 
tfaias II. mi, beao Omnipotente: Erit pjtttta cmgtdumlumboruiH 
^' (jm : lem os LXX. ea parafrafis Caldaica : et unt Jufii 

ciníiormmlumborumeius, E tanto apertão às vezes; 
que o Senhor fentindo a violência clama , que o lar- 
guem, AíTim diffe a Moyfés quando intercedia pelo 
Exoá. 3 1 . vcrí. *Povo , quc adorára o bezerro de ouro : Dimttte me , ut 
i<>- irafcatur furor mem contra eos , c^ deleam eos ; larga- 

me, deixa-me enfurecer contra ellespara osconfu- 
mir e acabar. Mas efte dizer do Senhor, que o lar- 
guem , he dizer como pio , que o naõ larguem. Por^ 
que cm quanto confeíTa a força , que lhe faz a nqffa 
oração , enfina a que perfeveremos nella : Cum dicit 
(ponderou S. Jeronymo) dimitte me , ojiendit 5 qnod H" 
nendi habeat facultatem, Nefta lição eíkva Santa Ca- 
tharina de Senna , e aíTim refpondia ao Senhor em fc- 
melhantcs occafioens : Senhor , naô mç hey de apar- 
tar daqui , naõ vos hey de largar , até me concederdes 
o que peço. 

Nefta matéria he notável o modo com que fc 

houve com Deos aquelie Monge chamado Paulo a 

íimples , lançandolhc , fundado em fua fanta Ampliei- 

dade, huma bravata taoanimoía, que o Senhor lhe 

difFerio logo logo à fua demanda , goíandofe de ver a 

creatura valente contra fi com as armas, que elle mef- 

Y^x i>aír«m mo lhe dera de Fé, Humildade e Gharidade. Foy o ca- 

^i .s.cap.is. fp^ que trouxeraõ a Santo Antaõ Abbade hum moço 

poflTQídô de hum demónio principal e pertinaciífimo, 

e que vomitava horrendas blasfémias contra Deos. 

C,A^^-^- . Reconhecendo o Santa j^uç naot tinha dom para ex- 

^' ^"' ^^ '" "' ' pulíaç 



Para fegtiir o hem ] efugrr o mal í ^^ 

pulfar aquelle género de demónios^ levou òmoço à 
prefeiiça defcu difcipulo Paulo , e lhe mandou fizef- 
íe aquella diligencia ^ por quanto cUc tinha outras 
eouías à que acudir. Levantoufe Paulo , e orou intcn- 
famente , e dizia ao máo efpirito ; Antaô ordena que 
defpejes. O demónio começou a zombar, e^Or^rre- 
gallo de opprobios. Paulo pegando do feu çiHTaõ de 
ovelha , açoutava-o com elle , repetindo : Antaõ orde- 
na que íayas, em que te pezc. Mas como vio naô apro- 
veitava , diíTe-lhe : Ou tu has de fahir , ou vou dizc- 
lo aGhrifto, e olha, que te ha de d^. O demónio 
ouvindo nomear a Chrifto , blasfemou contra o Se- 
nhor Gora extremo defaforo. Entaô indignado Paulo, 
fahcfc ligeiro da fua cova \ e naó obftante , que era o 
pino do meyo dia , cm que naqucUas regioens do 
Egypto , pouco fe difFerença o fervor do Sol , da for- 
nalha de Bâbylonia ; elle pofto em pê fobre huma pe- 
dra, como columna na fua bafe, diíTe com refulçaõ he- 
róica : Senhor JESU Chrifto , que foftes julgado fob- 
poder de Poncio Pilatos , vós íabeis muito bem , que 
dcfte lugar me naô hcy de deícer , nem hey decomer^ 
nem beber, mas que morra , até que ouçais minha ora- 
ção. Ainda naõ tinha bem acabado as palavras , quan- 
do o demónio apertado de quem a oração apertou , cc-^ 
iheçou a dar vozes apreffadas e fentidas como reono 
potro , dizendo : Eu me aparto , eu o deixo , violenta- 
do o deixo , por força me vou , e naõ hey de tornar. E 
logofoyvifto hum disforme dragaõ como deíetenta 
covados de comprido , o qual íe foy revolvendo e ar- 
ro]ando por aquelles areaes defertos , até fe lançar no 
mar Vermelho. 

Eis-aqui como ós verdadeiros Servos dt Chrifta 
fabem apertar com elle, porque primeiro íoubéraõ^ 
apertar corafigojefaôcingulo deftc Senhor : Erunt 



3iéo Eftimuío prat}co] 

y^Jltcirjgulum lunécrum ejm h porque íe cingirão pri- 
meiro com os confclhos do mefmo Senhor : Sint lum^ 
hl vefliipracinãi. 

.' Donde fc moftra , de quanto proveito he no mun- 
do qualquer amigo eípecial de Deos ; pois eftes íaô os 
eixos-, cm que eftriba e defcança o pezo defte mundo: 
conforme aquillo do Cântico de Anna,mãy de Samuel: 

I.Rcgs^.vcr^ Domiuí fmit cardirm terra ^ é^ pofuit fuper eos orbem^ 

&. Segundo nefte lugar interpretaõ muitos. Porque os 

Sanuos e Varões pios,,e efpecraes amigos de Deos , ía& 
Qsquç tem maô no mundo, refreando a jufta ira do 
Senhor com fuás oraçoens, a malicia dos demónios 
çom fua doutrina e fabcdoria , e a perverfidade dos ím- 
pios com feu exemplo. No meímo íeniido entendeo 

D, Gkcgorius S Jeronymo aquclle 1 ugar de Job , onde diz, que dian-; 

Bcda Apgdo^ ^^ ^ç jp^^g. ^ ^ ^^j^ £^^^j, ninguém pode refiftir, fe crí'^. 

Ruperr. lib. I. curvaQosquefuftentaòomundo: Dem cujm ira ne-- 
%^.^llTi\h. ^^^Ç/í^^^^ potfjl , &fuh quo cttrvantur qui portam or-^ 
3.in Matth. bem. Eíks quacs faõ íenaõ os Santos robuftos, pelas 
forças, de feus agigantados merecimentos? E de que 
modo fuftentaõ o rnundo ? Encurvandoíe diante dc> 
., ; £)eos pela oração yC humildade. De íorte , que aquel- 
\ la meírua humildade com que os Santos andao no mi- 
I do encolhidos , e cabisbaixos , e com que íeaprefen- 
S; taò diante de Deos em oração , ke final de que trazem 
ij o mundo às coftas i e deffe modo reíifíem a ira do Scir 
: J nhor , a que ninguém he poffivel refifíir ; Por t antes or^ 
I k^^ i faõ palavras de S. Jeronymo ) reâe wtdltguntur 
'M S^n0i y.qiíi^ glona mentorum fuorumwagm e^ potentes 
•f' Jimt apudDeuní, Hi ergo cor dis humilit ate ad míervC'^ 
I nitndnmpro peccatorihm mcrnjpe&u ejus funt tmtirvatL 
Ita Sanàt portant mundum^ dum eum ^neruat ac pe* 
nat yoratiêuum forítíiédme fujiwent. 

E taato pódc hum. íó dcftes hpmcna diante de 



Wjr . 4, 



Para feguir o bem \ e fugir o mal. i6 c 

Deos , que às vezes por amor dclle faz bem a todo o 
mundo , ou fufpende o cafligallo. Por onde Philo He- lib. de Migrai 
breo , reparando como por amor de Abrahaô pro- G^ncí./i.TcTí 
metteo Deos abençoar a todas as geraçoens da terra, j, 
diíTe aílim : Oremnó , ut coíumna m doníOitn humano ge* 
nere homo jnjtií^ permaneat aú calamitatum remediam: 
nam hoc mcolumt ^ de puhlica falute defper andam non e/L 
Roguemos a Deos ^ que permaneça no mundo hum 
Varaô Santo , como columna em pê no edifício j por- 
que em quanto naõ çahe ^ nao fe deve defefperar do 
bem publico. A mefma doutrina colheo S. Joaõ Chrf- 
foftomo de huma fó palavra , ( c effa bem breve) que 
o Sagrado Texto põem quando folia das oito almas, ccncí. ^.fctli 
que fe haviaô de falvar na Arca.Porque naõ diffc Deos «s. 
a Noe íímplezmente : Entray na Arca , tu , e teus fi- 
lhos , mulher^ e noras ', fenaõ , que accrefccntou , que 
cites entrariaô com cUe : hgrediens arcam , tu , é-fi- 
In tui 5 nxor tua , & uxores filiorum tuorum tecum. Co- 
mo quem diz: Por teu refgdto venho em que en- 
tremos mais: tu entrarás porque es amigo > e elles 
chtraráo de caminho comtigo. Donde fe vê , que hum 
fó Noé juflo foy occafiaô de fe falvar o mundo , cnao 
perecer de todo nas aguas do Dihivio. 

Eis-aqui a razaò, porque o Venerável Padre 
Joaõ de Ávila fentia ta5 amargamente naò haver Sa- 
cerdotes Santos , que podcíTem encher a obrigação de 
feu importantiílimoofficio^que he orar pelo Povo ,c 
lutar animofamente com Deos,para lhes defviar a maõ 
de íuajuiliça, e atrair lhes a da fua mifericordia. E efte £2cch,ti.TctC 
mefmo Senhor , como taò deíejofo de achar occ:.fiôc3 
de fufpender fua ira , fe queixa diíTo pelo Profeta Eze- 
quiel , dizendo : Bufquey entre elles hum homem., q fe 
puzeffc de por meyo , e me fizeíTe reííflenciaj ecomo o 
na5 achey^ toda.minha indignação detramey fobre el- 
les. R iij §. VIU. 



30. 



i6t Eftimulo pratkã , 

§. VIIL 

B Afilio , tu me prejudicas , é^c. Eftc defafio campal 
de S. Baíilio com o demónio, juttando peito a 
peito, e trabalhando cada qual por dirribar o outro j 
aquelle com as armas da Fé , e cite com as da perfei- 
ção ; hum ardendo em zelo , outro cm inveja , foy cf- 
pcdaculo digno de o verem os Anjos , e comprehende 
muita doutrma digna de a obfcrvarem os homens. 

Moftra-fc primeiramente a fede yehementifTi- 
ma e inextinguivel yque o inimigo tem da condenação 
de noíTas almas ; tal, que ellemefmo parece íc con- 
verte nefta fede , como lhe chamou S. Gregório : Ip^ 
Ja fitis ruma nojlra. Santa Erigida em huma de fua» 
rcvelaçoens, diz aífim; Appareceo hum demónio 
perante o juizo deDeos> e tinha nas unhas a alma 
de hum defunto toda tremula , como quando o cora- 
ção affuftado palpita, E diíTe para o Supremo Juiz: 
Eis-aqui a preza : o ten Anjo , e mais eu , ambos como 
deftros caçadores temos feguido cfta alma , deíde os 
os feus primeiros paíTos até os últimos : fuppoflo que 
com bem contrarias intençõens ; elle para guardalla, 
c eu para lhe fazer mal. No fim veyo a cahir nas mi- 
nhas mãos 5 e eu me finto taô arrebatado e impetuoío 
para acabar de poffuílJa , como huma torrente, cu 
xio» que fe defpenha de ímmaalta rocha, que nada 
pode rcfiftirlhe, fenaõ alguma fortiffima repreza .; que 
tal he nefte cafo tua juftiça , a qual ainda naõ vejo de- 
clarada contra eftaalma, eporiffo a naõ poíTúocom 
íegurança > porém a defejo devorar e abíorver com 
anciã ferventiffima , como hum animal confumido de 
fome 5 que feus próprios membros defpedaça de esfai- 
mado. Mo confeffou naquelle juizo o demónio ; e 

ainda 



Parajegvir o hem , e fugir o mal. 16 ^ 

ainda , que ellc o naô confcffára , bem fe deixa enten- 
der fer verdade > c mayor do que nós , em quanto en- 
carcerados neíks membros corruptíveis, poíTamos 
avaliar com adequado conceito. Mas toda via , ifto 
pouco , qne entendemos , bafta para culpar a craffif- 
fima negligencia, que temos em nos vigiar de taõ con- 
tinuo e folicito inimigo , e o deícuido com que pro- 
cedemos nos caminhos da vida humana, como fe to- 
dos foraõ rofas, ou foffc couía de leve momento a 
eternidade , que pende de hum momento. 

Moftra-fc em fegundo lugar , como todo o di- 
reito , que o demónio cm nós adquire , hc o que lhe 
damos com noffo livre arbitrio peccando. E efte era 
o que na prefente occafiaô allegava contra S. Bafilio 
Advogado da parte contraria. Porque toda a alma pec- 
cadpra , he como mulher do demónio > e quantos pec- 
cados vay accrefcentando , tantos filhos vay conce- 
bendo delle: Anima quippe vttiofa (diffe Chrifto à 
mefma Santa Erigida em outra revelação ) e/Z quají 
ux9r diaboU \ cnjus in ommbusfequitur voluntattm : quág 
tunc conciptt exdiabdo^ quando peccatum fhtcet e/,^ 
gaudet in eo. Outro fim , o peccador pela imitação das 
obras he filho do diabo , como diíTe o mefmo Chrifto: 
Vos ex paire diabolo ejlis , ó- defiderta patris vfjiri vuU 
tis facère] e juntamente elcravo ; porque em tudo 
lhe obedece, e f àz a vontade pelo torpe falario do 
deleite illicito. Donde fe fegue , que a violência , que 
cftc inimigo padece , quando fe falva ou converte 
hurn peccador , he como fe a hum marido lhe arran- 
caíTcm fua mulher, a hum pay feu filho , t a hum fe- 
nhor o feu elcravo; eporjATo clama, que Ihepreju- 
dica5 e offendem ò feu direito. Porém toda efta fua 
juftiça fe funda em iniquidade; porque as almas fao 
efpofas de Chrifto pelo bautifmo , e filhas de Deos , c 

R iiii fervas 



2ÍÍ4 Eftmulo pratico y 

fervas fuás , porque as criou, e comprou com feu fan* 
guc. E aífim tudo o que o diabo nellas obrou , foy 
adultério , rapina , e iniquidade, pelo que podem e de- 
ve n tornaríc a feu Deos, e Senhor todas as vezes, 
que iequízerem aproveitar dafuagraçaj e eilepro- 
met te perdoarlhes , por conhecer noíTa muita fragili- 
dade 5 e fer fua mefma natureza toda a bondade e mi- 

Jcrem.j.Tcrf.i. f-x*icordía: Tu fôrmcata tjl ( diz o Senhor por Jere- 
mias) cmn ^matoribus multis : tamen revertere ad rne , 
dirit Dominm^ét tgofufcipiarn te. E logo accrefcenta; 
Ergo- faltem amoda voca me : Pater meus , dux virgt* 
nitafis mea tu es. Mas naõ dura o tempada reconci- 
IÍ3ci5, fenaó quanto o da vida. Se efta fenecea, ja- 
zendo aio Ja a alma no leito do adultério, entrará a 
zelo do varão legitimo a defaggravarfe por hua ycz i 

Píowtb.i.Terf. Zelus & furar vmmnparcettn dievindi£ía. 

^7' Moftra-fe em terceiro lugar , a vigilância , zelo, 

c charidadc, que os Prelados devem ter com fuás ove^ 
lhas. Porque , fe a hum varaô taô grato â Deos , co- 
mo foy S, Bafilio, lhe cuflou o remediar qfta alina tan- 
to jejum , tanta oraçaõ > tantas lagrimas ; e além difla 
lhe foy neceffario valerfe dasoraçoens,evigilias de 
todo o Clero e Povo : que peccadores fe converterão, 
e fahiráo da duriífima efcravidaô do demónio , fe naõ 
tiverem Paftores, que lhes peguem fortemente do bra- 
ço , c fomettaõ os hombros à carga 5 antes forem re- 
miíTos no leu officio, inexpertos no exercício da ora- 
ção , e praxe das virtudes , e pouco eftimadores do 
preço de huma alma , que Chrifto avaliou a pezo de 
Sangue Divino ? Dizey-lhe a algum defles taes Pafto- 
res , que por livrar huma ovelhinha da garganta do 
lobo infernal > jejue , ore , e convoque o Povo , e lhe 
peça oraçoens : dizey-lhe , que Ih" dê huns íemelban- 
tcá cxercicioii de qu ircnta dias , fervindolhe de Dire- 

dor 




Para feguir o hem , e fugir o %naL 165 

Aor cfpiritml 5 e que fefteje tanto a íua reducçaõ , que 
a fokmnize com banquete publico. Todas as obnga- 
çoens de hum officio taõ eminente c taõ pezado ^qual 
he o Epifcopal , vemos hoje , (naõ falio univerfalmca- 
te , mas pela mayor parte ) reduzidas a deus ou trçs 
pontos, que fe bem íaõ neceffarios ? naô íe póue ne- 
gar , que naô faõ os principaes. Convém a laber : ter 
maõ fortemente na jurifdiçaõ Ecclefiaíiica > e iíío às 
vezes em pontinhos muy miúdos: tratar o cargo, c 
dignidade com exterior decoro e authoridade \ e dif- 
tribuir cfmolas aos pobres quotidianos da porta , ou 
outros foccorros extraordinários, e occultos Bom he 
tudo ifto 5 porém fe o Prelado nao fizer mais que ifto, 
fcrá pcffimo Prelado. Porque aonde cftaò as obriga-r ^ 
çoens primarias do Officio Paftoral ; que íaò pregar ^ f 
vifitar , celebrar Synodos , prover as Igrejas em íogei-» | 
tos os mais dignos , deflerrar abuíbs , arrancar elcan-*| 
dalos , refiftir aos poderofos infolcntes , fer Padres I 
cípirituacs dasalmas, que Deos lhes encarregou, e co- | 
mo tae> darlhes adito fácil, c mofirarlbes entranhas de f 
charidide \ e outras obrigaçoens tantas ,e taõ graves, 
qne Santo Agofliqhoaífirma, que fe as quizeffe ex- Sfrm.19.. De 
pender, elle canfaria de fallar , e os ouvintes de ou- Y^!^'^ ^p^ 
Yillo. ^ *"^^"P^^' 

Tomara entender, como pode fatisfazera eftas 
obrigaçoens , quem n^h tem trato familiar com Deos 
NoíTo Senhor , pelo exercício quotidiano da Oração 
Mental? Porque eu naõ fev, que poffa haver frutos 
fem arvore , ou raiz que os produza ; c he certo , que 
tudo o fobredito pende do amor do próximo, o qual 
he confequencia c redundância do amor de Deos > e 
para amar a Deos naquelle grão, que poffa produzir 
tantos e taõ nobres effcitos , he neceffario conheccllo 
naõ de qualquer modo ^fenaõ também naquelle grao^ 



t66 Efthmítopvútko^ 

que traz comíígo o trato , e familiaridade da oraçaô 
frequente , e meditação attenta e vagarofa. E fc naô, 
vamos à experiência: nomeam-me algum Bifpo Santo, 
que áté agora houveíTe fem Oraçaò Mental. Se dif- 
corrermos pelos fcculos antigos , he certo , que naõ 
eftá entre os Martinhos , Athanafíos , Gregorios,Ni- 
colaos -) Baíilios 5 Agoftinhos , Chryfoftomos, Ambro- 
íios. Se pelos feculos mais chegados ao noffo , he tam- 
bém certo , que naõ eftá entre os Borromeos , Sales , 
Juvenaes , Palafozes , Lanuzas , Tapias , Dos Marty- 
res. ToHos cftes, e outros muitos, que pudéramos 
nomear coftumavaô accender cada dia no altar de feu 
coração o fagrado fogo do amor de Deos , c por iíTo 
De pcrfcaionc amavâõ e ferviaõ os próximos : Lum aeperit quis (dif- 
cap. 1 5. fe o efpiritualiífimo Varaô S. Diadoco) fenttic copiose 

charitatem Dei , tum incipitfenfufptritus fr^ximum quo» 
^ que amare. Contemplavaõ cm Deos , c por ido pro- 
curavaô agradallo : efpeculavaõ ^ e eftudavaó as obri- 
gaçoens do íeu ofEcio , e por iíTo difpunhaô cumpril- 
las : anteviaõ a conta , que hiviaó dar a Chrifto Prín- 
cipe dos Paftores , e Bifpo de todas as almas , e por if- 
fo temiaô , e andavaõ íblicitos : frequcntavaõ a efco- 
la das virtudes , que he a oraçaô, e por iíTo fabiaõ dou- 
trinar as ovelhas. Quem o naô fizer como elles , co- 
mo poderá fer bom Bifpo como elles , ainda que nao 
% perca hum ponto de íua jurifdiçao e authoridade ? Ou 
I que importará , que fuftente os pobixs , íc deixar as 
Matth. J vcrH ítias almas famintas ? Nonne anima plus efi , quam ejca} 
»»• f E fe ellc naó faz o que toca à fua parte , como 

quer , que Deos lhe conceda bons Miniftros , c fieis 
Coadjutores. IíTo feria metello Deos emoccafiao de 
íe fazer ainda mais defcuidado c remiíTo- Naõ pede 
legitima eracionavlemente ajuda V quem n?.õ obra o 
que aicançaõ as próprias forças: Facitríti quod in fe 



Varajeguir o bem , efugk o mal. s^J/ 

eJl^Deus non denegai au>:thutn. S. Carlos quando en- 
trou cm Milaò naò achou operários > antes todo o Et 
tado Ecckfiaíiico cftava taõ mata brava , que muitos 
Confeirorescuidávaó, que naõ tinhaõ obrigação de le 
confeífar , porque huma vez que elles abíolviaõ o 
Povo , parccia-liies, que naó neccíTitâvaõ de íer ablol- 
vidos> e muitos Clérigos traziaó publicamente habi^ 
to leigo , c armas. Depois teve tantos operários , que 
efcolhiâ entre elles muito à fua fatisfoçaõ 5 e taòbons, 
que até de criados léus , fobiraô alguns a ler Núncios 
Ápoftolicos. Deulhos Dcos , porque elle os merecia; 
c mereceo-os , porque trabalhou quanto em fi era , pa- 
ra os fazer com o exemplo , com o prèIffioVccm 6 caf- 
tigo, com a diligencia , c com mil arbítrios, que íua 
prudência inventava. 

A' vifta difto, coufa he por certo que admira^ | 
ver as anciãs 5 e arbítrios, e traças, econduftoscoml 
que íe pertendem as Mitras , e le permutaõ ló cem o 1 
tino de viver em melhor terra , e com mais luzimen- ^ 
to, porque fe arrendaõ os frutos cm mais centos y fem 
attender a que o inferno, (onde pode vir a parar a 
permutação ) he muito má terra , naõ de luzimentos> 
fenaõ de trevas; naõ de commodos , fenaô de miferias; 
naõ de paíTar a vida temporal , fenaõ de incorrer na 
morte eterna: Jerram mtferi^r& unebrarum^ ubi 
nmhramortis. Item, fem attender a que fecarregaõ 
de tantas mil almas, que computado o numero dei! as* 
com o das rendas , naõ lhes fahe a alma a toífaõ , e po- 
derá fer 3 que nem a vintém ? Por hum tofíaõ , cu por 
hum vintém íe carrega Voíía liluflriíTima de vigiar , e 
curar a ronha, e dar paílotodo o anno a huma ovelha> 
que tantos lobos a bufcaõj e que fe ella neceífitar tem- 
poralmente, ha Voffa liluftriflima de repartir com clia 
dcffe vintém } E em cima acha, que lhe íahe barato ^ 



z<í g Eftimulo pratico , 

Sinal he, que naõ tem verdadeira tençaô de cumprir 
o contrato da fua parte>ouque naò cuidou em tal, 
qu m Jo afledlou o báculo , c pegou delle. Salvo ncffe 
peito arde o amor de Chriíto , c o zelo da falvaçaõ das 
almas ; que entaõ o^ornal , que fe bufca^ he íó a glo- 
ria de Deos \ e por cíVa até a falvaçaõ própria quize- 
raò arrifcar alguns Santos 3 fe bem tanto mais a fegu- 
ravaõ -, quanto mais a arrifcavaó. Mas fe tanto ama a 
Deos, eeíTe único, e excellentiílimo motivo da fua 
may or gloriado levou ao officio, pròve-mo com aquel- 
Ias teftemunhas , que S. Gregório nos diz , que faõ Ic- 
gaes e de receber, ifto he, com as obras: Probaíid 
diktíioms cxhibitio (ft opens. De outro modo he diffi- 
cultofo crermos , que o efpirito que o levou ao piná- 
culo do Templo , foy o Efpirito Santo; e que fempre 
onde ha melhor terra , e mais rendas , ahi fe bufca me- 
lhor a gloria de Deos. E fe acafo a naõ bufca , tudo o 
maisvay perdido; porque do leme pende toda anao^ 
e fui derrota. 

Difcretamente dizia hum Sacerdote dcfta Con- 
gregação , e por fuás virtudes Venerável , que naõ to- 
mara nos Prelados mais politica , qiic a de hum ga- 
nh.iõ , ou homem de pao e corda. Qualquer deftes j 
quando o chamaõ para levar alguma coufa , a primei- 
ra diligencia que faz , hc tomarlhe o pezo ; e logo per- 
gunta : para onde vamos nós ? E ultimamente : quan- 
to vamos a ganhar ? E entaõ fe lhe eílá a couto , to- 
ma a carga, e caminha, Aílim qualqiíbr íidmem de 
juizo , quando emfim o chamaffem para hum Bifpado, 
primeiro lhe havia de tomar o pezo, fe faõ capazes 
delle íeus hombros; eiogo confíderar,que intenção 
o leva, que hefaber,para onde vamos nós; e íe ga- 
nhará o inferno , por onde cuida que ganha o Ceo , 
que ifto hv examinar , quanto vamos a ganhar. Se acha 

que 



VavafeguíY o hem \ e fugir ornai ^ép 

que pode com o pezo , e que vay a bufcar gloria dei 
Deos , e cabcdaes de virtudes , e r.ugmento de fua grá-^- 
ça ; tome a carga , e caminhe. De outro modo meíhor 
he morrer do que bifpar : melhor he fer o ícu cada-^ 
ver carga de outros , que o levem à fepultura , do que 
ferem as ovelhas carga da lua alma , que a levem aa^ 
inferno, Affim efereveo o Padre Umberto de Roma-: 
nis geral da Iliuílriflima Familia dos Pregadores â Al- 
berto Magno y íàbendo como o Papa o determinava 
crearBifpo de Regensburg. Tomara (difTe) antes veW Fr. Luís ác 
lo a Voíía Reverencia levar morto cm hum efquife a ^^"^* "=» vida 
enterrar , do que pofto na Dignidade Pontifical. t Banhoiomcn 

Por remate defta obfervaçaò, e doutrina, fe ai- ^os Manyrcs , 
guem defcja faber j porque razaô,. havendo antiga^ iv. i.cap.7. 
mente tantos Bifpos. Santos >hoje ha taô poucos ic. 
permitte Deos, que pertendaô , e configaõ ette lugar 
de tantas confequencias em damno das almas, ho- .> 
mens incapazes deite. Refponde-íe primeiramente 
com himia fen tença de S. Luís Rcy de França , que a 
femeihante rei porta feita por hum Servo de Deos, dif- 
fc : Os Bifpos antigos craô eleitos por orações , e fup?f- 
plicas , que íe faziaõ ao Efpirito Santo : agora íaS 
eleitos por negociaçoens e íiippiicas , que íe í^zcni 
aos Reys, e por outros reipeitos naõ conformes à voa-: 
tade. Divina. Refpondefc cm fegundo lugar , que or 
permitiilo Deos aifim , he em caftigo dos peccados àa> 
Povo, que dcímerece o perdaõ , c remédio delles , o: 
qual era certo fctiveffe bons Paftores : Pro qualtíati- lib. rç.Moiai;. 
im fubdilorum ( diíTe: fao- Gregório Papa , aincb em; "p- ^^• 
termos mais apertados, que os noffos ) difpGnunítm 
aãa regmttum 5 urf^pe pro maio gy egis. » cttam verÁ hàn 
m ddtnquat vita paftorts. Quando os |udeosemiiios- da? 
gloriade Chríflo prenderão a Lazaro comiuas irmãas; 
Maria , e Martha 5 c Marcella fua- criada ^eJvIaximiri 

Ha 



ff?o ^ Efí^fiulo pratico^ 

no hum dos íetenu e dous Difcipulos do mefmo Se:-5 
nhor , e os embarcarão para fóra > porque razaó tira- 
rão àquella embarcação o leme, velas, e remos ? Por- 
que era fua intenção , que fe perdeffem no mar. Naô 
digo eu , que Deos quer a perdição dos peccadores j 
mas o que eftes homens fizeraõ com intenção perver- 
fa , e obra injurta 5 faz Deos com alta Sabedoria, e per- 
miílíió juftiílima. Permitte, digo, que os Povos naõte- 
nhaò Reys , Bifpos , c Governadores capazes de fazer 
nh úiii . bem o íeu officio : que he o mefmo , que tirar à barca 
tfciv %ti fiu .^, Q jçj^g ^ ^g velas, e os remos ; com que he certo o nau- 
oWc^^^iri^íífragio. Efta verdade comprova hum fingular , e ma- 
Tom. lido M. i^avilhofo cafo , fuccedido no Convento dç S. Domin- 
Tcrno Eccícíit- gos defta Cidade , que refere Villaroel , c abreviadas 
att ii^numV^ algumas circunftancias paíTou na feguinte forma. 

; / í- Morava no dito Convento hum Religiofo , illuf- 
trc por fangue, c muito mais por virtudes Tinha 
Ixum irmaô bem vifto delRey Filippc 11. quando as Co- 
roas eftavaõ unidas , c alcançou , que o preíentaffe 
em huma Igreja muy authorizada. Quando lhe levou 
as novas, pcrfuadido, que para elle íeriaõ muy ale- 
gres ^ o Reiigiofo íe aíTuftou de modo , que tcméraõ 
lhe déiTe hum accidente. Efcuíoufe de aceitar. Inf. 
tou o irmaõ quanto pode com varias razoens , até que 
vendo naô aproveitava, mudou a bateria daquella 
fm-tiffima muralha , determinando darlha por via do 
Prelado. A efte lhe pareceo melindre , o procedimen-^ 
j to do fubdito. Deu palavra de obrigallo com cenfu- 

ra, quando outras diligencias o náõ amoldaíTem. E 
com eííeito, depois que vários Religiofos graves en« 
via dos para efte intento , o naõ abalarão , finalmente» 
puxovi defta arma , contra a qual em peitos timorato^s 
naõ ha refiftencia. Porém Deos , que faz â vontade 
dos que o temem , c omvc fuás oraçoen$ , e os conduz 



Krf. II 



Varafeguiv o bem , e fugir o mal. 17 1 

cfficazmenté por caminhos da falvaçao; Fcluntatem FfaiAi. 144. 
ummtmmfe factet , & deprecaíionem eorumexaudiety é^ 
falvGsfaact eos y infpirou ao Rdigiofo , que pediffe oir 
to d as de tréguas para ihe dar a rcpoita. Como os pc- 
dio poftrado em terra , e com lagrimas , c o Prelado 
cntendeo , que já a vitoria fe declarava por fua parte, 
e que convinha concederlhe cfta fuga , para que o ren^ 
dimento fc feguiíle menos violento : admittio o pra*- 
zo , e avifou logo ao irmaõ, para que começaffe a prc^- 
venir o Pontifical , e as demais deípezas neccffarias ; o 
que elle fez logo com gofto e mayor largueza , do que 
a contingência de hum futuro demandava. Entre tan- 
to o Santo Religiofo fechandofe na cella , vefhdo de 
cilicios , e Guberta a cabeça de cinza , fe poílrouem 
fervente oraçaõ , pedindo a Deos , íe fcrviíTe de cor- 
tar aquelle laço , que tanto o apertava com perigo de 
fua alma. AíTim períiftio dous dias , e depois comenda 
hum bocado de paõ , humedecido com lagrimas y tor- 
nou à luta novamente , e no quarto dia lhe revelou o 
Senhor , que ao oitavo morreria ^ c fubiria a gofar fua 
^Divina face. Dizer a alegria, que cfta nova infundio 
no feu coração^ fora fuperfluo , ainda que foffe poffi- 
vel. Levantouíc , veftio habito limpo , chamou o feu 
ConfeíTor 5 com o qual fez confiffaô geral. Logo avi- 
fou a íeu irmaô íe abftiveffe nos gaftos , porque tal 
dia paíTaria dcfte feculo. Sobrefaltado o irmaõ , deu 
parte ao Prelado , c julgou eftc , que era eípecie de ma- 
nia j e que feguramente podia naõ parar na obra.Che-; 
gou odia íctimoy ç^hejo^lgi^hum^^ 
nha. Pedio logo o Viaf ico y porém o Prelado fez diíía 
gracejo. No fcguinte dia, que era o ultimo para o 
prazo da vida, e da obediência : defcobriofe mais a fe- 
bre ; e a inftancia do enfermo foy tal , que por achar- 
^ em iyum, lhe concederão o que pedia, Sobre a 

tarde 



17^ -Vi" Bflimulo pi^àticor 

tarde pedio a Santa Unçaõ , e lhe foy dada por caiifa 
de hnns acidentes , que fobrevieraõ. E logo que rc- 
ccbeo eík Saferamento , eípirou. Eíkvaó attonitos os 
•Religiofos ^ e dividirão os juizes em contrários pare- 
c<:res: prevalecia o de hum Leitor de Theologia, gran- 
de Letrado^ o qual com outros Padres de authorida- 
<le, naõ íentia.bem da rcpu.f]:nancia do Relipioío a 
-obcacutr, e attnbuia a íua morte a veiícrhencia da 
-mefmapaixaõi^.E eíkndo huma noite revolvçpdp li- 
tvros para corroborar o icu ponto , lhe appareceo o 
jdito Biípo eleito^ cercado de grandes reíplandores. 
"Diffe-lhe, que por efpecial ordem de Deos o vinha a 
deíenganar, e que foubeffe , que fobíra ao Ceo fem 
itQcar noPurgatorÍQ., Preguntou-lheo Letrado como 
*© levara Deos taõ aec^Ieradamente , fe podia ajudallo 
:á ler hum Bifpo muy útil para a íua Igreja, Refpon* 
ideo; faberás, que neftes tempos, para caftigar Dços 
^os peccados dos PovGs,permitte , que haja Biípos pre- 
ceitos. Defappareceo aquella alma, e namefma hora 
ro Letrado fez ^ que fe ajuntaffe a Communidade , c 
narrando ^g^j^fucceíTo , declarou ,. que retratava ofeu 
parecer , êtmFa^TpTocedimcntos do defunto por in- 
:ciilpaveis 5 e dirigidos por fuperior priideri^cia à J^U- 

Éftc foy o cafo ; e por naõ divertir dos olhos a 

muita luz ,que de fi lança , naõ tenho que accrcfcen- 

• tar fobrc elle , mais, que aquillo deChriflo Salvador 

•^olTo pregando: ^n habet aures ãudimdt^ atiáiat\ 

c^itm tem ouvidos de ouvir , ouça. 



EXÊIÍ3 



^^^çs^ri 



Parafeguir o hem , e fugir o mal. 17^ 



EXEMPLO XXV. 

Horrivetdemofíftvaçaõ dajuftiça Divim, 
em c&fltgo de hum blasfetno. 

M huma terra de França , na Provinda 
chamada Céltica , vivia hum moço nobre 
por fanguc 5 viliífimo por cofluroes , Ca- 
vallciro de huma Ordem das Militares} 
porém de vida taó fcm ordem , que fó mi- 
litava por parte de feus appctites. Hum deftes era a 
caça , na qual íe empregava taó continuamente , que 
ajuntava as noites com os dias , c,por aqui vcyo a fer 
caça do demonio> porque coíluraando rccolherfe mujr 
tarde , a mãy , que era viuva , depois de o reprehender 
muitas vezes dcftc exccffo, ultimamente o ameaçou, 
que fe affim pervcrtefle as horas , naõ acharia cea , 
nem quem lha fniniftraffe ; porque naõ era bem , que 
a família toda andaíTc defgovernada por ir ao p^ffo 
dos feus dcfconcertos. Zombou dk da ameaça colçno 
de paixão de mulher , e fóícas de máy aporem vindo 
outra vez da caça já alta noite, em companhia de hum 
fcu irmaô,c outro companheiro, todos bem cança- 
dos , e ncceíTitados da mefa : com cffeito naõ acháraõ 
cea, nem quem lha miniftraíTe , nem apparecérao 
chaves da difpenfa e cofinha ; e todos os da familia íe 
faziaõ furdos , c fe recolherão cm feus apofentos , 
conforme â ordem , que a fenhora lhes tinha dado. 
Entwiõ o moço exafperado , foltou alingua em pala- 
vras muy coléricas , e defcompoftas $ e crefcendo mais 
a ira cega , chamou por Satanás > que o levaffe já. Pro- 

S curou 



174 Efthmíla pratico y 

Procurou o irmaõ foffcgallo ,, porém de balde ; porque 
como o relógio tinha já cahidosos pezes, cdcfccn- 
certadas as rodas, de cada vez dcfandavaó com mayor 
cftrepito, até chegar à blasfemar de Dcos impiamente. 
Deu ordem o irmaõ, que fofTemao lugar bufcar qual- 
quer cDufa dcj coroer com que paíTaíTem. Trouxeraô 
alguns poucos ovos , que repartidos entre os três ain- 
da parecerão mais^ poucos 5 ç com iflo fe recolherão 
todos a huma eama^ por na,6 haver outro melhor 
com modo. Nàô paffou muito tempo , que eftando to- 
dos três acordados ,. viraô de repente cm pê junto a fí 
hum feyo Ethiope, de ejftatura agigantada, e feroz 
catadura , acompanhado de dous cães de fila de eftra- 
nha grandeza. Foy tal o pavor cm todos , qual íe dei- 
xa bem coníiderar nefte paíTo , efpecialmcntc no mo- 
ço , que & lembrava, das blasfémias, que tinha di- 
to, e dos pcccados de que oaccufava a confcicncia. 
Eftava elle no meyo dos outros daus , mas o demónio, 
que íabia bem a quem vinha dirigido pela Divina 
Juftiça, lançou maô dellc, fem lhe valerem as fracas 
diligencias y com que os companheiros procuravaõ 
defendello,e encobrUlo. Tirou-o empezo da cama, 
c âffim. dcípido o eftendco em huma banca , que alli 
eftava, c logo com huma grande cutcUa, o foy ef- 
poftejando com, gentil deftreza , e ferocidade horren- 
da, e js poftas daqucllc miferavel corpo as hia lan- 
çando aos cães de fila, que colhendo-as no ar as en- 
golirão ; e feita- eíla horrenda çarniçaria, voltou os 
olhos ícinçilantes para os dous homens, que eftavaõ 
nacamaquafi efpirando de medo, e lhes diíTe, que 
aquelle çaftigo mandara fazer o Omnipotente , e que 
fenaôeftendia a ejlcs a maô , n^ò. era por falta de von- 
> íadc, feniõ de licença. Defáppareceo o infernal mon f- 

W^P tro , pa ífoufe o reílo da noite cm lagri mas , confufaô 

^^ ^ -^ ■:• ■ . . "" cfet 



Para fegutr o hcm , e fugir o mal. 275 

e fufpiros: tendofc acoitado três peíToas, pela manhaa 
naõ íc levantarão mais que duas : cilas naô tinhaõ que 
buícar a outra , pois bem viraò quem a levara ^ e fá- 
cil era entender para onde. Oirmaõ deixoufe pene- 
trar do íentimento , e coníideraçaô , que pedia caio 
taõ extraordinário, c trágico. Para affcgurará mu- 
dança de vida que determinava , entrou em huma Re- 
ligião , na qual , diz o Padre Theophilo Raynaudo, 
que ainda no feu tempo vivia com a reforma , c com 
o exemplo , que pedia o temor dos Divinos juizosre in pnt. fpirir 
da certeza dahiftoria na5 duvida por lha referirem w»'»» «cmp. 
peífoas dignas de todo o credito. '^ * 

Obfervaçõesmoraes fobre efte cafo. 

O Execravel peccado da blasfémia 5 naõ hemuy 
commum na República Chriiláa , como o ftõ 
outros yicios : Pattci inveniuntur qui Chnfium 
õre bUfphement 5 muUt qm vUa , diíTe Santo Agoílinho. 
Toda via acho,que às vezes vem a dar nefte precipício 
cinco fortes de peíToas. Primeira , Toldados^ que tem 
muy ténue conhecimento de Deos^e lhes parece ííg- 
nificaçâó da fua braveza naô fazer differença do Di- 
vino ao humano , e íoltar juramentos blasfemos com 
a mcfma facilidade , com que o demónio lhos põem na 
imaginação. Segunda, jugadores, cujoafFeílo nimioa 
ganhar, e exceíliva pena de perder, lhes mete indigna- 
ção contra Deos , vendo, que podia difpor de outro 
modo as fortes , c que o naô podéraô arraílrar à força 
dos íeus deíejos 5 porque parece , que tacitamente 
queriaô , que o meímo Deos foíTe feu parceiro; por 
iíTo Santo Antonino contando tantos vicios da tafu- 
laria , quantos pontos tem o naype , entre elles põem 
também o da blasfémia^ e por iíTo também outro díf- 

S ij creto 



27^ E/limulo pratico^ 

crcto dizia , que as fcis faces , ou lanços do dado efta- 
vaó merecendo , e pediuvio íeis forcas \ huma para o 
jugador , outra para o ícu competidor , outra para 
quem os eníinou , outra para os miroens , outra para 
© dono da cafa do jogo > e outra para o Príncipe , ou 
Senhor da terra , que o permitte. 

Terceira , faõ humas almas , que pela familiari- 
dade y que tem com Deos Noffo Senhor na oração , de- 
clinarão a naô o tratar com refpeito > que taõ alta Ma- 
gcftade merece , c conforme a clareza do conheci- 
mento, que deftc Senhor tinhaô > porque neftes ter- 
mos tem Satanás direito para os tentar de blasfémia , 
pois por huma parte conhecem a Deos , e por outra o 
naõ honraô como faõ obrigados. 

Quarta , fâô outras almas , que depois de alguns 
annos de exercitadas em oração , Deos Noffo Senhor 
as mete na purgação paíliva do fcntido , ou do eípí- 
rito , onde padecem penofiífimas fecuras^ e elcuri- 
dades , para ferem levantadas à uniaõ cop Deos 5 po- 
rém finalmente , nem poderão aturar a m.aõ de Deos, 
c perderão a paciência $ e querendo aílím remar con- 
tra a maré , e achar à força de diligencias o primeiro 
caminho, que feguiaõ> quando ultimamente vem ,que 
Bie naõ aproreitaõ , defefperaó , e dizem mal de 
Deos, tendo-o por cruel , e efquecido dos fervicos, 
que lhe fizerao; fuccedendolhesem certo modo, como 
^•liiMiscip.j4. aos P0V0& chamados Athantes, de quem efcreve Soll- 
no , qiie praguejao o Sol , porque os torra com léus 
rayos : aílim eftas almas naõ confiderando , que aquel- 
la influencia feca os purifica, fenaõ, que osféca,e 
atormenta , fe voltaô contra Deos blasfemando-o. 
Para naõ cahirem neflc precipício, neccíTitaõ de Pa- 
dre efpiritual , que as entenda , e alente à paciência , e 
a§ funde ben em humildade , e lhes declare como as 

taes 



Para feguir o hm , e fugir o 7naL 177 

taes fecuras e eícuridades^, naô faõ defvio de Deos, 
fenaó grande amor , com que as pertende difpor para 
as unir comfigo > outro fim , naò devem fazer diligen- 
cia por outro caminho , fenaõ deixarfe levar por on- 
de faõ levadas com refignaçaõ , e paciência. 

A quinta íorte de peffoas, que daô em blasfemar, 
faõ huns peccadoraffos fumergidos em todo género de 
vicios , que de muito coftumados a cumprir femprc 
fuás vontades, naò podem fufter o impeto de fuás pait 
xoens 5 eaffim quando o mar de feu coração ferve com 
algumas deftas tempeftades ^ fahe à lingua a «mmundi- 
cia fétida, que eftava lá no fundo do mefmo coração. 
S. Gregório Nazianzeno diz, que vio hum deites fu- 
riofos atirar contra o Ceo pedradas , e mãos cheas de 
terra > c dizer contra Deos palavras de ignominia: 
ytdi tpfe 'i faxã ^ pulverem , & verba afpera qmjâçeret Naiíanz. ía 
in Deum. Defte ultimo género me parece fer cfte mo- Jambiw dtluè 
ço do exemplo. 

De qualquer modo que fcja , a blasfémia hc pes- 
cado graviífimo , porque direitamente tira adeílruir 
a honra de Deos , que nos manda pelo primeiro man- 
damento 5 tanto aííim , que até o meímo nome de blat 
femia cuidavaõ os antigos , que tornava pollutos os 
ouvidos ; e por iffo o trocavaõ pelo de bem dizer , que 
he o feu oppoftò, faltando como por ironia 3 como 
fe vê no que a mulher de Job lhe diffe : Bencdtc Deo^ 
C^ morere. Bemdize a Deos , e acaba já de morrer, 
irto he , blasfema de Deos , e morre 5 e no tefíemunho 
íalfo ,quejeíabel mandava imporá Naboth para fçr 
apedrejado : Benedixtt Deum , (^ Regem > blasfemou f • R'«- **• 
deDeos,ediíremâlddRe>r. '"^•'*' 

A pena do blasfemo na Ley Efcritâ , era morrer 
apedrejado por todo o Povo : ^íuiblasfemaverit nomen- Lç^itjci 24 tcií; 
Dõmwtf mme môriatur yUptdtbus opprimeteum omnis^ ^6, 

S iij mtlti^ 



2/8 Eftimulo pratico^ 

multitudõ. Os Reys de França mandaô expor o blasfe- 
mo nu ao ludibrio publico do Povo, e çautcrizarlhe 
a, boca com fogo >, e íe he coatumaz , íhe. cor im a lin- 
gU3. O Emperador Jtiítiniano na Novella íetenta c 
ietiC, determinava pena de morte aos que juraô blasfe- 
mamente pelos membros de UeoSy ou por outros mo- 
dos execráveis: e da logo a raza5,para que a Repu- 
pUca confçntinda em íeu grémio o criminofo , naõ 
padeça por fua caufa fomes ,peftUençias , e terremo- 
tos , e outios caftigos da ira de Deos : Neprapter eos 
pereat RefpHhhca : propter talia enimdeltãn érfãmes^ 
^ Urramolus , ò* peít.ilentta fiunt. E bem moílra fer 
efte temor he bem fundado, a prodigiofa mortandade 
de, cento e oitenta e cinca mil AíTirios , que o Anjo 
em huma. noite matou nos arrayacs delRey Senache- 
rib cm caftigo d is blasfémias, que cfte havia vomita- 
do contra Dcos Ímpia e atrevidamente; e tanta foy 
a adividade , e prefteza deftc Anjo Percuffor , que 
como efcreve hum Autlior grave , os corpos com feus 
vertidos, e armas ficáraô na meíma poflura, e appa- 
rencia , que antes tinha® , fcm fe moftrar de fora leíaó 
alguma; porém, tocados fe desfaziaõ em cinzas, por- 
que a fl^amma daquelie rayoinviíivçl tudo moera, e. 
confumíra em hiim momenia 

Cafo , que a Juftiça humana íe defcuide de punir 
çfte delido , naô^ íe deícuida a Divina ; faò muitos , e 
muy tr.agicos os exemplas , que ha dcfta matéria pelos 
Kvros: merece cfpeçial nota o que refere Santo An- 
tonino de hum. jugidor , que por haver perdido fe in- 
^gnouv contra Deos , e afirou huma fetta contra o 
Cco; e eflando à mefa , dalli a tre» dias lhe çahio a mef- 
vm fett i fobrea qabeça, ecahio morto. Aqui tardou 
^Jfuftiça Divina três dias , efpei^ando por ventura , que 
^ tçca dcfviaííe a cabeça , ií\o he , mudaffe propoíito, 

e emen- 



tom.t. 



Para fegutr o bem , e fugir o ma!. 179 
e cmendaíTe a vida 5 porém no noíTo caio as efperas 
deviaõ eftar dadas ^ e inutilmente confumidas , e 
aílim a execução foy prompriflima , verifícandofe 
aqueila fentcnça de Santo Eírem: Blaf/hewantes m Paracncfíji, 
co^rruptiom Jua perihtmt , per cif tentes mer cedem mjU' 

Mete horror fomente ouviào,quanto mais o càu- 
faria viíio , o terrivel e eftranho defta demonftraçaõ 
da ira Divina : agarrar o demónio do corpo daquellc 
miferavel^ eftendellonú em huma banca , dividillo 
em quartos como rez no tâlho ,, arrcmcçalios aoutros 
demónios por pafto ,e fatisfaçaõ da fua fome canina, 
que tem da noíTa perdição eterna. Oh pafmo ! Oh 
juízos de Deosl Oh cegueira humana! Indignavafe 
efte moço de lhe faltar huma cea à fua vontade 5 e fojr 
coníirangido a ferem feus membros cea dos cerberos 
infernaes: naô fofreo huma leVe correpçao maternal; 
c íbfrerá para íemprc o opprobrio de feus inimigos, 
e accufaçaõ de lua conlcicncia. 

E notefe a conveniência da pena com a culpa; 
efte corpo já era habitação dos demt)nios : que mui- 
to^ que os demónios recolhcíTem também dentro em 
fi efte corpo > Mais : o pafto dos demónios faô blasfé- 
mias : Pdjuernnt in Cwlum osfuum ) aíTim como o paf- 
to cfpiritual dos Anjos , e dos Santos faô os louvores 
Divinos : Stcut adipe , & pinguedine repleatur ammê 
tnea , & labiis exultationvs laudabit os meum. Que mui- 
to logo , que os demónios goftaíTem tanto defte cor- 
po, e defta alma, que eftavaõ taõ falpreíados do ef- 
piri to da blasfémia. 

Bom confelho tomou o irmaô , fazendofe íabio 
à cufta da eftulticia alheya ; fe obraíte menos, muito 
rifcolhe confiderava na íua falvaçaõ; porque ofa- 
zeUo Dcos teftemunha do efpedaculo,foy graça efpe- 

S iiij cial^ 



•K 



Habacj.i. 



280 EJlimulo pratico^ 

ciai , e he aforlfmo de meu Padre S. Filippc Ncrl , que 
por naõ correfponder a eftas graças efpeciaes , fe con- 
denaõ muitos. Ver efte homem a fcu irmaò dcfpc- 
daçado , e tragado pelos demónios em fragrante adi- 
cto, eficarfe no íeculo repoulando nasmedianias de 
hu na vida commua , bem fe deixa conhecer , que fe- 
ria hu na frieza digna de que Dcos a defprezaíTe. 

Ponderefe também como Deos fempre empare- 
lha hum lance de íua juftiça , com outro de fua ck- 
;nencia: condenou a hum irmaõ , e poz a outro em 
Yia mais reíla de fua íal vaçaõ Nunquam ( diíTe Chrif- 
to fallando com fui Serva Santa Brigida) jujiittamji" 
m mifencordia fect , nec facto , nec Jim jujlitia pietatew. 
Efte mefmo louvor lhe attribue o Profeta Habacuh : 
CumtratHsfueriSj mifer teor dia recordabehs. 

Repare- fc outro fim, como todas as diligencias 
com que Satanás pertende injuriar a Dcos, fervem de 
|>A'omovcr as fcus louvores. Se o diabo naõ foUicitá- 
ra a efte impio , que blasfemaíTe , naõ íe originara da- 
qui ter Deos naquella Religião mais huma voz , que 
pronuncia (Te feus louvores todos os dias. 



?r. Afíohfc de 
S^Jcronymo li- 
TIO %. da íua 



EXEMPLO XXVI. 

. Avi/o y e reprehenfat enviada do Ceo a hum 
peccador mveteradQ. 

I VENERÁVEL Virgem Anna de Santo 
Agoftinho^Religiofa da Reforma de San- 
ta Therefa de JESUS -> e contemporânea 
da mefma Santa , teve muitos avifos do 
Ceo para acerto do governo dos Mofteí- 
x^ , onde foy Prelada jC proveito de outras muitas ai- 

masj 




Vurajegutr o hern^ e fugir o maL a 8 1 

mas , entre osquaes o feguinte he digno de efpecial 
admiração » e encerra grande doutrina. 

Eftando efta Serva com Deos huma noite em ora- 
ção diante de hum Santo Crucifixo^ a Sagrada Ima- 
gem lhe diffe clara e íeníivelmente eftas palavras: 
Diz<í afluam , oim a mim \ efle fulano , que o Senhor 
.nomeava ,era certa peíToa Eeclcfiaftica ^ que a M?.dre 
Anna conhecia muito bcmj porém atalhada com o 
íeu natural encolhimento naõ fe atreveo a manifeftar 
como Deos fe dignava de falharihe \ e aílim naõ deu o 
aviío. Na feguinte noite eftando no meímo ocerci* 
cio,e lugar j^ o Senhor repetio o preceito na mefea 
forma , dizendo : D%Z2 a fulano ^ qm a mim, Naõ pc- 
dia a Serva de Deos fuppor com fundamento , que fe- 
ria illuíaõ do demónio , ou engano dos fentidos pró- 
prios , por fer já muy experimentada em femelhantes 
favo rcs do Ceo , e veterana na milícia efpiritual con- 
tra os cftratagemas diabólicos: e toda via depois de va- 
rias lutas 5 que teve com feu próprio cfpirito , preva- 
leceo a repugnância do feu natural , à titulo de aíTe- 
gurarfe mais. do preceito , e efperar >que o Senhor fe 
declaraffe > e naõ fe ^\\h^msmÃX^f^m^ alguma* 
Terceira vez 5 na terceira noite lhe intimou o Senhor 
defdcaCruz amefma embaixada , dizendo com voz 
mais fentida : DiZ2, afuUm , quz a mtm ^e que bafíajL 
Entaõ finalmente convencida, ctenierofa de faltar a 
hum mandato taõ foberano, e taõ expreíTo, e que 
vindo de tal Senhor naõ podia naõ fer de graviffima 
importância ; cliamou a tal peffoa a titulo de fe con- 
fcíTar com ella , e na confiíTaõ lhe declarou tudo a 
lu^edodo. Ainda que os termos do recado efao**íãa 
b^vcTeefcuros 5 logo o Conf^ffor os penetrou ^por* 
que lhe tocavaõ onde tinha ferida a conciencia> e era^ 
como diz a hifíoria, certo vicio aní íguo , com muitas 

sdnci- 



\ 



iti Efthmlo pYúúcD , 

reincidcncias , e animo de períevcrar nelle , e de tal 
qualidade, que melhor he para callado, do que para 
eícrito. Com efte avifo pois do Ceo , e com as pala- 
vras , que a Serva de Deos accrcfcentou chcas de eí- 
pirito de temor , e amor de Deos , efte peccador íè re- 
duzio ao caminho da verdade, teJJie^\^yi|jljando de feu 
arrependimento com abundantes lagrimas. PoúcÊíUé- 
pois fe aufentou para terra muito diftante da em que 
a Madre Anua refidia, e fobrcvindolhe huma doença 
de perigo , defejou muito , que efta íua iníigne bem- 
feitora eípiritual foubefle do aperto em que fe acha- 
va , porque Deos, parece ^ que o chamava a contas , c 
temia o entrar nellaí;; reprefcntoú-fèlfieTm^íí]^êlo 
encaminhar alguma carta , em razaó da diftancia dos 
lugares, falta de meyos , e urgência da occafiaõ. Toda 
via poz-lhe Deos no coração , que efcreveffe , c poz a 
carta íobrc hum bofete , fem faber porque via a re- 
metteffe , e dalli a pouco voltando para aquella parte 
os olhos naõ vio tal carta. Nefte mefmo tempo che- 
gou à portaria , e roda do Convento , em que a Madre 
Anna vivia , hum homem deíconhecido , de afpefto 
triftc, e feroz, perguntou por ella,cntregoulhe aquel- 
la meíma carta , dizendo, que era hum demónio , que 
Ic chamava Efqulbel , e vinha a trazer-lha por man-r 
dado do Altiífimo; e logo defappareceo. Abrio a Ser- 
va de Deos a carta , e pela data conheceo naõ podia 
haverlhe chegado taó brevemente à maó , fenaõ por 
miniíierio extranatural. Encommendou ao Senhor 
aquelle doente com as veras , que pedia a graveza do 
perigo ^ em que fe achava ,e íbube como tivera morte 
bem aíTombrada , poucas horas depois , que efcrevéra, 
a dita carta. 



Obfer- 



Pura fegtik o bem , efag:r o wol. 1 83 

Obfervaçoens , e doctnnentos moraes 
/obre e(Ie caju. 

COmo a hiftoría: cfpecifíca , que o peccado era 
reincidência antiguaje mais paraçaltadQ do que 
para efcrito , fufficientemente íe deixa canje- 
íturar, feria fragilidade daquelias , eraque a natureza 
humana moftra mais fer de barra frágil, e immúdo.As 
palavras de Chriíio faô as que tem o lentido taõefcu- 
ro como myfteriofo : Díze a fulana^ que a mim , e fjiit 
lajla fá. Parece, quiz aizer O; Senhor : fazelbe faber da 
minha parte , que a mim nada leme efconde, que a 
mim. me he m^nifefto o feu peccado occulto^ Notiíi- 
calhe, que aMageftadc offcndida naõ he mecos que 
d de feu Deo? , Creador, e Redçmptor j declara-lhe, 
que eu fou a quem injuria , a quem defprcza, cuja pre. 
fcnça dcfacata , cuja ley quebranta , e cuja infpiraçaõ 
defconhecc, Dize-lhe, que o feu peccado direitamen- 
te pugna contra minha honra y que fç atreve a mim , 
amim, quefouo que íou, a mim, que o poíTo fepul- 
tar no inferno em hum inftante, a mim , que dey por 
elle a vidaçmhuma Cruz^ e dize-lhe,que bafla já, 
de provocarme , que ponha limite a feus defaforos , 
que naõ ençadee como^i^^^unspeccados com; ou- 
tros , formando delleshuma cadea infinita : efte fenti- 
do fe pode dar a eftas palavras do Senhor , porém fun- 
dafe em. mera conjectura humana :: guts mmtfenfum 
Domtnil 

Dcos nos livre de fazermoscoftume do pçcGado>: 
porque o coftume he outra natureza, e fe tanto cufta 
vencer as repugnancias de, huma natureza, quanto 
çuftará vencera deduas entre ficonfederadasí Será 
huiB milagre taôcftupendo,(diíre Chryfofthomo) co- 



284 Eftimulo pratico^ 

mo arefurreiçaô de hum morto: Tam diificiU ejlltbi^ 
dmofnm cajluati > quam mortaum vtta rejhtuere. E af- 
íim nada tem de incrível , ainda que tem muito de la- 
mentável ^ o que efcreve Santo Anaftaíio Sinaita , que 
conhecera homens de cem annos já carregados de 
achaques , e todos trémulos , que toda via naõ podiaô 
abfteríe da luxuria , opprimidos da efcravidaô do feu 
Lib. Quxítion. "^^^ coftume. Ego arte ( faõ as palavras do Santo) 
quaeft.8. tom. vídívtros ceníumannos natos ^imbectlks & totó fere tre* 
9.Bibiicth.Pa- pfiriíes corpore , çiit tamen nonptuerum abfttmre k pec- 
cato corporali prvpter diuturnam conjtteíudmem. 

Mas o peyor he , que já nefte ettado a alma naõ 

trabalha por vencer os appetites ; taõ cafada cftá já 

com elles , que antes os defende , e deípreza todos os 

ProTcib. is. ^vifos contrarios : Impius ami in profimdum pcccato* 

ipiíi.sdTheo- ^^^^* venertt^conremmí. O impio {diz Salamaõ) quando 

dorum. chegar ao fundo, defpreza: íabeis voz { explica S Joaõ 

Chryíoflhomo) quecoufa he haver o peccador chega- 

<io aoiundo : ^4td ejl vemffe mprofundumí He o mef- 

mo, que ter já feito coftume affentado de peccar: 

Idem êjl quoi ^jf^evtffe peccatis : e huma vez chegado 

a eftes pontos taó fora eftá o peccador de fe pôr em 

armas contra os vícios , que antes defpreza tudo o 

que o podia ajudar contra elle: Cummprofiindum.ve-^ 

nerit , contemmt. Outros lem nefte lugar : Cum m cen- 

triim peccaforum vmertt , contemmt j defpreza quando 

chega ao centro dos pcccados. Todas ascoufas^co- 

LiV». I. dcCce- "^^ enfina o Fílofofo ,defcançao no íeu centro , por- 

ío- que alli fe unem , e confervaõ melhor : Res m centre 

hâbent quietem^ confervatimetn^ c^ nnwncm. Pois como 

o coftume de peccar he centro dos mefmos pcccados^ 

alli defcancaõ os peccados ,e o peccador com clies: 

ai li os une , e confcr va ^ fomentando- amigavelmente 

hwns com outros; finalmente efte centro ^ e fundo do 

coftu- 




Varafegulr o bem , e fugir ornai \%^ 

coflume de pcccar , cila taó pci-to do inferno , que 
quaíi he eftar já no inferno , eflar o peccador neftc 
coflume como diíle S. Clemente Alexandrino : Cm- orar. cxhwtat» 
futtudo ejl bar áí br um & orcus quidam, ^- adgcmts. 

Donde fe infere , que a alma a quem Deos com 
feu braço podcrofo tirou de íemclhante barathro , 
ou profundeza , deve inceffantementedarlhe muitas 
graças por taõ íínalado beneficio ; e dalli por diante 
vigiar lobre fi com dobradas centinellas,acautelan- 
ao muy de longe quaeíquer perigos de tornar a cleí- 
penharíe dentro. 

Mas porque a graça de Deos na converíaò do 
peccador, naó era obra em nós femnós, e naquelle 
mifcravel eftado o peccador naó fabe, que diligencias 
deve applicar da fua parte para naô impedir z effica- 
cia da graça ; e ainda depois de convertido , como bi- 
fonho nas armas do efpirito contra a carne , ignora 
quacs fao, c como convém mane jallas> fera provei- 
tofo apontarmos aqui alguns principaes avifos fobre 
hum e outro ponto. 

Primeiramente \ quando o peccador defeja por 
mercê de Deos defencravarfe do limo \ porém naô 
tem forças , e torna a efcorregar , e a fundirfe dentro? 
as diligencias , que deve fazer , faô as feguintes. Pri- 
meira^ fazer quantas obras boas puder em outro qual- 
quer género de virtudes , em que naó fcnte taõ op- 
primida a íua liberdade y como he dar efmolas y viíitar 
Hofpitaes , perdoar injurias , ouvir Miffas , ouvir a 
palavra de Deos , &c. ; porque fe bem nenhuma delias 
lhe aproveita para merecer graça ^ nem gloria em 
quanto anda em peccado , com tudo Deos como mi- 
fericordiofo fe moverá a tocarlhe no coração com 
infpirações mais frequentes y e fortes para que fe con- 
certa, 

Segunda^ 



%26 Eftifnuto prutico ^ 

Segunda , reze cada dia a Coroa , ou Rof ario de 
NoíTa Senhora , pedindolhe remédio para feus males, 
e ainda que nenhuma devoçaõiinra , nem recolhimen- 
to , c fobrevenhaó muitos negócios , e occupaçoens, 
tenha grande fentido em naô faltar à píigadefle cen- 
fo, ou tributo , para o qua! finále , c determine certa 
hora do dia , ou da noite , certo lugar em cafa ^ ou na 
Igreja , e certo efpaço de tempo , que lhe ha de levar 
á reza para naõ fer atropelada, e diílrahida: e huma 
vez aflTentadas eftas circunftancias > veja naõ fejaf:> 
cil em mudallas , eftando de fobre avifo , que o inimi- 
go ha de procurar impedirlhe efte rccurfo à Virgem, 
c que a pcrfeverança começa a padecer ruina pela mu- 
dança , ainda que feja de bem para melhor. 

Terceira, efcolhaConfeffor certo, que feja ti- 
morato , e amigo de lucrar almas , e com eftc conti- 
nue as fuás confiíToens a intervallos de quatro , oito^ 
ou quando muito quinze dias , quer recahiíTe no pcc- 
cado antiguo,quer na63 ou o abfolva o ConfeíTor, òu 
lhe negue , ou lhe dilate a abfòlvrçaõ 3 on o trate com 
brandura , ou com afpereza ; ou veja fruto dcík con- 
tinuação , ou nenhum fruto veja 5 advertindo porém, 
* Que h:i de fer fiel no defcobrir toda fua con (ciência , 
e obediente quanto pa^mittir fua fragilidade, aos 
confelhos , e preceitos do ConfeíTor, 

Quarta , tenha todos os dias ao menos meya ho- 
ra de Oraçaõ Mental, ou meditação íobre osNovif- 
fimos , confiderando alli em filcncio comfigo mefmo, 
como hc certo , que ha dtí; morrer , e incerto o quan- 
do, e que ha de entrar cm contas com o Supremo 
Juiz , c que os bons tem no Ceo eternos prémios , c 
os má ^s no inferno eternos tormentos : e outra tem- 
porada pode meditar fobre os paíTos da Paixão de 
Chriflo, repartindo-os pelos dias da femana ; c alli 

pon- 



Para/eguir o hem , € fugir o waL i%7 

pondcracdo attentamente como a multidão dos tor- 
mentos do Senhor corrclpondem à dâs ílias culpasrpó- 
de imaginar , que o innoccntiíIimiO Cordeiro lhe eflá 
dizendo cftaniefma palavra do notío exemplo: Balta 
já. Conheci hum grande peccador , que no meyo de. 
AB^OtoSIlí^ enternecia muito , e chorava com et 
ta copla, quentinha de memoria: 

Gjuantio peccas , per/Jaras ,. 

^íe a Chfi/lo fjias açor^ndoy 

Tque ti te dize lloranáo: 

H^jnmme cç<fteswÁs. 
NeÔc cxercicio obíerve a mcfma pontualidade , e de- 
terminação, e hora , e lugar, que acima ciiflemos :,e 
nunca ofoltepor rruy aífliíto, e delccníol?.doquc. 
le veja 5 e ainda que lhe pareça, que lhe accreiccnta. 
as tentaçoens. Mas cafo , que por íua miíeria o i ntcr- 
rompa por alguns dias , to^^ne logo a pegar delk com 
mayor força. 

Quinta^ quando o tentador ritualmente aco- 
mette , he tempo de fc pôr a alma em defeza , e ifto 
logo logo tanto que ouvio o rebate, antes que a fu- 
geftaõ crefça , c o incêndio t^ome forças. As armas 
com que ha de pelei ar, e reííllir íaõ eíías : invocar o 
auxilio de Deos pondofe em oraçaõ y bcnzerfe fre- 
quentemente ,.e lançar em (i Agua Benta ^que para ci- 
te effeito deve eftar à maõ fempre em caía : dizer o 
Credo em voz feníívej y exprimindo com grande fé 
artigo por artigo; íe ha lugar para iíío, tomar- hunia 
difciplina , com a cautella de que naõ veja fcu mefmo 
corpo. Para expellir as efpecies da imaginação , em, 
que o demónio figura o pcccado,.puxara memoriai 
por outras efpecies de algum Crucifixo devoto, que 
de antes fe tenha- viíto^muitas vezes, para que cnraò. 
feja fácil o pintallo na imaginação j.e deíie. modo com: 



a 88 Èftimulo pratico ^ 

hum prego íe lança fora outro. Já com cftas refiflen- 
cias terá o homem forças para fazer hum acflo de re- 
foluçaõ firme , aíTentando comfigo , que antes quer 
fcr levado logo logo pelos demónios em corpo , e al- 
ma para o inícrno, do que confentir em peccado mor- 
tal 5 e com quanta mayor efficacia procurar fazer cftc 
aílo , tanto o tentador fe irá mais deprefla , c voltará 
mais tarde. 

Sexta, advirta porém o peccador, que fendo 
todas eftas diligencias taõ efficazes , nenhuma lhes 
baftará, fe fenaõ aparta da occafiaõ voluntária , quep 
he de fuás tentaçoens, e quedas j porque metidos na 
occafiaõ, até os Santos pcrigaõ , e por iíTo fugiaô mui- 
to longe delia > e os que naô fugíraõ , pagaráõ a pre- 
fumpçaó nefcia com a ruina laíiimofa. O como fe de- 
ve apaitar a dita occafiaõ , pende de doutrinas mais 
individuaes , que fe deixaõ à prudência do Confeffor. 
Quanto ao fegundo eftado , que he quando a peC- 
foa já fahio do máo coftume , porém como tenra na 
virtude corre-perigo de tornar ao vomito , obícrvc 
J as regras feguintes. Primeira , meta mais oraçaõ men- 

W tal , e mais frequência de communhoens , e continue 

' _ fempre a devoção da Virgem. Segunda ,, nunca efteja 

^ ociofo, ecafo, que os negócios, ou occupaçoens fe- 

^ jaõ poucas , déíTc à liçaò de bons livros efpirituaes , 

* c ouça Miffa todos os dias. Terceira , feja parco no 

^ comer , e beber , e dormir , e naõ trate a carne com as 

^ I ^ commodidadcs , e attençoens , que coftumaõ os mun- 

^% ^ danos , fenaõ antes com afpereza , e deíprezo. Quar- 

^ * ^^ ^^ ta , determinefe a evitar também os pcccados veniaes 
\vj^ namcfma matéria cm quecoftumava commetter os 

mortaes. Quinta , fuja de eftranhar , ou efcandalizar- 
íc das quedas do próximo ^ e de querer enfinar virtu- 
des aos outros, quando ainda he bizonho nellas. * Sex- 
ta, 



Para/eguir o bem > e fugir o maL 1 8p 

ta , fc tem fupcriores , como pays , ou Prelados , ou 
Senhores, obíèrve muy pontual obediência para que 
a fua carne obedeça também ao feu efpirito. 

Quando entra em conflido com a tentação ^ 
obfcrve o mefmo modo de dcfendcríe, que acima dií- 
femos. Ambos eíks géneros, ou claíTesdc documcn* 
tos podem fervir para qualquer dos dous eftadoSe E 
quando nenhuma diligencia bafte , e atentaçaô preva- 
leça, cntaô fae ncceíTario, (e rcparefc muito nefte 
avifoporfer de grarxdc importância) naôdcfmayar, 
nem cuidar , que tudo já vay perdido , e naó refta que 
efpcrar em ordem à fua emenda, O demónio entaõ 
procura confundir e aterrar a pobre a alma ^ para que 
defcfperc , c íe entregue antes a fcus appetites , vifto 
que naô pode venccllos j mete-lhe frouxidão nos fan- 
t<i^ exercicios ; turba todo o interior ; efcurece as lu- 
zes do dcfengano , que tinha conhecido ; dalhepref-*^ 
fa a que reitere mais outros peccados fobre aquelle; 
perfuadc-lhe , que naõ appareça em prefença do Pa- 
dre Confeflbr , por naô padecer confufsô , c repre- 
heníaô 5 porém tudo faõ embuftcs do pay da mentira, 
e aflim o que convém nefte cafo^ he ir bufcar logo o 
Padre efpiritual , manifeftar-Ihe as íuas feridas , para 
que lhas torne a curar ; continuar na mefma difpofi- 
ça5 de exercicios , que antes fc tinhaõ , como fe o fra- 
caffb paíTára fó emfonhos^c proceder dalli por dian- 
te com mais cautella, c humildade; e fe mil vezes 
fuccedcr a quebra , mil vezes ha de tratar do repara 
com nova confiança em Deos , o qual vendo noíTa di- 
ligencia, fe compadecerá denoffamífcria, e negará 
â noííbs inimigos a licença de tentamos taõ furiofa- 
mente. Ponha o pcccador em praxe a fobredita cura, 
c^por antiguo que feja o mal , íè verá faò delle. 

Tornando à ponderação do noíTo cafo , note-fc, 

T qac 



290 EJlimuk pratico y 

que o fervir o demónio de correyo para levar aquella 
carta devota, moftra por huma parte a indignidade da 
qiielle peccador , de quem o Senhor eítava muy agra- 
vada , por outra a piedade de Dcos , que o naó quiz 
fruiirar das oraçoens da fua Serva , que lhe eraò mui- 
to aceitas. Affim fuccede a hum Principe, quando nao 
eflá de todo congraçado com alguma peíToa , que o 
aggravou ) e fe entretanto íe oíFercce neceílidade de 
lhe valerem alguma coufa , faz iíTo por via dos feus 
criados inomos , e de menos porte. Poderá fer tam- 
isem 5 que o demónio pcrfuadiíTe a efte peccador fc 
alongalfe daquella terra , por fc temer da íuacommu- 
nicaçaõ com a Serva de Deos^ e aflim jufto foy , que 
quem acoufelhou a aufencia , fuppriíTe os inconve- 
nientes delia fer vindo de coriceyo. 

Naô alcanço , que neceífidadc teve efle máo cf- 
piri to de declarar o íeu nome. Nas Eícrituras fe de- 
clarao os de alguns, para que pela íignificaçaõ conhe- 
çamos os feus officios , e maldades , como o de BeeU 
zebub y que quer dizer Prmcipe das tnofcas , para íígni- 
ficara fua; immundicia, e importunidade. O àc At-^ 
badõnyqwQquQr áizcr Exíerminans , dçftruidor , para 
fignificar a fua inveja e crueldade. O àç. AfmedaWy 
que quer dizer PeccatumabundanSyQh\inàz,nci^ác^ pec- 
çados ^ para fignificar a fua fome de injuriar a Deos, 
ç perder as almas , ou Metiens tgnem ^ o qnç mede o 
fogo, para fignificar como faõ miníftros da Juftiça 
I Dfívina 5 medindo e igualando o fogo dp; tormento in- 
I fernal com o da concupiícencia peccaminofa,^ Mas 
I EfquíM , nao acho que fignifíque ,_nem importa mui- 
to ao cafo , antes melhor he nao lembrar delle, por- 
que eftes eípiritos fa5 taô extremamente íoberbos, 
que íolgm^qnc os nomeemos , ainda que feja para os 
àefprezarmosv 

Nate-fe 



Para feguir o hem , e fugir o mal. t^x 

Note-fe ultimamente, de quanta utilidade he 
cm qualquer Republica algum deites Servos , cu Ser- 
vas xie Deos , que talvez os ímpios e mundanos <icf. 
prezaõ , e lhes parece comem o pa5 de baldç , e carrç- 
gaõ nimiamente os Povos > erraõ impiamente, porque 
qualquer deftas almas he dada por Deos a algum Po- 
vo, por grande mifericordia fua, e para feu bem com- 
mum : tft vir probus non fuum i/intum ^"vemm etiam ^»^ío ^c Somi 
pnbltcum omniiim honnm diíTe Philo Hebrco , c em ou- ""** 
tra parte chama a qualquer deftas almas fundamento 
e pilar de todo o género humano: Reverá fula um ^'^* ll^/^'*^- 
generts bumam pjtm ejt , fuás dotes commumcans ^o-m 
pubhcum ujum conferms. 




EXEMPLO VIL 

Como OS juízos de Deosjao occultos. 

ND ANDO cm viíita certo Bifpo, Vara5 
efpiritual , e rchgiofo , chegou à ribeira 
de hum rio, e querendo repararfe hum 
pouco do cançaíTo, parou para recrear o 
efpj rito com a amenidade do íitio. Eftan- 
do affim quieto com os olhos no fucceífivo tranfito 
das correntes <:riftalinas, e o interior occupado em 
fantos penfamcntos. Ouviohumavoz,quefahiado 
fundo , e madre do meímo rio , e em tom de quem fe 
queixa , c moftra cuidado , dizia claramente : A hora 
he chegada , e o homem nao he chegado. Com eftas pala- 
vras taõ breves , e taò encubertas entrou em admira- 
ção, c em cuidado, julgando , que naõ podia deixar 
de haver alli myfíerio , e coníequencias envolvidas 

T ij nelte 



JJ^< 3' 



i 'p-t E/limulo pratico , 

nclie , c aiiim determinou aguardar alli o fim do íuc- 
cefloj explorava com fumma vigilância, e revolvia 
na imaginação já efte, já aqujelle pcnfamcnto. Quan- 
do vê vir correndo a çavallo hum Clérigo , o qual 
apertava mais obruto com as efporas , c vinha a pai- 
far o rip daqucUa mefma banda^onde o Bifpo fe acha- 
va. O Bifpo difcorrendo com prudente prefagio o 
^ue podia íer, avifoanomefmo. ponto aos ícus cria- 
dos 7 que em nenhum cafo.o deixaffem entrar na agua, 
ôs quaes affim o fizeraõ , pcgandolhe fortemente das 
rédeas docavallo: o Clérigo impaciente ,,c reludan- 
do quanto podia^, clamava : Deixay-me^dçixay.me, 
que a ordem delRey tem prefiCa> apartay-vos, quç 
naò he negocio, que fofra dilaçoens para outro dia, 
tie hum fegredo Real de grave urgência , hcneceflida- 
de inevifavcl. Porém quapto mais-cUe fazia por fe 
dcícmbaraçar ^ tanto mais o Bifpo fé confirmava na 
fua perfpaçaô, e intimava aos fcus ,que nem por bem^. 
nem por mal o largaffèm. Finalmente , o obrigou 
com violência a que ficaffe aquella noite hofpedado 
em fua companhia. Mas, oh mifcravcl, c laftimoft 
condição da natureza humana , que mais facilmente 
podemos acarretar os males quando eftaô longe de 
• nós y do que deCviallos quando eftaô impendentes! Ef- 
tando o Bifpo ^e os mais da fua femilia dormindo , o 
dito hofpede fe levantou^ c achando no apofento hum 
vafo capaz cheyo de agua, metea dentro a cabeça, 
feito cruel verdugo de G. mefmo^ c fe afogou mife- 
^ ' Cai- J^^^velmente , vendoro affim pela manhãa: todos com 
bufd*sn mira- graudc admiraçaõ dos juízos de Dcos ©ceultos. Efle 
!"!!l !!!1^ ^," cafo conta S, Pedro Damiaô, por relação que delk 
íhc fez Hugo , Reitor do MofteiroCluniacenfe. 



Çonje- 



sium eon}.3 



Para feguir o hm , efugw o mal. 193 

Conjeãiira , e moralidade [obre efte cafo^ 

DEÍejará o Leitor formar algum juizo prova- 
rei fobre as cauías dcík fucceffo 5 o que poffa 
inveliigar he , que eltc Clérigo devia ter feito 
pacflo com o demónio , c dado-lbe homenagem , como 
infamementc coftumac os mais filhos da fua folha , 
os quaes metem huns a outros neftc impiiílimo com- 
mercio , e chamaô a Beelzebub fei* Rey , e como a tal 
obedecem pontualiífimamente fobpcna de graviffi- 
mas penas, Efte demónio pois lhe devia ter armado 
occultamcnte a morte , afogando-o naquellc rio para. 
acabar de lhe levar a alma aos tormentos eternos, que 
he toda a fua per tenção e anciã j epara queíucce- 
deffe conforme o íèu intento , devia ter paffado avifo 
a outro demonio,que por ventura feria daquella cf- 
pecic , que chamaô aqueos , e rcfidem nos rios , e la- Michael Pfdí 
goas , ( afíim como os aéreos andaô pela rcgiaõ do ar, ^"» »« Diaiog» 
e os metallicos aíliftem nas minas e cavernas ) para dxmonum*"^ 
que ao paffar por alli à tal hora o dito Clcrigo^lhe der- 
rubaíTe o cavallo , e o afogaffe : e logo à parte orde- 
nou ao mefmo Clérigo foíTe à outra banda do rio à 
certa diligencia , com termo prefixo , e comminaçaô 
de pena. Ifto fuppofto, o demónio aqueo naõ íofrcn- 
do a mínima tardança , dizia : A hora he chegada , c 
o homem naõ he chegado j e difpoz a Divina Provi- 
dencia , que o diffeffe em voz íenfivel , prefente o Bif- 
po, para dar por efta via o ultimo auxilio áquclle pcc- 
cador , com que podia efcapar da condenação. Em or- 
dem ao que, o Anjo boj[n procurou impedir a traça do 
demónio , imprimindo na mente e coração do Bifpo 
os temores, juízos, e diligencias , que ouvimos. Po^ 
rém como os peccados daquelle miferavel efíavaô já 

T iij com- 



3 94 Eftimulo pratico , 

completos , prcvalecco o demónio , ateimando no feu 
deftino primeiro de afogalio 3 e aíTim o fez no íilencio 
da noite , ou já turbando a fantaíia do paciente , ou 
metendoihe elle mcfmo violentamente a cabeça de- 
baixo da agua. 

Sem rodearmos tanto , podemos também enten- 
der 5 que efte Clérigo bufcava delefperado a fua mor- 
te por vehementc tentação do demónio , o qual o eí- 
pcrava no dito lugar , e tempo , porque elle meímo 
lho tinha fugerido j e por fc naô impedir efte defignio 
fingia o Clérigo levar meníágem Real de grande im- 
portância. 

De qualquer modo , que foffe y daqui fc moflra, 
como os juízos de Dcos na diípofiçaõ , e permiffaô dos 
lances da vida humana faõ Íngremes , e inaccefliveis 
ao noflb difcurfo. Traz Deos por aquella parte do 
rio aquelle feu Servo à hora , que havia fucceder o ca- 
io; deixa, que fe cative da amenidade do íitio , pa- 
raque faça alli detença h difpoem , que perceba feníi- 
velmente aquella voz inopinada \ dalhe luz para que 
atine com o miftcrio delia , ao menos por mayor; con- 
corre com as fuás diligencias , para prohibir a paffa- 
gem daqucUe homem , e obriga-o a hofpedarfe em fua 
companhia rC comtudo fuccedc tudo taô pelo con- 
trario, como íc o mefmo Biípo ajudara a effcituar a 
' delgraça. 

He certo , que naô ha fado , nem fortuna , como 
os Gentios cuidavaõ: ccomo diffc hum Douto $ os 
que parecem arrojos da fortuna cega , naõ faõ fenaõ 
o Paáfc Frart- direcçôcs da Providencia chea de o\hos:Non caca fer^ 
éoB^f ^"" ^^^ ^fi^J^à oculata Provtdeníta. E comtudo tomaô 
às vezes as coufas por qualquer leviílima occafiaõ 
hum curfo taõ defapodcrado , e indeclinável , que pa- 
rece fatal deftino , o que rjtaô hc íenaõ difpofiçaõ pre- 

ordenada. 



auin.|. 



Para feguir o hem , e fugir o mal i ^ f 

ordenada. Sygeberto , na Chronica refere^ que Ro- 
tholdo Duque de Frizia convertido à Fé Cathoiica 
por S. Vulfrado , eftando já com hum pê na pia para 
receber o Sagrado Bautifmo^fufpendeo o outro;c per- 
guntou aonde eftavaõ os mais de feus antepaffados, fc 
no Ceo , fe no inferno ? E fendolhc refpondido , que 
no inferno , tirou fora o pê, e diffe : Naó quero outra 
Icy , vamos onde eftao os mais > dallí a três dias mor- 
rco fubitamente. Veja-fe como a balança da íalvaçaõ 
defte Principe eftcve ouro fio , e neutral entre a fum- 
ma ditta, e a fumma difgraça : e com huma leve pa- 
lha de hum penfamento volátil ^ que lhe íobreveyo, 
propendeu para o inferno , c perdeo-fe efta alma. 

Mais notável foy o cafo do Scifma de Inglaterra, in CoMidvátivs 
e o ponto de que dependeo poderíc atalhar facilmen- ",^^""®***** 
te , fegundo refere Spondano.Eftava o Papa Clemente 
VIL deliberado a declarar por excommungado a El- 
Rey Henrique > e fomente fe eíperava em Roma hum 
certo dia prefixo , pelo corrcyo, que havia de trazer o 
negocio concordado; íe he , que o dito Rcy queria 
ceder da contumácia. PaíTado o dito termo , naõ qui- 
zeraô efpcrar mais os Cardeacs , e Pontífice , e publi- 
coufe a íentença. Dalli a dous dias chegou o correyò 
com poderes ampliílimos para fe dar o melhor corte 
qúe pudeíTc fer na matéria; porém já foy tarde : o Rey 
entaõ fabendo, qile o publicavaõ excommungado, to- 
mou ^ como cavallo rebelião , o freyo entre Os dentes, 
efacudio o jugo da obediência , cfeguio-íe ainnun- 
daçaô de calamidades efpirituaes, e temporaes , que 
ha cento e feíTenta annos fe experimentaõ. Aqui fe 
levanta logo orgulhofo o juizo humano , perguntan- 
do , porque naõ poz a fumma Clemência de noíTo 
Deos e Senhor no coração daquelle Pontífice , ou nos 
dos que o aconfclhárarõjque efperaíTe mais algum tem- 

T iiij po^ 



lib. 17. Mor. 
Gap. A. 



296 E/Iimu/opraticOj 

po 5 pois previa 5 que deftc modo fe atalhava tanta 
perdição de almas > porém bem diz S. Gregório , que 
os juízos Divinos com quanto menos clareza íe po- 
dem defcobrix , com tanta mayor humildade fe de- 
ve n venerar : Judicia Dei quanta obfcuritate nequeunt 
conf^ict , tanta kumtlttattdtbent vemraru 



BMch.37.tcrf. 



^aR.i.dafua 

íuaVidtiib.F. 
«p.3. 



EXEMPLO XXVUL 

De quam neceffario he para os que entraõ na 

vida e/piritual\ fundar fe bemnamedita- 

çab da morte , e defengano da vai^ 

d^dedojeculo. 

Faíía eft fuper mt manus íDomim , e^ dimtft me m 
imdio campi , qui erat plmm ojjibus y é* circunh 
dmttmepíreatngyro. 

UERENDO Deos Noffo Senhor levantar 
no efpirito da Venerável Serva fua Ma- 
rianna de JESUS , de que acima fazemos 
menção , hum muy alto^e feguro edifício 
de virtudes , abrÍQ-lhe primeiro os alicerícs em huma 
profunda confideraçaõ da morte , edefprezode todas 
as coufas viííveis ? couíà por certo maravilhofa , e que 
facilmente fe naõ encontrará nas Vidas dos Santos- 
Por efpaço continuo cie dous annos^, todas as peíFoas 
que via cíia Serva de Deos , aflim em fua cafa , como 
fora delia, fe lhe repi^fentavaó em figura da morte; 
porque íòmtntc via a armação da oíTada ^ c quando 
andavaõ ouvia o ruído de alguns offos jugando com 
os outro3 > e reparava como fc tocavaõ ^ emoviaôpar 

1^ 




Parajegtik o bem , e fugir o maL 1 97 
ra fazerem cada qual o feu natural officio. Do meí- 
mo modo íe algumas amigas chegavaò a iaúdaila , e íe 
ofFerecia abraçallas , parecia-lhe que tocava , c abra- 
çava fomente os offos , e que os lentia frios. Sc jan- 
tava em fua cafa , ou fora delia com alguma peíloa , 
viaaflíftir àmeía huma morte; quando íe hia deitar 
na cama , também a íi mefma fe via em figura de mor- 
te , e nem mais nem menos a qualquer outra peífoa , 
que dormiíTe ao feu lado no mefmo apoíento \ e da 
vifta, e trato deftas peíToas^lhe refultava às vezes hum 
bafio , e fortum de terra mais vehemcnte do que íahe 
das fepulturas , quando fe abrem. Era coufa de admi- 
rar , que quando alguém lhe fallava , via que os oíTos 
da barba , e queixo inferior eftavaô pendentes d i iua 
caveira fobre os offos da garganta 3 e até os dentes eí- 
tava5 todos taò defpidos de carne , como os mais of- 
fos, mascada hum no feu lugar. Etoda eftafibrica 
ao formarfe as palavras e fyliabas fazia ruido , e fe 
abria a boca, taó defcompaíladamente, que metia hor^ 
ror 5 porque cahindo. fobre a garganta toda a parte 
inferior dos oíTos y era neceffario cada vez que a pef- 
foa repetia outra palavra, tornaríe a levantar, ajur- 
tandofe com a queixada de cima 5 c as palavras pare- 
cia que íahiaõ de hum poço muy fundo: e para diflin- 
guir as peíToas pela voz concorria.Deos com efpeciai 
noticia. Juntamente padecia grande tormento com a 
refpiraçaõ,. ou alento deftas peíToas , que chcgavaõ a 
fallar-lhe, porque íentia o máa cheiro da morte, c 
corrupção de forte, que lhe fazia exceíTivas dores de 
cabeça ; em todao efpaço dos ditos dous annos , na6,. 
vio peflToa alguma humana , fenaò debaixo deôa fu- 
neftac horrivcl repreíentaçaõ ; a qual como lhe eftava 
entrando na alma continuam.ente pelos fentidca dai 
vifta , ouvido^ cheiro , e tado : foraõ inexplicáveis a^ 



1 9 8 Èftimuío pYtíúc0 , 

triftc2ft^-5 tédios , c horrores , que a Serva de Deos pa- 
dccco. Até que hum dia vendofe fummamente affli- 
gida , pcdio a Noffo Senhor fe ferviíTe de conceder- 
Ihe algumas peffoas com quem pudeíí e converfar , de- 
baixo de forma humana viva. Eftando nefte dcfejo^ 
vio de repente o íeu apoíento cheyo de muitas mor* 
tcs > tantas , que naõ cabendo fe apertavaõ humas com 
outras, e colhendo no meyo a Serva de Deos, feaf- 
fcntáraõ, e a fízeraõ aflentar comfigo; e fupf ofto, que 
fe quiz fahir , na© pode , nem moverfe por cfpaço de 
três ou quatro horas , que durou a converfa^aô ou 
conferencia , que logo diremos j e aílim rccorreo a fa- 
zer muitos a<ílos de refignaçaõ na Divina vontade, e 
a pedir ao Senhor animo para foportar taó novo e 
pavorofo efpeítaculo» Começou pois a conferencia?) 
c a matéria ou pontos delia , todos eraô íobre a mor- 
te , os interlocutores aquellas mefmas mortes , ou oí* 
fadas, que diíTemos, eas vozes roucas, lúgubres, e 
lamentofas: huma lhe dizia : Que fe ha de confumir, 
e desfazer efta carne ! Outra lhe dizia : Que cada oíTo 
deftes Je ha de deíatar dos outros ! Outra refpondia: 
Que todos os goftos, e prazeres dos ícntidos fe haõ de 
acabar ! Logo accrefcenrou outra: Que ha de vir temj 
po , em que nenhuma acçaõ boa, nem má poíTaõ exer- 
citar eftes membros ! Outra fahia dizendo : Oh que 
quanto mais carregada , e preza eftiver aalma às cou- 
fas da terra , tanto mayor anguftia , tribulação , e pe- 

20 fentirá naquelle tempo! Outra dizia : Oh que de*- 
fatino , que loudura , dcixarfe levar dos appetites ! 
Outra clamava ; Vaidade de vaidades , e tudo vaida-* 
de. E defte modo foraò todas as mais fahindo com a 
fuafentença, ciMfando ifto no coração da Serva de 
Deos extraordinários efFeitos de conhecimento pro-^ 
prio , defprezo do mundo , humildade profunda , dor 

intcnfa 



Píira feguir o hm ^ e fugir q ma!. \f^ 

íntenfa de ter oífcndido a Deos , e dado gofto ao cor- 
po , c refoluçaô miiy affcntada de começar nova vi- 
da. Finalmente défappareceo toda aquclia vifaõ , e a 
Serva de Deos fe achou taõ alheada, e cíiranha de to- 
das as coufas viíiveis e terrenas , que nenhuma lhe 
entrava das portas do coração para dentro, nem o 
gofto achava de que liíongcarfe nellas : e dalli por 
diante vio as peíToas na fua natural eípecie, e forma 
viva,. 



A K N O T A Ç O E N S, 



^'T Aõ fe embarace o Leitor no credito defta ma- 
J ravilhofa vifaõ , por íer taõ diuturna , e conti- 
. nuada > porque Deos naõ íe obrigou a amoldar- 
fe às regras do noffo dilcurfo ; e feus difcurfos e pen- 
famentos vaõ exaltados acima dos noffos , como os 
Ceos acima da terra: Sicui exaltantur Coêlt kterra^fíc if^^g 55, ycrf. 
exaltatafunt via mea à vtts vejlt v^ ^^ cogitai tom s me£ 9. 
acogítatiombn$ veftm. A Santa Therefa de JESUS 
durou dous annos emeyoavifaõ imaginaria da Hu- 
manidade de Chriflo rcfufcitado , como cila refere na 
fua Vida, dizendo: Que a fua Claridade era tan- Cap.i^ 
ta, Glne parece una €(/fã tan deslujlrada la cUridâddel cap.i«. 
Sol ^ que vemos >^en campar acton de aquella clúndadyluz, 
quefc reprffenía a la vtjta , que noquerrtan abrir los ojos 
defpues :es como ver una agua muy clara , que corre fo*. 
bre chrtjhily y reverbera en ella el Sol , a una muy turb^a^ 
y congran nubUdo , y que corre por en cima de la íterra. 

Ao Santo B;ípo Dom Joaõ Palafox durou tam- ^^ f^^ y-^ 
bem muit©s annos outra viíaõ também imaginaria de imcrior , cap. 
Chrifto Salvador noflb, que elle refere aíTim , fallan- 54- 
do de íi em terceira peíToa : Saliendo una manarja {fe* 
na como a las onZ'? dei dia) de fervtr a los pobres (^^^ cl 



joo E/limu/o prático i 

Hofpital , tomofu coche para ir vifiíar ma Imagen de ãe* 
vocion , c^í". 7 afets , o ocbo pajjos de haver partido , ví§ 
ai lado derecho a nucflro Sciíor en figura de Salvador a 
fie caminando ãZíã donde iha ejh peccador $ el ycjlido a 
ttmica parecia morado ^ de color algo claro ^ el rojío her-^ 
mofiffimo fohremariera , los pus dejcalps^el pelocajiano^ 
los ojos clarâs y hermofos , el femblante grave , humano^ 
per o alegre , y quando vto aquello fe tnternectõ , y quanto 
caminava el coche , tba cjle Senor caminando, Los ojos 
con que lo veja erati de la imagmacton : mas nonpuede ju- 
rar , que de ella folo , porque injlinan tan ejficazmente ai 
entendimtento , crãenfavan de talfmrte la voluntad , yfi 
poma tan prefente a los de el cuerpo > que con todos ellos pa^ 
recequelo veya. Apeofe ^y fiempre le parecia^ qnecami- 
nava a poços paffos 5 como a quatro o Jeif de fu prefençia^ 
a la mano derecha en pie. Jlgunai vezes volvia loi ojos 
a la otra parte dei coche , y alli fe U poma , como a la otra 
parte , de forte , que lefue continuando efta prefenaa cer^ 
ca de fets anos 5 y hafia aora no je le h-i quitado de el to» 
dogmas o men.s , conforme ha fido fn voluntad. 
Lib. i.cap. 1. Muito mais tcinpo durou outra maravilhofa vi- 

da Vida dcHa Ci5 quc tcvc a Beata Juliana , Prioreffa do Mofteiro 
^^ZrhZoT ^^ Monte Cornelio em Liege , Cidade de Françaj dei- 
5. de Abril. de a idade de dezafeis annos , todas as vezes que efta 
Santa Virgem fe punha em oraçaõ, via huma lua cia- 
ra, e que lhe faltava hum pouco para chea e perfei- 
tamente orbicular. Foraô muitas as diligencias que 
fez , e meyos que tomou para apartar de fi efta vifta, 
porém nunca já mais podes nem para iffo lhe valéraò 
mu7 fcrvoroías fupplicas a Deos , fuás , e de outras 
peíToas amigas do Senhor, a quem rogava, que lhe 
alcançaíTcm fer livre de certa tentação importuna , 
que a moleftava. Até qentrou em penfamento de que 
melhor feria pedir a Chrifto lhe declaraffe o myftcrio 

daquelle 



Varafeguir o òem , e fugir o mat. 3 o i 
daqucUe final , c o Senhor lhe revelou , que a Lua era 
a fua Igreja Santa na terra, à qual faltava para íua ple- 
na fermolura celebrar fefla particular da inftituiçaõ 
do- Santiílimo Sacramento y da qual feita ella queria 
foffe a proteílora, e primeiro iniirumcnto ? e ainda 
que a Serva de Deos por fua profundiíGma humildade 
naò íe aquietou com cfta commiffaõ , antes repugnou 
muitas vezes até chegar em prefenca do Senhor a chc? 
rar fangue em luga^ de lagrimas, por eftarcm feus 
olhos já exhauftos ; finalmente a cabo de vinte annos 
deídc a primeira vifa5> veyo a renderfe à vontade Di^ 
vina, c teve cfta o feu efFeito por via de Joaô de Lau- 
fenna., Cónego da Igreja de S. Martinho na dita Ci- 
dade de Liegc > a quem a Santa Virgemcommunicou 
o que paíTára, c daqui chegou à noticia de Jacoba 
Pantaleaó, ou de Trecis, Doutor em Theologia, s 
Jurifprudenciajque dç filho de hum Ç apateixo rem^n- ,.,^..„,,.,^ 
daô, conduzindo-o a Celeftial Providencia ^chegou a 
fer Arcediago, daquella Igreja Leodienfe, c depois 
Bifpo Verdunenfe , (ou de Vcrdun) e logo Patriareha 
de Jerufalcm , e finalmente noanno demil duzentos ^ 
feffenta e hum foy eleito Summo Pontífice Romana^ 
com o nome de Urbano IV. g no feguinte anno pa& 
fou Bulia, cm que mandou celebraíTc toda a Igreja Ca- 
tholica aFeíla de Corpus Chnftí; com q:Ue ficou S^cm Ph*m. u.hi(. 
Lunaperfeãdin/eternum. ^^^ 

AS., Luís Bcrtraõ durou por oito annoscontl- 
nuos de dia e de noite a vifaó da alma de feu pay , que 
padecia graviíTimas penas no Purgato^ioj e humas ve- - \ 
zes o via precipitar de huma altiflima torre abaixo 5. 
outras fcr acutilado com muitas feridas , outras pa- 
decer outros, géneros de penas s com a qual viíla an- 
dava o Santo muy trifte , e fazia quantas peniteíicias 
|K)dia por ;illiyiar a feu pay, até que hum dia o via 
.1* chey<^'. 



3^^ Efli^fi^oprinico'^ 

cheyo de gozo e alegria cm huns jardins amenos, e 

dalli por diante ccíToii a vifaõ funeiia. Naô deixarey 

nefte lugar de apontar a principal caufa porque efta 

alma penou tanto. Perguntou-lfaa o meíino filhote 

Xucai Liiicfc, refpondco : que havia fido íervidor muy continuo de 

na Vida dcítc j^u^q Principc , c Dor andar nos íeus negócios , e aiuf- 

5. taríe as luas vontades , que nao erao licitas , commet- 

tera muitos peccados; 

Quiz dar relação deftes exemplos mais circuns- 
tanciada, do que para o prefente intento era neceíTa- 
rio , porque o levo também de que o Leitor por via 
de huma hiftoria fe faça noticiofo de outras , nao me- 
nos proveitofas^ aífim , que bem podia efta viíaõ da 
Serva de Dcos Marianna durar dous annos , fem illu- 
faó do efpirito próprio , ou dcmoniaco j porém creyo, 
que mais duraria, íe o Senhor naõ quizej||j^itóíi^ 
piedofo aos clamores de fua Serva atribuída , e atrcl; 
viarlhe o que faltava ainda daquellas efpecies horro- 
roías para lhe caldear o eípirito na têmpera conveni- 
ente , dando-lhSs todas jílfíftTna ultima fcena daqucU 
le trágico efpeâaculo. Aprendaô aqui os efpirituacs^ 
que quando íiias tribulaçoens fe aggravaó,tenhaõ por 
J certo , que eftá próximo o fim delias. A' tempeftadc 
|f grande chamamos desfeita , porque o mefmo he cref- 
PWrn.^^ftrí. cer,que desfazeríe: Advefperumdemorabiturfletus^ 
^' ( ó'íidmsintmumiíetitia. 

I Só o efpirito Santo he verdadeiro Dircdlor , e Pa- 

dre cfpiritual , c quando eflc Diredor ha de dar huma 
meditação da morte , defte modo a dá. A compofiçao 
de lugar faõ muitas mortes vivas, e prefentes de dia 
c de noite , prefentes, digo, naõ fó exteriormente , fe 
naõ intimas ao efpirito por via da imaginação , c à 
imagin*.ça5 por via de todos os fentidos. Os pontos 
todos fe reduzem àquelk ponto , de que pende a eter- 
nidade^ 



Purafeguir bem , e fugir o mal. 30 3 

nidade 5 e que parte o viíivel do invifivel. Os frutos 
faò os que ouvimos colheo efta exercitante ; negação 
do amor próprio , deíprezo do bem e rnai , que tejii 
fim , horror a tudo o d.cleitavel , ainda licito , temor 
da ofFenía de Deos, ainda icviffima , prcmptidaô con- 
tinua par.?, fahir da cafa da vaidade para a da verdade». 

Por falta deita meditação ha no mundo tantos 
cegos : naõ querem,ospôr fobre os olhos da alma opô 
da noffa mortandade Pulvts. es amaíFado cpm a li- 
Uva de Chrifto, ifto he, com o influxo da íiia gra- 
ça. Que havemos de morrer , todos o labemos ^raros 
Q meditamos, ou fe talvez o meditamos, ^^ t^^^Ssède 
paíro,quemal pode contrapezar à vaidade é"eiiga- 
no de todo hum mundo , em que andamos fumidos y 
ifto he , tomar à morte fó o gofto na língua , para ia- 
bcr ftllar da morte , e naõ digerilla no eilamago, para 
poder reformar a vida. 

Todas as fcienciâs tem feus prinGipios , íobre 
que armaõ as fuás conclufoens , e dciqui fe gera no en- , '^ 
tendimento o habito delias. Da fciencia de viver bem, 
que he importantiffims , hum dos mais univerfaes 
principios he confiderar no fim da mçfma vida : daqui 
í.e tiraô as conclufoens de quaíi todas as virtudes. Se 
hcy de morrer , e pqdc fer logo , em que fundo tantas 
^fperanças e intentos? Ifto he fonhar eftatuas de 
Nabuco , oura, prata , bronze, ferro , tudo fobre bar- 
ro. Se hey de morrer , c efles membros haõ de fer man- 
jar de bichos , afco , e podridão ; para que he tantas di- 
licias na mefa , e ta5 prevenidas , eeftu dadas , que he 
neceíTario compor livros e artes de cofinhae Verda- 
de he , quedefte mefmo principio inferem alguns, co*. 
iner, chchci-^mús: Comedamm ^^ èibamus ^cra^emm if^ias i^Teif* 
w<9r/ra/ir. Maseftaillaçi5h€deAtíieiftas,oudenef. ^^7, • l ^, 
çiQsj porque antes Iç deve mfen r, jejuemos, e orc-^ 3^1. 

mosL 



304 Efiifmíopratkúj 

mos , porque à manhãa morreremos , diz Santo Agôt 
lo Pfaltn. 70. tlnho: Aiidt emir a â me^iejummiis , c^ oremus , eras 
ttf, 8. ^nim monemur. Se hey de m )rrer , e nada da terra hey 

de levar comigo., c para viver entretanto aqui , me 
baila , e fobra o que tenho , para que he tanto difvel- 
lo e fadiga em adquirir mais riquezas? O meímo 
Luc.ft.Ktí. Deos chama a iftoeftulticia e fatiaidade: Sfultehãc 
*°* noEíe animam tuam repetunt à te : qu^ autem parajli , cu- 

jus erunt : Se hey de morrer , c naõ fey quando , e íó 
a preíente vida he tempo de merecer gloria , e íatisfa* 
zer por peccados ; em que ridicularias e jogos de 
meninos efpcrdiço cou fa ta5 precipfa, como o tempo; 
e íó de adquirir o Reynò do Ceo^ e eícapar do infer- 
no , e fazerme grato a meu Deos , que me ha de jul- 
gar , naõ Guido^ nem trato , como fe me naõ importa- 
£ce!c(.ferf.io« ra ? ^(odcumque facere poí e/t manuí tua Çdiz O EcciC" 
íiaíles ) injlanter operare^ quia nec opus , nec ratio ^nec 
Japientta , necfctentia erunt apud tnferos^quo íuproperas. 
Se hey de morrer , c pôde fer hoje , c pode fsr 
logo fem nenhum milagre j e immediato à morte fe fe- 
gue o m.eu juizo , e atraz do juizo a pena eterna do 
pcccado.j como me atrevo a andar a<ftualmcnte em 
peccauo mortal ? Como naõ tenho preparadas as con- 
tas? Qudmodõ viver e potes uhí mori non andes ^^ DiíTe 
hum Santo Padre; e como naõ tenho feito as refti- 
tuições , quvc devo, de honra, ou de fazenda , por con- 
trato, ou delixflo, pois os vivos logo íe efquecem 
dos mortos. 

Sc hey de morrer , e com a morte tem fim todos 
os trabalhos, afperezas, e defconíoIaçóes,epczarcs 
dcfte mundo ^e nada do que tem fim fe pode chamar 
abfolutamente grande, como tenho por grandes , e 
infopjrtaveis os meus trabalhos ,e me queixo ,e im- 
paciento 5 e murmuro contra o mefmo Deos. 

Se 



Para feguir o hcm , e/^/gir o mal. ^o^ 

Se hey de morrer , e tudo acaba ^ excepto unica^ 
•mente o amor , que fe emprega em Deos , como o emr 
prego , parece que de propoíito , em tudo o mais , que 
naõ he Deos ^ E como buíco com tal anello , e traba- 
lho por confcrvar com tanto efludo a graça dos Prin*- 
cipes > e por outra parte , quaíi nada pela de J E S XJ 
Chrifto ? E como naôéícolho aquelle eftado , e porte 
de vida , em que hc mais certo e fácil íervir a Chriír 
to , e que á hora da morte folgarey muito haver cfco- 
Ihido ? O Venerável Bernardo de Quinta vai, primei- 
ro companheiro do Seráfico Padre S. Francifco eftan-^ 
do cm paíTamento , deu efta doutrina aos Frades , que 
fc achavaõ ao redor da fua pobre cama : Meus irmãos^ 
o eftado que eu tive , taõ bem vós o tendes , e no efta- 
do em que me vejo agora, vós também vos vereis. O 
que acho , me diz a confciencia he , que naô quizera, 
nem por mil mundos haver deixado de fervir a JESlí 
Chriflo. 

Finalmente , ( por naõ dilatarmos nimiamente o 
difcurfo) fe hey de morrer , porque naõ quero cuidar 
cm que hey de morrer ? E cuidar ainda cada dia , pois 
cada dia vou morrendo , c cada dia pode acabar de vir 
a morte? O Beato Alcuino , difputando com hum 
Principe filho doEmperador Carlos Magno , diifinio 
a morte deftc modo : Morse/ilatro homims, A marte 
hc o ladraõ do homem. Os ladrocns , ora levaõ o di- 
nheiro , ora a joya , ora o veftido , ou qualquer outra 
peça ou alfaya 3 o que a morte leva , he o homem. Ef- 
tava aquipoucip ha entre nós fulanq, noffo irmaõ , ou 
filho , ou amigo : de repente naõ ó vemos , nem nos fe- 
guintes dias , ou annos apparcce , e onde quer que o 
bufqucm naõ apparecerá já mais , falvo no dia do jui- 
zo. Que he feito defte homem? Onde fefumio fula- 
no? Levou-o o ladraõ 3 furtou-o a morte ; Mors^lãT 

Y tu 




|o<> Efiimulo pratico , 

iro bomimsj e com razaó fc diz , que o furtou , porque 
a morte naõ era.fonhora cio homem: G^uornam Dei4ó 
fecit homimm tmxtermmabdem \ c hc ladraõ. cik a que 
fe naõ podcra.fcchar as portas ; porque noíTo primei- 
ro, pay jt:omo dono deita cafa do mundo, as abrio por 
bu ni vez,e Ihedeu paíTagem para nós todos: Per 
unum homintm^ peccaíum tn hunc mmdum intravu , <:^ 
per peccatum tnors ^ & tta tn omnes bomwes mors. per 
tranfpt. Mas fe as portas najõ podem eftar fechadas 
p^iraerte ladraõ^aomenos podemos vigiar dç dentro 
quando vem;^ para que roube o menos , que poíTa rou- 
bar: o que mpnos a morte pode roubarnosrfaô as cou- 
f?*s deftc mundo , o corpo , e a uniaõ deile àalma. Le- 
ye irto embora; mas haja de mais a mais virtudes , e 
muitos merecimentos de obras fantas, muitas rique- 
zas de amor de Deos , que nefta fazenda naó faz boa 
preza cfle ladraô , nem já mais. a poderá arrancar 
da alma; antes a eftabelecc , e affegura na poffe delia. 
Vigiemos pois cada dia , e cada hora cm adquirir vir- ^ 
tudes , já que he certo , que ha de vir , e incerto quan- 
do ha de vir o ladraõ , c tudo , fenaõ ifto , ha de levar. , 
Todas eftas conçlufoensiap imporcantiílimas pa- 
ra Huma boa vida , e todas fc deduzem daquellç prin- 
cipio da confideraçaó da morte; porque como fabia^ 
mcpte diffe GuilhclmaParifienfe , aflim como, o Pilo- 
to , que quer governar a nao, fe põem na ultima parte 
da nao , quç hc a poupa , aílirn quem quizer>gQvernar 
a vida, fe ha de pôr. na ultima parte da vida ,. que hc 
j„ Po- ^ morte :«y/r«/ tile quimbregerjfiavem yponitfetn ul- 
winica I . Ad- ftma parfc navis yficqui bem vult dirigere vttamftiatn^ 
t "MUjtes 5. àebet Ce ponere infinevttape;r moxttspiemnãm. Oicí- 
Ccd ac icft.mi- tamcfíto do faldado e ícri to. no po da campanha y dif- 
^^^^ põem Q direito , que valha. Todo o homem nefla vi- 

da milit i , como diffe Job , e o feu corpo , cefte mun- 
do, 



:>crm.i. 



Para fegutr o bem , e fugir o %nal 307 

'<!o , ambos terra, faõ a campanha : Mthíta eji vita ho^ 
fntms fuper ferram ^ a terra do corpo he campanha das 
fuás guerras civis te intcflinas i a terra do mundo he 
a campanha das íuas guerras exteriores. Só os deícn- 
ganados efcreVem no oò , tendo proxtmos iiâ fua con- 
fideraçaõ o pò da faa mortalidade , e o pò da vaidade 
do mundoi e o que entaó diípoem de íi e íuas coufas, 
iíTo heoque vai. Oh quantos morrem íem fazer eite 
teftamento a tempo conveniente ! e podendo ficar 
Deos herdeiro deíiias almas , como ohe de todos os 
que o amáraõ , c morrerão em graça ; Cum dederit di* ^ri 
iectts juis jomnum ^ ecce hcrcdnas JJomim-i filíiyhcao >err.$. 
feus corpos herdeiros de bichos , c íerpentes na fepul- 
tura ; e o que peyor he , ficaõ também íuas âlmasher- 
deifas de outras fcrpetitcs, e bichos mais venenoíos 
no inferno: Cum mortetur /jorHo yhenditaht fèrpentes^ Éccicf.io.?cir, 
& befttaSy & vermes-^ e herdeiros emfim forçados^, ty, 
pois todo o corpo humano hè filho da perdição : Pum J«b 17. ferf.i4« 
tredini dixi Pater meus es\ c todo o péccador impeni- 
tente he filho do diabo : Pl)s expatre diabõlo ejlts. ^°*"» ^* ^«^' 

44* 

EXEMPLO XXIX. 

Dd p nà mterúcffao da Virgem ^^ ' 

IVIA em Conftantinopla hum mcrcadót 
y rico, e timorato, o qua] cahindo depois 
^ em pobreza, nem por iífo defcahio da vir- 
) tude, CompcUido da neceífidade, pedio â 
hum Judeo dinheiros emprefíados. Naõ 
quizefte aventurallos fem penhor, ou fiança de todo 
o abono. E o mercador , valendofe dos cabedaes da 




30 8 E^mui/o prativG\ 

fé y que a fortuna lhe naô levara , diflt cheyo de ge* 
neroíh confiança : Darvos-hey por fiadora a Virgem 
MARIA. Aceitou o Hebreo,por faber,quc efta Senhor 
ra era abaixo de Deos , a principal efperança , e a mais 
Sagrada ancora de todos os Chriíláos. Celebrou-fe 
pois o concertoem prcícnça de huma Imagem da Vir- 
gem 5 finalando dia prefixo em que o acrédor havia 
de recobrar o feu dinheiro. Embarcado logo o mer- 
cador para Alexandria^ teve alli taó profpero fucceí- 
fo dos fcus negócios , que dentra em hum anno fe vio 
rico y c poíTante para foccorrer a outros ncceffitados. 
Chegâck> porém o dia certo da paga, e fendo-lhe im- 
poffivel voltar para Conftantinopla dentro deite tem- 
po 5 e defejando fumraamente dcfcmpenhar o credito 
da íua fiadora: que faria? Conta o dinheiro, metc-o 
cm huma arquinha, fecha-a como fcufello ,.poem-lhe 
hum letreiro, que dizia : Recebe Abraham , (eftc era 
o nome do Hebreo ) o dinheiro , que me empreftafte; 
c naquella mefma noite antecedente ao tal dia da pa- 
ga, vay-fe àpraya, entrega a arquinha às ondas do 
mar, rogando à Virgem Sicratiffima a encaminhaííe 
de forte , que chegaíTe às mãos do íeu acrédor , a tem- 
po conveniente , íem embaf go, de fer a diftajacia tan* 
ta. Naõ lhe efquecco a Abraham , que era chegado o 
prazoQa fua çôbivinç^^^^^^^^ tinha efcritomais 

nos mempj^^jgíi da fua avareza . que nos livros de cai- 
xa, c aílím na feguinte rtíáhhãa, efpertando o o feu 
mefmo cuidada , íe fòy até a praya , por ver fc acafo 
furgia alguma embarcação de Ale:andria. Cafoma^ 
ravíihofo! Eis qucvô chiara lingua da aguaaquel- 
!a arqfeiinha^, que vinha íobre as ondas como a ^Icman- 
dailo e.Ti direitura. Lançou maõ delia , leu o nfúlo, 
arrecadou^olfmFèiro , e voltando os olhos a huma-e 
QUtrri parte-, como naõ viotefteEiunha alguma da íua 
^ çobraiaça 



Para feguir o hem , e fugir o maí. 3C9 

cobrança 5 affcntou comfígo aproveitar a-occafiaõ de 
ácar juntamente com a paga , cmais com o direito de 
tornar a pedilla. AlTim o tez , tanto que o mercador 
aportou â Conftantinopla: rcfpondeo Theodorico, 
( eík era o fcu nome ) que já lhe tinha rcmettido o 
leu dinheiro: negou o Judeo havello recebido. De- 
yolveo-fe a caufa ao Juiz^ c mandou efte , que prefen- 
tcs as partes diante daquella mcfma Imagem da ^-^ !1^ 

nhora, juraíre o acrédor <:omo naõ eítava pago: o v^^ 

qual carregando huma impiedade lobre outra ^tornou 
diante de muitos íobre íi o juramento falfo. E ape- 
nas tinha proferido a palavra : quando a Sagrada Ima* 
g^m fallandoclâr. mente, lhe diíTe: Mentes, que em 
tal lugar , e cm tal hora recebefte o dinheiro , e o ef- 
condefte. Contra teftemunha taõ abonada, que po- 
dia replicar o pérfido? Confufo , e convencido decla- 
rou toda a verdade; e logo entrando a luz a defco- 
brlrlhc outras verdades, que mais lhe \h^ importa- CarAif. Scm. 
vaô ; pedio fer inftruidonos myftcrios de noíTa Santa tlônc.^ícikiTl' 
Fé , e rccebeo © bautiímos e outros muitos da íua na- Jib.y.Specui. 
ça5 inteirados docafo, feguiraõ o feu exemplo. Re- fpl^cff.D^iau*!* 
fere a hiftoria Dionyíio Carthufiino, e com pouca dib. Dcipar» 
mudança Vincencio Bellovaceníe; e dclles o. Padre *^*F-3^-"-J4* 
Efpineílo da Companhia de JESUS. 

PONDERAÇÃO, E MORALIDADE. 

í» 4? ER rico , e ftr timorato : nao he muito 
^ ordinária efta concordata ; porque aS' ri- 
quezas da terra difficultaõ adquirir, eu 
confervarmos as do Cko , que faõ as virtudes 5 e naõ 
fem propoíito fingirão os Gentios o mefmo Deos das 
riquezas , e do inferno , que he Plutaô. Por iífo as ;'!- 
<|uezas ertaõ em má opinião para comos Sarto?.. rS. 

V iij Ber- 



^10 E(lÍ7)wlo pratico , 

Bcrn.5erm.4. Bcrnardo Ihcs chama laços do dcmonio : Laqueus dia- 
iTabhi!"*^"' èí^//. S. Chryfoftomo , efcola da maldade: Mahtta 
Cyriíi. Ham7, fcloolã. S. Cy.rillQ yMãys do fai|flo , c arrogancia ; A/tf- 
)ll^^^' *^^^ ^^^^ ^Hígtíw//^ , á: procreamca fafius, E na proíccia 
itiàiàcx^ietU, dç Habaçuçh íe çompáraõ ao iodo muy efpcffo : P^nc 
et^quimulttpltCAtnon[ua\ Ulquequo á" aggravat con- 
Aug..ç«m. II. tra fe dmfum luium. E Santo Agoftinho chamou ao, 
deVcrbi$Apo-;ourQ,í]er,vo traidor: iíervww i>rodiíorem, E cmfim 
° ' Chriftojioffa Luz, naô lhes dl outro nome , que o de 

cfpinhas , as quaes çreíçcndp afogaó a íementc da pa- 
lavra , Qinfpiraçap de Deos y c em outra parte pro- 
nunciou aquella tremenda íen tença 5 que mai$ fácil hc 
de paíTar hum calabre pelo fundo de huma agulha , do > 
que entrar hum ricp no Rey no dps Ceos. Daqui vem, 
quç fe apparecema.lgumas virtudes nos ricos do mun- 
do , ordinariamente tem muito de fallídas, e impuras, 
como as.d^quelle ^aviféo, que fe jadílava de jejuar 
. I dous dias cada íemana : Jejuno buinSabhatho. Sabeis, 

(diz Alberto Magno) que par de jejuns era efte ? Hum 
cm honra da hypocrifía , outro da avareza 5 hum para 
forrar gaftos , outro para adquirir applaufos : Semel ad 

II. Notc-fe: Que muito mais rico era Theodori- 
CO pobre , dp que Abraham r ico > porque fe efte tinha 
as arcas cheas de dinheiro : aquelle tinha o coração 
chcy o de fé > c fé , que naõ fp o livrou da divida ter* 
rena ; fçnap , que comimunicandofc ao feu acrédor , e 
a outros muitos, os conflituio feus devedores de ou- 
tra divida cfpiritualmente muito mais importante. 
Com que , Tlicodor ico Chriftaõ , pagou a A braham o 
íçu dinheiro > mas Abraham infiel > paja fempre deve- 
rá a Theodorico a íiia convcrfaõ. Nem he muito , que 
efte pobre tiveíTe por devedores a tantos ricos ; pois 
a|| o mefmo Deos fedava por fcu devedor. Porque 

cftc 



Para feguir o bem , e fugir o mal. 311 

cftc Senhor he taõ liberal , que quaíi reputa por divi- 
da fua a noíla confiança 5 c taõ certamente acode a 
quanto delle cípcramos, que parece pagar dividas 
qu mdo faz mercês. 

III. Prudente andou o Chriftaó em ofFerccer tal 
fiadora , e venturoíb o infiel cm aceitalla. Que coufsi 
fe naô fiará feguramente de huma cr-eatura, de quem 
fiou íua peíToa feu mefmo Creador , e que foube dar 
conta a Deos do mcfmoDeos, MA Kl A Saniiffimahc 
a univerfal fiadora de nós toios^ como ih: chamou S. 
Joaó Damafceno : Edetjujf^r nofier ; bem podemos rc-. 
correr a ella çm qualquer aperto : naô ha de ncgarfe, 
nem quebrar quem corre com os cabedaes infinitos da 
Divina mifericordia,eOmn potencia, 

IV. Como obfcrvou, e atceiítou efteHebrco o 
ultimo dia do prazo ? E como íahio de cafa diligente 
na primeira hora do dia ? Creyo nao foy fó cobiça do 
dinheiro; fenaõ > também vontade de catomniar de 
vãa a fé do fcu devedor , fe faltaffc hum fó ponto ao 
promcttido. Daqui nafceo ,que hum e outro máo af- 
fedlo o ccgáraõ de íortc , que fe determinou a negar 
a paga com perjúrio ,c ter por acafohuma tao efpe- 
cial demonftràçaõ da Providencia Divina. He effeito 
próprio da malícia a cegueira de coração 

V. Pode fe ver nefte Hebreo hum retrato bem 
copiado do efpirito da avareza : cujas feiçoens fa5| 
emprefttr com muita difBculdade,e grande íeguran- 
ça : perder o fono com difvellos : executar com dili- 
gencia: appetecer fazenda por caminhos licitosvOU 
illicitos^ por mar, e por terra, por fortuna^ e por in- 
duftria , pelo humano , e pelo Divino : efconder o que 
fe arrecadn : fiarfc pouco da Providencia Divina : ter 
pouca piedade com os próximos : e fcr fácil cm men- 
tir^ e jurar. Quem íe deixar vencer defte efpirito, 

V iiij íaiba 



3^^ Eflimtilo praiicQ^ 

iaiba 5 que em todos cíícs abíurdos fp dcfpcnhâ- 
VI. Fácil fora a M ÁRIA. Santiífima , aíTim como 
pi'ofperou os negócios de feu, devoto cm Alexandria,, 
aílim conduzillo brevemente a Conftantinopla , ondç 
pagaílc de maô a maõ. Porém o intento da Senh.ra 
naõ era fó ^ que entraffe o dinliciro na maõ daquelic 
homem , ícnaõ ^queporefta via lhe entraffe a luz: da 
íÉno coMçaô , c defte modo ambos ficaffem livres : o 
Chriftaò da divida temporal , e o infiel da divida da 
condenação eterna. O quçíe naõconfiguiria fçm in- 
tervir o prodígio fucccdido. Fique pois o Chriftaô 
e^n terra, e venha fó o dinheiro pelo mar j parque def- 
te modo obra a Senhora hum favor grande , que lhe 
pedirão , e outro may or , que lhe naô pedirão , livran- 
do ao fiel da;Oppoíifaõ do Hebrep, e ao Hebrco da 
oppreffaõ do. demónio. 

VIL Mentes: Diffe a Senhora por boca da fua- 
Imagem : defmentio a quem a defmentia , rcíponden- 
do ao nefciojíegundo a fua necedadc, conforme aquil- 
Pio?çtb.ií.5. Io dos Provérbios: Rejpondejlulto juxtaJlultHiáin.fuar». 
Quem ecxitradiz a verdade , (^iffe S Marcos Ereni- 
ta , he femelhantc àquellc ícrvo do Pontífice, que deu . 
'Á-' bofetada na face de Chriflo y pois Cbrifto be a mef- 
Dc paraáiz«, ac ma Verdade: ^/ verttati camradicit fimilu ejljeivo, 
kgc íf irnnali tlk , qm Domino m maxdla inctijjit alapam, E affim efte 
"^' ^* perjuro mercceo levar também da maõ de Deos , abo- - 

fetada daqiiella infâmia publica j conhecendo todos 5... 
que mentia.. 

i Vllí. Pondcre-fc coma erla Senhora enchcojun-. 
tamcntcaqucllcs tituios , que lhe díjmos nas Litanias, . 
de Virgem prudenriffima, Virgem fiel , Virgem cle-^ 
mente, Vivgcm.poderofa ^Virgem digna dç venera-, 
çaõ , louvor , e refpeito. Moftrou fua clemência : Fir^ 
gâckrrHps-i ei|? aceitar o ícr fiadora do feu . devoto». 

Mpflrou 



Para/egííh o bem s^ jug^'^ o mal. 31J 
Moftroufua fidelidade: T/V^^í^yí^d/J , cm o deícmpc- 
nhar pontualmente no lugar , c tempo determinado. 
MoflrouíCLi poder.: Virgo poiens^ no milagre de con^ 
duzir o dinheiro Cobre a incerteza das ondas do mar. 
cmtaõ breve tempo. Moítrou íer digna de venera- 
ção, e refpeito : Firgo veneranda^ em dcfmcntir aqucl- 
le falfario^naõ cpnfentindo,^quc diante da fu^ ima- 
gem negaffe a verdade. E moltrou fua prudência: 
l^^irgo.piudent.ijjlm , cm difpor todoefte fucceffo para 
mayor bem de tantas almas.. E por tudo he tambcm 
digniíFiína dç iQuy ar ; f^^tr^o praduanda » 



EXEMPLO XXX. 

De como Deos ajiicta e, fortalece Msqjie pom 

feií âmcr fe exercitaõ em mo^úfica^ 

çpens ., e. pemencm. . 

UMA das maravilhofas converfoens em^^ 
que mais fe oftentáraõ os poderes da Di» 
vina graça , foy a do irmaõ Fr. António de 
S, Pedro ^ Mercenário Delcalço^ noffo 
Porcuguez. Foy primeiro no fcculo penitenciado pe- 
lo Santo Offiçio, onde confeíTou, que até então ti- 
vera a Ley dê Moyfés ; e depois ailumiado gratuita- 
mente do Ceo ^ corre fpondcQ taô fielmente a eâe be- 
neficio y que deixou todos os Povos , onde o conhece- 
rão, chcyos d^ admiração deíuas virtudes , e mila-. 
grcs , de que efíaô formados proeeffos em. ordem à 
fiia Canonização. No principio da fua converfaõ ^. 
dcu-fe a huns largos^^ exercicios deoraçaô^ jejum , e 
outras afpeníTiinas peniteacias j. e perfeverou .diantí^ ? 




r 

314 Eflimulopratícdi 

da Divina prcfença , chorando de dia , e de noite qua- 
renta dias contínuos , em hum dos quaes fe achou taõ 
quebrantado , e desfalkcido por falta de comida c 
bebida , que a lingua íe lhe pegou ao pádar , e a naõ 
}X)dra mover para proiTunciar palavra. E logo íen- 
tio , que de hum dos íeus mrímos dentes lhe faltava 
dentro da boca ^huma fonte de agua , frefca , doce , c 
•copiofa; eouvio humavoz,que Ihediífe amorofa- 
mente : Btbe^efansfarãs tua fede efome. Bcbeo quan- 
to íhe era neceíTario, e parou logo a fonte. Seu Con- 
fcíTor o Padre Fr. Jorge de S, Jofeph , da mefma Sagra- 
da Familia dos Mercenários Delcalços o examinou 
depois , c repreguntou muy miudamente , fe acafo ha- 
via fido afgííml^^lfamidadc ^ ou dcfluxaõ daquella par- 
te, ou vehemencia da fna imaginação^ que appetecia 
o refrigério da agua. E refpondeo: Padre, eu fenti 
jrèalmedtc , e fem engano , que era como hum manan- 
cial , ou fonte de agua, e bebia como fena fonte ti- 
veíTe applicada aboca ; c na5 íó me apagou a fede , fc- 
naô , que também me tirou a fome , dando-me fartu- 
ra ; e fiquey tao fortatecido nas forças corporacs , que 
me achey muito mais capaz do que antes para conti- 
lib.i.cíp.4, nuar osmefmosexcrcicios, Referc-o o Padre Fr. An- 
num. 17. ^j,^ ^ç ^^^^ç^ Àgoftinho , Chronifta geral da dita Or- 
dem, na Vida , que compoz defle Servo de Deos, 

PONOERAÇ AO, E MORALIDADE. 

COnverfoens miraculoías de grandes pcccado- 
res, cujo principio rompe fcrvoroíamcnte em 
rigores de penitencia, eftas Ía6 as que promet- 
tem boa eíperança de fua conftancia , e frutos de mui- 
Ai. de Abriu tâ gloria para Deos, e edificação para a Igreja. Tal 

íoy 



Fará feguiv o hetn , e fugir o mal. 315- 
foy a de Santa Maria Egypciaca , que viv.eo no dcfcr- a %, át Oum; 
to: : ; : annosíócom: : : pães. Tal a de Santa Pe- bro- jç^ of 
Iagia5rec]ulaemJerufalem;adaSanto Moyíés^que to.^ ' ^ ^^^ 
de famofo faltcador í'e fez hum afamado Anacorctaj c 
aífim como de antes roubava as fazendas , e tirava as 
vidas dos paíTageiros , depois roubou para Chrifto as 
almas , convertendo muitos ladrões ^que comíigo le- 
vou para o Mofteiro. E a de S. Guiiheime , Duque de 
Aquitania, ou Gafcunha , a quem conv^rteo S, Ber- 
nardo Abbade. Pelo contrario y quando o peccador 
depois de allumiado , naô começa nova vida , íciiaô 
muy dentro das medianias da; prudência da carne c 
fangue , nunca . deílc tronco fe fará arvore muy alta y 
porque he final ,que fc naõ fiàmuitade Deos> pois fe; 
tem a fi por guarda fua;,emoflra, que naõ reconhe- 
cerá a divida , quem naõ apreíTaí a paga^, conforma lsk. r* 47^ 
aquillo de Cbrifto Salvador noffo : Cuiautem minus^ ^ 

áimttttíur , mmns átligii . 

Porta-fe Dcos com nofco , como nós com elle : 
Cum Sanfio Saníím ew. Aquellafede,que Ghrifto 
fígnifiçou na Cruz , Siiw , era. da convcrfeô e lagri- 
mas dos peççadores. E como efíe convertido deu a 
Chrifto dç beber copiofamcntç com as fuás lagrimas: 
também o Senhor lhe deu dç beber a elle nos fcus dei-- 
mayos , cdeíemparos. 

Procedem cftas lagrimas da luz dó conhecimen- 
to , com que a alma conhece a gravcza e fealdade do . 
feu pcccado y a Mageftade infinita de Deos ofFendido; 
a ingratidão aos benefícios de; noffà redcfmpçaô, o 
abyfmo de miferias em que cftavafubmcrgida , abon— 
dade Divina , quç o cfpcrou com paciência , e alivrou 
dã garganta do inferno , &c. E deftes relâmpagos da 
luz Cêleftial fe íeguc a chuva , ou tempeflade de:>feita p,^^^ 
das lagrimas: Fulgura ínpluviamfeaí. PoriíTodiífè wí..'.. **' 

San CO: 



"^ 



3^^ E/íimi4Ío pratico^ 

Santo Agoíiinho: Conjltíuto m corde juduio adfit accti- 
fatrtx cogitatto , tejlts cvnjitentia^ caimfex timor : tndt 
^mdemfangms^mmííconfirentis per lacrmas^uat. 

Entaõ começci o peccador a levantar cabeça 5 por- 
que as mefmas lagrimas alentaõ a íiia deíconííança. 
Para fymbolo deiia verdade pintou hum diícreto a 
huma flor defcaido o collo, c metido o pê em hum va- 
io criftalinocomagua^com efla letrado Pfalmo: Prof^ 
íerea exaltabit ca-puU Concorda aquillo de S. Jerony- 
mo 5 f aliando das lagrimas de S. Pedro : PeU nm ter nt' 
gmtem amar£ tnfuttm locum rejiituere lacryma, O lu- 
*^*gar de S.Pedro as negaçoens lho tiráraó, as lagrimas 
lho reitltuírao. 

He grande a eftimaçaõ^que Deos faz das lagri- 
mas de hum peccador contrito. As daMagda'ena^ 
'l >K guardadas em|hum caUx de ouro moílrou ChriftD 

f Senhor NoíTo em huma vilaõ. Com muito myfterio 

-•cm cálix , que He vafo deítinado para o Sacrifício do 
i .^ Sangue deChrifto, porque o coração contrito , e cC- 

f-\ 1 ^irito attribulado também heíacrificio: Sacnficium 

Deofptritm contribulatur^ e em ordem a lavar nolTas 
. á' I manchas, nenhum licor faz melhor miflura com o 

4^ I Sangue de Ghrifto , do que as lagrimas da contrição, 

J- I 'quetambemjfaô fangue da alma , como diíTcmos lhe 

/ chamou SantcTXgoflinhdjiferidacGm a eípada da meí* 
Oritíenl íunc- í^^^óntriçaõ. Como diffe S. Gregório Nifceno : San- 
^li dcPiaciíia. guis vulrjef-um anim. De contviçaõ verdadeira naf- 
ciao as dcftaSanta peccadora^ eo ícu mefmonome 
parece íignificar conhecimento da graveza de feus an- 
tigos exceffos. Porque Maria Magdalena j vai o mcjF» 
mo por anagramma 7 éoxpcGrí^ndia tnala mea, Def- 
te conhecimento pois procedendo aquellas lagrimas 
fe verifica bem, que os relâmpagos paráraõ em chu- 
va : Fulgura m pluviamfecit. Também a Serva de 

Deo« 



Para fegulr o hem^ e fugk o mal. p y 

Deos Saror Marianna doRofario, Religjofa de veo Rcferefc me 
branco Francifcana, no Convento do Salvador em ^ríulVída^^ma. 
£vora , citando cm oração , vio junto de fi hum Anjo ruícrita , que 
com hum preciofo vafo, e lhe explicou o Senhor , que ^^^ p^^] JoTc ^' 
vinha a recolher as lagrimas , qtie chorava de amor, Mexia. 
compaixão , e contrição ; porque valiaõ muito dian- 
te de fua Divina Mageftade. Tanto valem , que elle 
mefmo faliando com a EXpofa, antes lhes quiz chamar 
pérolas, do que lagrimas: Pulcbrae funtgena t^^. A Cam.i.Tf f.«^v 
Tigurina accrefcenta : Pi optcr Mar ganias. 

Na Vida de Santa Erigida Virgem fe refere yCOr soiianáus i Fç^ 
mo Chriíto Senhor NoíTo com íuas próprias, mãos., e ^f"**'" ^^' ^' 
naõ hiima fo vez alimpou , ou. enxugou as lagrimas 
defta Santa. Chrifto he Sol , e Sol particularmente na 
Oriente: í^tr o.^íens nomcn ejus. Fez Chrifto com a^. 
lagrimas d:fta Virgem , o qu^ o Sol nafcçndo faz com 
o. orvalho das flores. Elle caufa o orvalho<ao romper 
do dia; e elle mefmo nas íeguintes horas o enxuga, • "^ 

Mas fuppoflo , que as enxugava , o preciofo dsUas nas^ 
mefmas mãos ficava guardado melhpr, que as da Mag- 
dalena em <:alix de ourOi 

AdihTiino, Varaõ muy efpiritu^l (que d^ Or- F.Dámiiij' 
demMonacal de S Beato fe míToupara a mendicante ^'l^''^''' 9^*"°'' 
de .^.Francjlco/ chorava tantoao Qelebrar , que os OrJrm scrsâcsfe 
corporaes ficavaõ quafi banhados ;,e tanta que as lá- ^^^^^^n^y-id^ 
grmxas cahiao das laces , ic fopmavao em Cruzes de 
diveríos tamanhos, como pintaçlaâ Qom pincel invir 
fiarei nos mefmos corporaesytadasdacor azul celeí- 
te yÇ muy ptírfcitas,, cque aíTim íícavaô permanecen- 
do 5 ccom;Otoquç ddlas rceuperavao íaudernuito& 
enfermos. S. Gregório pondjrandoaquellepaírò da . ^rf,)r 

livro de Jofué , em qiz Axa fe queixou a íeu Pay Ca- ^ofv.e i % irut^i, 
kb de ha/erlhe dado hu^.na íerr i feca ; e Caleb lhe deu ^'' 
ouçra regadia. cpm duas fortes dç agua, íuperior^.e 

iíifevior:: 



jiS Eflimuh pratico y 

inferior" Dcdil itaque et Cakh nrtgtium jtiperm^^ 
ínfef tus^ entende eitc Jugar por huma alma , pedindo 
a Dcos lagrimas ; e accreíccnta , que o rego da agua 
inferior , íao as que naíccm do temor do inferno ; e o 
da agua luperior , as que nafcem de íaudades , e defc- 

s. Grfg. . . jos do C^eo : D^t nga et Pater irrtguum (upenus , ctítn 
femlacrymis cítL-Jíls regnt Aijidaio afficttwrtgímmvt" 
to infernis autpu , curn injtrm fupfUctaflenáo pertimef 
m. Nas lagrimas de Adelmano , era a cor conforme 
parecia a origem. Vinhaó doCeo, e aoCeofcrefe- 
riaó , e affim cra5 azuis celeftes ; porém cahindo fo- 
bre a ara , que rcprcfenta a Cruz ; e íèndo o facrificio 
da Cruz o mefmo que o di ara , jufto foy > que ^s la- 
grimas fe formaífem cm cruzes, 

Dcftes, e outros muitos exemplos femoflra o 
grande valor das lagrimas diante de Deos -, e aíTim de- 
ve naó fòo peccador, mas também o jufto , ( fehe 
qne fendoiufto deixará de íe conhecer muito mais por 
peccador) bufcar motivos com que as excite ^ e pe- 
dir ao Senhor quando faltaõ , dizendo ao Pay doCeo, 

jofuc 15. v«í. ^omo Axa ao feu da terra : Terram^uftralemy & aren» 

1 9'. 4emdedifti mthi^ junge ^ irriguam. 

Muy rara foy a maravilha defta fonte do Servo 
de Deos Fr. António, naõ 16 pelo effeito, que caufoU^ 
fenaó pelo lugar onde nafceo. O efFeito foy faciar 
juntamente a fede e a fome, c reftaararihe as forças 
do corpo e alma. Os dons de Deos como naõ feraó 
perfeitos , vindo de tal maõ ? Nàõ dá de beber aos fe- 
quiofos ícm dar juntamente de comer aos famintos > 
c aíTim defta agua , que trazia comíígo plena refeição^ 

Walm.ii. rctf, podia O Servo de Deos dizer com David: Super aqtiam 

^' refcãtomsedficavitme. • 

O lugar onde nafceoa fonte, foy hum dente àó 
mefmo fcquiofo > c foy taõ parecido efte fucceflccom 

x)de 



Parajegtnr o hem , e fugir o mal. 319 

o de Saníaõ , porque íoy muy íemeihante a caufa* 
Matara aquelle Nazareno mil Fiiiiheos com a quei- 
xada de hum jumento , e canlado com a tadiga de taô 
numerofa mortandade , teve excclíiva lede ? e a Se- 
nhor lhe abriohuma fonte , manando de hum dente 
da mcfma queixada , de que bcbeo, e refíaurouas for- 
ças do corpo , e do efpirito : Apettnt líacjue Dominus judir . 1 5, verf. 
molar em dentem mm^xilla ajim ^^ (gu[ja! fant ex eo '^' 
A/«^. Gjuihm haufiís refúcãlâvufptritum , ó* vires vt" 
ceptf. Elte Servo de Deos tinha morto ,,e deftruido os 
Fiiiiflheos de íeus vicios , que eraô muitos, e a vitoria 
íòra.à cufta , c com a violência qiiç fez ao corgo y par- 
te do cpmpoflo humano , a. que os Santos commum-^ 
mente çhamaó o jumento. E por quanto o jejum he 
grande deftruidor dos vicios^yfoy eíta violência parti- 
cularmente na matéria da abílinencia do comer e be- 
ber, officiofque fervera as queixadas. NacquizoSc- 
nhor , que falmíTe a outra parte da hiftoria de Saníaõ, ' ^' 

ondcnap faltáraa primeira. E aíTim de hum dente do 
mefmo queixa do jumento fez , que naíceíTe huma^ 
fonte, da qual íc refizelTçm as forçasdo corpo , c efpi- 
rito deftc novo SanfaôNazarcno.. Todos- os que pe- 
lcja5 contra feu§ vícios, confiem muito nefteSenhor] 
o qual fe nos mete nas batalhas y.he para nos adquirir 
as vitorias 3 e íe emferviço feu padecermos cançaíTo^ 
ndte me fmo acharemos refrigério,^ 



EXEivÈ 



3 10 ^: Eftimulo pratico , 




EXEMPLO XXXI. 

Dos ri/cos , ^ne traz comjtgo o amor torpe j 
e vuía hccncioja da carne. 

A Vida da Venerável Madre Saror Anna 
de Santo Agoflinho , Religiofa da Sagrada 
i Reforma da Seráfica Doutora Santa There- 
ía de JESUS , efcrita peio Padre Fr. Antó- 
nio de S. Jeronymo da mefma Ordem , fe refere o íe- 
guinte caio. Certa moça, que eítava em reputação 
dedonzella ^correfpondia-feocciíltamentc com hum 
mancebo a titulo de futuro cafamento. De lance em 
lance chegarão ao ultimo empenho , c continuarão 
por largo tempo aquella cega amizade , fem refpeito 
a Deos , fem attençaõ ao credito , e fem medo ao pe- 
rigo ) porque as meímas brazas huma conferva a ou- 
tra , aiToprando ambas o demónio , conforme aquillo 
I0b41.vcti.ii. do livro de Job: Halttus ejué pri4nas arderefacit. Mi- 
nrfterio em<]ue fervia também huma criada de cafa, 
por cujo meyo e diligencia, elle entrava de noite ^ 
dancio à miíeravcl amante os avifos e pontos neceíTa- 
rios. Até que Deosfe cançou defofrer^e lhes enviou 
o caftigo , fuppofto , que taõ modificado com miferi- 
cordia , que mais teve de ameaça de pay , do que de 
caftigo de fenhor. Entrou o moço huma noite , e ella 
o fahio a receber , aílim como fe achava no leito, fem 
mais compoftura, ou decência. Recolhendofe ambos 
a hum apofento retirado, oscnveftio dentro de repen- 
te !ium fabujo , ou caõ muy grande , feyo , e bravo ; o 
^qual fem mais detença fe arrcmeçou à garganta do 
' moço: 



Para fegíúr o bem , e fugir o mal. j 1 1 
moço: clle que turbado com taô repentino affalto le- 
vou da cfpada para o matar s porém o caô pegandolhe 
delia com os dentes , lhe tirou fora a folha com gran- 
de facilidade, deixandolhe na maó fó a guarnição. Co- 
mo fe vio defarmado, fugio para livrar a vida, dei- 
xando nos dentes do bruto a folha da eípada , ca po* 
bre moça junto a elle, tremendo; oqualcomdcmonf- 
traçoens de grande fanha duas vezes a inveftio , para 
a dcípedaçar s mas naô tendo licença para mais, fó Ihç 
rafgou a camiza. Neftc paffo cahio a pobre com hum 
defmayo; c tornando em íi depois de muito tempo, 
vio , que toda via o fabujo eíhva como de guarda 
junto delia com a boca aberta , c feroz catadura , e 
ringindp^ como que intentava darlhc terceiro falto* 
Amanhecia já ; e hum fcu tio homem de porre , a cuja 
conta eftava , fe levantou cedo , porque havia de fa- 
zer jornada , e chamou pela fobrinha , pedindo de afcii 
morçar. Aqui foy a fua nova pena , e aperto de cora* 
çaõ, vendo, que nem podia reípondcr, nem efcon- 
dcrfe ) c que ou cila acodiffe aonde eftava ò tio , ou 6 
tio vieffe onde ella eftava , íempre a fua vida , e honra 
perigavaõ. Toda via pre valeceo ò temor do caô , por- 
que em fim era demónio , ao temor do tio, porque em 
fim era homem. Eao repetir efte as vozes, reípondeo 
esforçando a fua quanto o pavor lhe permettia ; e o 
tio cheyo de cuidado , c fufpenfaó pelos triftes eccos, 
que percebia, encaminhou para aquella parte os paf- 
fos. Entrou , c vio a lobrinka metida em hum cantor 
e o fabujo encarado nella ', arripiado o pelo , e aberta 
a disforme boca. Oqualcomofenaõ efpcrára maisj 
que pela prefença daquelU teftemunha , arrcmettco 
terceira vez à moça , e pegandolhe com os dentes pela 
camiza aarr?ftrou peloapofcnto, e logo defappare- 
cço Dcfmayou outra vez a mifcravel , cobrindofe de 

X hum 



3X1 Eflimulo pratico y 

hum fuor frio. E o tio por huma parte confufo c tCr 
rnerofo,epor outra compadecido a levou para aca- 
rna , onde íc lhe fizcraò remédios com que tornou a 
feu3 fentidos. Entaô lhe perguntou pelo caio , fem 
atinar conioquc foíTe. Eella lhe armou de repente 
hu iià patranha, com taes apparencias de verdade, que 
ficou ainda mais íatisfeito da virtude da fobrinha , 
vendo, que o demónio a períeguia tanto. Confoiou-â, 
c animou-a a naó dcfcftir de léus intentos por medo 
do inimigo ; c cila diffc , que defejava fallar com a Ser- 
va de Deos Anna de Santo Agoftinho , que era afama- 
da cm batalhas com os demónios, Aílim fe fez : o mcí- 
mo tio a acompanhou ao Mofteiro , com outras três 
mulheres. Veyo à grade a Santa , e pediraõ-lhc en- 
commendafc muito a Deos huma grande neceíTidadc 
cm que eftava huma daquellas mulheres. Ao que reí- 
pondeo com a meíma generalidade , que lhe propu- 
í.ha5 o cafo , naõ obftantc , de que já por revelação 
Divina eftava fabcdora delle. Mas ao defpcdiremfe 
chamou a moça, dizendo^ que tinha que lhe dizer à 
parte j e ficando fó com ella , lhe diflc a Madre Anna: 
Já fejr o que efta noite lhe fuccedeo com o caô: cfteja 
certa , que era o demónio > e que fe Deos lhe dera li- 
i^ença , os matara a ambos , e os levara onde merece 
o íeu peccado. E aqui lhe foy dando as razoens, c ayi- 
fos eípirituaes ^queconvlnhaõ à fua emenda , ouvin- 
doros ella com grande compunção , e muitas lagri- 
láas > dí) que refultou ceffar de todo a dita communi- 
^â^aõ illiciía , e outros proveitos da fua alma.. 



PONDE. 



Parafeguir o bem , e fugir o mal. 313 

PONDERAÇÃO, E MORALIDADE. 

I. ^^^ Rdinariamcnte femclhantes corrcfpoa- 
1 J dencias começaõ por leviandade , e aca- 
^"^ baò em graviííimos precipicios: ao prin- 
cipio hc galanteo cortezaô, deipois vem a dar cm 
hum concubinato , e tal vez adulteriofo, ou inceíKio- 
fo. A quantas tem burlado cftas promcflas , ou efpçr 
ranças de cafamento ^ achandofe depois fem honra , e 
fem marido ; e fc defemparadas de hum , impoflibili- 
tadas para outros ? Bem fabcmos , que o Mundo , Dcr 
monio , e Carne fao noffos inimigos conjurados. Lo- 
go porque íe ha de fiar efta mulher , do mundo , que 
lhe cumprirá a promeffa 5 do demónio , que a naô in- 
duzirá a outros peccados 5 e da carne , que naõ que- 
rerá mais liberdade , que até certos limites ? Eftuítif- 
fima confiança hc cfta. Somos enganados porque tsr 
queremos fer. 

II. Pois gai|oih§, cu 7 que cm começando o taful 
infernal a ganhamos , íe levantará do jogo , ou con- 
fentirá , que fe levante a pobre alma. Se viver aqui 
duzentos annos , outros tantos lhe irá dobrando as 
paradas , levando-a fempre de mal em peyor , c enfra- 
quecendothe a liberdade de forte , que lhe pareça prc- 
cifo o peccar , e impoflivel paffar a vida fem offender 
a Deos; e finalmente lhe tirará até a fuftancia da Fé, 
e da Efperança , e a fepultará no inferno , onde cobre 
cm penas , tudo o que lhe ganhou em culpas. Procu- 
rava hum Padre defta Congregação defencravar hur. 
ma deitas almas do lodaçal em que eflava metido; c 
a quantas razões elle lhe propunha , refpondia ocon- 
cubinario muy determinado , e enxuto : Padre meu j 
bem fey , que vou ao inferno : iíTo he certo > mas naõ 

X ij poífo 



314 Eftimulo pratico j 

poffo menos. Eftc morrco fem confiííaò de repente. 
Oh almas, no principio fc atalh^õ eftas difgcaças ; naô 
ha porfe a jiigar com o demónio, nem com a noffa car- 
ne , que hc mais traidora que omeímo demónio. 

III. Naô podia faltar aqui huma terceira , que ba- 
r^lhaíTc as cartas, Ofa quanto devera vigiar oá pays 
de familias ; pois diz a^fumma/Verdade, que os noffos 
inimigos faõ os noíTos domefticos. Commiimmente 
be gente , que naõ tem credito que perder j e afíim fa- 
cilmente commçtte p indecente, a titulo do utiL Bem 
merecia cfta criada, que o rafeiro a tomaittc também 
entre os dentes ; mas como^ík caftigo £oy juntamen- 
te miíericordia., por ventura naõ merecia a mifcri* 
cordia , e lhe ficou^guardado o caíligo, 

IV. He. certo , que nao intcrvcya aqui o demo^ 
niopor fua vontade para atemorizar eftes peccado^ 
rcs , pois nao hc fcu officio apartar^ fcnao antes aper- 
tar femelhaates amizades. Porém quiz Deos tomar 
por iníirumcnto da emenda ,.o mefmo ^que o fora do 
arro, e que apparccendo rafeiro afugentaflc aos que 
induzira rapofa* Mais quizera ellc , do que fó afugen- 
tar ^ mas a cadea da licetrça Divina , «aõ fe eftendia a 
mais. Se aflim naõ fora, confiança tem cfte Cerbcro 
para engolir de hum forvo a todo o rio Jordaõ: Ha^ 
iet fitítmam^ quod Jorâanis tnfluat mês ejus y ifto he, 
perverter e arruinar a toda a Chriftandade , que fe fi- 
gura ncftc rio, porque pelo bautiímo entramos a fey 
Chriftáo^. 

V. Quiz o moço defender fc agora com a efpadai 
quanto melhor fora defcnderfe de antes com a liber- 
dade ; que he efpada , que o demónio nos naõ pode ti- 
rar das mãos ? Mas aílim como.cntaõ a fua fraqueza 
era laftimofa , aílim agora a fua valentia foy ridícula* 
Fugio para íàlvar a vida 3 e he o que devia ter já feita 

para 



Pãrafegtiir o bem , e fugir o mal. 315 

para falyar a alma 5 efpecialmente naquella efpccie de 
peccados , onde o fugir he vencer > e os pés com azas 
laõ mãos com armas : Fugtte fornicãtionem, 

VI. Arraftrou o rafeiro a efta miferavel , pegan- 
dolhedacainizaj eaíTim defcompofta e tremendo a 
teve encantoada quaíi toda a noite. Note-fe como 
concorda a pena com a culpa, pagandoíe emconfu- 
fa5 e vergonha exterior , o que fe faltou a efta. Nof- 
fbs primeiros pays tanto que peccárao, cobrira5-fe 
com folhas ; mas o noíTo cxceffo tem já paffado a tan- 
to , que nem queremos tomar as folhas , nem deixar o 
peccado. Os Hereges Adamianos, (que de Adão to- 
marão o nome ) andavaõ nus , e nus ouviaõ os Ser- 
moens , c faziaõ oraçaô , c recebiao os Sacramentos; 
entendendo , que o feu cftado he o mefmo na Igreja , 
que o de noffos primeiros pays no Paraizo antes de 
peccarem. Defta forte íe vem ainda hoje alguns em 
algumas partes de Inglaterra.Mas também por cá naô ' 
faltaó no fgitariíp cites Sedtarios : naõ verno^ qs bj:;^- - 
ços riCiBângados até^^Xar^n^iy^^ , e a parte fuperior 
do corpo defpida até por Hdixo dos hombros? Mu- 
lher es Adamita^ou Catholica? Das -te ainda por conf- 
tituída no eftado da innoccncia . ou entendes , que 
também peccafte em Adaõ ? Innocente naò crerá que 
o esj fenaõ quem ainda o foíTe ; e íe peccafte em Adaô, 
porque te naõ envergonhas , c cobres como Adaõ? 
Em qualquer corpo humano he rcprchcnfível efta def- 
nudez, mas no femenino muito mais j pois até a cabe- 
ça quer o Apoftolo , que trageiõ cuberta : Debít muUtr , . corínth. n: 
poteftatem haberefupra capnt yfropter Angelos. Deve a vcrf. 10. 
mulher (diz S. Paulo ) ter fobre a ftia cabeça o po- 
der por amor dos Anjos. O poder nefte lugar figniííca 
o mefmo , que veo , òucubertura ; porque efta he fi- 
nal do poder do varaõ aque cftá fogeita. E dizer, 

X iij ^ qne 



^i6 EfiwwIoPratíCQ-r 

que dever ter acabcçaciiberta por amor dos Anjos ,. 
ou fc pode eatender dos An jos bons , que íaõ os caí- 
toSj e crpecialmcntc os Sacerdotes, a que be ncceffario 
naô efcandalizar, antes deíViarlhe todo o tropeço; 
ou dos Anjos máos , que faõ os demónios , ós quaes 
com a fua fermofura provocaô muitos penfamentos 
nos homens. De qualquer modo que feja , deve a mu- 
lher honefta coníidcrar , que cm qualquer lugar onde 
apparcce , pode haver Anjos bons , e máos ; iílo he ^ 
homens amigos da caftidade , ou da torpeza ; e que taò 
mal lhe cftá parecer bem a eíles , como parecer mal 
àqúèllésl e pòr tanto importa cobrirfe: Debet mu* 
lier ^ ó'C. propttr Angchs. 

VII. O rafeiro erteve como de guarda daquellc 
corpo até vir o tio, c ver o que paíTava: como fc 
Deos por eflcocculto modo lhe diíTcra: Es cabeça de 
famílias 5 mais cuidadofo deveras ícr : ate aeora vi- 
giey eu por ti: agora vigia tu, ddcuría, inquerc, 
emenda , c põem cobro cm tua eafa. Mas cUe naõ de- 
via ter condição muito miúda , e fofpeitofa y pois naõ 
vio a folha da cípada que ficara , nem duvidou dar 
credito a quantas mentiras lhe armou de repente a lo- 
brinha. Devia dizcrlhe , que íe levantara a empregar 
algumas horas da noite cm oração ^ c diíciplina , e que 
rraõ eraaquellaa primeira vez , que ©demónio ini- 
migo de toda virtude procwrára impcdirlhc feus ían- 
tos exercidos ; e ao dizer ifto moftraria padecer pejo 
c repugnância, por nr-S apparecer taõ nfia a fua virtu- 
de , como podéra appc?recer o íeu vicio ; c em cima pe- 
diria fegredo, domefmo que afTeciava , fefoubcíIe> 
^ toda a tramoya paffaria com recomendação da ver- 
dade , peloteflemunhode quatro lagrimas equivocas 
entrea caufa falfa e verdadeira delias. 

EXEM- 



Para feguir o hem-^ ç fugir o mal 5 if 



i ii 




EXEMPLO XXXIL 

Da infeíicíjjtma forte dos réprobos , e terre 
biíidade das penas do inferno. 

NOTICIA ANTECEDENTE. 



O rico Avarento , fcpultado já no infer- 
no , negou Deos o favor , que lhe pedia, 
de que para defengano de feus irmãos » 
tornaíTe Lazaro a eik mundo , a manifef- 
^ tarlhes a graveza dos tormentos , que allí 
fc padecem ; porque tendo elles em lugar do teftemu- ^ ^ 
nho de Lázaro , outro mais irrefragavel da Ley , e dos 
Profetas ; efcuíado , e ainda incfficaz feria aquelle avi- Luc. ij.Tctl* 
fo; StMoyfen é* ProphQtas mn audtunt 'y mquejiquis '*• 
€x mortuis refurrexerit , credmt. Com tudo ^ para que 
os Ímpios tenhaõ menos difculpa em ofFender a Deos, 
■c osjuftos niayorcs eftim^los para o temer, eámar^ 
c cftc Senhor juílifique mais íua caufa na reprovação 
de huns , e falvaçaõ de outros : com altiffima Provi- 
dencia difpoz , que algumas almas , (como confta das 
hiftorias Ecclefiafticas ) viffem parte dos tormentos 
do inferno, e nõs deffem delles fiel teftcmunho ^ além 
do indubitável e certiffimo em que fc eftriba a noffa 
Fé , que faõ as Efcrituras Sagradas, e doutrina reve- 
lada à Igreja Catholica. Huma deftas vifões mais mo- 
dernas e admiráveis , foy a que teve a Venerável Vir- 
gem Anna de Santo Agoftinho , Religiofa Carmelita 
Defcalça 5 contemporânea da Seráfica Madre Santa 

X iii] Tbc- 



3 1 8 Bflhmílo pratico , 

Therefa de JESU , e fundadora do Convento de Va* 
lcra:ari:ia cfcrita no livro, que daíuaV.da compoz 
o Reverendo Padre Fr. Afionfo de S. Jeronymo da 
meírna Sagrada Pveforma , Lente de Theologia no feu 
Coilegio da Univerfidade de Alcalá, E he de faber , 
que ftndo efta Serva de Dcos infigne em virtudes e 
dons Celeftiaes , grandemente perfeguida dos demó- 
nios 5 c muito mais favorecida com frequentes appa- 
riçoens c viíitas de Chriíjo Salvador noffq, e fua Mriy 
Santiffima, de Santa Anna, Santo Agoftinho, Santa 
Thereía , e outros Cortezãos do Cco ; pareceo acerta-^ 
da a feus. Prelados mandarlhe , que eícreveíTe cftps 
coufas : obedeceo. violentando o leu natural \ mas de- 
pois dt ter efcrito > o inimigo. inviíivel, vifivelmentc 
3hc queimou os papeis: tornou fegunda e terceira 
¥ez a efcrevellos , c íuccedco-lhc a mcímo , vendo-os 
cila de repente arder na fua maô , c rcfolvcrfe em cin- 
'Sas: com o qual fucccffo, a fua humildade achou o 

,hn ?i defejado defafogo^^ perfii^idida nao íer vontade de 
Deos, que cfcrevciTe ^até que osfuperioresadefen- 
ganáraõ íer dolo do demónio, que temia o fruto da- 
quellas noticias ^fc as gozaffe a luz publica > e a mef^ 
ma Santa Therefa, áp|>arecendo'lhe a reprchcndeo 
afperamente: efcrevco emfim quarta vez, eceffou a 
porfia do inimigo , voltandoft contra o Pvidre Pror 
ivincialyaquem fc entregarão os papeis, intentando ti- 
rar] he a vid^ i do que tudo fc niclira 5.como fera grão- 
de gloria paraDeos , iruto para as almas, e pszar para 
os demónios, quea feguintc V'faõi€ publique, e eípa- 

%\ii>. a. eap. 8. ^^^- p£iOS fieis 5 e .'íTim, ainda que no LivrinhoVí? Faí 
paruàx)^ a dey \k fiel c fimpkzniente traduzida \ para fe 
tazeí* mais. publica, e tambcm. para íer mais efficaz , 
;í> conveniente repetiHa. nefte lugar , accref- 



ctntáixdolhc navamentc algumas reflexoens fobre gb 

prior 



Para feguivo k?n\ efugi^* o mal. 3 ^9 
principacs pontos e doutrinas , que cm fi contém. 
Diz pois aíTim : _ 

VISA O. 

FOY meu efpiritito arrebatado , e levado em 
companhia de noffa Madre Sania Ti.crefa de JE- 
SUS 5 e de outro Religioío da noffa ordem ^que 
fendo Provincial faliecéra no Convento de Villano- 
va de Jara , o qual fe chamava Fr. Joaõ Bautifía , e foy 
muy Santo ; Icváraò-me os dous por hum caminho Rcflfxaó \ 
largo c efpaçofo , pelo qual me differaô : Âvijci , que 
ponhai cuidado empar FreLdos , que com muno ziío fa^- 
çao fe gnardí'm ^como em fius frtniipíos , as leys , e õbri* 
gaçonis de nojja Sagrada Religião , na qual he noffo Se- 
íihor muy fervido. 

Havendo paffado por aqucUe caminho largo , por 
onde me levarão noffa Santa Madre e aquelle ReL^ 
gloío 5 a pouco efpaço de tempo , me meterão cn) ou- 
tro muy eftreitoj c noffa Santa Madre me fez entrar 
com muita^força^, que me fez ; c allifc me deíapp^uc- 
céraõ os noffos dous Santos , e deixarão a minhci alma 
em grandíffima loledade , e fcm amparo ^ que o na& 
fcntia , nem daCeo , nem da terra. Acudirão logo os 
demónios com grande tropel e.ruido, e com acelerr.- 
da preffa , começarão a cavar , c com m.uita brevidade 
abrirão huraa caverna , ou boca do inferno , e n\c mc^ 
téraõ nel!a,.onde havia muitas chamas de. fogo, ^ 
grande quantidade de demónios 5 e era huma cftreiLu- 
ra muy comprida j que da pena ^ que neila fentia a 
minha alma , e de eftar naqueilc Jugar taó efpantofo^ 
naò tenho que dizer , pois bem fe deixa entender s iT»as 
fó ■ rey referindo parte do que vi no inferno ? que tud<^ 
nao fera poífivel , e ainda que o tenho impreffò na mc.^ 
n^oria 5 nap o pQierçy e^ípUcar com pala vras. 



§ 3^ £'^Í/;;#/(:? pfatfco , 

No tâbo dcfta proftinda eflreimrâ , ví no fcii re- 
mate outro centro mais profundo ^ que era a infernal 
morada , chea de fogo , e demónios , e cercada de con- 
fufaô eípantofa à viíiâ ^ e temeroíiffima para a minha 
alma. Caufava-me grande amargura , vero que alli 
paíTava , e eftava attonita ^ e eípantada : com admira-- 
çaõ 5 e affombro punha fitos os olhos em humas par^ 

Rcflciaõli. ^^^ 5 ^ ^^ outras com muita attençaõ 5 e tendo a mi^ 
nha alma muy laftimada : Olhava aquelles prolongados 
^[p^ços , os terríveis , e tnfernaes lagares e moradas , a 
grande quantidade e numero efpantofo de almas , que fe 
revolviao nas chamas > e os tormentos com que as taes 
almas eraõ opprimidas , tantos eraò , e taõ diverfos y 
que ninguém imaginar os pode , quanto mais dizer 
^ . ni ^^^ palavras \ c naõ poffo explicar o grande numero^ 
que havia de condenados , e entre elles vi : 6lue anda^ 
^yao os demonws tao efpejfos , como atemos do ar ao rayo do 
**' Sol \ e vi-os com difir entes , e desproporcionadas figuras , 
e com tao medonhas vifagens , que fomente imagmallo me* 
te horror i e efpanto 5 e como cruéis algozes tomavao 
vingança nas defventuradas almas dos condenados, 
que comoeftaó privados de outro poder, feabalan- 
çaõ , e empregaò a raiva nefta preza fua. 

Ví , que peçonhentos bichos e favandijas entra-, 
vaõ pelos fentidos daquellas almas danadas, como 
huns formigueiros, e taõ efpeíTas como fumo , que 
me turbavaô a vifta : VI grande multidão deanimaes, 

Rcâcxaõ IV. ^ iéva^ venenoías e ferozes ; as quaes muy encarniça- 
das Faziao efirago naquetlas almas , e corpos dos que com 
elle% tmhai ido kquelle defventurado cárcere ^ que o hc 
mais em íer perpetuo , e íem que já mais fe haja de ad^ 
mittir appellaça5 5 que como a íua lentença íe deu na- 
qUelle Supremo Tribunal da SantiíTima Trindade, naó 
Rcfl:xaô V. acharáõ outra Relação , que os dê por foltos : Nem ji 

mms 



I 



Pára feguir o km , efugtr o mal. jj v 

maisfeh^io dever livrei daqmllas ínfernaes ptnas j e cRas 
íéras cõ íuas unhas e dentes os mordem, e dcfpedaçaõ. 

Vi hins feroclíTimos demomos com humas iin- 
giias muy disformes lançadas fóra^que caufavaõ gran- 
de temor , e efpanto 3 e com cilas tcriaô , e laíiima va5 . 
aos danados , c toda aquella maldita canalha fazia 
horrenda mufica muy coníufa. Os danados com 
grandes gemidos fc queixavaõ elamentavaõ lua forte 
defventurada , chorando amargamente naõ de contri- 
: ça5i ( que alli naõ pode haver coufaboa) fena^com 
raivofa dcfeíperaçaó , vendo-fe em taô terríveis pe- 
nas grangeadas com fuás meímas obras: as férasbra- 
miaõyos demónios uyvavao, e os aíTobios dos dra- 
gões e ferpentes ajudavao a entoar cila deíventurada 
c trifte mufica. 

Vi alli grandes tempeftades, grandes ventos ^ 
grandes redemoinhos e tormentas : Muitos trovões , e Rcfl^eô yj» 
relâmpagos , que defpedtétc efpantofos rajos , os quaes ca^ 
hiao fobre os condenados ; e parecia , que os efmigalh..- 
vaõ , c faziaô pedaços, porém naõ os confumiaõ ; poi-^ 
que o feu mal naõ tem fim. Havia formidáveis ruí- 
dos de muitas aguas , c grandes torres de feraiva , e 
montes de neve , e giadas , c muitos rios , e tanques de 
lodo , e immundicia , e muitos lagos de aguas enchnr- 
cadas, e huns penhafcos de grande altura , de ped^ 
enxofre , e por elles fobiaõ edefciaõ' grande quanti- 
dade de feas favandigas. 

Os caftellos , e fortalezas , e muralhas defte def- 
venturado lugar , faõ de terrível fogo infernal > e nel- 
les portos muitos demónios, como ematalaya, que 
naõ ceíTaõ de dizer : Vela ^ vela. H ivia terríveis né- 
voas , e efe a ridiõ , e hum fumo muy efpeíTo , que me 
ãfogiva, e c.uifav^a grande tormento e agonia. Ef- 
taòasdeíventuradas almas entregues aos demónios, 

©pprinú- 



H.cfltxaoVri. 



331 Eftimulõ pratico , 

opprimidlíFiaias, como aleivoíaS) em tal cárcere e pri- 
zocns : eítaô coníiimidas , e affombrofas , e com terrí- 
vel fealdade, eftaô totalmente nms, grandemente 
envergonhadas, e confiiías ; tendo as bocas abertas, 
e fahidas as línguas , e com grandes anciãs , e colera^i, 
c dcfefperaçaã eftaò pulM^candojLgi^^ fuás malda- 
des 5 emaníteíiando às cl :ras feus peccaJos, que cá no 
inundo calárciô: i^ Que aunan das almas doi CathoU- 
CO. , quL alli ejlao condenadas , hefor confijfocns malfei- 
tas) e agora as miferaveís vem a publicar íem provei- 
to íeu^ pcccados. 

Todas le vem , e íe conhecem ; e com quem ti ve- 
rão cá mais amizade , moitraõ furiofas raivas. O tor- 
mento fe lhes dobra em lembrarfe de quam brevemen- 
te paffou o gofto e deleite, que Ihesfoycauíadomal, 
que ao poente padecem taò terrível , e íem fim 5 e aí- 
fim defconfiadas de que o te^haõ íuas penas , rompem 
^com grande braveza em alaridos e fufpíros , e muy 
grandes gemidos , manifeíiadores da fua condenação; 
cellasmefmas feconfeffaò malditas^ eexcommunga- 
das y e cítaõ amaldiçoando o inftantc e hora em que fo- 
Taõ geradas ,c a toda a SantiiTima Trindade , e a NoíTo 
Senhor JF.SU Chriíto , c a íua Santiflima Encarnação, 
c a porçaô ., e fuftnncia de íua Humanidade , c ao Ven- 
tre puriíTimo onde andou, e a íua Vida, Paixão, c 
Morte , e a feu precioíííTimo Sangue , e a todos os Sa- 
cramentos > e a todos os Santos , e aos Ceos , e à terra, 
ca todas as coufas creadasj e de tudo o que tenho dito 
eftao renegando , e blasfemando; couíaque me meteu 
grande defconíolaçaõ e pena. 

Como também ver tantos, que denovofehíaõ 
condenando , que em grande numero de almas naó 
ceffavaõ hum ponto decahir , baixando àquellas mo- 
radas, comoa pedra ao íeu centro, c turbando todo 

oin- 



!• 



VaraJeguiY o bem , efugi^ o mah 355 
o inferno fe alvorotava dç novo , creícendo mais òs 
gemidos , e augmentando-fc as penas ; c fezendaalár- 
de , e refenha os condenados , c os demónios miftura- 
dos hunscom outros , coftumaô fiazer recebimento às 
dcfventuradas almas, que de novo vaô entrando na- 
quelle cativeiro , ievando-lhes as infignias dos tor- 
mentos , que haõ de ter ^aos privados , c grandes dei- 
te mundo , Reys , Princcpes , c Monarchas^, que fora© 
cá eftimados , os nomeaõ pelos. feus nomes, que Ih^ 
dava o tratamento das honras humanas \ e alli os def- 
prezaõ com grandes opprobriosc infâmias, e os coí- 
pem, etem aperreados comoaefcravos viliffimos;c 
que mayor vileza , que ferem efcravos de tal fcnhor ? 
OsPontifices, e Bilpos^ cítaô poftos cm throDos de; 
fogo, c alli eftaò abatidas , e deíprezadas todas íuas 
dignidades c privanças ,.c em lugar das fuás Mitras 
tem pofta» carochas ; e mais.a_miudo.o& mctiaõ ^ e ti- 
ravaò cm caldeiras fervendo , t em lagos de aguas xm^ 
mundas , também os revolviaõ em lodo , e 0% entre- 
gâvaõ às feras peçonhentas^ e eftcs taes ,feu lugar he 
mais no profundo > porque foraò os mais levantados, 
cm digr^idade : E ajjim elles , como todos as que for a& Re- acfic saô Viir^ 
lí^tofos y epejfoas yque por/eu ejlado erao mais chegados a 
Deos No^o Senhor , e por feus peccados fe a fartar aí i e 
condenar aí , eJlÀí nejla profundeza ^ parque nellavi de 
todas as Reltgteem ; c de todas as mais altas dignidades, . 
que íc efíaõ abrazando naquellas eh imas $ e pelas 
infignias , que os miferavcis tem, fe conhece cada hum. 
claramente 5 e conforme foraó feus peeccados>, afiim 
íaõ feus tormentos; e tanto efl:esía6mayores,^an- 
tohum fóvmaischegadoaDeos,, 

E aíTim vi aos dei obedientes , que eftavaõ fogei- 
tos aos demónios, e diante delles ajolhavaõ, e lhes 
4avaõ obediência, forçada e violentamente: Ftaos def- RcScsaó ix- 
. heniítot. 



334 Efthnuh pv atiço ^ 

honeftos , {quefao tantos , que ejpanta o feu mmro) que 
eftavaõ em cadeiras de fogo , c que nellas os atormen- 
tavaô os demónios terrivelmente , defpedaçanco fuás 
carnes com garfos c unhas de ferro j e mais fortemen- 
te com tenazes em braza defpedaçaò, e arrancão 
aqucUas partes onde foraõ culpados , e para nvais c^- 
ceílivo tormento fe junta vaõ com ellcs os mefmos de- 
mónios , augmentando tormentos conforme ospecca- 
dos 5 coufa que lhes he de grande inferno. 

Também vi nefta mayor profundeza os Anacore- 
tas , que como fenaô aproveitarão dos ermos , e de- 
fertos 3 antes com fobcrha e hypocrifia attribuíraõ 
afio que fó a Dcos fe ha de attribuir , e darlhe toda 
a gloria , ganharão o eftar no mais profundo; como 
quem tendo mais occaíiaõ, e commodidade para fc fal- 
var y por fuás culpas perderão a Dcos, c com fua Dl-» 
vina Mageftade todos os bens, fazendofc herdeiros 
'^ de todos os males. 
Roflcxíió X. f^i ^^ proprietários , e apojlatas pojlos em grilhões t 

e cadeas ; e os demónios já puxando para traz , já para 
diante , o^ maltrata vaõ , e açouta vaõ com grande cru- 
eldade , e com algemas nas mãos , os metiaõ em cala- 
bouços t cepos. Ví também , que tinhaõ os proprie- 
tários iK>s peitos muitas bolças , c bichos que lhes eí-- 
ta vaõ roendo as entranhas 5 e a outros ví , que os de- 
mónios lhes tapa vaõ os ouvidos : e pela parte do cé- 
rebro lhes tiravaõ os miollos, e com cirande cruelda- 
de os lançavaô em fornos de fogo. A outros ví , que 
os metiaò os demónios cm fepulturas eftreitas, no 
mais profundo; ca huns cobriaõ, ou cnterravaô de 
todo , a outros até a garganta 5 e com grandes anciãs, 
z gemidos , davaô moftras de onde eítavaõ enterra- 
dos , e das penas , que alli padeciaô. 

No mais profundo derte mar profundo do infer- 
no 



Parajegmr o bem , e fugir ornai.. 335 

no Viadomdejgraçados, {quebmáefgrãçados forao) Reflexão xi. 
hum Frade, e huma tretra , qneo havuwjido anena 
Relwtav j c já o íeu peccado , c condenarão nnhao tei- 
to ínutd,e vâaíua religião, e dcbíeito a íuaproíií^ 
faó , a qual naô íómente lhes naò aprcveiíava 3 lenao, 
que era caufa de feu mayor inferno , por juílo juízo 
de NoíTo Senhor. E afíim eftavaõ em terríveis penas, . 
publicandoa_gnto^os delidos, porque haviaoímo 
condenados , que eraó ? Dejobeâmna , tn-veja , e pet- 
cadõs deJenfualtdadeyd\3iYm rús, e com toda a leal- 
dade , e defventura , que fe pode innaginar , nmito 
mais? c o Frade por haver fido Sacerdote, tinha 
mais tormentos , e ertava mais no fundo ; e por havei- 
los cu conhecido cá em íua vida , c então aili em taò 
triftc lugar , e eftado : Mo/iravao de me ver grande ver^ 
gonhd , c confufaô, e anciãs , com taô grande raiva e 
fúria \ que parece tinhaò coragem de ci pedajarme ; c 
a mim me deu grande afflicçaõ o vellos em tao^andc 
defventura.. 

Nefte profundo vi também a Lúcifer , c a Ju- 
das, os quaes tinhaõ terrível inferno^ A Lúcifer vi , 
que eftava pofto em hum infernal throno algum tan- 
to alto aíFentado em huma cadeira de fogo t e lhes Ef- ^^^^^^^ xil 
íaÕ dando obedtmeia as almas dos que defrfpnafi 5 as qnan 
em pena^i e cafligo de fetis^ pescados ^ ví , que também fã* 
ziãi offiao de áemonwSj atormentanda a outras almas 
íQmgrande mfermfeu. 

Vi aos avarentos, egiotoens, c peffoas , que ti- 
nhaò fido regaladas^ que padcciaô fum.mamifcria;) c 
que eflavaó poftos em carnas , e leitos de abrolhos, c 
de fa vandijas c viboras , que os. efíavao picando por 
todas fuás conjunturas c membros l Vi , que os efta- 
vaõ rebentan do , e fahindo fora os manjares > que tan- 
to haviaõ cá cftimado , deleitandofc com gofto vicio^ 



jjô ^ EfiimulopYútico^ 

fo. Vi aos do peccado nefando com tormetitos efpaft. 
toíbs , hum dos quaes cx'a ajuntarem-íc cam os demo* 
nios , e com as feras mais horri veis. Vi , que eftavaõ 
os invejofos efpedaçando-fe e comcndo-fe ^ e parece^ 
que de quantos tormentos tem^naõ fefartaõ,con- 
lervando ai li em fcu ponto a inveja raivofae 

Vi de todas as naçoens , e claramente os conhe- 
cia, e a idade de cada hum , c os tormentos , qwe ti^ 
nha ; e a major parte que parecia haver de condenados era 
de mtiy velhos $ e muy moços. Tem muitos géneros de 
tormentos : huns eítaõ pendurados pelos pés , e lhes 
ellaõ dando terríveis fumaças pelos narizes : a outros 
os eftaõ pingando, e lardcando cruelmente : a outros 
vi afpados : e a outros osenforcavaõ: a outros arre» 
meçavaó em maímorras muyefcuras, atados de pés 
c mãos , e com argollas aos pefcoços. E todos à vozes 
p ublicavaò fuás maldades; e vendo fua condenação, 
deiperados eftaô continuamente lamentando hum fim 
fem fim ; c alli tem íeu governo a juíliça daqucllc 
Juiz , cujo fer he de eternidade s tem bem juftificada 
afuacaufa,comprova,naõ fomente de que naõ al- 
cançou a coata aos recibos^ mas também de íuas gran- 
des maldades , que alli fe vem pelo claro íeus delitos, 
efpecialmente dos milcravcis^que foraò Religiofos, 
os quaes eítaõ renegando dos votos, que fizeraõ ; por- 
que naõ os haverem comprido lhes cauía mais infer- 
no 5 como também lho augmenta a fua hypocriíia , c 
as leys que tiveraõ, e o íeu danado e vaô intento. 
Defgraçada forte I Pois no inferno naõ ha redempçaõ 
alguma. 

Quanto neiiecafo tenho dito,tudo me parece na- 
da em comparação do que vi) que me naõ he poíTivel 
-cxplicâllo como o fente a minha alma. 

NOTI. 



Para fegutr o bem , e fugir o mal. 537 

NOTICIA SUBSEQUENTE. 

A Té aqui faõ palavras da Venerável Madre , em 
cuja ingenuidade dcíafeétada fe trasiuz me- 
Ihor a verdade do cafo. Oito horas continuas 
cfteve neíte maravilhofo rapto , os efteitos , que delie 
refultáraõ , naô faõ fáceis de explicar; naõ lómcnte 
os íentio na alma , mas também no corpo 5 pois deíde 
que teve efta vifaõ perdeo de todo a íaude j e a cor do 
rofto parecia mais de cadáver , que de peíToa viva ; 
efquecia-íe de comer, efe as Reiigiofas naõtiverao 
cuidado diffo, íicára muitas vezes fem o fuftento pre- 
cifo para confervar a vida : antes defte fucccffo era 
naturalmente alegre dentro dos limites da modeftia; 
depois fe mudou de modo , que raras vezes a viraõ 
rir 5 e iíío mais para diíTimular cuidados , que para ex- 
plicar alegrias \ às vezes fe lhe elíremxciaõ os hom- 
bros , c lhe da vaó íubitos tremores , caufados pela vi- 
Veza da aprehcnfaò do que vira: outras, indo andando 
de repente parava affuítada, parecendo- lhe fe abria 
aterra, e que no centro delia contemplava aquclle 
pego fem fundo demiferias; eftava muitos intcrval- 
los , como attonita e aíTombrada 5 porque era tal a vc- 
hemencia da imaginação , recordando o que vira, que 
lhe roubava toda a attençaõ da alma : as palavras eraõ 
muy poucas; e ncllas quafi fempre entremetia cou- 
fas das que no inferno paffaõ; o íbno era breve , por4 
que lhe naò confentia mais fcu continuo cuidado: 
naõ lhe davagoftoo que comia 5 todas as coufas def*í 
ta vida , ou foílem de allivio , ou de pezar , fe lhe fa* 
ziaõ defpreziveis , comparando fua duração limitada 
com Ojí immenfos eípnços da eternidade: anciavafe. 
iaiortaímente j de ver quam cfquecidos defte formida^ 

Y vel 



35^ EJluhulo pratico y 

vel perigo, c extrema defgraça , andao os homens 
ncfte mundo ; quam cegos cm íeus appetitcs , cami- 
nhando por feu paíTo ao termo , cm que fua mfeiici- 
dade naõ terá termo : dizia , que dcíejava fabir por 
cííe muado veitida em hum facapenitcntc. , e cuber- 
ta de cinza, a pregar pelas praças o engano em que 
os mortaes vivem : aífirmava também íer raro o inf- 
tante , em que lhe faltava o temor de Deos , avivado 
da memoria, que eíle Senhor lhe renovava daquellas 
penas ; coufa que lhe proftrava tanto. as. forças da na- 
tureza , que íeria impoíFivel viver fcm particular 
Providencia do mefmo Senhor, que a confervava; 
grande confufaõ para os que tendo mais cauías de te- 
mer , do que teve efta alma taõ ornada de virtudes, 
e favorecida de Deos, ainda aílim vivemos com tal 
defcuido,c com taõ pouco abalo > como federamos 
anoíTa falvaçaô por certa. 

Reflexões moraes fohreefta vi/aõ.. 

K E F L E X A Õ I. 

AVífrs , que ponha» cmdado em por Prelados , qm 
com muito zehfaçao fe guardem ^ como em fet^s 
pnnctpm , as leys , e obriga çoens de nojfa Sngra^ 
da Religião. 

Aqui eftá o ponto principal em que joga a con- 
íervaçao , ou ruina de qualquer, Família Religiofa. 
JBem fabiaó ambos eftes Santos Prelados , em que te- 
ck punhaõo dedo; pois delia pende a eonfonancia, 
0u djffbnancia de todo cfte myftico orgaõ. Guardcm- 
ft as íeys , aíTentos , cftylos, c mais obrigações particu- 
lares dl. tal Religião : menos que iíTo, ainda que flòreça 
tm.let-ras,e abunde em engenhos de todo o luzimento} 

ainda 



Para/eguir o bem , e fugir o wa!. 339 

ainda que fe propague em novas fundaçoens, t elkn- 
didas Prov.nciaò3 ainda que creíça a magnificência 
dos edifícios , commodidade das ofhcinas , decoro e ef- 
plendor do culto Divino > ainda que adquiraô groí- 
íos legados , e íe depofitem no erário muitos íubíidios 
temporaes ; ainda que os Grandes do fcculo a fomen- 
tem com fua grâça c benevolência 3 ainda que fccon- 
íiga eícreverem-íe no Catalogo dos Santos Ganoniza* 
dos , alguns filhos da meíma Religião , que floreccraõ 
cm ícus principios ; naò vay bem à Religião , nem di- 
ante de Dcos crefcc j porque tudo líTo íaó accidentcs^ 
c aobíervancia das regras, hc aíubftaticia; efe nos 
principios naõ houvera , e ainda agora em muita par- 
te fe naó^confervára eíTa fubftancia^ também ^ nem 
agora , nem então houvera aqucUes accidentcs » por- 
que às virtudes feguem todos os mais bem e proijpç* 
ridades , como fombra ao corpo. 

Avífa pois, (dizem aquellcs Santos) que íe po- 
nhaô Prelados, que façaô guardar bem as regras, E 
como íe guardarão bem ? Guardando-fe como no 
principio. E que ha de ter o Prelado para as fazer af- 
fin guardar ? Xelo ; c naõ qualquer zelo , fenaô mmtà 
zelo ; logo eftes , que tem muito ^clo , faõ os bons pa- 
ra ferem poftos por Prelados 5 por iffo naõ dizem: 
Aviía , que ponhaõ Prelados qut tenhaô letras , cans, 
antiguidade, nobreza de fanguc , que lhe conciliem 
refpeito , nem que tenhaõ expedição em negócios , af- 
fabilidade natural , amor à oração , e mortificação , c 
pobreza de efpirito ; fenaõ Prelados , que com muito 
zelo façaõ guardar as regras. Porque fuppofto , que 
todas , ou quafi todas aqueUas pixndas faõ ncceffarias 
para o tal lugar 5 fe faltar a do zelo, naõ conílitúcm 
Prelado. Porque r^zaó ? Porque naõ ha de fazer guar- 
dar âs regras; tudo ha de interpretar benignamente^ 

Y ij anin- 



340 Efíkutilo pratico^ 

a ningnem ha de querer defconfolar , íenaõ aos zelo- 
íos em cafa , e a íeu Santo Fundador no Ceo : naõ fa- 
rá cafo de miude2:as , parecendo-lhc impertinências : 
terá em caía muitos, amigos , porém poucos fantosj 
haverá no feu tempo paz, porém falfa , como a que 
na republica interna tem hum com o feu corpo, e com 
o demónio, tanto que defaperta os cordéis da morti- 
ficação e prefença de Deos. 

Pois íe o Prelado na5 fizer guardar as regras , 
quem as ha de fazer guardar ? O amor de Deos, que 
vive nos coiraçoens dos fubditos ? Se o houver no au- 
ge i que he neceíTario para eíTe fim , mayorcs valen- 
tias obrará; pois he forte como a morte , e como o in- 
ferno. Mas íe o mefmo naõ guardar as regras, ou 
guardallas mal , procede de havçr pouco ou nenhum 
amor de Deos : para onde appellaremos ? Para o tç» 
mor do peccado ? a devorar o venial , muitos fe atrcW 
' '^vem j para o mortal naõ bafta qualquer matéria , e 
qualquer preceito ; fe bem ainda que naõ bafte para 
mortal , bailará , (ainda mal) para introduzir relaxa- 
ção ; e fe bafta , ou naõ bafta ; ahi entraõ as opinioens^ 
ç, Authores, que em qualquer ponto eftaõ cheyos del- 
ias; e he fem opinião, que o peccante ha de feguir a 
que lhe for mais fatoravcL Mas cafo , que a culpa fe - 
ja , naõ fó grave diante deDeos,fenaô clara nofintir 
dos homcn-s; terrível lance he efte! Porém contcn- 
tarfeha o íogçito com dizer ; Somos.miferaveis : para 
iífo ha em Deos miferiçordia, e na Igreja. Sacramen- 
tos. Diz bem n^ dita fuppofiçaõ ; c cu a naõ quizera 
fazer > mas he claro, que fe nas Religiocns ninguém 
fe atreyéracomopeçcado mortal, naõ vira cfta Ser- 
va de Deos. no- inferno gente de todas, as Rcligioens> 
como também , que fe naõ fora neceíTario para a re- 
forma delias darfe efla noticia ^ naõ lhe mandara Deos 

por 



Para fegulr o km , e fugir o mal. 3 4 1 

par feus Prelados , c ainda pela niefma Santa Thcreía 
publicalla. Emfim , que ou ciks relaxados íe arrcpen- 
daõ com tempo , ou fc condenem , fempre a obíer van- 
cia das regras padece, c naõ temos queeípcraíla fo- 
mente <lo temor do peccado. 

He logo neccffario , que ao amor , e temor de 
Dcos fc ajunte , como nuxilio cxtrinfeco , o zelo de 
quem governaj e cntaõ aperfeiçoará o feu bom govcr- 
no,quando fizer lhe fucceda outro Prclado^quc o con- 
tinue. Zelo, digo, naõ amargofo, nem indifcreto, 
nem precipitado , nem caprichofo c de pundonoresí 
mas zelo, que anteponha à todas as mais , as obriga- 
çocus do ícu officio ; que admocite juntamente com a 
palavra, e com o exemplo j quenaõ naõ ceda puíiiia- 
nimc a orgulhos de régulos , nem afcde fahir do feu 
lugar congraçado com todos ; zelo , que naô intro- 
duza novidades , nem facilite licenças , nem amplie 
iíençoens , nem íe cfconda de faber as coufas , que ne- 
ccíTitaõ de emenda , nem lance maõ de epiqueyas in:!^--^ 
f cntadas pela prudência do fcculo cm fraude ^at 
conftituiçoensj zeloemfim, que fc determine er 
tnfãmiam (^ bonam famam a padecer pela gíria de 
Deos e bem commum dos fubditos ,as contradiçocns, 
que infallivelmente lhe haôde fahir do inferno por 
meyo dosdifcolos, e fcus fautores ,e de outros efpi- 
rituaes prudentes ao humano , e de didames mais 
plaufiveis , que fcguros. 

0\\ quanto imp rta , pender fempre com toda 11 
força para a obfervancia , que fe tinha nos princípios. 
Todas as Rcligioens , e ainda a mefma Igreja Catho- 
lie 1 , Míiy delias , ti veraõ ao começar feu feculo fan- 
to? e para efta parte haõ de inclinar fempre os que 
qu^zcrem íer Santos: In vdrtes vade facult fanãfj ^^ihCtj.^zC 
porque as coufas , alli achaõ o coníervarfc , onde ti- *^' / 

Y iij veraõ 



34^ Eftimulo py atico^ 

vcraó o começar : os princípios das Rcligiocns he cer- 
to , que foraõ de Deos , a continuação ou fcrá do 
Dcos , ou dos homens , c a relaxação ícmprc he noffa, 
c do diabo /por n^fcria , c por maldade > e fempre íe 
introduzio dcfdizcndo dos princípios , c affcílândofc 
taõ inícnfivelmente , que o ladraò fenaõ conhece , fc- 
haõ depois do roubo fer grande , e manifcfto , c quaíi 
irremediável. Por iffo aqueilcs Santos dizem : /\vi- 
ía , que ponhaõ cuidado cm pôr Prelados, que com 
muito zelo façaõ guardar as Icys como era ícu prin- 
cipio. 

REFLEXÃO II. 




V- 



Lhava aqudhs prdmg^dos efpafos , osterriveís 
e ínfernsts lugares e moradas , e grande quants* 
dade , i numero efpant&fo de almas , ^uefe revoU 
víao' nas chamas, 

Lib.ij. de pct O Padrç Leonardo Leflio , Thcologo muy eru- 

ítaion b, Divi. dito e pio da Companhia de JESU, conjccSura , que 
iíiscaf).i4. ^ inferno he hum como tanque de fogo , e enxofre, 
fituado nas entranhas da terra , de forte , que o cen- 
tro defta , e o do tanque fcjaõ o meímo ponto , c que 
tem de profundeza meya légua , (que he a mayor, que 
íe acha no mar) c de diâmetro , ou de hum lado a ou- 
tro , huma légua ; e diz , que naõ eftaô alli os conde- 
nad:)s cm pê, nem difcorrem de huma para outra par- 
te , fcnaò , que eftaõ aili , como carvoens amontoados 
na fogueira 5 c por confeguinte , ainda que demos de 
diftancia a cada corpo íeis pés quadrados : com tudo 
huma ]egua,quehc de vinte pés quadrada em figura 
^ . cubica, pode recolher oitenta mil milhoens de cor- 
nam qui l. hl'. Tios , ou pira melhor dizer, cadáveres condenados. O 
tc.aax4. n.i^, Padrc Salinas da mcfma Companhia diz , que lhe pa- 
rece 



Tara feguk o bem , e fugir o mal. 343 

rccc provável, que cila concavidade das moradas do 
inferno tem mil c feifcentos eftadios por qualquer das 
medidas , largura , profundeza , e comprimento , que 
fazem cincoenta léguas Hcfpanholas ; e o deduz de 
hum lugar do Apocalypíis 5 onde S Joaõ diz , que o ^pct.,^.^etf. 
Anjo do Senhor , com huma aguda foice vindimou a ij, &to. 
terra , e lançou no lago grande da ira de Dcos , e cal- 
cado o lago/ahio o fanguc por efpaço de mil e feifcen- 
tos eftadios : Et mtjit Angtlm f alcem fuam acutatn tn 
urram , & vmdemiavit vmeam Urra^ & ^ifi^ ^^ ^^^ 
cum irét Dá mtgnum : & caUatus efi lâfus extra nvi" 
tatem , ó- extvit fânguts ãi Ucu ufqtte adframs equo* 
rumperjiadia milkfexceHta. E aflim explicaõ também 
cfte lugar Ribeira, e A Lapide, infigncs Expoíitores. 

Como nefta matéria , naô temos revelação , nem ^ ' 

Eícritura exprefla , nem tradição Ecckfiaftica, de fo|: | 

ça ha de entrar o difcurfo humano , c por confeguin- | 

te deixar a queftao debaixo dos meros termos de hu- 1 

ma incerteza verofimiL O que naõobftante, o fentif 
de Leflio, parece, incurta muito aquelles cfpaços. Pri- 
meiramente , porque os corpos condenados , fc repre- 
fenta ferem muitos mais milhoens do que a fua conta 
limita. Joaõ Botero nas fuás Relâçoens diz , que for- 
mandofe juizo do numero das gentes, que poderáó ter 
as naçoens principaes da Europa ; Itália terá nove mi- y' 

Ihocns de almas : Alemanha dezanove : os Paízes Bai- ' ^ 

xos trcs : os Helvécios , Povos da mcíma Alemanha^ / J 
dqus : Heípanha , ainda menos que Itália : Sicília hum S. 

milhaõe trezentas mil almas: Inglaterra pouco mais ít ^ 
de três milhoens: França por huma matricula, que X, 
houve, fe foubc conter quinze milhoens: Roma fo- 
mente em tempo do Empcrador Cláudio tinha féis. 
Ifto fuppofto, fe devem confiderar três coufas. Pri- ^ 
meira , a multiplicação , que a eftes números reíulta M^ 

Y iiij do ^ 






Baron. A ano 
Chrifti jo. n. 
Mltimo C2 Ta- 

CÍt9. 



4. ífdr. t. i 

fClf.i. 



LU), t. RcfCí. 
caf.tí. Rcapo 
2.0. Iclib»4, 
cap. aoj'. 



344 E/fifnufo [ri: tico , 

do curfo dos íeculos , cfpccialmentc fendo as vidas 
taõ curtas. Segunda*, que a ícntença mais tundada 
nas Efcrituras , e fcguida dos Santos Padres , tem que 
ainda dos Fieis adultos a menor , ( e muito menor) 
paice íc ialva. Terceira, que a Europa comparada 
CO n a mais redondeza da terra, habitada quili toda 
de infiéis , he hum pequeno canto y e íó a China , (co- 
mo diz omefmo Botero, cconcordaô os Efcr.íorcs 
tlíscoufas daquellc Império) encerra mais milhoens 
d'! almas , do que fomaô todas as fobreditas adiçoei s 
juntas > e fó cm Roma antigamente pelo computo ^ 
que fe fez em tempo , c por mandado do Emperador 
Cláudio^ antçccír:)r de Nero,foraò contados Cida- 
does Romano;^ féis milhocns e novecentos quarenta 
e quatro mil. 

Do que tudo junto íê moftra, que os réprobos 
faô em nurnero mayor do que commummentc íc 
imagina 5 c hc tal o excedo, que fazem ao dos efco- 
!h'dos ; que hum Anjo fallando com Efdras > o com- 
parou ao exccffo, que na quantidade faz o barro ao 
om'o:Hf}cfecukm (diíTe o An]o)fectt AUtJJimus pr&p^ 
ttr multes ; futurum <íuíem propter paucos, Dicam aií- 
Tem ceram te Jirnúítuàmem , Efdr/2. Çltiomndo étntem in- 
terrogabisterram^ 0* dtcet ítht^ qiiofmm dahitíçrratn' 
muhãm magis , unde fiat fiBtle '-, parvurn antem puhe- 
rem tinde aurntniií:fic ^ a£fu^ prdtjentis pecuh : mtihi 
(jmd<rmcreâttfiint''i panei autemfdvâhuntnr, È nasrc- 
vcbçocns de Sanca Erigida íe diz , que faõ mais , que 
as arens do mar , c íbixinhos das pravas e ribeiras ? e 
que ertao cahindo no inferno como os copos de neve 
fobre os campos. 

TaTibem faz ao mefmo intento , o que Bollando 
Refere ni Vida árSantaMártinha Virgem e Martyr. 
Fora eíia gloriofifllma Santa à prefença do idolo d^ 

Apoiio 



Varafeguir q bem , e fugir o mal. 345 

Apollo cm Roma , onde íe achou o mcfmo Empcra- 
dor Alexandre, c grande multidão de Povo c Sacer- 
dotes dos Ídolos , pcríua^idosjodos , a que cila que. 
ria facrificar > porém a Santa com a força da fua ora- 
ção excitou huin grande terremoto , com o qual fe 
arruinou grande parte do Temph^^ com morte de 
muitos, e a Eii >tu 1 de Apollo fc fez em pedaços , c de 
dentro fahio liurn fero demónio , o qual revolvendo- 
feno pò do idoio quebrado , dava triRes ôyvos e ^c- 
mi dos , c dÍ3Ía : O' Martinha Virgem , Serva do gr^n 
dç Dcos, que cifá noCco, que me dcfapoíTaíte da 
minha caía , c dtfcobriíle minha fealdade j noventa c 
oito annos morcy aqui com grande fenhorio ; porque 
tinha debaixo do meu mando outros quatrocentos c 
fetcnta c dous efpiritos de maldade , mrus miniftros^ 
cada hum dos quaes me ofFerecia cada dia fetcnta al- 
mas > c o Principc _Esfi^on , deputadoiobrc^os adub- 
terios , e feitiços , me offerccTaTrtnta c fcis aJmas : to- 
das eftas tinha debaixo do meu poder ; e tu agora me 
afugentafle, c deflerras para as cavernas infcrnnes. 
Vào dizia lamcntando-fe. Pois quem quizcrfazera 
conta de quantas craõ por todas as almas pervertidas 
no dito eípaça de noventa e oito annos , pelos qua- 
trocentos fctenta e dous demónios, ( fem fallarmos 
nas que pervertia Esfigon , porque naõ confia fe eraò 
cadi dia , ou fe cfte era hum dos quatrocentos fetcn- 
ta c dous miniftros ) achará , que fazem o prodigio- 
fo numero de mil e cento e oitenta e hum contos e 
oito centâs e quarenta. mil c oitocentas almas? por 
Jilgarifmo, 1 181840800. (efuppofío, qae o demo 
nio fc mentiffc , naô feria couía nova; toda via nos 
prefentes teiTiios em q Deos queria de fenganar a G' n- 
tllidade, e confundir o Emperador^e honrar a fua Ser- 
va ^ e dargrandc augmcatoá fua gloria. e converter 

(çomp 



3 4^ Eflimièlõ pratko , 

( como com cffcito fc converterão muitas almas ) 
parece , qiLe^&tta^v^ifefdade ; pois fe tanto foy o cí- 
trago, que quatrocentos fctenta c dous demónios fi- 
zeraõ em noventa e oito annos, quanto lerá o que 
fazem innumeravcis nodiícuríodc todooíeculo. 

Além difto ; os corpos dos réprobos ^ fuppofto, 
que eftaò liados em feixes , (como diz o Euangelho) 
naô eftaraô todos eíTes feixes na mefma parte 5 fcnaô, 
que haveA varias oííicinas de tormentos , varias fei- 
ras tumultuantes depena, como lhe chamou S. Pe- 
dro D imiaô ; varias regioens do reyno das trevas , 
para fe deftinguircm os admiráveis efpedaculos com 
que Deos proporcionará as penas com as culpas , eí- 
tados , e peíToas , cm orde?n , e mais gloriofa. mani- 
feftaçaó do attributo de fua juftiça; c aílim de muitas 
revelaçoens (além defta , que vamos notando) coní- 
ta hiver alli montes, c lagos, c poços, c pontes, c 
caftellos, cmaímorras) e que os demónios voaõ de 
huma a outra parte , e que os condenados padecem 
precípicios, e mudanças do fogo para o regelo, c 
outras coufas, que fuppocm largueza de lugares, 
fein que para iffo neguemos, oue poderá haver alli 
também para alguns elpccial ormcnto de immobi- 
I idade ; e naó ha para que recorra mos a que tudo iíto 
paffe na fantaíia ou aprehenfaò da alma condenada; 
podendo paffar realmente no c»rpo, quando fc reu- 
nir a elle > ou antes diíTo também na mefma alma por 
verdadeira mudança de lugares. 

O que fe confirma com o que fe refere cm hu- 
ma carta annua da Companhia, dos Padres da Provín- 
cia de Toledo , cm que dizem foraõ teflemunhas de 
vifla do que paíTou com huma mulher endemoninha- 
da , peia qual o efpirito maligno aífirmava , que Deos 
lhe mandava prcgaííc ao Povo, que aili cftava junto; 

c entre 



Para feguir p bem , e fugir o mal. 3 47 
c entre outras coufas dizia : A mim me derrubou o ALapHeit 
pcccado, defde a altura do Ceonas profundezas, c ^^l\^^J^^' '^* 
YÓi outros tendes algum lugar na tcrrra por fcguro ? 
Haveis de ir, íc vos naò emendardes, haveis de ir 
com os minirtros de Satanás ao enxofre , ao fogo 5 à 
ponte , ao caílcilo , ao rio ^ à cafa redonda. Palavras 
de que le colac haver alli vários lugares deliinados 
para vários tormentos , por onde os condenados paf- 
laõ^ % 

Tratar cftas matérias , ainda que feja por riiodo 1 
taõ incerto ^ duiiinuto , c umbiâjtil .traz f^rsndcs uti* 1 
lidades. Adquire a alma certa madurez mais (lUi- | 
da , exc!uc o»tros pcnfamcntos nocivos, aborrece ]ò- 
cofid ides pueris , que a fazem eícorregar da firínez^i 
de feus propoíitos , c a<ílua-fe na memoria daquciics 
tormentos , delccndo agora a clles , para que naò dtí- 
ça depois: N/ã// /í" vWf/ { diffe S.Pedro Damiaõ de- scrw.cn/mO. 
pois de fazer huma reccipitulaçaò daquellas penas ) Nicciaam. 
ad exítrpandas võluntaium rãdices , quam tjloyum nh- 
tnorta. Curre per has tumult antes nunâmas ^ ut vt.utíu 
dcfcendas in wjcrnum. 

REFLEXÃO ill. 

V/, que andavão os demontos tad efp^Jfus , corns 
atôrms do ar ao rayêd') Sol. 
Efta mefma comparação hc de Haimo ;.e S. 
Jcronymo diz, que todo eíie ar, que íe elkndc entre o 
Ceo, c a terra, eftá chcyo deites máos efpiritos ; c que *' |^ , 

cflc fentir hccommum dos Doutores: H^ec omnium sopcr Epíft. «< 
Doctorum opinio eli , quod aer tíie , qui C(elurH , & ter» ^v^^[' ' • "^^^ 
r&m medtm dtvidmSy tnane appellãtur ^ plenus Jit con* mmunor.foi». 
irarns foriítudimhm. O Abbadc Sereno , nas colla- j 
çõcs de Câíliano diz, que por ferem tantos ,£07 con- 

vcniea- 



CoIJat.l.cap. 



34^ £/?/>/;í;^/<? prapco , 

vcnicntiíTimo ferem invifivcis > para que pudcffemos 
os homens viver na terra fcm o aíToiribro da fua feal- 
dade, e multidão. A Serva de Deos Marianna de 
JESUS, vio os demónios em hum campo , em figura 
de mofcocns e bizouros muy grandes, c tantos , que 
Parte f. àz í« P^i" o^^^^c voavaõ encobriaõ a Lua , e parecia de noi- 
Vida , lib' i' te. Na Vida do eíciarccido Patriarcha S. Domingos, 
cap. K. £ç j^ ^ç }^yj^ jp^^^ homem, que impugnava a devoção 

do Rofario, c feus quinze myfterios; e em caftigo 
deita impiedade entravaó na fua alma quinze mil de- 
mónios,. Tudo illo he c< nforme a doutrina dos Pa- 
dres, que explicaó fer a multidão dos Anjos, que 
apoftatáraó , aquella terceira parte das EflreUas, que 
o dragão arraílrou com a cauda: le ajuntamc^s a dou-* 
trina de Santo Thomás, que diz fer o numero das 
fubílancias feparadas, ou creaturas Angélicas, mayor 
.<i que todos os das mais coufas^^ffcriâèl. 



F 



REFLEXÃO IV. 

jizia (firâgo 9ítí{]uetlas almas , e corpos dos nfut 
com eíles unhai hido iquell' dej%cniu) c.do ctírcere, 
Eíta claufula naõ carece de difliculdade , por- 
que fe ao inferno defcéraõ alguns réprobos em corpo 
calma, fcguc-íe,quc naõ morrerão; c ifíohc con- 
tra o que affirmao as Efcrituras , que havemos todos 
Rcm.s.Tcrf.ii. niorrcr: In omnes hommes tmrs pertratifit, Statnwm 
Htbr.9 vçrf.17» ^[l homtnibuí fetntl mort, ^u ejlhomo úfutvivet^ & 
Píaim.iij-'»" « ^^^^ xviieto mortem ? E fe naõ morrerão , íegueíe mais^ 
que naõ haõ de refuícitar ? porque naõ fe diz , que fe 
;!,' . levanta aquclle de quem primeiro fenaõ verifica ha- 

3'^. ^'"* '^^' ver cabido: Tu qnod femmdé (diz S. Paulo) nonvivi- 
ficáfur , mfi prias monattiri e naõ haverem de refuí- 
citar, hc contra outro dogma do melmo Apoflolo: 

Omnes 



Para feguiro km , e fugir o mal. 349 

Omnes qtiidm 1 cfurgemm j c contra o íymbolo de Sau- ,^Ço^i^^^ 

to Athanafio , onck aíiina cita reíuiTciçaò gerai ao dia 

do Juízo , em que hi de vir Chnito : jià Chjus adveru 

tum omnes hommes refurgere babent cum corpon^i^ fuuy 

como logo diz cfta Serva de Deos ^ que vira padecer 

as almas g corpos dos que com cilas tuiiiaò ido àquel- ~c. 

le defventiu-ado lugar. 

Podeíè reíponder primeiramente : que efxa diíK- 
culdade tem a melma torça contra os que dizem , 
que Core, Hon ,Dathan ^c Abiron., ecom elles to-^ 
das as peffoas das famílias deftes três ultimes decéraô 
vivos ao inferno^ e experimentaõ o rigor daquclks 
penas no corpo , e na alma. E com tudo naò deixa 
efta fentcnça de fer provável, porque aílim parece, 
que o diz a letra do texto defta hiftoria , no livro dos ^^^.^^^^ ^^rf. 
Números > e tem S» EpiÊinio , e Santo Hilário, e ou- %o. & juEpift. 
tros 5 e o infinua também Santo Ambrofio , em quanto ^^' 
diz , que eftes mileraveis foraõ arrebatados de forte, 
que naô contaminaíTem a terra com a fua fepuitLua. 
Dou as fuás palavras por ferem muy elegantes: bnnm^ 
giens terra^n tmdio pkbis fcindituryãpeniur xnfn^unúu. '^'^ 
finus ^ ãb\ ipiunUiV noxn^ c^ iia ah omnihm mundi h/jus 
ablcgantiir elemenits , ut nec anem hau/lu^ nec Cceltím 
vifu , nec maré taõiu , nec terram contaminat ent feptií- ; 

chro. Mas porque amais commum fentçnça dqs Ex- Gsgncos , Jot^ 
poíi iteres fobre aquelle lugar dos Números ,'e fobre ^jj^^tór'^^^^^ 
o verío 16. do Pfalmo 54,. Defcendant tn injernum vt* Adagiaiium ^ 
ventes yiQm que eftes impios morrerão no m.eyo do part r-madag. 

. , Al n^ 1 69. &i Lo: num 

caminho, e ficando os íeus cadáveres .nas cavernas^ inj. Num. cap. 
da terra ^ fuás almas • forâõ- continuando o precipirv '■^•]^'} 3®- ^ 
Gioateoinrcrnoj , ' .• ^vcf. 16. 

. Refpondefe cm fegundo lugar : que he verdade, 
que todos fem excepção alguma havemos de morrer,; 
€ relufcitar, (ie bem rjag^ he de fé 3 porqjtic rnAÚtof»^ 

■ -■' ' Padres 



3 5^ o Epmulo pratico , 

Chryfofi. Hie- Padrcs , fundando-fc em algumas Efcrituras , excep- 
ícuThcopk^ ^^^^ ^^ juftos, que fe acharem vivos ao tempo da vin- 
ha. OccuíTic- da dè Chrifto a julgar, ) m.as naõ diz a Serva de Deos, 
lua? o-iac. 9^^ ^ft^^> q^^ ^^^ ^^ inferno em corpo c alma naõ 
tícs, qa^^scitat. morréraô , nem relufcitáraõ. Bem pod aõ morrer, c 
!"'nIr?T;'* '" ^^?P ^^ breve eípaco de tempo , antes de fe corrom- 
í«^, 1, pcrem os corpos , tornar a unu'le a ellcs as almas. Aí- 

íim, como na lentença commum, os jaftos, que na 
vinda de Chrifto íe acharem vivos , íeraõ arrebata- 
dos ao ar , fahindo-Ihc ao encontro , e nefte rapto cf- 
piraráo , mas logo tornarão a reviver : verificando- 
fe por huma parte a regra de que todos havemos de 
morf rer 5 e por outra o artigo do Symbolo , que cnfi- 
na , que ha de vir Chrifto a julgar os vivos , e os mor- 
tos. 

Nem obfta haver de fer a rcfurrciçao geral no 
dia do Juízo > porque alguns cafos particulares naõ 
prejudicas a verdade dos dogmas univeríaes. De ou- 
tro modo naô fora certo , que a Virgem May do 
Creador eftá noEmpyreo glorificada em corpo e alma> 
c naô fora ifto mefmo provável de todos aquelles 
Santos , que refufcitáraõ com Chrifto , entre os quaes 
fe entendem haver fido S. Jofeph , S, Joaquim , Santa 
T^^Xt Anna, David, Moyfés, Abrahíim , líaac, Jacob, e 
gix cxcr« utio- noíTos primejros Pays , por onde a morte entrou no 
íu ^V/*^ &'fcâ! ^u^^dò ; pois aíTmi como Deos para gloria de fua mi- 
àn.iéil feficordia, quizque alguns infignes Santos anticipa- 

damente lograffcm cm corpo e alma os goftos do Ceo: 
aflim também para gloria de fui juftiça podia querer, 
que alguns infignes peccadores anticipadamcnte pa- 
deíTccem em corpo c alma os tormentos do inferno. 

E deftc numero podem fer muitos , que as hifto- 
rias referem , foraõ arrebatados vivos pelos demó- 
nios 5 e outros cujos corpos já enterrados , vieraõ os 

mcfmos 



Porafegiúr p hem^efugiromal 5^1 
mcfmos demónios buícar àíepuitura, feja exemplo 
do primeira o caio , que refere o Padre Andrade da itc„crario bift. 
Companhia de JESU peias leguintcs palavras ; Anno p«rr. i. graáo 
de mil e feifccntos e quatorze , refcrio na Congrega- ^Vaj^pari "d^s* 
çaò de íeculares da noffa CaíaProfcffa de Roma, o tom.i. lib 5/ 
Padre Virgílio Lepatto o feguinte cafo , que aâirmou ^'^^**^^^ *^* "• 
haver fabido de duas teftemunhas deviíía da meíma 
Companhia^ que íe acháraé preíentcs , e foy : que 
poucos annos antes havia em Portugal hum Juiz, no 
exterior muy religioío , e que fe confeíTava , e com- 
mungava cada oito dias , c fazia outras cbras de vir- 
tude aporem tinha bum vicio prejudicial a íi, e a to^ 
dos; que era huma entranhavel cobiça taô apodera- 
da de lua alma , que naò deixava pedra por mover , a 
fim de enriquecer , e accrefcentar íeus cabedaes , pu- 
xando inhumanamente quanto dinheiro podia aos 
que ncgociavaõ no feu Tribunal ^ recolhendo- fe pois 
hum diaà íua cafa, lhe íahio ao encontro hum ht)- 
mem defconhecidò , e lhe deu huma carta fobrefcri- 
ta para elle, e logo deíappareceo : abrio , e ieo 5 e ncl- 
la , a fentença de fua morte, com huma citação pe- 
remptória para o Tribunal , e Juizo de Deos. Todo 
ficou cortado , e taõ turbado, e amortecido", que 
nem podia dar paíTo , nem articular palavra : levaraõ- 
no cm braços à cama; c appareceraô- no apofento 
vinte e fete demónios , com igual temor daqucUe mi^ 
ícravel , que affombro dos que affifliaó , que quafí to- | 

dos lançarão a fugira mas entretanto os demónios 
fazendo feu officio , os vinte lhe tomáraô poffe do , 
corpo, çolando-fe pcla^ocadentrore os fete ficarão 
de fora , como ^FeicoItaT^guarcIa aos que eftavao 
dentro. Os parentes , e gente da familia do miíeravel 
avarento , trouxeraõ Sacerdotes , que conjuraffcm os 
demónios, os quaes fepuzerao em defenfa, malrra- 

-, tand-s>> 



3^1 Eflimtilo pratioo , 

rando de palavra aos circunftantcs , e declarando a 
cadii hum íeiís peccadqs publicamente : os demónios, 
que eftavaõ dentro atormentavaõ ao Juiz terrivel- 
mente 5 os Sacerdotes conjurávaõ a todos, pondo 
mais esforço contra os fete , que eftavaó no apofcn- 
to 5 e com efFçito lançáraõióra leis delles. Mas o fe- 
timo , que reftava 5 diíFe aos vinte , que eftavaõ den- 
tro : que vos detendes com eíTa preza , que tendes nas 
mãos? Alto com ella , pois he noffa, e figamos a 
noffos camaradas , que vaô diante. Nefte ponto , le- 
vantarão ao Juiz no arredando triftes gemidos, de- 
íappareceo arrebatado pelos demónios. 

Aié aqui o dito Author , e naõ pode haver me- 
lhor fermaó para os Juizes , do que efte fucceffo; no 
Síiri.í. àvcrí. q>J^l cftá viva aqucila exhortaçaò do fabio: Dtfate 
».4d6. Jiidtces finium terra, trohaie aures vos qui contmetis 

multituàínes , ^ flncetts vohts m turbts naíionum : quo- 
ruam daí a tji a Dommo fotíjias vohis , ^ vtrtus ab AU 
tiljimo ^ qiít tnterrogabu opera vejlra^ & cogitattoms 
jciutabitur: piomam tum ejjetts r/jmi/ltt Regrn ilhusj 
non reBe judie óijiis , ncc ci^Jlodtftis legem jfjlitta , neque 
jecundtimvoluntaíetn DeiambuUJitsS borrcnde , é^ cito 
appartbtt vobis : qtmnarajudictum diirijfimum his , qui 
fr^funt ^fiet. 

Seja exemplo do fecundo , o cafo, que traz o 
fa^íonSf P^idre Chriftovaó da Veiga , íuccedido a hum Reli- 
part. i.cap.7. giofo grave de S. Francifco, o qual no anno de mil 
quinhentos e oitenta e íeis , ^ftajridQ,.4jyaorte no Con- 
vento de S. Diogo de Alcalá de Henares, convocou 
a alguns Padres gravi:s da mefma Religião, ( e entre 
f" ellcs ao Padre Ponce dê muita authorid ade , por quem 
depois fe foube efte c\{<ò) e eftando preíentes lhe fai- 
If u aíTim : Agora Padres , q me vejo taõ viíinho à mor- 
te , quero dizer o que me fuccedco em hum Conven- 
to 



?ara feguW, o hm , e fugir o mal. ^^ 5; 5 

to danoíTíí, Ordem , para que aproveite a outros, c 
foy , que fahindo hum dia a dizer MiíTa , me differaò 
puzeíle algumas partículas para as peffoa?. que que- 
riaó commungar; affim o fiz , c voitandome a íçu 
tempo para miniílrar a Sagrada Communhaõ , huma 
mulher das que cftavaõ ja na Moía , me diíTc lhe ou- 
viíTe huma palavra , que lhe havia lembrado. Reí^ 
pondi , que naó era tempo: que commungaífe , e de- 
pois íe conícíTaria j commungou , e cm íahindo d^ 
Mcía^ cahio morta diante do povo, que a teve por 
ditoía por morrer cm tal ponto: Porém eu fiqucv 
triliiffimo pela naõ haver ouvido quando mo pedio^- 
onterráraõ-na em huma Capclla donoíTo Convento; 
c aquella^mefma noite, cftando todos em fiiencio, fuy 
à mefmaCapella a chorar minhas culpas , ca rogar a 
Deos pela defunta^ e tomar huma diícipiina em fa- 
tisfaçaô dos feus pcccados 5 c dos meus juntamente ; 
c querendo-a começar, fe poz diante hum grande rayo 
de luz , que me impedio á porta. 'Nâõ:deixey de tur- 
barme; mas da luz íahio huma voz , que me diffe : 
Naõ te afflijas , porque efta mulher naõ queria con- 
fefTar coufa de importância j nem rogues por cila ^ 
porque eftá condenada parafemprc no inferno, naô 
pelo que queria confcffar, fenaõ por outros pecça- 
dos callados na confiíTaô por vergonha muitos annò^, 
e morreo fem intenção de os confeíTar; e por fe "ha- 
ver atrevido a commungar com elles, Deos ihe ti- 
rou de repente a vida , naõ permittindo levaíTe para 
baixo o Santiífimo Sacramento ; e a tem condenado 
a que pene em corpo e alma no inferno , o que fe di- 
lata fó, em quanto tem a particula naboea; eman-» 
da o Senhor , que lha tires. Nefte tempo , me mete- 
rão , fem eu ver quem , huma enxada na maõ , com'a 
qual abri a íepultura^ e defcobri o corpo , cujo roflo 

Z citava 



354 Eftimu lo pr atiço y 

cftava refplandeccntc por caufa da Sagrada Forma , 
que tinha na boca. Tirey-a , e logo íç parou taõ feyo, 
qne metia cfpanto ; allumiou-me a mefma luz , para 
que a levaíTc ao Sacrário y e cm o cerrando envcfti- 
raõ com o cadáver dous ferozes rafeiros, que o le- 
varão pelos areso Ifto paffou por mim , e o digo ago- 
ra para efcarmentodç outros. Ditas eftas palavras, 
c pedindo, aos çircunftantes o encomendaffem a Deos, 
dalli a pouco efpirou. 

Nefte cafo admirável , fe repare de caminho^ co- 
mo o que acabou de rematar a conta defta miícravcl, 
c a paciência de Deos , foy a fina hypoçrifia , com 
que queria na Mefa da Çommunhaô confeffar o que 
náõ importava , callando fora , e tendo intenção de 
callar fempre o que lhe importava funimamente; e 
ao intento dá prçíente nota y deftc, e dç outros fe- 
melkantescafos , que poderáó ter fuccedido , fe mof- 
tra como no inferno podem eftar alguns defventura-v. 
dos penando em corpo c alma ._ 

REFLE X A Õ Ve 

Emjí maisft hao de ver livres d^quellas infer^ 

naespenaso ' ? n"** 

Encontrey já huma. alma muy tentada fobre 
a fé defte ponto ; porque fçlhe rcprefentava fer mui- 
to alhcyoda infinita bondade e miíeriçordia dç Deos, 
condenar a penas fem fim as almas , que crgou > c; re- 
mio , a.preço.def eu Sangue e Vida ; e fuípcitava pu- 
dcíTe haver ncfte negocio algum occulto modo de 
tranfacçaô entre a Divina Juftiça,e os. taes pccçado- 
rcs réprobos ;c por quanto pode haver muitos def- 
tes tentados > fera conveniente.apontar aqui algumas 
saz oens , porque Deos çaftiga com penas eternas. 

Pri-v 




Píira feguix o heffi , e fugir õ mal. 3 y j . | % ^ 

Primeiramente deve qualquer alma acâuteiaríc | 
muito de ícmelhantes penfamentos yc fugcftoens dia- | 
bolicas , que ío capa de prefumir bem da mifericor- | 
dia de Deos , preíumcm mal da ília juftiça , e verda- f ) 

de : e reiaxaô o freyo do temor fanto , que noscon- '- '%^ 

tem no caminho da Ley Divina. Por cíks mefmos ; \^ 

paíTos vey o Origcnes a cahir no erro de affirmar , que r. ' 
naõ íó para os homens , que morrerão em peccado f 
mortal , mas também para os demónios haveria íal* J 
vaçaõ nos feeulos vindouros. Porque tomando cor- • 
pos humanos, efta oppreíTaó e carga^ para çlles muito ;! 
indigna 5 lhes ferviria como de penitencia com que | 
- purgaffem ftias culpas ; e accreícentava também ( íc- 1 
gundo traz Amoldo Carnotenfe ) a invenção qui- : ú 

merica de naô íey que Divindade paíTiva na regiaõ" 
do ar invifivelmente pelo remédio deites malignos cf- 1 
piri tos, com o que querendo Origcnes fazer a Deo$| ^\^ 
pio e mifericordiofo, o fez mentirofo e injufto; l 
men tirofo , pois diíTe no Euangelho-, que a forma da 
fentença dos réprobos fera efta; Ide malditos para o 
fogo eterno , que efta aparelhado para o diabo , e 
feus Anjos: injufto, pois ao injufto, e ao jufto dá ^'J^^^^d?^"'' 
igual premio defalvaçaõ eterna. He ponderação do $ jufttia &j™ 
dito Amoldo: Dum predicai Deummfemorám & Í"""":,. 
ptum^ fúctt tum tnendicem & mjuftum, Mendax ejl^ dui.Dominic. 
fi impms amdiabolo & Jngehs ejus^ mn n^aditmig- •^^f''- 
nem ieternum: mjnfius ^ fitnjujio ^ & ju/io idem rtddtt tts. '"' * ^' 
Jltfendium. Pamphiluí M«: 

Naõ faltaõ porém muitos Authores, c alguns jrcôb^Mulm« 
dcllcs feus contemporâneos , que eximem a Origcnes q* 0$ eitat ao» . 
defleerro, e íobre iffo compuzeraô Apologias, cos LTurf^s^iITan- 
favorece o queixarfe o mefmo Origenes de que feus tírxCertam.9. 
adveríarios lhe impuzeraõ muitas coufas, que cUe ^^-^ a^Ak- 
liaõ cnfinou. Efe iftofoy aílim, verofimil he cahiíTe x[ndiinos. ' 

Z ij ^zi- 



35^ Eftímuloprati(,o y 

a zizaiiia naqucUas doutrinas, cm que fe lhe achaõ 
outras totalmente contrarias < qual he a da eternida- 
Homii. 14. in ^^ ^^^ penas dos réprobos > porque cm muitos luga- 
Ezocb. & \:Ao- res affirina , que íkõ eternas. Só os outros , que íe aic- 
Sm^Nafc- g^^ contra ellc , effcs foraó os viciados. Também 
ae Hom. 4- «^ ^^f^-^ quCa Bcata Ifabel Sehonaugieníe , perguntou à 
Thco^^Ray- ^^^ã^^ Scnhora NoíTíi, que forte tivera a alma de 
naud^/pitt. X. Origcncsj c quc a Senhora lhe reípondéra, que por 
Hctcroci. ia- havcr cahido cm muitos erros, eliivera em grande 
puaâ.^ oVs* P^^^^g^ d^ ^^ condenar ^ mas que pela haver louvado 
muito cm fcus efcritos , o Senhor o deixara àdifpo- 
fijaõ da mefma Senhora, f>ara que no dia do Juizp 
determinaire delle o que lhe pareceíTe í ifto por ou- 
tros termos , feria o mcímo , qi^c falvar aqucUa alma; 
pelo menos eu naõ quizera a minha mais ícgura >por- 
que, que lia de fazer MARIA SantiíTima com almas 
Míia fua niaô, fenao falvalias? AíBm como o Filho 
í íiaô perde nenliu.na das que lhe dá feu Eteroo Padre : 
^^m íradtdifii mihi , non perdidt ex eis quemquam j aflim 
ta Miy naó perde nenhuma das que lhe entrega o Fi- 
lho > poréin a fobredita revelação naó carece de fui- 
peita, por quanto ik)s cfcritos de Origgnes naõ fe 
achaõ muy celebradc^ os louvores da Virgem > e a 
^,^ . Vida d^dita Serva de Deo^ ^ fe tornou a dar à luz íem 

.: íe tocar nefte- ponto. 

E finalmente feia ofobredito erro de quem fofíe, 
o ierto hc , que as penas dos condenados , aífim ho- 
mens , como demónios , tanto naõ haõ de ter fim , co- 
mo o naõ terá o meímo Deos> e cita certeza, naõ 
he qualquer, fe naõ dcFé , porque aílim o diífc Chrif- 
,, , . to , e fó em hum Sermaô o repetio três vezes , como 
41. & 45. 5t de priofiOliDo por eras palavras : Vermu eorum mn mo - 
M' . «,. ^ . ^^^'í^?^ I &tgmis mn extmgmtur'', aífim o enfina S.Paulo : 
ícn. x.Ycrí;»*' §1:í^ nofí^êMunaEuangeiío Domm nBjiriJBSUChrifií^ 



Parajegiíi^ o bem , e fugir o niâi 3 S r 

panas dabunt m tnUrttu ^eternas 5 aflim fe mcflra tam- 
bém do Tcttamcnto Velho: òi cectdmi lignum ad 
Aufirum , mt aá Aqiitlomm i in quocumque íococeadt- 
rtt y ibt erit i he hum Texto do Eccíefiaftes > e outro de 
líaias , ma s literal diz : Dies uluotm Dommt : annt4$ re- 
tr\bmwrits òm]& cmversmíuríomntes ejus íHpicemy& 
húmus ejus wMphur : & ertt terra ejus mpicem ^irden-^ 
temj mãe & dte mn exttnguetur\ mferiípKernum af- 
cendet fumus ejus. AíTim o definem os Concílios ; c af- 
íím o confirmao os Santos Padres : os quaes frequen- 
tiflimamente fallaõ ncfíe ponto > mas darcy aqui fó 
dous ou três Jtigarcse 

Santo Agoltinho ponderando aqiielle lugar do 
Pfalmo 68. Hoinil. 16. Nsqm urgçatfuper rr.eputms 
os fmtm'^ naõ feche fobre mim o poço a fua beca : faz 
differença cntr^e o cahir no poço , naò fe fechando a 
boca dclle5 e o fecharfe a boca depois de haver ca- 
hido dentro ; porque do primeiro modo fe denota 3 
pena temporal dos que vaõ ao Purgatório > e do fe- 
cundo ^ a eterna dos que vaõ ao inferno^ porque os 
primeiros ainda que cahiraõ dentro, haô de tornara 
fahir,pelo que o feupoço oscfpera aberto 5 mas os 
fegundos lá íícaô para fempre , e aíTim o feu poço fc 
Jhfjjcçhou em cima : tinlia boca fó para haverem^****' 
•entrar , e com^^rfMô haó de fahÍ4'^ já o poço tam- 
bém naõ terá boca: Dizer pois o Píalmifta.-Naõ fç- 
che fobre mim o poço a ília boca , he dizer : Caftigay- 
me Senher , mas naõ com pena eterna : Gluia ( íaq 
as palavras do Santo Doutor) cnm fine paniíenít^e re- 
médio tnfeliater feccatores excepetií^ daudetur fu-fum^ 
aperietur deorfum y ac dihtãbttur in profundum: nkl" 
lum Jptramen , nuUus ttòer anhelitus , ckuftris d(fupef 
mgentibus , relmqueíur: detrude^ttur tllic valedtcentes 
r^rummtma\ ultranejcieniur à Deo*/qmDehmfiirt 

Z iij nolue-^ 



r.^w/.íi- 



xt. 



Eccicí. 
Tcrí. . • 
iraias|4.fct{« 
8 f.&xo. 
Concil.Latcrê<^ 
itcníe fub In- 
aoc.UI caf.z^ 
teícrnit in C« 
Firmiter » drâ 
Itimin» Tfir.tr, 
fe Fi«lc Catbol, 
Coucil.Tiideiiu 
(cfl ^. Decreto 
de juftiicacioBC 
ca^, I4.#c 1%. 
ÒL Cânone )o. 
&refl.i4.C€ik 
5- 



358 * Eliímuío pratico ^ 

mluerunt i moritun vií^e-, & mor 1 1 Jine fine vtêíuri. 
4. Moral.^p.7. S. Gregório diz, aíTim: Anima mortaliter efiim* 

monalx%\àr immortaliUt mmtalts > tta emm tmmorta-' 
hs e/l , ut mori pojjit \ ita mortalis efi , ut mori non fofflt. 
Ndm beaíe vi^ere y five pervitinm , fivt per fupflicmm 
pàrdít : ejJentiàUter autem viver e , neque per vtíium , nt' 
que per fupplicÍHm petdtt i quer dizer : A alma he mor- 
talmente immortál y e mortal immortalmente > pode 
encorrer na morte; naò obftante a íua immortalidade, 
c nao obftàntt o encorrer na morte, coníerva o fer 
immortál i porque o viver felizmente perdeo pela 
calp:i e pela pena , pelo vicio e pels íupplicio y mas 
o viver çffènçialmcntc , nem pelo fupplicio perde^ 
nem pelo vicio». 

S^ Cypriana defcreve grave e nervoíamente 
ieíla eternidade, dos condenados pelas feguintes clau- 
fulas, quç pomos aqui> feparadas à modo de Thrc- 
nos , para que o Leitor detenha o paflb em cada hu* 
ma^ 
Sítm- De /u- Cõntinuui erií , ò* fupnjluus ittarum Ucrymarum 

ccafioDc Domi- deciírfiis. StridoTem Úlum dmtium ftamma inexím- 
guibtks agitabunf^ ; » 

Immoríales mtferi vivent inter incendia:: á* confump^ 
tibiles flamma nudum corpus aílambent,, 

Ârdebit purpuratm Dtves : neú ertt qui afiuanti lin-^ 
guafltUmaqu^infundat. 

In próprio adipe frixa hkdines, bullient: ér inter 
Jartàgmes fiammeâs miferahiha corpora cremahuntm\ 

El omni tormento atrocior condemnatoí. dejferatto 
^i0ff'get. 

ííon miferebitur utira Deuiynec tunç audiei pani^ 
itentes : fira erit tila, confeffiof & cum claufa fuertt ja^^ 
nua > ff u fira carentes oleoacclamabunt exclufi*. 

Multiím thi refrigerijfm^y nullum remadium : femel 

Chrijlus 



Para ftgui\ ohm yefrgir o noL 3 5-9 

Chrtjins dejcendtt ad wferos , ulttrim mn defiehdeu 
Non ultra videbunt Veum m íemèrísj/gillait. 
Irrefragabilis era tliaftntmíta , & íwnnachil ju- 
âictum 5 & Jlahtt damnaííoms hujm Wtrfivbãt lohjiuu- 
tum. Quer dizer: Coníerváraò os miieravei^ a im- 
mortaiidade, entre os incendos., ca léus menibros 
nus cingirão incompíumptiveis lavaredas, ^ O rico ría 
ardente purpura íe abrazará na ardente chama ; nem 
haverá quemapplaque com huma pinga de agua a 
ercfcida lezaô de íua abrazada lingua. ^ Saltaráõ os 
appctitcs libidinofos refervendo-lc na lua própria 
immundicia ; e dentro cm certans do mefmo fogo , fe- 
raô aquelles mifcravcis corpos atormentados, ^ E os 
trefpaffará o punhal da defefpcraçaó , tormento mais 
atroz ^ que todos os tormentos, f Já Deos naò terá 
mifericordia 5 nem ouvirá os arrependidos; foy cfte 
arrependimento muy tardio: huma vez fechada a 
porta , de balde clamarão de fora os que naõ tiveraS 
fuás alampadas providas, "f Nenhum remédio refía ^ 
nenhum refrigério alli íe cfpcra. Aos infernos def- 
eco Chriflo huma vcz,naô ha de defcer outra. ^ Nun^ 
cajámais veráõ orofto de Deos ^ fechados deBâíxõT 
Joiíncte de fuás trevas. ^ Será de fua condenação a 
íen tença irrevocável, immutavel ojuizo, e o decre- 
to fixo c permanente. 

Nefta authoridadc fao dignas de fc notar duas 
coufas. Primeira , qne no dizer o Santo : Huma vez^ 
que defeco Chrifto aos infernos, naõ ha de defcer 
outra; parece dá a entender, que quando defeco, 
livrou do inferno as almas dos condenados , que en- 
tão lá cflavaõ? e aílim livraria as outras rriais, fe 
outra vez defcéra. Mas eíte fentido , na5 pode fer 
ò genuíno ; porque fuppoíio , que he provável , que 
Ghrifto defcendo aos infernos, livrou as almas do 

Z iiij Pur- 



l6o Efinmdopratjco^ 

irinseuslib.s.?. Purgatorto , com tudo eftender ifto aos condenados 
Eptphi"^H!! do inferno , he erro, que Santo Irineo , e Santo Epi- 
rc{.44.Au^.!iií). phanio attribuein aoHereíiirca Marcion: e Caftro, 
ca *7rtGm^<5 ^^^ Arménios; por onde cominummente fe tem por 
GaíirodcHx apocryfa aquclla hilteria, que refere Nicetas, Para- 
tefib.verb.infcc n4ii'aftes , de S* Grc2orio Nazianzeno, de que a al- 
Nicctaj.Oiat. n>a dc Platão appareceo cm lonhos a hum Chnítac) 
^^.Naz. qQg o coíluíBava amaldiçoar,, como a idolatra e ré- 

probo, e lhe diíTe: Eu nao nego fer peccader ; ma 9 
quando Chrtftodefceo aos infernos ^ninguém primeiro qye 
eu/e chegou k^ Fh. O fcntido pois verdadeiro daquel- 
las palavras de SXypriano: Semel Ckrtftus defcendit 
ad mferos : ulíerim non defcendet j he , que fe Chriílo 
Salvador noffo , huma vez, que deíceo aos, lugares 
inferiores da tcíra, naô libertou os. condenados ; co- 
mo podcráô efpcrar reriiedia , fabcndo certamente, 
que naó ha de tornar a defcer l 

A outra coufa digna dc notar hc , que dizcrfe, 

que os condenados eftaã debaixo dofínete , ou fcllo 

das fuás trevas^ denota com grande emphafi três cou- 

^2És^, Primeira , que eftao fechados por vontade , e au- 

* thoridadc do Senhor; eque efta vontade he; ultima. 

Segunda ,. que as trevas eftao ímpreífâs, e gravadas 

namofma alma do réprobo. Terceira, que ninguém 

ha dc violar cfte íinete , ou desfazer cftas trevas. A 

razão de tuda he ;: porque o pôr finete, pertence a 

qiftem tem juriídiçaô e domínio; e a imprime com 

força , ia depois da reíoluçaô cftar tomada , ou a ef- 

critura fcita >c fe põem para que ninguém poffa quc- 

branMr , ou fazer alguma fraude àtál claufura. Af- 

. fim iemos , que depois de lançado Daniel no lago dos 

leões, ElRey Dário com o teu anel fellou a campa 

OU lagem da bocsa do tal lago: A\latufque ejl laptf 

35an.«.?crf.i7, unm ^ & fofitm ftsper o^ laa y quefn. obfignavit Km 

anulo 



Para figuiro bem , e fugir o màL 361 
âmh luo\ e S. Gregório Magno, íellou também a 
porta da caverna , em que as Romanos alimentavaò, 
c adora vaõ por Deos, a hum disforme dragaô, ms 
Faviffas C^apitolinas , grutas fubterraneas íjo Capi- 
tólio. Deita mefma frafe de fellar os condenados, 
uíou S. Joaõ no Apocalypfi , dizendo y que o Anjo do 
Senhor baixando das alturas, prendera a Satanás 5,^0 
o precipitara no abyfmo , e fechando a boca deile, 
. puzcra em cima o fcllo: Nlifit eum m abyjfum^ ^ 
claufit , ^fignavit fuper tlíum 5 eftando pois os répro- 
bos debaixo do íínete das fuás trevas , por ordem e 
authoridade abfoluta do mefma Deos y quem já mais 
poderá romper efta claufura, abrir etie fello> dei- 
fazer eftas trevas, para que poíTaõ ver a luz da bema- 
venturança? Non ultra videbunt Deum m tencbns J;^ 
gtllatt, 

A* viíla das fobreditas authoridadcs.da Efcritti- 
ra Sagrada , e Santos Padres , naó he neceffario ao 
Fiel , ( antcs^ lhe poderá fer nocivo) inteirarfe de ra- 
zões, com que vença a tentação de infidelidade neí- 
te ponto; porque as razões pode naõ as alcançar,.-©^ 
ooífo entendimento, por efte fer mais raftciro, c 
aqucllas mais altas; e feria contra todo o bom dif- 
curfo , meterfe o difcurfo humano a fer contrafte das. 
difpofiçoens Divinas , approvando , ou reprovando 
íó pela limitada regra do que comprehcnde, oa naõ 
comprehende; quanto mais, que o direito modo de 
comprehender , he primeiro crer ; e naõ às aveffas, 
para crer primeiro , comprehender > conforme aquil- 
lo de líaias : Si non credtderitu , non intelligetú ; aílim 
Chrifto para noílbenílno, de todas as três vezes , que 
fay tentado , nunca fe defeadeo com argiimentos de 
razaô , femõ com autharidades do que eftava cfcri- 
to: Sçri0umefi^^S^c^rurfumfmptum ejl^ &c.,Mas 

parqur.- 



ir»Í3l 7, 9C*í^f4. 



3<íx Eflmuh pratico r 

porque o demónio na5 replique , fugerlndo , que a 
íioíTaFé cflá deftituídade razaõ 5 condefcendercmos 
tom cflcs homens difduríívos , apontando aqui duas 
principies, e remetendb o Leitor pará>outras > que 
cm outro lugar apontamos 5 e naõ admittindo o pa- 
recer de Ruberto Holcot , o qual fente , que os con- 
denados eternamente eftaõ defmerecendo por íeus 
peccados adluaes , e por confeguinte eternamente 
Holcot. int. cftaô fendo punidos: Dtct fotejt de damnatiSt ^t^od 
^u«ft.i.art.í;. cQntmue demermtur^& continue puniuntur\ porque íiip- 
porto , que peccaô no ódio , que tem a Deos , c blaf- 
femias , que contra cllc eftaõ vomitando , e eftes pec- 
cados procedaõ de fua liberdade natural, fc bem 
corrupta , moralmente neccílitada a naõ fazer outra 
coufa> todavia, já naõ merecem por elTes peccados 
novo augmento de pena eífencial: como nem os 
bemaventurados no Cco , merecem novo premio pe- 
lo amor / e louvores , que eftaõ continuamente dan- 
do a Deos ; porque o eftado de merecer , ou defmc- 
reccr fe acabou já para huns , c para outros , por dif- 
po%a5 Divina , que affim o determinou , limitando o 
merecimento ou demérito fó em quanto foffemos via- 
dores. 

A primeira razaô das que apontamos , he 5 por- 
que àjuftiça Divina toca o repartrpor via da pena 
abordem da rozaõ , que fc peryerteo por via da cul- 
pa 5 è aífiiTi em quanto Hurir efta perverfaõ da culpa, 
dura também o. reato da divida , ou fogeiçaõ à pena: 
e najuftiça Divina o direito à cobrar efta pena, para 
reparar aquella defordem. De outro modo fe a dita 
perverfaõ, e defordem permanecera, ecom tudo a 
divida ou obrigação à pena fe acabara , e por confe- 
guinte íe acabara também o tal direito da Juftiça Di- 
vina 5 feguiafe , que mais podia fazer de mal no mun- 
do 



Parafeguir p km , e fugir o maí. 365 
do a noffa culpa , do que podia fazer de bem a Juiliça 
Divina y e que a Bondade , e Omnipotência doCrea- 
dor ficava vencida da maldade da creatura> pois in- 
troduzindo no mundo a^creatura huma perveríaô e 
deíordem^ que quanto he de Çij nunca fe acaba, 
Deosanaô podia reduzira ordem alguma í porquan- 
to o modo de reduzir à ordem adita pcrverfaó dí^ 
culpa , hepor via da pena y çm quanto da pena fobrc 
a culpa refulta a fermofura e decoro da jufíiça ; com 
que naõjG^acabando, (como logo veremos, quefc 
naô acaba ) a citlpa , e por outra parte , açabandofe, 
como queremos fuppor, a pena; já a noffa dcfordem 
ficava por cima da Bondade , Omnipotência , e Jurti- 
ça Divina ; e podéra por confeguinte qualquer crea- 
tura racional , naquelle ponto em que acabaffe a pe- 
na, naô acabanda ainda a dita pcrverfaã, arguir a 
DçpSy dizendo por parte das taes almas i, que agora 
pagaô no inferno , e entaó jánaô pagariaõ: Que fa- / 
zem no mundo eftas almas ^ Elias foraõ çreadas por / 
vós ^ para vós eternamente: cilas na5 eftaõ em vós ; 
pois quem fezefta defordem? Vós naõ^que fois a 
mefma ordem ; logo fizeraô-na ellas mefmas. E pois: 
naò ha em vós já juftiça infinita ; e cabedacs para re-v 
parar nefta perverfaô , e reduzir ifto a ordem ? Ficaf- 
tes vencido, e alcançado ;^ ca maldade he a que ven 
ce e reyna por toda huma eternidade ? Affitn podéra 
Deos íer arguido , o qyc bem íe vê fcr ímpoíTive}. He 
logo neceffario, que em quanto naô acaba â culpa-, 
naô acabe a pena; ciffomefmphe íer a pena eterna../ 

E que a dita perverfaô dá culpa nunc^ nos con- 
denados acaba, he certo ; porque confifte na priva- 
ção da graça, cpor confeguinte da gloria para que P 
alma fòy creada ; e effa privação f6 íe pôde tirar pe- 
M preíença, e inívifao da meíma graça ^ e eí^ graç^ 



3<54 EftimulopratkOy 

iic irrcaiperavel naquclle citado , aíTim por parte da^ 
forcas do réprobo ^ como por parte da vontade de 
Deos. He irrecuperável por parte das forças do ré- 
probo j porque a mefma culpa lhe naô deixou prin- 
cipio algum por onde merecer , nem íatisfazer ; af- 
fim como a hum morto , a mefma morte lhe tircu to- 
do o principio de fazer diligencias pela vida. E a ra- 
zão he , porque affim o merecimento como a íatisfa* 
çaõ fe funda na mefma graça , que fuppomos já per* 
dida j e para o réprobo poder íatisfazer , havia de of- 
ferecer a Deos , pena ou fátisfaçaõ aceitável ao mef- 
mo Deos 5 pois em quanto Deos naô aceita ^ o ho- 
mem naõ paga , e naõ pode fer aceitável a Deos a pe- 
na do que eíiá em fua defgraça ; quando a graça he 
quem faz aceitável eíTa pena , e principio de toda 
B<cicf.j4,Tcif. ^ fatisfaçaô, conforme aquil lo do Eccleíiailííco : Do^ 
« ' • na tniquêtum mn probat Al tjfimm , me Kj^ictt m oblai 

tioms tmquorum^ neque inmulíiíudme facrifictorumy to* 
rumpropitiabiíur peccatu. 

He também irrecuperável a graça naquelle efta- 
do, por parte da vontade Divina; porque decretou 
offerecer effa graça , íó em quanto duraffe a prefen- 
te vida. De outro modo^ fe iíTo naõ tiveíTe tempo 
/'' finito e determinado, fempre o homem andaria no 
caminho, e nunca chegaria ao termos fendo, que 
Deos fez ao homem para que chegaffe ao termo , c 
naõ para qu.e perpetuamente andaíTe no caminho; e 
para Deos tirar do inferno a hum condenado , e tor- 
narlhe a dar graça , para que mcreceífe de novo ; ou 
havia de o deixar cm fua liberdade , ou naõ ? fenaõ o 
deixâíTe em fua liberdade , como havia de merecer o 
tal homem ? fe o deixaíTe cm fua liberdade, já podia 
oiitra vez peccar. Supponhamos , que pecca 5 entaõ, 
- <)u Deos lhe efpera ainda mais , e torna a levantallo; 

ou 



Para feguir o bem , epigtr o mal. 3(^5 
ou nâõ o torna a levantar i fc lhe cfpera , c o torna 
a levantar j pergunto : Quantas vezes . a de fer iílo ; 
Finitas, ou infinitas í Se finitas, iíto hc oqueDcos 
faz agora com os pecca dores an quanto vivenu ic 
infinitas , logo, como dizíamos , nunca o honient c!ic ^ 

gará ao termo. Se lhe naõ eípera , heilo ahi caindo 
no inferno a fegunda vez, como agora cahe a pi:1- 
meira. E torna a mcíma queífeõ ^ que vamos tratan- 
do ; Com que pena ha de fer punido aili^- Com tempo 
ral c finita, ou com eterna e infinita? Com tempo 
ral naò; porque a culpa naò acaba , poisjá temos de 
todo excluida a graça , cm cuja priv caõ cònCilia a 
perverfaò^ que eíTa culpa faz jlogo ha de íer com 
pena eterna. 

Daqui fe fcgue , que as penas do cond. nado haò 
de íer duas, e ambas eternas? porque as deíordens, |^ 

ou perveríbens , que commetteo íaô também duas , e l^| 

nenhuma delias acaba. Huma perveríaô foy apar- 
taríe a alma de Deos offèndendo-o, fendo que foy 
creada para fc unir a Deos amando-o : outra per ver- 
faòToy vokarfc a alma para ascreaturasamando^as,, <^ 
fendo , que naó foy feita para as creaturasj à primei- 
ra correfponde a pena de dano f à fegunda a do fen- ■% % 
tido: ambas juftas^porque he jufto , que naô goze áo ^*^ 
Deos^quem ícapartou de Deos > e hc jufto , que pade- 
ça das creaturas^ quem amou maiu , que a Deos, as 
creaturas ; e que eflas perverfoens fejaõ duas diftin - 
tas, confia daqiiella queixa de Deos por Jeremias: Dva j -^^^ ^^ ^^^^^ 
emm mala fecit populus meus'') me daihcjueftínt f ontem 13. 
ãqua viva ; á* foderunt (iki ci/iemas , ctfiernas diffipa- 
tas , qu^ continere non vàlent aqtus-y dous males, ( diz 
o Senhor) fez o meu Povo, dcixou-me a mim~,qnc 
fou fonte de agua viva j e forao cavar para fi cifter- 
aas, huinas ciíternas rocas , que naõ podem guardar 



âag^Oi 



3^6 Eftmulo prqtlco^ 

^ âgua.E fe vê claramente nos meninos, que morrerão 
fem bautifmo , antes de peccar atftualmcnte , porque 
cftes taes pelo peccado original cíkvaõ apartados de 
Dcos, e aíTim padecem a pena de dano> mas como 
naócítavaò convertidos para as crCaturas, por falta 
de peccado adluai , naõ padecem a pena do fentido. 
E que "nenbuma deflas delbrdens , ou perverfões aca- 
ba nos réprobos, temos já provado ; porque fó a gra- 
ça de I3eos he a que pode deftorcer ^ e endireitar o co- 
ração humano , voltando-o da creatura para o Crca- 
dor 5 e naqucllc eítado já naõ ha graça. Segueíelogoi 
que a Divina Juftiça fempre tem direito a punir hum 
réprobo com eftas duas penas eternas : Panas da- 
hum %n míerttu atemas. 

Toda a delgraça pois de hum condenado efteve 
cm fe deí-xar cftar em peccado mortal até o ultimo 
paíTo defta vida : que foy o mefmo , que fe hum ca- 
minhante indo para onde eftava hum poço profun- 
diílimo , ultimamente puzeíTe o pê ^m falío , c ca- 
hiffe dentro fazendoíe cm pedaços: Ou fehum lou- 
co 5 fechandofe cmbumatorre fortiíTima^atraz diffo 
lançaíTe a chave no mar ', porque efta chave he a gra- 
ça de Dcos ajudando a noíTa liberdade 3 e efla graça 
a lançou fora o réprobo, fabendo, que lhe naõ havia 
de tomar á maõ. E a razaô porque o pcccador fe 
deixa eftar fora da graça de Ckos até o ultimo inf- 
tante , ordinariamente he , porque no diícurfo de fua 
vida antecedente ufou taõ mal dos auxilios Divinos, 
c confentio tantas vezes em as tentaçoens do demo- 
niojque veyo a merecer, que na ultima hora os au- 
xílios foíTcm inefEçÀzes , e as tentaçoens vehementes; 
<5ue fe ellejádelonge naô fizera o feu caminho por 
onde fabia que eftava o poço , naõ fuccedéra por 
o pê em falfo , c cahir dentro, 

Afo- 



Para/eguk o bein , e fugir o mah 167 
A fobredita razaõ, ainda que menos expendi- Saimaticcnfcs, 
da,hede Santo Thomás, e a explica bem o Curíb l^ll^^V^dtbl. 
Theoiogico dos Padres Carmelitas Deícai^os. à n. 69.- 

A outra razaò, qne laoftra,. que os réprobos ^^'g";;,,^;,'^^ 
íaô caftigados iurtamcnte com penas eternas, he5 i44:^jnx.'iift. 
porque todo o Principe Soberano tem direito , e. au- ^^"^'^^'^' ^^l^^ 
thoridade de eftatuir, e determinar a taxa das pe- 4(í.(^uxit.i.à $.* 
nas, e dos prémios , conforme lhe parecer;, de íbr te, 
que ainda que a tal pena , ou premio naô tenha fem- ^ 
pre proporção com o delidio , ou ferviço > com tudo 
pelo meímo cafo, que aíTim eflá taxado , c os íiib- 
ditos o fabemr já o.Principe tem direito a executar 
a tal pena no delinquente, por quanto efte volunta- 
riamente íc expoz a iffo; e no meíi^io ponto, que 
deíprczoua Ley, quiz devorar a pena., E domefmo 
modo pofta a dita taxa do premio , ainda que cxceffi- 
yamcnte mayor que o ferviço , já o que fez eíie fer- 
viço tem direito a pedir , e levar o premio ; por quan- 
to a ijTo fe ofFereceo voluntariamente o Príncipe. 
Sabendo pois os homens^que ao peccado mortal eftá 
taxada por Deos pena eterna , fe neíTe eftado os co- 
lher a morte 5 e íabendo também , que o. inftanre cU 
morte he incerto , fe com tudo defprezaô efta Ley , e 
querem peccar y claro he , que tem o Senhor direita 
para executar a dita pena. Affim como os Juftos tem 
direito para pedir, elevar de juftiça a gloria eterna, 
naõ obftante íer premio de exceffo muy defpropoí- 
cionado a feus merecimentos , huma vez que Deos o 
promctteo aos que fizeffem boas obras» E por iífo S, 
Paulo diffe em hum lugar ^que o leve e momentâneo 
das noffas tribulaçoens obrava cm nós eterno pczo de 
gloria 5 c em outro , que lhe eftava guardada acoroa de 
juftiça, que naquellc dia ultimo lhe havia de pagar o- 
jufto Juiz, Porque razaõ he aquella coroa de juftiçá ? 

Por- 



3^8 Effímuh pratico^ 

Porque razão obra cm nós o kve pezo de noíTos tra- 
balhos , hum pezo immenío de gloria ; feniô pelo di- 
reito , que nos daò as mefmas proiTieffas de Chriítoí 
Logo também as anxaças de lua juftiça lhe daõ aO 
Senhor dheitopara executara pena eterna, nos que 
adefprezáraô. 

Ao que fe accreícenta , que para a taxa da per» 
fcr racionavcl , naõ hc neceffario , que fe commen- 
fure com a graveza do delido, íenaõ com o fim olc 
evitar o tal delido , ou outro qualquer mal publica' 
ou de confeguir algum bem notalvelmente mais ex- 
celente. Dcfte modo vemos qub os Generaes dos excr- 
citos impõem , e com cífeito c^ecutaõ pena de mort€ 
pelo furto de huma rcz , ou de humas hortaliças : naô 
pela proporção, que efte furto leve tenha comaquella 
grave pena : íenaó pela propoçaõ , que efta pena gra- 
ve, ainda por furto leve, tem com o fim de defviar os 
foi dados de fazer infolencias , c coníervar o bem 
publico da paz, e quietação dos Povos, c dos mef- 
mos foldados , para o qual fim naõ íeria efficaz a in- 
timação de outra menor pena 3 de forte queaquella 
pena he racionavcl , que he poderoía n defviar os ho- 
mens dccom^etter odelido5 e aquella feria fuperva- 
canea , c como ridicuía, que naõ foíTe poderofa para 
eít^ intento 5 pois íe os homens aindo tendo fobre 
nós a ameaça de pena eterna , nos naô refreamos de 
pcccar, antes ha quem diga loucamente (como eu 
ouvi já dizer ) paffados os primeir s três dias de in- 
ferno , todos fomos demónios 5 que feria fe a pena 
foíTc fó temporal ? Oh quam poucos fe haviaõ de 
chegar a Deos , fe foubeíTem , que haviaô de gozar 
a Deos eternamente depois de gozar defte mundo 
quanto quizeíTem? E huma vez perdido efte freyo 
do temor de Deos , que haveria em todo o género 

Humano 



Para feguiy.Q hem , e fugir o mal. ^6i) 

humano , fenaõ huma furiofa corrupção de coílumcs,. 
efcandalizandoncs todos huns aos outros ? EntendO| 
que feria a face e difpoíiçaõ da Igreja Catholica taò 
diíFerente do que agora hc , como hc diffcrencc do 
Geo. 

Refultou logo à terra, de oJSuprcmo Legisla- 
dor impor eterna pena ao peccado mortal^o bem com- 
mum de todo o género humano ; nao íó em quanto á 
ordem da graça , e virtudes ; fenaõ tambcm por con- 
leguinte quanto à ordem da gloria , e prémios j e co- 
mo qualquer gráo de gloria , ainda que em fi finito, 
fc logra eternamente, vcyo aíer o tal bem infini- 
to 5 além de outro bem tambcm infinito , mas de or- 
dem fuperior e Divina , que daqui refultou , e foy 
evitar, ou cohibir cm muita parte as ofFenfas de 
Deos, e defender a fua honra, que importa mais„ 
que todo o bem das crcaturas : logo a taxa da pe- 
na eterna ainda na opinião , que diz fer a malicía; 
do peccado finita , foy muito racionavel , porque 
mayor naô podia ler , e menor naõ era fuíHciente 
para os fins , que dizemos. Efta razaõ he também 
dos ditos Padres Salmanticenfes , de Peres , e outros 
Authores. 

Agora , moftrado ao Leitor como a dita pena hc 
jufta ; feguefe para tirar daqui algum fruto , que pon- 
dere elle comfigo como he terrível: Penar eterna- 
mente? Nunca já mais poder tornar à amizade de 
Deos? Perder o Summo Bem irrecupcravelmente ? 
Viver morrendo fem fim em incêndios, que durão 
tanto como Deos í Nadar em hum golfo de penas» 
femjámaisacharlheovao,nem as prayas? Ser per- 
petuo aíTumpto das demonftraçoens da ira do Omni- 
potente r Aborrecer a Deos , blasfemar de Deos, ef- 
tar cm continua guerra com Deos , fcmpre, íempre, 

Aa íem 



l^o Eflmtilo pratico , 

lèm remédio , fcm mudança , e jfem efperança de mu- 
dança , nem remédio : Oh quje mileria caò laftimofa ! 
Oh que dcfgraça extrema ! Oh que infeliz ertado! 
Coníídera nitto^ peccadorj coníidsra bem , c con- 
vercc-te ; teme o qae íó fe deve temer 5 muda de vida, 
iiía bem da graçi > affegura bem a falvaçaô , fcmpre 
mais ç mais eom fantas obras y que naó ha ( diz S. 
Gregório ) fegurança dcmaíiada, onde o que periga 
he a eternidade ; Nulla fatts magna fecuruas , ubt pe- 
Ykluatur atermtas. 

R E F L E X A O VIL 

MUitos trovões \ e relâmpagos j que defpediao ef* 
p.4nt&fos rayos ^oi ^uaescabiao [obre oscondena^ 
doSyé^Cc 

Naó he precifo, que entendamos hjaver no in- 
ferno materialmente todas as coufas > que a Serva de 
IJeos refere ncfte paragrafo ; porque fe a vifaó foy 
imaginaria y para a verdade delia bafta haver alli ou- 
tras , que virtualmente valhaã o mcfmo , que eftas , 
em ordem ao tormento dos condenados ; mas tam- 
bém parece naô ter inconveniente , conceder , que 
alli ha realmente as. taes crcaturâs; porque (como 
acima já tocamos) aquelles efpaços fabterraaeos , faõ 
vaftiílimos , e nelles eftaõ depofitados os thefouros da 
ira de Dsos, que íc deftribupm em vários géneros de 
pena , fegundo os peccadores uíáraô mal dbs bens da 
natureza e graça> para vários, géneros de culpa. 

Efpccia! mente o que diz dostrovoens erayos, 
bcmpóJe fer porminiíleriodos demónios, efpiritos 
das tempeíladei , que applicando as coufas acflivas às 
paífiyas , podem facilmente formar, e arrcmeíTar 
tayos , ç corifcos ? e eft: tormento he por ventura o 

que 



Parafeguir^obem^efíigiromãl. 371 

que o Pfalmiítadiz, que entra também na parte do 
calix dos condenados, juntamente com o tormento do 
fogo de enxofre : Ignis , á-Julphur , & fpirttus pro^ 
cellarum pars cabas eorum. Porque conforme alguns 
cxplicaò eík lugar, a outra parte do calix muito 
mais amargofa, he a pena de dano, ou privação da 
virta de Deos. Também podemos recorrer aoíenti- 
do moral , dizendo -, que cftes trovões e rayos íaõ as 
ameaças , e evidencias da ira de Deos, que íc intímaõ 
fortemente nos fcnt idos interiores do réprobo j por- 
que ? Que mais furioíb rayo , e que mais fonóro tro- 
vão , que a efpccie viva c clara y pela qual aprehçn- 
de ao Omnipotente por íeu inimigo por toda humâ 
eternidade ? Oh , Deos nos livre deíTe rayo ! o mor- 
rer primeiro à vida fenfual , e a tudo o que foi: von- 
tade própria, fera boa difpoíiçaõ para iíTos porque 
nos mortos dizem , que naõ toca o rayo* 

R E F L E X A Õ VII. 

AS mais das almas dos Catholtcos , gue alli eftàí 
condenadas , he por confijfoens malfeitas. 
Terrível propofiçaõ ! mas verdadeira $ por- 
que fe no commum fentir dos Santos Padres , a mayor 
parte dos Catholicos fe condenaô ; e por outra parte 
a experiência moftra^quc ps mais dclles morrem Sa- 
cramentados { o Padre Veiga diz ^ que de trinta , 

• ^ ^ r r /r ' ^ 1. parte áoi ca3 

os vmte e nove) feguc-fe neceílanamente , que as íos rarcscap, ' 
fu^isconfiíToens foraò mal feitas; porque naõ fendo í« 
'À confíffaõ mal feita , tem virtude para perdoar todos 
os peccados, e falvar a alma, como fegunda taboa 
depois do naufrágio, em que perdeo a innocencia do 
bautifmo. Defle modo fe concorda o que a Serva 
de Deos vio no inferno , e o qxie nós vemos na Igre- 

Aa ij ja 



371 EJilmulo pratico y " 

ja Cithoíica. O que nós vemos em qualquer Jubi- 
ieo 5 ou MiíTaõ , ou Fcfta principal do anno , iaõ as 
Igre as cheas ds confeíTados^ e Confeííorcs; o que a 
Serva de Deos vio, foy o interno chcyo deCatholi» 
€0s; porem como as confiíToens malfeitas faõ tantas, 
b.em po.lem os confeíTados fer muitos, c os conde- 
nados também. Oh! Grande miferia ! Morrer con- 
fçffado , e commungado 5 e cahir no inferno, para 
femprc condenado! 

Os cafos cm que a confiíTaõ hc mal feita , c de 
nenhum proveito , antes nociva para o penitente > 
íaô os feguintes , pela mefma ordem , que os traz o 
Padre Veiga. 

I. Qumdo o penitente ni5 fw^z exame de conf- 
ciencia , procurando traze.*- à memoria feus pcccados 
graves , para declarar ao Confcffar a efpecie , e nu- 
mero dellss , do modo que lhe for poffivel y, efpccíal- 
mente fe a confciencia anda muy carregada ,, e a con- 
fiffao he de largo tempo. Nefte cafo, íe o Confef- 
for naõ fupprc com as fuás perguntas , o defeito do 
penitente, fica a confiíTaô mal feita; porque fe ar- 
rícou a fer diminuta j por feu cfquecimcnto culpá- 
vel , que he tanto, como fe deixaffede propoíito al- 
gum peccado grave por confeffar. 

ÍI. Quando o penitente fe atreve a mentir na 
confiiTiõ^ em- matéria de peccado mortal , ou de ou- 
tro qualquer modo a commetter em quanto fe eflâ 
confeíTando algum outro peccado^ mortal .^ e dellc íe 
»a5 arrepende , nerpi accuía , antes de receber a abíol- 
viçiõ. íi\o p6de fucceder qumdo o penitente julga 
tenerariamjente em matéria grave ccHitra oConfeC- 
for , ou à cerca delk confente em algum, penfamen- 
to lafcivj , ou ao relat ir os feus peccados , de ira , e 
de luxuria , de ta3 forte fe lhe renovaô as efpecies,. 



^arafeguir o bem , e fu^ir o jnai. 3 7} 
que toma alli mcfmo a defcjar vingança , ou o delei- 
te , ou a approvar o mal que tem feito , ou quando 
altercando com o Confcflor fobrc cximírfe da rei- 
tituiçaõ de honra, ou fazenda ,que cUe lhe manda 
fazer , diílimula dentro do coração a vontade de naó 
rcrtituir. 

III. Quando o penitente maliciofamentc por me* 
do 5 ou vergonha , ou hypocriíia cala algum pecca- 
do mortal ; porque em tal caio, de todos os que diP 
fe , c dos que naó diffe > nenhum ficou perdoado ; c 
tem obrigação de tornar a confcffar huns , e outrosj 
e de mais a mais , outro pcccado , que fez de novo 
alli meftno aos pés do Confeiror , que fojr o facrilc- 
gío de fe confeflar mal ; e fc com effa confiíTaõ mal 
feita íe atrevco a commungar , ha de dizer também 
cfte pcccado da communhaô facrilcga ; c fe as con- 
fiíToens cm que caiou pcccado grave foraõ muitas^ 
c muitas as communhocns , que reccbeo aífim indiP 
pofto •> deve declarar o numero dcíTas confiíToens , e 
communhoensfacrilegas, e fc o penitente pergunta- 
do pelo ConfeíTor, fe tinha algum pcccado mortal 
calado nas outras confiíToens , rcípondeo falfamente^ 
que na5> e pelo difcurfo adiante d iconfiíTaó, fcmo- 
veo a dizer a verdade , porque o CoiifeíTor o aper- 
tou mais , ou porque Deos o tocou , a que dcfcobriíTc 
tudo: nefte cafo cafo ha de confeffar também a de- 
terminação em que já eftava de fe calar, e amentir^^ 
que alli poz negando. Mas fe o penitente quando fc 
determinou a calar, cuidava, que naôera peccado 
mortal, c depois advertio, que o era; então bafta, 
que diga eifc íó peccado , porque como cuidou em 
boa fé, qucnaô era obrigado a dizello por naõfer 
peccado mortal ; naõ impcdio efle filencio , que os 
mais , que confeffou , ficaffem perdoados. 

Aa iij IV. Quan- 



^jÍ4 '^'^^' EJliwu/o pratico y 
• IV. Quando le çcnfc (Ta fcm vcrdadtiro arrepen- 
(íimento de feus peccados , ifto he , fem dor de ha- 
Vèllos commettido , e fem propofito firiíie de os naõ 
commctter mais ; o qual propofito naõhe verdadei- 
ro, fcnaô tem intento de fe apartar das occafioeils 
próximas do peccado, e todas as vezes, que o prc- 
pofito naô he verdadeiro , nem também he ver^dadei- 
ra ^ dor , porque nii-vgucm fe doe , e lhe peza de ver- 
dade daquiilo mefmoy de que naõ determina cmcn- 
daríe, 

V. Quando fabendo o penitente haver incorri- 
do em alguma çxcommunhaõ, naò procura íer abfol- 
Vido delia, primieiro que receba a abfolviçaõ Sacra- 
mental de feus peccados 5 porquanto hum doseffei- 
tos da excommunhaõ , he impedir , que feja abfolvi- 
do de feus peccados 5 fem primeiro obedecer à Igre- 
ja , cedendo da fua contumácia. 

VI. Quando o Sacerdote , que abfolve , naõ tem 
»uriídiça5 para abfolver, ou a temimfxrdida porcen^ 
furas , e íabendo ifto o penitente fe confeffacom eí- 
Ic 5 ou quando finge fer Sacerdote para ouvir os pec- 
cados alheyos; e na verdade he hum homem leigo , 
ou algum demónio 5 como fuccedeo a numa irmáa de 
S. Vicente Ferrer, confeffarfe com o demónio,. que 
paffbu por alli em trage de Sacerdote eftrangeiroj e 
^lla parecendolhe boa a occafiaò , para defcobrir 
tium peccado, que efcondia a outros Confeffores, o 
chamou, , e fe declarou com, elle > e o demónio fingio, 
que a abfolvia ; e depois morrendo fem confeíTar o 

. dito peccado a outro verdadeiro Sacerdote,correo ex- 
tremo perigoa fua falvaçaô; e lhe valeo fomente o ha- 
ver (íip a fua contrição verdadeira, fundada em a(flo 
tie amor de Deos fobre todas as CDufas ; e a razaó de 
pçrmittir Deos o dito engano taõarrifcado, foy em 

"^-^í;>.^ caftigo 



Parajegtiir^ o be^n , e fugir o mat, 3 7 y 

caffigo da averfaó, que cila tinha cm fe confcííar a 
Sacerdotes conhecidos , fundada em íobiçrba,^ e Ij^- 
pocriíia, c eíperança temerária da vida. 

VII. Qumdo malicioíamente bufca ConfeíTor 
taõ ignorante , e fem prudência^ ou fem noticia fuf- 
ficiente da lingua cm que o penitente fe copfeíTa, 
que naô poíTa fazer conceito dos feus peccados ^ nem 
advertiu o da obrigação^ que tem de reftituir, ou 
de fazer outras coufas neceíTarias para a fua falva- 
çaõ. 

Em qualquer dos fobreditos cafos iíca o peni- 
tcaate^ naô fó por abfoiver, mas obrigado a repetir 
as conflífoens, que aííim houver feito mal; e Cada 
vez , que íe confelfou mal , fabcndo o mal que fazia^ 
commette hum facrilegio pela injuria ^ que faz ao Sa- 
cramento , que por ventura he peccado mais grave 
do que todos os mais, que clleconfeíTou, ou enco- 
brio por vergonha. Dclks fete cafós , o primeiro, 
que he a falta do exame, muito geral feria, fe 0$ 
GoníeíToresnaõ tomaíTem fobre li o trabalho de cí- 
quadrinhar as coníciencias, c quaíi adcvinhar as ma- 
licias , peio ufo continuo do feu oíHcio : fç bem até 
<:ftcadevinhar ha de fer taõ medido, c attento|que 
em vez de inquirir o que o penitente fez , naQ lhe 
cnfine , o que ainda naõ fez. . , - 

O terceiro, quehe encobrir pcccados , naô fç 
acha poucas vezes 5 e menos fe achara , fe osConfef- 
fores tiveraõ zelo da honra de Deos , que fe reftatira 
muito por via defle utiliífimo Sacramento, e mòí- 
traílemcharidade benigna com os penitentes, e tivef- 
•fem por eftylo entre as mais perguntas, que fazem, 
devaçar também fobre efte ponto^ f cilitando o pat 
fo à. coníciencia medrofa. Os que viveíTj em terras 
pequenas ^ teai jcfte tropeço mai§ occalionado ; por 

Aa iiij nao 



y/6 Eftimuío pratico^ 

nao haver taô facilmente , como a noffa negligencia 
para as coufas da íalvaçaò neceíTita , outros Confeíío- 
rcs mais que os Párocos , oii aiguns Sacerdotes fecula- 
res 5 com quem ordinariamente lia alguma razaõ de 
amizade, ou inimizade>c huma, c outra coufadijffi- 
cultaõ o revelar inteiramente as fealdades interiores 
da pobre alma 5 como fe a falvaçao defta e a honra de 
Dcos , naó importarão mais que tudo. Succedc tam- 
bém eik cafo mais ordinariamente em mulheres , en\ 
razaõ do mayor pejo , c menor prudência , que tem 
naturalmente; e em qualquer outras peífoas , que af- 
fedlaõ muito o parecer virtuofas, c eftaõ em poffc 
deffa fama. Hum Miífionario defta Congregação me 
contou, como entre ou cr os horrendos cafos , que lhe 
vieraôaos ouvidos, fora hum o de certa mulher , que 
tinha morto por via de aborfo doze filhos íembau- 
tiímoj e n^ô fazia cafo diíFo para fc confeffar. Ou- 
tro o de hum Confeífor, que tinha vinte annos de 
confiíToens nuUas, vi vendo em peccado com huma 
parenta, Bemdita feja a paciência, e mifericordia 
de Deos. E daqui fc vê claramente , quanto do fcu 
agrado hc o minifterio de andar hum Sacerdote em 
miffoens,c frequentar o ConfiíTionario \ e quanta laf- 
tima feja naõ empregarem tantos Rçligiofos os ta- 
lentos, que o Senhor lhes deu de letras, authorida* 
de , ftudc , íuriídiçao 5 mais , que em quatro Sermões 
de Feft:is , ou- em quatro confiffoens das peíToas co^ 
nhecidas, ou em negócios do feculo , ou pertençóes 
de Lugares , Caddras, Prelazias ; e fo com affentar- 
íe no Confeflionario , e dizer deíde o Púlpito as ver- 
dades claras , c íundamentaes da doutrina Evangeli-^. 
ca, que jáfabe, pudera lucrar par?» Deos muita^glo^ 
ria ,pa^a íí muito Ceo, e para o Ceo muitas almas. 
Mas de rodos os fabrcditos fcte caíqs , o quar* 



Para/egtíir o km , e fugir o mal. ^77 

to , que he a falta de verdadeiro propofico de emen- 
da, hc o principia mais geral por onde as confiíFòes 
faõ mal feitas. O que femoftra evidentemente com 
cflc íylogifmo. A reincidência frequente no meíhao 
peccado , he feal de que o propofito da emenda na 6 
f oy fii'me : ^^edfic eji , que as reincendcncias frequen- 
tes nomefmo peccado hc o que mais geraimence ve- 
mos em todo o género de pcíToas^ logo o ícu propoíito 
geralmente fallando> naòfoy firme. A menor efcu- 
fa prova , ( ainda mal ! ) porque conlla da expenei.- 
cia; c julgue-o cada hum por fi, fe ainda náõ efiá 
convertido de coração a Deos y ou fe já o cfta , Éaça 
reflexão íobre os tempos, em que a^nda o naò eiva- 
va. A mayor , he commum fentir dos Santos Padres: 
aponto alguns para que façaò fé , e nos convençamos. 

Santo Ambroíío diz aflim : Pwmieniia vera ffi i„ ^^ gj q^^ 
ctjfart k peecatoijiç entm prol>at ãolcre fe y Jide Cífítro tinsh.a* 
defintt, O arrependimento verdadeiro, he cefTar de 
ir peccando ; porque deite modo prova hum , q.\c 
lhe doe do mal que fez , fe dalli por diante deixa de 
o fazer 3 daqui fc infere : logo fe efte hc o arrcpen- 
dimeato verdadeiro , o outro , quenaõ induz emen- 
da , he arrependimento f^alfa 

Santo Agoftinho diz aífim : Irrifor efi.^ non pa:^ Sttm.i.^^^ 
nitem , cfut ad-huc i^it quod feemtmt: é^pcccata mn tm* "'í- & i^j'^"- 
niiit yfed multiplicai. Fazer ainda o mefmo de que 
me arrependi, c multiplicar os peccedos em vez de 
os dcminuir, naõ hc arrependimento,-, fcnao zom- 
baria. 

S.GrcgoviodizaPCímiPiefHtentíariivereageretejQ tíb.^ Epift. 
commir(fafer£^ fediterumplangendã dcclir;are. Aquel- ^"^ 
k íe arrepende de verdade , que chorando huma vez 
o ma! , que naó devera fazer , naõ repete o mal que 
dçvc choraiu 



37? Eftimuk pra tico , 

E já que efte Santo Dautor f a liando de arrepen- 
dimento acompanhado com lagrimas , naò deu as la- 
grimas fenaô a emenda por finai do verdadeiro arre- 
pendimento : confirmemos ifto com outra tamofa, c 
mais expreffa authoridade de S. Fulgencio , que fup- 
pofto naò eípecifica lagrimas aos pés do Conteílor yo 
mefmo pode fucceder neíTe lugar , que em qualquer 
outro; ehe efte hum caminho por onde íe enganaõ 
muitos peccadores, parecendolhes ^ que fe chorão, 
cftaó bem arrependidos: aflimcomo pelo contrario 
fc alfligem e deíbonfiaô vàamente muitos timoratos, 
parecendolhes, que naõ eftaõ arrependidos, fenaó 
chorão. Diz aíTim o Santo : Nonnulli fcelerum fuo- 
rum çonfideratione perterrm , pro tniquitatibui fuU tn 
eraitone gemuut : nec tamen ab iviqua operartone dtfce- 
dunt. Fãieu ur íe tnale fectjfe: nec ullum finem 'volunt 
malte fuu faâu tmpomre : Accufant humthter in confpcm 
ítu Det peccata , qmbm tenmtur oppre£i j á* (adem pec' 
catai qua humilttate fermonu accufant , cordeperverfo 
contmu4nt -, & cumulant. Indulgenttam ^ quamfuula^ 
chrimõfis gemitibus pofcunt » ipfi Jibt pravis operthm 
ãdimunt. Medeiam pnfcunt a Medico : & tn permeiem 
fuam fubrogant adjuíor lum morbu Tàlea numquam ^;- 
limnt gemendo peccata : quia non defi*funt peccate pofl 
gemitum. Conítvuamos, para que firva a todos : A al- 
guns a tcmerofa confideraçaõ de fuás maldades os 
faz gemer na oração ; mas naõ os faz emendar na vi- 
da. Que obrarão mal, bem o confeíTaô: porém nun- 
ca acabaõ de obrar mal. Diante de Deos fe accufaõ 
humildemente dos peccados , que os tem prezos , e 
opprimidos; mas effes mefmos peccados, que abo- 
minaõ com palavras humildes , continuao e amon- 
toao com coração perverfo. O perdaô elles o pe- 
dem , e ellcs o impedem ; pedem-no com as lagrimas 

e ge- 



Para ftgmro bem , e fugir o ?})a^. . l jc^ 

e gemidos , impcdem-no com íuas más obra$. Buí- 
caò o Medico para a cura, e fuminittraò a difpofi- 
çaõ pfâra a doença % eiks taes nurca apagaõ com la- 
grimas íeus peccados 5 porque nunca íeus peccados 
depois das lagrimas íe acabaò : até aqui S Fulgencio. 

Se algum quizer interpretar eíias authoridades> 
dizendo , que os Santos fallao da converíaô perfeita, 
c arrependimento em gráo muito intenfo y e que 
bem pode naõ fer affim , e mais naô fer falfo: Ref- 
ponde-fe , que fe a primeira , ou íegunda recahida 
argúc, que a converfaõ naô foy perieita : a trigeíi- 
ma , ou centefima , algum vicio mayor induz do que 
falta deíTa perfeição > e efte qual pode fer , fallando 
geralmente y fenaó arrependimento taõ remiflb, 
que naô chegue a íer verdadeiro , fenaô fomente hu • 
ma ineficaz veleidade? A razaò difto hc , porque 
as reincendencias vaô enfraquecendo fempre mais a ^ • 

alm^: para fe levantar, e fortalecendo mais ao demo- .. 

nio para a vencer, como confia do que o Senhor 
difTe no Euangelho do efpirito máo,que tornou a 
entrar no peccador , levando comíigo outrcs íete 
mais mdh'clofos5 e refukou daqui, que fe antes vi- , 

via mal, depois viveo peyor: AJJumit fepíem atios i^, ir.ycif. 
fpirttí4S fecumnequwres fe: & mgrejjlhabuant ibi-^ & ^^* 
jitmt novi[fima hommis illtuspeiora prtoribm^ 

E declara -fe mais eíta doutrina com a de Santo m onhodox» 
Anaftafio Niffeno , o qual dirtingue quatro modos de 'l^^'^- ^^ 
peccar ; a íaber , por occaíiaô que fe ofFerece de re- 
pente, por fraudulencia do inimiga, por ignorância 
da aima , e por affeíto que tem ao mefmo- peccadoj 
dos primeiros três modps diz ,, que he fácil o ir à pe- 
nitencia j mas de quarto , que he peccar por afiecflo, 
que fe tem creado ao mefmo vicio , diz que he mal 
irromediavel: ^/ atitem ^eccat eíc ajreftwm^& nm. 

tmtíèr 



3^^ Efíimulo pratico 'i 

tentattone^ non ventt a4 pamtentiam^ & morho lúhil 
rat irremcdiabilt. Pois conio as recahidas nos fazem 
ir creando afFeiçaô ao peccado; bem fe fegue, que 
impedem, e impugnaò direitamente ao arrependi- 
mento , pois eíie naò he outra coufa , que ódio ,yC 
abominação do meímo pcccado. 

E fuppoílo , que nunca em quanto o homem vi- 
ve, e por muitos, e muy repetidos e graves, que 
fwas maldades fejaô, íe lhe impoíTibilita de todo a 
converfaõ verdadeira ; toda via he certo fe lhe difi- 
culta ; e iffo meímo he fer huma coufa difficultoía, 
confeguircm-na poucos, porque como bem difcurfa 
o Padre Cezar Recupito : quanto a coufa tem mais 
de difficultoía , tanto mais íe chega para a impoílí- 
bilidade, e tanto mais feafFaíta de fer aétualmente .' 
Tria. de num. Quõ vcs diffictlwr , fo mãg p6 ãcctdtt ãd tmpotenUãm j er» 
praíd.ítinaco- ^^ magu recfdtc ãh a£tu fecundo , qut frodtt à potentia. 
rumcap, .n. ^^^^ ^^ ^^ ajJeCutio iwpoffíbtlts coutífígat tn nemine ; êj- 
fecutto retvaldedtfficilis conttngat mpauctf. Logo pou- 
cos fao os que íe confeíTaó bem , pois tantos íaõ os 
que recahcm frequcntiílimamcnte. 
He ■fiopoíi- ^ daqui fc vê com quanta razaõ o Summo Pon- 

çtõ«©.dasqne tificc Innoccncio XI. condenou a propofiçaô, que 
í?Í"iS^ *"i aftirmava , fc naô havia de negar , nem differir a 
U79. aoioiviçao ao penitente, que tem coítume de peccar 

contra a Ley de Deos, da natureza, ou da Igreja, 
ainda que naõ appareça efpcrança de emenda , com 
tanto , que diga': que lhe peza , e que propõem cmen- 
daríe : Fantttntt habentt confiíetudtnem peccandt cofi' 
ira Legem Dei , natavée , aut Ecchfia , ó- fi immmda- 
Uõnis fpes mdla apparrat , neç cft n ganda , nec diferen- 
íU abfolutto , dummodo ore proftrat , fe dolere , & propo^ 
nere emendattonem. Porque fe o tal colíume gerado 
de muitas recahidas 5 naô arguira, que o arrependi- 
mento 



Pára feguir o bem , H fugir o mal. 381 
mento he fó de palavra ^ c naõ de coração j nunca o 
Confeffor podéra negar a ablolviçaò3 pois he certo^ 
que no mefmo ponto , que o peccador íc arrepende 
de coração , Deos o recebe j e a S. Pedro quando lhe 
perguntou , fe perdoaria até íetc vezes \ relpondco, 
que até íetenta eíete; ifto he , (como explicaò os 
Padres) tantas vezes , quantas vier arrependido : Sid 
ficejl^ que o Summo Pontifice condena o dizeríc^ 
que nclk cafo lhe naô ha de negar , nem differir a 
abfolviçaõ ; logo julga , ao menos provavelmente ^ 
que o tal arrependimento naõ he de coração. E por- 
que os arrependidos defle modo faõ muito^ ; por iíío^ 
como diz a Serva de Deos : Âs njais das almas do C<t • 
ihohcôs , que alh no inferno ejlaõ ccvdmadas ^bi'p:)i (on- 
filfocns mal f atas. 

Que remédio pois para taõ grande mal r Na5 
eftá a dirticuldade em o fabermos explicar , íenaõ em 
o querermos applicar ^ que todo o homem y fe quer 
fer bom , bem fabe como. Mas declaremolo nciíft- 
guintc parábola. 

Tinha hum Fidalgo de portas a dentro. Inima: 
concubina , da qual naõ havia meyo para íe aparrir, 
fe ellenaõquizeíTc^porfer poderofonaquellaieira^ 
Elia com a confiança, que o amante lhe tinhidada, 
cobrara tal domínio, q«e d fpunha de todas as qç^xv 
fts -i como lhe dava no appetke , ícm reparar , quc 
clle moílraíTe niíTo difgofto > antes as mais vezes, o 
mef moera mandar elle humacoufa, que mandar ella. 
o contrario? e para eftc fim, fe a íervir acafa vi- 
nha algu n criado ou criada mais conforme a. condi- 
ção do am^ante, em breves dias apunha fóra>c por 
outra parte era amiga de tratar com gente , que naõ 
fervia em cafa,mais q de desbaratar quanto elle agen- 
ciava. Com que em nada havia paz , nem recolliir 

s^gntQ"^ 



38 z Ejflimuío pVíi tico , 

mento , e fe elle alguma vez queria pôr cobro neflas 
ruínas , ameaçando-a , ou caftigando-a , ou reduzin- 
do-a à mais íogciçaõ ) taes deímayos fingia , tacs quei- 
xumes formava , cantos enredos punha , que o coita- 
do, como eftava prezo do amor já antigo , logo lhe 
tornava a fazer as vontades. Até que hum amigo fiel 
lhe diffe : Quereis vós de hum fó lanço remediar tan- 
tos males ? Ponde etta mulher fora de cafa bem lon- 
ge deíla terra ; e alli contribuí prccifamente o que 
bafta para o feu fuftento honeflo ? E cazay vos logo, 
que cu vos darey companheira , em quem juntas con- 
correm nobreza, fermofura, fazenda, e virtude; e 
he muliíer de grande governo. Parecco-lhe bem o 
confelho do amigo; porem naõ tardou mais cm fe 
efquecer delle , que quanto tardou em tornar aos br^:- 
ços da concubina ; e nefla perplexidade de tomarcy, 
ou naõ tomarey eftado , andou fluduando, atéque 
a ruína da fuâ caía , q cada vez era mayor , o obrigou 
a tomar aquelle confelho; e logo experimentou os 
feus proveitos , pezandolhe de o nao haver feito mais 
cedo; porque fuppoflo,que aos principios lhe cuí- 
tou o reduzirfe aos honeftos coílumes de fua efpofa, 
depois tudo fe lhe fez fuave, e viveo quietamente. 

Efla he a parábola, e naõ eftá efcura a fua figni- 
fieaçaõ. A concubina he a noffa concupicencia , ou 
amor próprio , que fe feva nas honras, riqi ezas, e 
deleites. Com ella anda amigado o cfpirito do pec» 
cador ; que íuppofto que he o dono da caía pelo livre 
arbítrio , com tudo vive taõ vendido já de muitos an- 
nos , que cila he a que manda : e metendo em cafa o 
mundo , e o demónio inimigos do efpirito , tudo deí- 
compoem , e desbarataõ; e feha algumas virtudes, 
que fe põem pela parte delle, as lança fora para do- 
minar mais à vontade. A's vezes quer o cípirito mor- 
tificar 



Parajegtiir o bem , efugtr a maL 3 8jr 

tificar cfte anior próprio ; porém eik como fumma- 
mente aftuto, finge taes defmayos, e propõem raô 
amorofas queixas? que naò vay adiante com íeus bons 
J)rapoíitos, e o amor próprio fica miús infolente, 
tóorque por hum dia de jejum, banqueteou íete, e 
por hum Sermaó que ouvio, ouViO muitas Come 
dias. Diz a infpiraçaô de Deos^que he o amigo fiel: 
queres tu remediar tudo por hunia vez l Lança fóra 
cfte amor próprio , concedendolhe fomente o que he 
licito, e prccifo, porque naò podes iivi tal lo je def- 
pofate com a ciiaridade de Deos, que cfta hc taó no- 
bre, que procede do meímo Deos : Chat nas cntm ex 
Deo eft \ taõ fermofa , que he a mefma graça í )i¥in>^ 
taó.rica , que todos os bens traz comfigo: f^enermit 
auíem mtht omma hona partter cum tila 5 e de taõ bom 
governo , que em ella entrando em cafa, todas as cou- 
fas vaô bem ordenadas: Ordinavit tnmè chautâterM. 
Bem fabe o efpirito, que iíto he verdade, e pro- 
põem de a feguir 5 mas em tornando aos feus vícios^ 
diíficulta o defpegarfe deiles de todo. Atéque àsv e- 
zes o ícr em tantos íeus peccados- o obriga a tomar 
novo modo de vida ; e entaô experimenta os frutos 
defta refoluçaô , dos quaes hum he o verdadeiro arre- 
pendimento da vida paflCada , e firme propoffto de 
perfcverar no ferviço de Deos: a qual reío'uçaõ^ 
fuppofto que aos principios feja cuíiofa , depois fe 
faz fuave. 

Confiftepois a raiz de naô fazermos firmes pro- 
pofit^s danoffa emenda, cm que naô nos queremos 
dar a Deos, mudando de vida, tomando outro eftado,. 
e defpofandonos com o amor Divino : fenaõ. antea 
confcrvar em cafaoamor próprio, por nos nac pri- 
var dos gofios das coufas vifiveis e terrenas.Por outro 
modo maÍ6 clara : Naô, queremos fazer aqi^llas di- 
ligencias^ 



3S4 EftimulopraVcOi ' 

ligcncias , que fazem os outros que vivem Icm re- 
cahir em peccado mortal : fencio , que a experiência 
nefta parte, he argumento que naô tem repoíta. Que 
faz huma al:«na, qué anela na esfera dos quenaôpec- 
caõ mortalmente ? Inquiramos bem , e acharemos , 
que ora todos os dias a certos tempos : confeíTa-íe, 
e communga muito a miúdo : tem diretor efpiritual 
com quem fc aconfelha no que toca à fua alma : he 
devoto da Virgem NoíTa Senhora , rezandolhe o íeu 
Roíario^ ou Coroa cada dia , com applicaçaô de e£- 
pirito : exercita íuas penitencias moderadas, con- 
forme o feueítado, e forças: dá efmolas, e favore- 
ce os próximos no que alcânçaô feus cabedaes : lê 
por livros eípirituaes , c trata com gente timorata: 
naõ íe mete em pertenções e negócios , que naõ 
fejaõ muito neceíTarios , e lícitos : emprega bem o 
tempo fugindo da ocioíidade : examina a fua confcí- 
encia para ver fe eflá aparelhado para entrar em 
contas com Deos , &c. Eis-aqui huma alma deípofa- 
da com o amor de Deos , fazendo pelo íervir , e hon- 
rar com exercício de fantas obras 5 por meyo do qual 
fe Vây fazendo forte nas virtudes, e animofa para 
reíiftir às tentações; e íe por defcuido, ou fragili- 
dade, ou foberba occulta, cahe alguma vez, facil- 
mente fe levanta , propondo vida mais acautelada. 

Mas como os homens commummente temos me- 
do de fervir a Deos por naò deixar de gozar das 
creaturas , quizeramos juntamente coníervarnos fcm 
peccado, e fem virtude; fem peccado por nos livrar 
dos remorfos da confciencia , e temores da conde- 
nação; fem virtude, por nos livrar do trabalho de 
adquirilla ; íendo , que o trabalho da cfcravidaõ 
dos vícios he muito mais grave , que o do exercício 
das virtudes; co jugo de Chrifto he leve e fuave; 

Co 



Para feguh o hcm , e fugir o mai. li^y 

CO do mundo, carne, e demónio, he taõ pezado, 
qae nos atliinda no iníerno. E como o concordar ef. 
tes dous extremos de nem fer peceador , nem virtiio- 
íb, he impolfivelj e c penitente o mais quefazjhe 
propor de naõ peccar , íem propor os meyos para 
iíTo, que faô íts obras íantas; daqui vem, que nunca 
acaba deconfeguir iílo que propõem , porque nun- 
ca começa a íiizcr ifto que convém , que hc o mef- 
mo, que deixar em cafa a concubina, para recahir 
nas íuas antigas miferias. Porque o peccado procede 
da tentação : a tentação prende-nos a noíTos delejos c 
paixões 5 eíies deícjos c paixões faõ filhos do amor 
próprio : efle amor próprio fó o pode fopcar a nof- 
ia liberdade, junta coma graça de Deos. A liberda- 
de tanto mais fe enfraquece , quanto mais confcnti- 
mos no mal j e a graça deDecs tanto maisfe aufen- 
ta , e fonega , quanto peyor ufamos delia. E pelo con- 
trario , quanto mais aproveitamos a graça , coope- 
rando com ella , tanto mais fe nos communica , e 
nos ajuda ; e a liberdade quanto mais obra o bem ^ 
tanto mais fe facilita , e cobra forças contra o vicio. 
Logo fe o peceador der volta, e quizer entregarfe à 
virtude , fazendo o que fazem os outros Servos de 
Deos , verícha íenhor de fi, como os outros fe \iraô. 

Dcíccndo a cafos particulares veremos mais 
claramente efta doutrina. Levanta-fe o penitente 
abfolvido dos pés do Confeffor, vay para cafa : vi- 
íita-o o amigo, eftc murmura gravemente contra o 
próximo, e elle pelo coilume, que tinha de fazer 
prazer aos amigos, ajudou a murmurar; e temolo já- 
cahido outra vez em peccado; mas fe elle fe houve- 
ra determinado em evitar amigos femelhantes , naõ 
murmurara. 

Vcyo-Jhe hum penfamento kfcivo, e conf^n- 

Bb tio; 



386 Eflimnio pratico , 

tio 5 íc elle tivera pela manhâa oraçaò , o peníamen- 
to ^ ou naõ veria , ou o rebatera com outro bom , naf- 
eido d:i mefma oraçaó. 

Encrou em feu ferviço huma ama : da familia- 
rldide domeiVica , nafceo a tentação , dcíla o pecca- 
do , da peccado o coftume : agora quer largar y e naô 
póie 5 fe ellc fe governara por diredlor efpiritual y 
dííTeralhe, que a hum folteiro, ou Sacerdote , naô 
convinha aquella peíToa de taõ poucos annos cm fua 
eafa; e todo eíle mal fe atalhava, ou cafo, que fe 
naõ atalhara à principio, cor tara fe agora , fe íeguira 
o que o direílor lhe ordenalTe à cerca de evitar oc- 
callõés próximas. 

Encontrou coii certo contendor feu , cuja vif- 
ta lhe renovou defejos de vingança y fe elle medita- 
da na Paixão , aprendera a amar os inimigos por amor 
do mef no Chrifto,, e achara o coração quieto em 
lances femelhantes. 

Naô prévio hum laça oculta, que o demónio 
lhe armou , e aífim cahío nelle miferavelmente : fe 
eíle cultivara a devoção da Virgem, para- merecer o 
feu efpecial patrocinio, defviáralhea Senhora efla 
tentação , ou> lhe alcançara forças para íahir delia 
com mayores lucros. 

Afrouxou nos fantos exercícios , e fe lhe fez 
tãb agro o caminho da virtude , que veyo a faltar na 
perfeverança , de que fe feguiraõ outros danos ma- 
yores. Se elle commungára de oito em oito dias, aí- 
fim Gomo communga de mez em mez , fentira fua al- 
ma grande esforço ,c lhe feriaô dados mais auxilios 
para períeverar. 

Se defte modo quizermos continuar o diícuríof 
acharemos, que quanto hum fe poupa a fervir a 
I)rq^.> tanto abre a porta às tentações do demónio 5 

eaííim„ 



Parajeguir^ o hem , e fugir o fna!. 387 

t aflim, porque os Fieis naõ anelaô a fer virtuofosi 
vem a parar em fer condenados 5 porque facilitada 
a ofíenía de Deos pelo coítume , íe difficuita a emen- 
da pelo arrependimento , e íe endurece o coração , e 
dahi procede íerem os propoíítos delia falfos ^ e as 
confiffcens nullas 5 e deltas eflá o inferno povoado: 
cíTe he o fim , originado daquelle principio , de naõ 
lançar fora a concubina do amor próprio. Por on- 
de dizia o humilde Monge Thalaííio : Vis femel à ^j Pairiími 
f/íalps omnibiis líber ari ? Matri malorum Phúautta re^ Ptcsbúcrum, 
ntíncta. Queres de huma vez livrarte de todos os m'^- 
Jes? Renuncia o amor próprio , que he opay de to- 
dos os vicios. E por Ç\ mefmo o tinha já dito o Ef- 
pirito Santo: Si pr afies anima concupifc enfiai fjm\ 
facimt te m gaudium immKvs tuis. Se concederes à 
tua alma as coufas que appetece, entregarte-haõ 
cm poder de teus inimigos com grande goío feu. 

REFLEXÃO VIII. 

E^Jfim elles (os Bifpos) como todos os que for aÕ Re- 
Itgiofos , epejfoas , que por feu e fiado trai mau chf^ 
gados a Deos Nejfo Senhor \ e por fem peccad^s 
fe apartarão y e condmaraÕ ^ e/iaÕ nefia profundeza i 
porque nelía ví de todas as Reltgioens, 

A razaõ difto he patente. Qualquer deftas al- 
mas fez a Deos muito mayores dcfpezas de fua gra- 
ça , do que outras , que vivem no feculo, e naó pra-« 
feíTaõ perfeição , nem adquerida já , como os Bifpos, 
nem ao menos procurada , como os Religiofos. E 
quanto faõ mayores os beneficias que recebeo , tan- 
to he mais feya a ingratidão na falta da correípon- 
dencia , e mais culpável a negligencia cm fe naõ apro- 
veitar delles. líTo he o que quer dizer Santiago Apof- 

Bb ij tolo, 



388 EJIhnii lo pratico y • 

tolo, quando diz, que a mifericordia faz fobir de 
Jacob, t.ycrf, P^^to O juizo : Supetexâltat mtfertcordia judictumy 
M' e S. Baíilio diffe o meímo por outro modo : que o 

juizo vay a traz da graça pelos feus mefmos paífos: 
G'!'atiãm Jequitur judtcmm j iito hs , que fe a graça de 
Deos para com o homem fe apreffa , ou fobe , fazen- 
dolhe muitos c muy altos benefícios : também o 
juizo fobe, ou fe apreffa pedindoJhe correfponden- 
cia muy continua , c muy exadla 5 porque emfim as 
mefmas , que cm Deos faó dadivas , em nós faô di- 
vidas: Autor eft debttt^ qut Autor eft dom^ diffe S, 
Fulgencio. 

Impoífivel he candenarfe hum Religiofo, fem 
que fsja fummamente ingrato, e defprezador das mi- 
ferícordias Divinas. Porque tudo quanto ha das por- 
tas da Religião para dentro > fao miíericordias defle 
Senhor , e tudo eftá nadando em opportunidades de 
o fervir , que he o mefmo , que de nos falvarmos. A 
íogeiçao aos Prelados , he mifericordia de Deos j as 
coaftituições e regras, faô mifericordia de Deos; a 
pobreza , e abdicação dos fauftos do feculo , he mi- 
fericordia de Deos , a Claufura , o Coro , o Capitu- 
lo , o Refeitório, o Habito, as Ordens , a viíinhança 
de Chrifto Sacramentado , vivendo com elle de por- 
t.n a dentro; os Sermões, as penitencias , as enfer- 
midades., as tentaç5es, os defprezos, que fe pade- 
cem do próximo, a diftribuiçaó dns horas, e o re- 
lógio, e as campas da Cpmmu.nldadc; e fealmente, 
tudo hz huma perpetua ferie de benefícios de Deos, 
CO ia que por harna. cadea de vários fuzis entre fi en- 
giMzados, vay a maõ de Deos levando, e puxando 
peio Religiofo , até o. meter comfígo no Reyno da 
gloria ; e que toia eíla cadea rompa , e quebre humg 
alma ingrata ! Contra todos eftes atradivos forceje, 

ere- 



Para feguir o hem , e fugir o wãi. 5 8p 

c relute ! Todas eflas opportunidades efperdice , e 
derrame ! Como pode o leu juizo deixar de fer miiy 
luperexaltado à força de miíericordias) epor con- 
seguinte o leu interno mais profundo ? 

Taó profundo he , que conforme foy moftrado 
à Serva de Deos a Venerável Madre Maria de Ia 
Antigua, eftaóosmáos Religioíos, e Sacerdotes cm 
companhia e poder de Judas 5 porque pede a equi- 
dade do Divino juizo, que íejaõ femelhantes no lu- 
gar , e pena , os que o foraô no eftado , e culpa : Ju- 
das foy Sacerdote , porém máo Sacerdote > profef- 
fouo feguimento de Chriíio, porém naõo íeguio; 
viveo no Collegio e íocicdadc dos mais Apoílolos, 
porém naô os imitou ; aííentoufe com o Senhor à 
mefa, emeteo comcíle a maô no prato ^ c commun- 
gou feu corpo, porém vendeu-o; recebeo delle of- 
culo , porém fez do meímo ofculo íinal da entrega* 
femelhantes favores , fe bem íe pondera , recebe o 
Religiofo , e femelhantes ingratidões commctte , fc 
he máo Religiofo: que muito logo , que no inferno 
tenha lugar íemelhante : Conoct ( faò as palavras 
da dita Serva de Deos) que Judas era el que dcbaxode Dcfcngano <íe 
fu mano Uma a todos los ( maios ) Sacerdotes , y Relt- Rciígioíos ub; 
giofos: & conoct , (jueld caufa de ju caída fue , porque ^'"P*^* 
ja mas tuvo verd^dcro nmor a DtoSy)' de fu conduion era 
cruel '^y affi los maltratava mas que los demónios. Ten- 
iendt ( advir tafe bem neftc ponto ) queejle mifmopec^ 
cadõ hazinn los Rehgtofos , e Reltgwfas \que m k da^van 
4 Dt s ju amor y njjicion, ^te tal qr^ede defle conoci- 
miento 5 no U fabre dizir, Pues efie úia no fnli dond^ 
md vozes por la cafa , y avtzanàoias a todos de/iegran" 
do peltgro , gr and' fue mi prudência. 

E que o máo ufo da graça copiofa de Deos ftja 
a caufa da condenação dos Religiofos, mõftrou @ 

Bb iij Senhor 



/ 



39^ Efliwulo pratico y 

o Senhor a outra fua Serva , que f oy a Venerável Ma- 
ria líabel de JESUS , Religiofa Agoftinha Deíêalça, 
aquém o Senaor levantou defde paitorinha de qua- 
tro ovelhas , a ííaguíaníTimos dons de íua graça , c 
fe dignou íer dcíde o principio feu meítre , e dire- 
ft>r eípiritual^ ponho aqui as fuás palavras, por- 
que juntamente Ic veja como concordaô com o noíTo 
texto 5 que vamos annotando , no ponto de que fe 
condenaó almas de todos os eíhdos > e ainda que feja 
Imo 1. da íja Religião de iníiitut > reformado. Diz aílim : Outro 
cap. t. ^i^^j^ parte da nnteeftando em recolhimento ^ meforaa 
miftraÂ.is três Freiras \ ejtavaí todois ires ptrto humas 
das outras deitadas de cofiais , e amortalhadas com 
I feushihitos^ e correas ^ ptoDn.amente como fe amorêa- 

í Ihav em cafa , ejlando-as olhandaj vty que fe afundirão^ 

ejahio muito fumo donde cahiraõ \ logo vt atrai dijlo 
muito azeite der ramído^ parecendome t fegundo ejiava 
fenmfa , que o via c&no quando cahefobre a agua , e ejlí 
nadando^ e fazendo vifoens j davame a entender ^ que 
fehrviao perdido aquellas pobres Freiras por fenaoba- 
'verem aproveitado; da mifer teor dia de Veos : Conheci ^ 
que erao do Habito de minha Ordem ^ mas nao^ as conhe^ 
ci a ellas , nem foube de que Convento erao. A mim me 
fey eft^ mercê muj provntofa , porque fendo euftcular , 
me parecia,t que me baftava o Habito para flvúrme^ 
porque nos Conventos nao havta occafíao para ninguém 
fe perder iquiz o Senhor dfmganArme para que vtffe^ 
^ue mena» brijlava o Hihito-, e recolhimento-^ ff nao fe 
obra conforme o que pede a ejlad9 ; manife/loufe- me , 
que de todos os ejtados fe perdem almas. Até aqui efta 
Serva deOeos. 

Reparc-fe nas circunííanclas defta vifaô; efla- 
•vaôeíí: IS Religiofas perto hunas das outras , e amor- 
lalhaiis no, feu Habito, e o Habito era deRelegia5 

muy 



» 



Parafeguir o hem , e fugir o mal. jp i 

muy recoleta , e cahiraõ de cortas > e lahio muito fu- 
rno donde cahiraõ i e vio-fe muito azeite derramado? 
c conhecendo efta Serva de Deos o Habito , naõ co- 
nheceo as peíToas. 

No eitarem perto humas das outras , parece íc 
denota , que haviaõ fido efcíindalo , e ruina humas 
das outras , ou por via do máo exemplo ^ ( que nas 
Communidades he muy contagiofo) ou por via do 
peccado em que foraõ complices, 

O eftarem amortalhadas no Habito da Ordem, 
foy para que aífim como nefta vidaelTe lhe íervio 
de honra 5 aílim no inferno lhe ferviíTe de oprobio; c 
já que eftas do Habito naõ fizeraõ mortalha para mor- 
rer com tempo ao mundo , fizeíTcm delle mortalha 
para morrer a Deos eternamente. 

O cahirem de coftas, he próprio dos réprobo?: 
Abierunt retrorfum \ aífim como o cahir de rofto Jic 
próprio de peccadores arrependidos 3 porque eftes 
cahem em fi mefmos para diante do feu çonhecimen- 
fto ; e os outros cahem lem verem adondc , como ce- 
gos. 

Eraõ de Religião Recoleta, para que fe vejaco- 
^^ RsSI^Il^ãMp.ê^ J^^eUgioens, íenaó a34^ 
as almas he que haviaõ de fer recoletas, pois vi- 
via ò em tal Religião ; Deos heefpirito, e verdade, ç 
e aíTim pede quem o firva em verdade , e eíipirito : e 
naõ cm hypocrifia, e vaidade; e fer o Habito eftrei- 
to, e ,^ coníciencia larga , claro eftá , que he hypo- 
crifia. 

Sahio muito fumo donde cahiraõ, para final, -^ 

que aonde cahiraõ havia muito fogo ; e havia muito 
fogo onde cahiraõ, porque naõ havia fogo algum 
nas que cahiraõ 5 fe ellas ardéraõ aqui no fogo do 
^mor de Deos, naõarderiaõ lá no fogo dos tormen- 

Bb iiij tos: 



39 2^ Eflimnlo pratico y 

tos: elk he preciío, que as almas ardaõ: cada qual 
efcolha o fogo que quizcr : t nto iiao arderá na pena 
dcíuas culpas, quanto primeiro arder na contrição 
delias , e ciiama do amor Divjno. 

Vio-fe azeite derramado^ porque fuppofto , que 
eraò virgens ^ foraõ neícias , c as virgens nefcias tem 
çopiofo azeite na Religião ^ masnaão levaõ comfi- 
go nas alampadas: Acceptts lampadthus non fumpfe* 
runt okíim fecttm'^ e o azeite, que as havia de intro- 
duzir aoeípofo , naó he o provimento dellc , que ha 
na Retigiaõ, fenaõ o que levaffem nas fuás alampadas 
comilão j viver na Religião^ e naõ viver com Re- 
ligião ^ he tomar as alampadas, e naó provellas > e 
liavcndo na Religião de que prover as alampadas , 
naó provellas , he o mefmo , que derramar o azeite 
refplandecente da graça de Deos. Por iíTo fc conde- 
narão. 

Conhecendo o Habito, naô conheceo as peC- 
ioas, porque Deos naó queria infamar as peffoas , e 
queria avifar os cftados j infamar as peíToas , naõ j 
porque lá eftá dia refervado para iíTo , que he o ui- 
timo do mundo > mas avifar os eflados fim , para que 
ie naó fiem em vaó as peffoas. 

Dem-fe pois por avizadas as peffoas cm qual- 
quer eflado^ que fe feus procedimentos fe naõ confor- 
itiiò, com o que elle pede, tanto fera mais culpável 
a íua condenação , quanto o azeite era naquelle ef- 
tado mais copiofo , e elles por íua negligencia o fi>- 
zeraõ mais derramado > porque fe derran^iado naô 
allumea-àhuns por fua miferia ^aiada pode allumear 
a outros por feu efcarmento* 

Mas íe o azeite derramado pelos Rdigiofos , que 
'fecondenaõ, pode allumear a ourros com oefcar* 
iT)ento para que íe naó condenem y temo tambcm., 

qUP 



PíJM fegtíir o bem , efugav o mal • 3 9 ^ 
que o fumo , que íla noticia deites caíoá íahe lóu^ 
cegue mais a alguns, que vivem, no>leculo já, cegos, 
O eítado P.eiigioío ícmpre padeceo por emulos e 
maldizentes, alguiTias pcffoas do leculo. Rogo a eítes, 
que olhem antes para a luz, que para o fumoj. c 
naô ajuizarão cegamente : e vejaò onde ha mais fu- 
mo, e onde mais luz, íe na Religião , caía da luz , 
fc no mundo, caílido fumo 5 na Religiaã a conde- 
nação de algumas almas fe conta por exemplo ; e 
no mundo pa>r exempla íe conta a fc^lvacaõ de al- 
gumas. No Apoiíolado hum fe perdeo, e todos os/ 
mais fc fal vara ò: das Farifeos em tempo dos Apoí- 
tolos , Paulo fe converteo , todos os mais naô íabe- 
mos , que fe converteíTem y o fecHlo he como o Fa- 
nifeo, que fe enfoberbece, e ufana de dar a Dees 
©s dizimos : Decimas do ommum qua pojftdeoy. e a Rç- 
ligiaò he como o Apoftolado, que o levarlhe o de- 
mónio os dizimos , iffo he q que chora : N(mo ex as 
pertít , nifi Films perditioms -, e. íe no Apoíiolado íe pa- 
gou dizimo aodemonÍQ,quje muito, qne o paguem 
as Religioens maia rccoíctas? Se no Apaftolacío fie 
perdca numa alma, que muito, que nas Religiões íe 
percaõ alguns? O admirável he, íe falvem tantas^. 
e naõ fóm.ente fe folvem y fe naô , que na terra e 
já no Ceo ajudem afalvar muitosdo feculo ; na ter- 
ra trabalhando como fieis. operários ; no CtQ inrcr^ 
cedendo como Santos. As Religiões no meyo do ícr 
culo , faõ como as ilhas no meyo do^mar , que às ve- 
zes por invazôcs do mefmo mar fe yaô comendo , s 
foçobrando, e padecem fuás injurias da vlíinhança 
deftepodcroíb adverfario. Mas fe nas ilhas ha tem» 
peflades-, que fcrá no coração dos mares? Oh ale- 
gremfe as ilhas ,e multipliquem- fe; Líeicntíin-tnfnls 
mdt^y que ainda coma communicaçgõ taõ viíiphíi^ 



394 Eftimiilo pratkô ^ 

dos mares, eftaõ muito mais firmes efeguras, que 
Gip.ji.daíua ^ll^s.-y^/w^^í qne ãi Reltgwms cílao relaxadas ( dilfe 
Vida,dcpoiído Chrifto à ftia zelante elpofa Santa Thereía de JE- 
^^y^' SUS) n>2o cmdijs.íiue fou nellas pomo Jervído-, éjue 

Jerta do mundo fe nao foffm os Religtojbs ? A Pa- 
lavra de Chriao he luz 3 e a efta luz devem os íecu- 
lares voltar os olhos , quando os eícandelizaraqucl- 
le fumo. 

REFLEXÃO IX. 



i.i.cjua;fl:.7. 
are. . . 



tib de Puiici 
'"". Mp. 7.iom' 



VI aos deshoncjlos , ^ue faí tantos , queelpania o 
Jtu numero. 
Concorda com a fentença , que íc traz de 
S, Remigio , o qual aftirma , que por efte vicio fer 
taõ geral , que quafi naõ tem mais exceyçaõ , que os 
meninos pequenos ^ íaô tantas as almas , que fe con- 
denaõ: Demptu parvulíí ^ propter hoc vutum pauci 
faivantur 5 e a razaõ he , porque he vicio , ( como 
o fogo de alcatrão ) fácil de pegarfe, deficiilimo de 
apagarfe; que por iífo o demónio folga tanto com 
elle: 'Diabolm ( eníína Santo Thomás) dícitur gau- 
deve maximt de peccãto luxurire , quia eji máxima ad^ 
harmna , & difficãe ah eopoiejl himo trtpi, E S. Joa5 
Chryfoftomo diffe, que taó diíficultofoerareíiituir 
hum kixuriofo à caftidade, como hum morto à vi- 
da : Tam dtfficiU ejl Itbidmofum c/jjlitati , qnam mortvum 
vita rejittuerey por onde TertuUiano aiiudindo àlu- 
cerna , que íe accendeo , como diz o Euangeího , pa- 
ra buícar a joya perdida, diffe, que para bufcar , e 
achar a alma perdida por efte vicio , naò bafta íó o 
delicado rayoíinhoda lucerna, fcnaõ,que he necef- 
faria toda a claridade do Sol: Mechía vero & for- 
mcattoms ^ non drachmatfed talmtum ^ qutbíis (xqm^ 

fcndis 



Para /egim o bem , efíigir o mal. 3 95 

rendis non kicerna fpuulo lummetjid toíiim foln lan- 
cea opui e/i^ 

i\ caufa de pegar tao facilmente cíle fogo he , 
porque o homem dentro em ú mefmo traz a pólvo- 
ra, o fuzil, e o pedernai, que tudo ifto he a carne 
humana : he pólvora, porque ficou pelo peccado ori- 
ginal difpo-lta , para receber qualquer faifca deík in- 
cêndio : he pede3'nal y porque dentro em íi tem a con- 
cupicencia , que com qualquer toque defpedc eitas 
faiícas : e he fuzil , porque as operações dos ícntidos 

ferem ^ê^pecícrnal da concupicencíar Bem declara 
ifto o que fuccedeo ao Santo Abbadc lereno , de 
quem refere Cafliano , que inflou muito em pedir a CMik^.-^.r^zv. z 
Deos o precioíIíTimo dom da caftidade j e íuppoflo^ 
qne por mercê do mefma Senhor já lograva a inte- 
rior, qtieriafe eximir até dos minimos movimentos 
exteriores > de que nem as crianças carecem. Aper- 
tando pois na oraçaa com a força das lagrimas, e 
perfeverança 5 finalmente alcançou o que deíejava 
pelo feguinte modo prodigiofo. Eftando dormindo, 
lhe appareceo de noite hum Anjo do Senhor , o qual 
com hum inftrumento que trazia, lhe abrio o ven- 
tre , e lhe arrancou das entranhas huma como gran- 
doía, ou alporca de eame abrazeada ,.e a lançou fo- 
ra : Glnamdãrn tgniíam carnvi Ji^ umnmab ejm vifcert- 
hiis avdkm , ac pr oficiem , diz o Aurhor : e logo rei- 
tituindo a feus lugares todas 3^ partes, que abrira, 
diffe ao Monge: Eis-aqui te íbraõ tirados de. rai:z; . 
os incentivos da tua carne j fabe, que hoje alcançai. 
t^ de Deos a perpetua pureza de teu corpo, que fiel- 
mente lhe pedifle. Aquelles pois, que naô temos ar- 
rançada das entranhas eíía viva braza ,. he força, que 
padeçamos os fcus incentivos, e que o reprimUlo^, 

cm?' 



39^ Eflimuío pratico , 

< mitiga! los, feja à força do orvalho da graça de 
Deos, e do exercicio de muitas virtudes . conforme 
logo aponrarepios. 

Pelo contrario a caufa de fc apagar cfte fogo 
diíiicultoíainente , he porque eile meímo com o íeii 
fumo cega a alma , para que naô atine com os remé- 
dios , c lhe tira o defejo de os bufcar, e applicar. 
Por onde em Ofeas íe equipara efte vicio à bcbediffe: 

0rcc4.Tcri.1i' For me aí w^ é^^umum^ & ebrtetas auferunt çor\ por- 
que aíllm como o tomado do vií^ho , naô íó padece 
efla miíeria , íènao , que a mefma miferia o incapa- 
citou para que defeje, ou buíque o remédio delia > 
e fica fó correndo iíTo por conta da compaixão , e 
charidade dos outros próximos : Âílim o iafcivo íe 
lhe ofíufca tanto a prudência , e fe lhe aliena o jui- 
zo , que fe abraza com o feu mefmo peccado, e fe 
alegra com o feu mefmo dano ; e he o que diíTe o 

Oí«5. Tctf.4. meímo Profeta em outro lugar: Non àahimt cogita" 
íiones Çua4 ut tevcrtaniur â4 Deurn fuum : qina jpirt- 
tm formcattomtm m mcdio eorum , é^ Domtrmm non 
cogrioveruní, Na5 occuparáò o peníamento em cui- 
dar como íe converterão a feu Deos^ porque no 
meyo delies reyna o efpirito de luxuria ; e aíllm naõ 
conhecem ao Senhor. Só a charidade , e mifcricor- 
dia infinita do mefmo Senhor os faz ás vezes dcíper- 
tar da .^ua ebriedade j e íe ncftes lúcidos intervallos 
uíaõ bem da fua graça , e applicaõ d:i fua parte as 
diligencias neccíTarias, vem a recobrar feu juizoj 
€ entaõ conhecem, e admiraô o miferavel eftado em 
que tanto tempo jazéraõ fcpultados no horror de 
fuás immundicias) e vem como o demónio uíava 
com elles de femelhants tyrann^a , e deíprezo, ao 
ique íe refere, ufava Eílevaõ lí. Pvcy de Hungria , que 
matava a muitos enterrando-os vivos em efíerco de 
cavallos. Apoa- 




Para fegutr o bem , e fugir o mal. 397 
Apontaremos pois aqui quaes ftjaò eflas dili- 
gencias principaes , que o homem deve pôr da lua 
parte, ou por cautela, para que eíte togo naõ pe- 
gue: ou por remédio para que íe apague. 

A primeira , hc pedir a Deos Noffo Senhor com 
inftancia o dom da caftidade , e para iffo ter primei- 
ro conhecido , que fe elle o naõ der , de balde faò to- 
das as noffas diligencias y pois até eík mefmo conhe- 
cimento ^e deíen2;ano ha de vir da fua maõ: Utfcu ,. . , , 
vt ( diz o Sabio ) quoniam altUr mn pojjcm ejje contt- 
mn$ y nifi Pci44 det y & hoc tpfum eratjaptenti/e ^ feire 
CUJU4 ejfet hoc donumiadu Dommum ^ Cp- deprecatuí 
futn tllum. Mas advirtafe, que huma coufa he pedir 
a Deos caftidade, outra pedírlhe carecer de tenta- 
ções contra a cáftidade. S. Paulo era tentado do ef- 
timulo da carne , e era caflo ^pedio a Deos , que lhe 
tiraffe a tentação , c naõ o confeguio > mas confe- 
guio a graça baftant^ para naõ fer da tentação, venci- 
do 5 porque ifto era o que mais lhe convinha y para 
que fe aperfciçoaffc a fua virtude na mefma fua fra- 
queza: Suffcitltbt gratta mea ynam vtrtm ininfcrnú'. 
iate perficítur. l^^ 

Segunda , commungar frequentemente 5 porque 
efta he a mefa, que o Senhor aparelhou contra o ten- 
tador , que nos attribula: Parafli in eonfpetíu wc^ 
menjam adverfm eos ^ qm tríbulant «?ej e o Sangue 
defte Senhor , que alli recebemos, he vinho , que ge- 
ra virgens^ e fe por hum bocado da arvore da íci- 
fcieiícia do bem e mal , fenospggou a concupicen*- 
cia; por outro da arvore da vida, que he Chrifto^ 
fe nos communica o refrigério. 

Terceira, fugir de occaíiões: da.cafa fofpeita^^ 
do amigo pouco temente a Deos , do pateo das Co- 
medíeis, do comer aa meíma mefa. com muJlicrcs^. 



Ciriníh. r:^ 



3^^ Ê^/Wi^/í? protico , 

da facilidade em brincar de mãos, de livros de No- 
vellas e verfos profanos, de pinturas defcompof- 
tas, c de tudo o em que pode perigar efta virtude j 
porque he flor, que facilmente fe magoa , he crií- 
tal, que at^ com o bafo íè empana. Joleph largou 
depreCa a capa nas mãos da adultera , porque temeo, 
{diz Santo Ambrofio ) que fe íe detiveffe qualquer 
coufa , pelas mãos à capa , c pela capa ao feu coração, 
Lib I. de To ^^ pegaria o contagio dalaícivia; Contagmm quippe 
kphcap. 5. jnàicavit^fi diuUm m&rarnur^m^er manm adultera li* 
kãmu incentiva tranfirent. Chegando hum devoto 
lacob. de Vi- de Santa Maria de Oignies a apertarlhe a maõ por 
inac . lib. i. affcíílo finccro de charidade , cila íentio logo os pri- 
«jusviraccap.j. j^çjj.ç<. movimcntos da carne, e ouvio huma voz 
do Ceo, que a avizava : Nolt me tanger e , naõ me to- 
ques; fe tanto perigo ha nos toques, que procedem 
de devoção e charidade , ainda entre peffoas Santas; 
que haverá nos que procedem de jocoíidadc , e facé- 
cia entre peíToas livianas? 

Quarta , naõ eftar ociofo , fenaô ter as horas 
todas occupadas com a prudente deftribuiçaõ de vá- 
rios empregos convenientes ao eftado, idade, offi- 
cio , c firças próprias. Quando David fahio a paf- 
íear no íeu cyrado , e efpayreceo os olhos pelas ea- 
fas da viíinhança , entaó começou a tentação do 
adultério com Bethzabec ; e adverte o Texto Sagra- 
do , que fucccdeo ifto no tempo em que os Reys cof- 
tumavaò ir à guerra , ( e que David fe ficara na fua 
i.Reg.ii.Tcrf. Corte, e Palácio: ) Eo tempore -^ quo folerjt Reges ad 
*• Mia procedtre : Davtd autem remanfit m Jemfalem] 

para que entendeffemos, que de querermos defcan- 
ço , e ferias , quando he tempo de trabalho , e appli- 
caçaõ , nafccm as ruinas da caftidade. Perguntará al- 
guém , que occupaçóes podemos finalar a hum ho- 
mem, 



Para feg uir o km , e fugir o wãt 599 

mcm, que tem que comer, e quem o firva , e naó- 
anda em exercicio de letras , nem de armas ? Rei- 
pondo, que naõ íe podem íinalar com todo o acer- 
to , fenaò por juízo piudente , que conheça indivi- 
dualmente as circunitancias da peíToajmas fallando 
em geral podem íeras feguintes: Ter cada dia cer- 
to tempo de oraçaò mental : ouvir Miffa : rezar a 
Coroa , ou Rofario da Virgem : ler por livros efpi- 
tuaes y ou de Hiltoria y efpecialmcnte Ecclefiaftica: 
viíitar os Hofpitaes de quando em. quando : ajudar , e 
valer aos próximos em alguns negócios que fe offe- 
rcçâõycm que neeeífitem do feu patrocínio: atten- 
der ao governo da fua família , e doutrinar os filhos, 
e fervos: viíitar os parentes , e amigos nas occafiões, 
que o pede a urbanidade , e jutta correfpondencia : 
ouvir a Palavra de Deosnos Templos : cultivar as flo- 
res de algum jardim ^ ou aprender, por entreterfe 
honeftamente , alguma couía deMufica, ou pintura: 
converfar a certos intervallos com alguma peíToa: 
exemplar , efpirituaj , e douta : fahir à caça , ou adef- 
trarfe na cavallaria , em ambas as fellas, e outros 
exercícios femelhmtes. 

Quinta, fer devoto cfpecíal de MARIA Santifr 
fima Senhora NoíTa , porque o leite da fua devoção,, 
refrigera os ardores da concupifcencia y c fe ha ar- 
vores de cuja fombra fogem as ferpentes, e favan- 
dijas; que muito do patrocínio da Senhora, que lie 
fombra da arvore da vida , eftejaõ longe máos pen- 
íamentos, e tentações impuras. Tenho por certiíli- 
mo, ( e entendercy^ que ou fe engana^ ou me en-\ 
gana qiaem afíirmar \ experimentou o contrario) que 
íè hum peccador rezar devotamente cada dia a Co- 
roa, ou Roílírio da Vírgeiíy parando^ e meditando^, 
liuQí pouco em caia myfterio, naõ ha de paflar mui- 



400 Eflmíilo pratico , 

ta tempo ^ qtie fe nao ^ófi melhorado em íua alma; 
e fe perfeverar em invocar o íeu auxilio, e naõ ufar 
mal delle, finalmente ha de convcrterfe a Deos, e 
mudar de cottumes j porque eík feliciíTima creatu- 
ra , fe parece tanto com o Creador ,qu€ ufa da Om- 
nipotência, e mifcricordia do Crcador , como fe fo- 
. I I raõ íuas próprias. 
^ T I I Sexta , fer parco no comer e beber , e nas com- 

modidades do leito , e ufo dos veftidos 3 porque tu- 
* I I do o que he fartura, mimo, e regalo, favorecem 
muito os atrevimentos da carne, e militaõ contra o 
cf pirito por parte da fua rebelliaõ j elegantemente 
t difie S. Bernardo, que o coche da luxuria rodava 

. ^í^,, i nciles quatro vicios; abundância damefaj brandu- 

1 i \ ra dos veftidos, dcsieixamento do fono c do ócio; 



^^^ I ^^PP^^^^^ da torpeza: Luxurta currmvõlvttur qua^ 

^ i drtgú vttwrum\ mgluvte ventrii^ tnollttte vejlium , otti 

foporifque refoluttone , hbtdme tur^tdttunu.]k do ufo de 

Baco , fem a moderação, que impõem a jufta neceíTida- 

de , naô ha que duvidar , que fe aparenta com Ve- 

V u / , r rius : pois diz a Efcritura expreffamente: Noltte me- 

£phoi, 5, uri. F n I 

i«. bnari vmo , m quo ejt Luxuria, 

Sétima , e feja a ultima: rcfiftir logo aos prin- 
cipios do pcnfamcnto máo > porque a faifca he fácil 
de apagar, o incêndio naõ: os cachorrinhos dehu- 
ma leoa , quem quer os afoga : quando já grandes , if- 
fo fará fó hum Sanfaô Nazareno, que tinha em li as 
forças do cfpinto de Deos. O mo do com que fe re- 
fiftc, he invocando o auxilio de Deos, pronuncian- 
do os Soberanos Nomes de JESUS, e MARIA, per-^ 
fignandofe com o final da Cruz , rezando o PadrC' 
noíTo, e o Credo, fogindo com a imaginação para 
as Chagas de Chrifto, cujas efpecies íe haõ de ter 
depofitado de antemão na fantafia para puxar por 

ellas 



Para feguir o bem , e fugir o mal. 401 

ellas na oecafiaõ 5 e finalmente affirmandofe bem na 
reporta de hum Nao quero , bem refoluto , e facodi- 
doj porque quanto mais esforço fe puzer neftas re- 
fiikncias, tanto a tentação tornará mais tarde , e 
mais troxa ] e pelo contrario , íe a reíiflencia he frou- 
xa , o tenta !or aperta mais , como ladraõ , que fe 
acha as portas bem trancadas, paíTa adiante : masíe 
lhe abalaó , mete o hombro , e talvez que vaõ dentro. 
vSc nenhum deites remédios bafta, naô por fal- 
ta de fua eiKcacia , íenaõ da noíTa applicaçaó 5 c a 
peffoa he capaz do eftado do matrimonio , coníèlho 
lie de S. Paulo , que tome eíTe ertado : Melim ejl nu- 
bere , quam un j e naò lo de S. Paula, mas do meímo 
Chrirto, o qual oppondoihc feus difcipulos , que fc 
entre os cazados naó era licito o divorcio , melhor 
feria naõ entrar neftc jugo, que naõ poder fahir 
delle : Refpondeo : Nem todos fâ5 capazes diffo, fe- 
naô fó aquellcs , a quem o Senhor concedeo eíTa gra- 
çâ ; Non omms Captura verbum ifiuá ; ^(à quthm da- Mitih.i^.Tctfi 
ium eft. Oh fe fe praticara mais cftc remédio, que ^'' 
Deos ordenou contra a geral infecção da concupif- 
cencia humana , naõ fe vcriao tantas defgraças , de- 
fatinos , infolencias , roubos , apoftaíias , facrile^ios, 
dilTençôes, e abominações infandas ; florecéraõ mais 
os Reynos da terra , e menos o do inferno, porque 
o que faz poderofas e illuftres as Monarchias , he 
a multidão dos Povos > e o que faz povoado o infer- 
no he a dos deshoneftos , como aqui diz a Serva de 
Deos: Fi os deshoneftos , que foi tantos -^ que efpanta^ 
feu numero. 



Ce REFLE- 



401 Efthntik pY atiço y 

REFLEXÃO X. 

VI aos Proçrtetapm , e Apojlatas pojlos em gri* 
Ihoem , é-C' 
Praprietarios, (porque os fem letras naõ 
defconheçaó a palavra ) faô os que profeffando po- 
breza , e viver fó do communx na Religião , querem 
poíTuir alguma coufa como própria. E Apoftatas faó 
os que defempáraõ a obediência defeus Prelados, e 
Regra, fugindo do feu Convento, fem Habito , ou 
com elle; graviílimas fa5 as penas com que aqui fo- 
raõ viftos fer atormentados ^ graviíTimas , porém 
mujr proporcionadas ao íeu deii<ílo ; e deixando pa- ' 
ra outra occaíiao aos Apoftatas , façamos agora re- 
flexão fomente fobre os ProprictarioSe. 

Eftaõ em grilhões , e cadeas y porque quebrarão 
as dos votos: poíruindo coufa própria quebrarão o 
grilhão y e cadea da fanta pobreza; e rebellandofc 
contra os Superiores , e Regras , quebrarão o grilhão^ 
e cadea da obediência ! Oh mifèria grande ! Recu- 
far os grilhões de Chrifto , por breve tempo , e com 
grande honra , e merecimento ,. para vir a cahir nos 
grilhões do diabo por toda a eternidade com exceíli- 
va pena, e infâmia graviffima \ Saô metidos em ca- 
labouços , e cepos com algemas nas mãos ; porque 
foraõ amigos, da liberdade, no fahir, e entrar; e 
da largueza na habitação , e nos hábitos , e em tuda 
o mais; dando, e recebendo >e manejando, e tro- 
cando. 

Puxaõ por elles os demónios , jâ para traz , já 
para diante ; pcK-queaffim faziaõ elles às regras , e eí- 
tylos,, e ordens dos Superiores, trabalhando pelas 
^azer , e amoldar ao íeu, intento , já com interpretra- 

çòes 



Para feguir o hem , e fugir o mal. 40 3 

coes frívolas , já com epiqueyas Icm fundamento , ]á 
com licenças extortas e violentas 5 já com opiniões 
improváveis, já com difpcnfações fem caula. E fc 
talvez a obrigação os impellia para diante , a von^ 
ta de própria os tornava aimpellir para traz 3 edcfte 
modo andavaõ aos vay-vens com o feu eftado, fa- 
zendo pela fiia repugnância pezadiíTimo o jugo de 
Chriflo , que pela fua graça he leve e fuave. 

Tem nos peitos muitas bolças , c bichos, que 
lhe cftaõ roendo as entranhas; e as mefmas bolças 
faõ os bichos , que cntaô lhe remordiaõ a confcien- 
cia pela culpa , e agora lhe mordem o peito pela pe- 
na. O Religiofo amigo deter na fuacella quadros, 
e lai«Tiinas , e eícritorios , c guarda portas , e brincos, 
e frutas , c coníervas , e muit a roupa branca , e ou- 
tras couías íemelhantcs j he Religiofo de confcien- 
cia bichofa , c naô fó bichofa , fcnaõ podre; porque 
tudo ifto depende de bolça : c que pédc ter a bolça 
própria, de quem profeffou naô ter próprio? Que 
pode ter , digo , ícnaõ bichos , que o mordao , c re- 
mordaõ , agora com a culpa, depois com o tor- 
mento? 

A D. Anna Ponce , CondeíTa de Feria , e depois 
Freira de Santa Clara, mandou o Duque de Arcos 
hum excellcnte quadro da Refurreiçaõ de Chrifto, 
torfíoulho a remctter dizendo : que era bom para a 
recamera da Duqueza , c naô para a cella de huma 
pobre Religiofa. 

Os demónios lhe tapávaõ os ouvidos , c pela par- 
te do cérebro, lhe tirávaõos miollos, porque faziaõ 
por naõ ouvir o alarido interior , com que os aviza- 
va Deos, já por via da Regra , quando fe lia à meia; 
já por via do exemplo , quando via a pobreza ede- 
lapego de outro Religiofo eípiritual; já por via da 

Ce ij tribu- 



404 Eílimnlo pratico , 

tribulação c moieitias, que o mefmo ter lhe acar- 
reravij já por outros muitos caminhos 5 e a tudo 
tapou Oò ouvidos , fazendoíc como deícntendido de 
hum couía tio clara ^ como he naõ poder poíTuir 
^ouU própria , queiD profeffou renunciar todas. Pois 
a hum deiks tics tapem-lhe os demónios, os ouvi- 
dos, etirem-lhe peio cérebro osmiòUos, eonio íe 
mofando deilc , differaõ : Homem onde tinhas os 
miòlios, que te naõ entrou, na cabeça, nem. efta pri 
meira liçaõ dacfcola deChriilo,que henaõ poffuír 
próprio. 

Verdadeiramente o Religiofo Proprietário , he 
defmiollado , porq naò coníidera nem nafermofura c 
precioíiiade ineítimavel da pobrezaEuangelica , nem 
na conta eílreitav qi^c lhe haõ pedir no juizo de 
t>cos 5 nejii> nos bons. exemplos , que nefta parte lhe 
daõ oatros Rcligiofos Obíervantes , nem nas mor- 
tes defgraçâdas, que fuccedéraô a outros Proprietá- 
rios 

O valor da pobreza Euangclica , he ta5 alto , 
que o Filho de Dcos baixando ao mundo a efcolheo 
para íi em vida , c cm morte cm todas así.couías. Máy 
pobre , nafcimento pobre, Pay putativo pobre , vef- 
tido pobre, comer pobre, ofFerta na fua Prefenta- 
ça5 pobre, difcipulos pobres 5 finalmente, morre 
pobre; porque fe naíceo em huma manjedoura , en- 
tre dous brutos V morrça nô em huma Cruz^ entre 
dous malfeitores , naõ tendo , nem onde reclinar a 
cabeça , nem huma peuca, de agua para temperar a 
íede , nem huma pouca de terra para fepuhura de 
feu corpo; e foy obíervar o. grande amante da po- 
l?reza ,. e fingular imitador de Chriíio o- Seráfico Pa- 
dre S. Francifco, que até por eípirito da pobreza 
2jaõ quiz que Íeu3 Divinos pés foffem crucificados 

cada 



Pada feguir o bem > e fugar o mal 40 Ç 

cada hum de per íi com feu cravo , fenaõ ambos jun- 
tos com hum lo, como quem diz: Hum cravo me 
baíía para pregar ambos os pés , fobrepondo hum ao 
outro ; dclk modo a cama da Crux me fica mais çí- 
treita , e cícufaõ de fc gaitar mais cravos. Daqui fe 
íegue , que quem tem amor a Chrifto , neceífaria- 
Hiente o ha de ter à pobreza j e fe o naô tem á pobre- 
za , hc impoíTivel telo a Chrifto. A Serva de Deos p. jaymc Sm- 
Margarita Agulhona, da Terceira Ordem do mcfmo c*»« nafutvi- 
Scrafico Padre, tinha taõ cordeal amor à pobreza, *'^*P*5». 
que onde quer que encontrava pobres , nelles lhes 
parecia ver transfigurado o meímo Chrifto; e aílim 
íançandofe a ícus pés fe abraçava com elles , e alli 
ficando extática, naõ era poíTivel poder o pobre con- 
tinuar feu caminho , porque íe andava juntamente a 
ècvava comfigo, (como o corpo leva a fua fombra) 
ou poftrada cm terra, ou de joelhos: mas fufpenfa 
no ar , e pegada aos pés do pobre 5 e já elles fabendo 
iflo, fe defviavaô de tal encontro, mas^o que naõ 
podia defviarfe , naõ tinha outro remédio mais, que 
cíperar, que o extafi acabaíTe; ow procurar ordem, 
c preceito do Confeffor da Serva de Dcos , que a 
mandafle íoltar , e entaõ logo foltava. Pelo contra- 
rio , oReligiofo Proprietário ,he taõ inimigo da po- 
breza , que onde a vê foge, e em todas fuás coufas j 
faz por fe defencontrar com ella ; e ao mundo, e fuás 
vaidades abraça , e cftas o levaõ comfigo para onde 
quer que fe mudaõ. Pois, que diremos defte tal,fc- 
naò , que padece lefaõ de juizo , e que naõ tem miòl- 
los ? 

A conta que fe lhe ha de ped*r no Juizo de Deos 
he taõ eftreita , como fc verá dos íeguintes calos. 
Conta Palafox, que hum Superior de certa Religião . 
já defunto , appareceo a outro Rch*giofo para lhe di- 

Ce iij zer 



tif ro 5^.ca|>.i4i 



4c 6 Eflinwlo pratico , 

zcr onde deixara certo depoíito, que Ihchaviaõ en- 
tregado para obras pias > perguntouihc elte , fc crao 
grandes as penas, que no Purgatório íc padeciaò: 
Rclpondeoy que fenaó podiaõ explicar j e que cf- 
pccialmentc era muy atormentado por amor de huns 
efcritorios de nogueira, que tinba na íuacella; ci- 
te mefiBo defunto tinha bum íobrinho, qae eftuda- 
va cm huma Univerfidade , e lhe caufava algum eí- 
crupulo a efcaceza com que o ajudava : e eftoutro a 
quem apparccco , coftumava rogarlhc , que abriffe 
mais a mao para com íeu fobrinho ; perguntou-lhe 
pois agora: Padre, c aquelle cfcrupulo de que naò 
íbccorrieis a voffo fobrinho , como vos houvcftes 
Gom elle na conta ? Relpondeo o defunto : Do que 
cu lhe dey me foy tomada conta , e naõ do que dei- 
xey de darlhc; porque a que lenos pede do voto da 
pobreza, he maiseftreita do que fe cuida. 

Outro cafo fe refere na Chronica dos Carmeli- 
tas Dcfcalços , da Provinda de Portugal ,c foy, que 
eftando à morte hum Religiofo do Mofteiro, que 
€Íla Província teve em Alter do Chaô , no Alentejo; 
perguntado pelos circunflaBtes , fe o affligia algu- 
ma pena naquella terrivel hora: refpondco, que ne- 
nhuma , excepta^ que humas fcis folhas de papel , 
que tomara íem licença , o eftavaõ atormentando. 

Mais prodigíoío he o feguinte cafo , que íe re- 
fere no Prado Èfpiritual ^e foy , que hum Monge de 
Cifter já moribundo , vio ao demónio em figura de 
mono, fentado fobre huma vara , onde eftava pen- 
durado o. fcu Efcapulario, no qual por já velho e 
roto h-i via lançado hum remendo 5 porém fem licen^ 
ça do Superior;: e a.^ora o inim«go muy feftejador 
c contente com aquelle defeito contra a pobreza, 
kmbia,, e beijava o remendo , c lhe corria muitas ve- 
zes 



Parafegm^ o hem , e fugir o mm. 407 

zcs a maò por cima. O Monge reconhecendo a íua 
falta , fc compungio delia no coração , e porque já 
tinha perdido a falia, fignificou por acenos lhe lan- 
çaffem daili aquelle cfpirito máo , que o cícarnecia: 
Os circunitantes como nada viaõ, naò entendiaõ o 
<]ue lhes queria dizer , e íómente íe admiravaô. Até 
que foy Deos fervido dar lhe falia , c diffe : Naõ ve- 
des o demónio, os efcarnios que eftá fazendo, e co- 
mo fe deleita com aqucllc remendo , que lançcf no 
Hahito fem licença, como fe fora meu o Habito , ou 
o remendo ? Defcozeymc logo logo aquelle remen- 
do , para que o inimigo me naò acufe diante de Deos: 
elles por lhe fazer a vontade condefcendéraô no que 
pedia; e logo fiigio o demónio; e o Monge fe con- 
feíTou , e reccbeo penitencia ? c tornou a perder a 
íálla,eefpirou quietamente. 

A' vifta de que no Juizo de Deos fe pede conta 
de huns cfcritorios de nogueira na cella de hum Pre- 
lado; como poderáô alli paffar bem os contadores 
de evano , os quadros , e camizas ricas , os brincos, 
ramalhetes , e relógios curioíos , as frutas , e as con- 
fervas, eas moedas de ouro também em confcrva? 
Como poderá paíTar o tedo de huma cella , em que 
meconfta fe difpendéraò feifcentos milreis : e a.s pare- 
des delia , íobre que houve confulta íe íe fariaô de fi- 
guras de geíTo relevadas , fe de azulejos de Hoilanda 
em Paizes , ou bruteícos ? Como poderáò palíar as 
guardaroupas onde fe oftentaó em viftofo alarde, as 
fileiras de vários brincos , e peças de prata, criíial, 
vitòrina, vidro, marfim , &c. aqui digo, que temo 
infernal bogio , que lamber , c beijar muitos dias j 
naô fó porque tudo faò bogiarias; fenaõ, porque 
aíndn poíTHÍdas com noticia , ou licença do Prelado, 
ou Prelada , fempre amortecem , deftroem ,e afogaò 

Ce iiij .0 ef* 



40^8 Eftmtila pratico ^ 

o cfpirito da Religião; e íe na hora da morte íeis 
folhas de papel, tomadas fem licença^ tanto ator- 
mcntaõ , c daõ cuidado; coíno atormentarão tan- 
tas alfayas^que as íeis folhas de papel naôbaftaõ 
para rol^ ou inventario delias? E fe o remendar 
íêm licença hum Habito, ou Efcapulario velho e 
roto, he caio para o inimigo fazer delle artigo de 
accufaçaó ; e Deos Noffo Senhor por íua piedade r cf- 
titueafallaa hum moribundo , para que fc eonfeffe, 
c receba penitencia^ c poffa morrer quieto; como 
cfperaô morrer quietos os Religiofos , que por hu- 
ma parte fazem grandiíTimo cafo , de que o Habito 
naõfeja, nem velho, nem roto, nem remendado ;e 
por outra nenhum caio fazem, nem de pedir licen- 
ça , nem de çonfcfTar o pcccado , nem de fatisfazer 
com penitencia. Aquelle Monge de Ciiier remen- 
dando o Habito , rompcaa pobreza f mas depois deí- 
cozendo o remendo, c confeffando a culpa, remen- 
dou a confciencia : eftoutros , que dtUtant fimbrtas 
fuás ét phtlaSíerta , naô querem romper o que eftá 
remendado , nem remendar o que eftá roto: na5 que- 
rem romper o que eftiver remendado , porque fe deC- 
prezaôdeque ofcu Habito naõ feja faô , e luftroio; 
nem querem remendar o que eitá roto ;; porque naô 
naô fazem caio de emendar femelhantes faltas con- 
tra a pobreza Religiofa. Mais ; e fe no juizo de Deos 
fc pede conta do que hum Prelado deu a feu fobri- 
nho para o ajudar nas efcolas; como íenaó pedirá 
de tantos gaftos fupcríluos, e oíkntofos, anelando 
para eite intento às mefmas Prelazias , e gravando os 
intrantes com cxceííivas. contribuições, a titulo de 
propinas? E que íendoefltis coufas taô claras, naõ 
íhc entrem ao Proprietário no miollo, nem ainda dé 
^,iiVÍdQs ao defen^anoJ Razaõ hç , ( c a ieu tempo 
.. fc 



Para/eguíTO km , e fugir o tual. 409 

fc fará eíla razaò ) que os demónios lhes tapem no 
inferno os ouvidos > e lhes tirem õs miòUos fora , c 
lhos lancem em fornos ardendo. 

Das mortes defgraçadas ,quc fucccdem aos in- 
fedlos com eíle vicio, também ka muitos , e muy 
horrendos exemplos. O Padre Lucas Uvadingo , re- Anno chnfti 
fere de hum Fr. Joaõ de Garay , Reiigioíb Franciíca- l^^!^'^' 
no, que depois de viver trinta annos na Religião -^ 

exemplarmente, havida licença dos Superiores , fe 
retirou a humas brenhas , onde por efpaço de cinco- 
cnta annos , ( juntamente com outro mancebo Ter- 
ceiro da Ordem ) viveo cm huma Ermid^nha , paf- 
fando fó com hervas , raizes-, agua , e paô duro de 
farellos , c andando defcalço ^e dormindo fobrc paos 
c abrolhos com.hum cepo por cabeceira, Conduzio 
logo a fama muitos devotos, a pedirlhe orações , c 
trazerlhe offertas^quc elle contaminado da cobiça^ 
começou à aceitar , c reduzidas a dinheiro por induí^ 
tria do focio, o guardava em huma panella efcondi- 
da nos paos, e vides da mefma cama > e fendo já' de 
cem annos ,, o acliáraõ morto de repente , afogada a 
garganta , a boca torcida , a pclle negra ,. o afpecflo 
horrivel. Ao trataríc da fepultuva appareceo a pa- 
nclla,e conhecerão todos íer efta a caufa da lua 
morte deígraçada: Mors tn cila. E da jfcpultura dei* 4. Rcg.4^ferfí? 
te ancião nos annos , porém menino na falta da diíl 40. .? 

criçaõ 7 pudera fcr epitáfio aquella fentença de 
Ifaias : Puer centum annorum mormur^ ér pe^cator ifaia£65.Ter£ 
em' um annorum maledt6Íí4^ ent. Naõ ignoraô íeme- *^ 
Ihintes cafos os Proprietários ; porém a cegueira da 
vicia lhes finge,. naõ fey, que privilégios, e cartâs 
defeauro, com que entrando na mefma culpa, naõ 
prefumemferaõ metidos na mefma pena , e eis-aqui 
a:, fbilía dç mioilo f por iffo no inferno os demónios^ 



,Ay 



41 o EJliwíito pratico , 

lho riraõ da cabeça , c o lançaõ em fornos ardendo. 

Seja remate deita reflexão , e juntamente dcf- 
pertador para combater contra efte vicio da pro- 
priedade , aquelic antigo axioma dos Monges : 

Monachus qui habet iholum , m vales êholum, 
O Religioío , que tem de íen hum real , naõ o vai. 



V 



REFLEXÃO XI. 

I a dom difgra fados , Çque bem defgraçados fo'* 
roo) hum trade , e huma Fretra-^que o havtao 
fido de certa Rehgtad, 
Eftarem no meímo lugar , e deícompoftos, c com 
toda a fealdade e defventura que fe pode imagi- 
nar , e muito miis, (como diz a Serva de Deos ) ler 
huma das caufas de fua condenação o vicio da fcn- 
fualidade; c fazeríe menção de ambos juntos, pare- 
ce, que deixa prefumir^que eraò complices nelle; 
grande maldade heeíta! Serem adulteras a JESU 
Chrifto almas , efpecialmente confagradas a elle ; e 
naõ eftar livre o Rey dos Ccos de o ofFcnderem den- 
tro em fua cafa , os meímos , qu« fazem profiffaó 
de honrrallo e fervillo, e a quem cncheo de tantos 
benefícios ! Por iffo fc queixa o Senhor , dizendo por 
ií€eh.45.vcrf, £^^^'«^'^1- 6)ui fabncati funt Itmen fuum JHxta Itmeu 
%. ' meum^é^ pojtes fuos juxía pojlesmeds i & murus erat 

tnter me &os\^ polluerunt nomen fâníium meum , tn 
, abommatiombm iquas fecerunt'^ os que tem a fua ca- 
fa junto à minha cafa ^ as fuás portas à par das 
minhas p rtas , e que entre mim , e ellcs , naò hivia 
niais , que parede meya; e effes profanarão, e def- 
honráraô o meu Santo Nome, com abiminaçóes c tor- 
pezas , que fizemô. iVlas por iíTo continua logo o 
Texto : Propter quod confump/i eos tn ira mea ; que 

Deos 



P arajeguir o km , e fugir q mal. 4 1 1 

Dcos os reprovou , e confumio , com a indignarão 
defuaira. ^""'•"^^ 

Diz aífim a Serva de Deos, que eftavaõ em ter- 
riveis penas j olhay ein que paráraõ os léus deleites 
inimundos, e breviíTimos ! e que pubLcaví^õ a gri- 
tos os delidos , porque haviaõ fido condenados h olhay 
cm que pararão os recados occultos, os cícritosem 
cifra ^ as mentiras para dcfviar toda a má fofpcita ^ 
as devoções aíTciftadas diante de outros , a vergonha 
de deícobrirfe ao ConfelTor 1 Agora elics íaõ os pre- 
goeiros de lua maldade , c a torrente delia , que nat 
ce cm fuás coníciencias ^ corre por luas lingoas inceí- 
lantemcnte , com ímpeto eilrondofo Diz mais , que 
eftavaõ nus ; olkay em que vieraõ a dar es Hábitos 
Santos, o Veo bento, a Cafula , eEftoUa, e mais or- 
namentos Sacerdotaes, em huma defnudez afronto- 
fiffima , chea de torpeza , e defventura tal , que nem 
a imaginação a alcança ! 

Diz mais , que eíle por íer Sacerdote tinha mais 
tormentos , e eftava mais abaixo : occultos faõ mui- 
tas vezes osjuizos de Dcos 5 mas neíic particular fe 
vê bem claro eíFe juizo; porque íe o Sacerdote por 
Ipa dignidade e oíficio eflá mais perto de Deos5 
quando pecca , e fe condena , como naõ ha de cflar 
mais longe deíle : Si wimwus rr>eus mâiedi:<t£et milr^ Píalm. nvcrí, 
jujiimnjfem uíique , (diz o Senhor pelo Real Profeta) 
& fiu qtit oderat me , f^^pcr me mngna locaius fntlJtt >. 
abfcondilfem me for (itan abeo j fe o n eu inimigo decla- 
Ifado me afrontara, naõ duvidara em o íoírer,^ e fe 
o que me tem ódio fallára contra mim , por ventura^ 
que me efcondéia deiie : Tu 7;n ^ (profegue o Senhorr 
a queixa) homo nníÁnimis > dux meus , ó* U'jt74S mem ^ 
qmfimul nhcum àiãce^ (apiebíis cnhSy &c. porém , quG: 
HK afrontes, e faças traição; tu homem unanime,^ 



411 Eftimuk protko ^ 

minha guia, e meu conhecido , e familiar, que to- 
mavas , c participavas juntamente comigo os íuavif- 
íimos bocados c delicias da minha mefa i 

Note-fe neilas palavras , como he grave , c en- 
fática a queixa do Senhor contra hum máo Sacer- 
dote^ chama-lhe hum homem unanime: Home una-- 
mmis^ porque Chrifto também he Sacerdote ^ e o Sa- 
cerdote também heChrifto, que quer dizer Ungido: 
Nohte tangere Chrtftes meos. Chamalhc fua guia : Du*x 
mem ; porque o Sacerdote he quem leva , e guia pela 
lua maõ a Chrifto do Cco à terra , do Altar ao Thro- 
no , do Sacrário ao Povo , da Igreja ao moribundo \ 
para onde quer que guia o Sacerdote , para ahi vay 
Chrifto Sacramentado, confiandole dellc , e obede- 
cendolhe perfeitamente. Chamalhe fcu conhecido: 
Notus meuç ^ pelo trato taõ familiar, intimo, c quo- 
tidiano , que hum Sacerdote teve com o Senhor. Diz, 
que toma da fua mefa o manjar : Captebas 5 porque 
o mais Povo recebe o que o Sacerdote lhe dá; mas o 
Sacerdote communga por fua própria maò , c ifto 
to ios os dias , e em ambas as cfpecies , como lá Ben- 
jamim na mefa de fcu irmaò Jofeph teve duas por- 
ções; por iíTo diz: Captebas ctbos , tomavas os man- 
jares: e o que mais exalta a fua dignidade he, que 
tudo iftofaz emPeíToa do mefmo Chrifto , renovan- 
d > aquella ultima Cea, em que o Senhor fe confa- 
grou , e commungou a íi mefmo \ por iffo diz : ^ú 
Jimul mecum , que recebe o Sacramento juntamente 
com ellc, cuja peíToa reprefenta. Que pois eíte Sa- 
cerdote , homem unanime com Chrifto , fua guia, íeu 
conhecido, feu convidado de cada dia, e regalado 
da íuameía, o deshanre , e ofFenda com tanta ingra- 
tidão , e aleivofia 5 ifto he o que o Senhor mais íente, 
c iíto o que mais fcveramente caftiga 5 c aíTim he 

claro 



1. 1 1, 

Cfl. IO. 



í». Thom. S. 



Ui 



Para feguir o bem , cpig ir o mal. 413 
claro eik juixo de iPeos ^ de que o Rcligwjo por haver 
jido Sacerdote tinha *mujl toJ-mmPc^fíTfhiva mais m 
fundo. 

Mas íe ellc por Sacerdote tinha mais tormentos, 
cila por mulher , naõ teria menos confuíaò : natural- 
mente foy dotado de pudor e vergonha o fexo fe- 
men no j peio muito, que iíto importava para le atca- 
irem menos no mundo os. incêndios da concupiiccHcia. 
Mais particularmente he devido eite pejo em prelença 
dos Sacerdotes : conforme aqmllo de S.Paulo: De- i.Co:hui 
bet mulier potefiatem habere jupra coput profter Ange- 
les \ deve a mulher ter poteítade, ( lílo he) véo, ou 
cobertura fobre â fua cabeça, por an^ior dosAnjos^ 
iíto he , (como explicaõ muitos Padres) por naô íer 
Gccafiaõ de efcandalo aos Saccerdotes ; e íe por naô AlubrZiínrci 
cfcandalizar aos Sacerdotes, deve qualqner outra mu* 
iher por véa íobre a cabeça ; quanto mais o devia ter 
aquclla,cuja profiíTaÔ era trazello continuamente; 
veja íe pois o abíurdo que commettia , encontrai^do- 
íecom a doutrina doApoítolo. O ApoiJolo mai^a^ 
qucqualquer mulher , que eftava deifepada, fe en- 
trou em íua prcíènça hum Sacerdote, fe cubra com 
véo: Debtt mulur potefiatem habere/upracaput p/op- 
ttr Angehs y e eíta Religioíà tendo de antes o véo na 
cabeça, o tirava para eíiar na prefença deík Sacer- 
dote; eíícjaõ pois. agora no inferno iuas culpas tam- 
bém íèm véo , e taó patentes , que ella meíma as pre- 
goe; e até cá de cimo' da terra, poffaô íer viítas por 
cíia Serva de Deos, que no mundo a conhecera. 

Quandaanriguamente entre os Romanos alguma- 
virgem das Veítaes, era comprehendida noineeíío^. 
a pena deite delido era; quea ievavaô fechada cm- 
humas andas, com appararo de pompa funeral, ao 
íjampq , que cbamavaõ SaUrato , onde para efíe eíFei- 



414 Eftbnulo pratico 'i 

toeftava huma bovcda íubtcrnnea, e alli pofta em 
hum leitoy oii cí^uiíc , e a par dellc huma mefa com 
luz e algum comer , a fepultavaõ viva. Naò quc- 
riaõ darlhe a morte com outro qualquer género de 
occifaõ violenta , por naò contaminar aquelle cor- 
po dedicado aos Deoíes ; mas fingiaô a reprefentaçaõ 
de que ella per íi meímo morrera. Que Jeito ^ que 
que luz-, que íuftento, que boveda fubterranea cf- 
pera aquella miferavel alma , e corpo de huma mu- 
lher , que íendo dedicada ao verdadeiro Deos , mem- 
bro de Chrifto , e Templo do Efpirito Santo, naõ du- 
vidou mancharfe com torpezas ? A boveda fera o 
inferno, o leito labaredas de enxofre, a luz trevas 
palpáveis 5 e o fuftento , íerá fer cffa meíma alma e 
corpo indefeílivel fuftento de ferpentes venenofas. 
Mas com fer efta boveda , e eftas trevas taõ cerradas, 
ordenou Deos , que efta defgraçada Religiofa foíTc 
vifta , e conhecida cá de terra para mayor confufaõ 
fua, e cícarmcnto de outras Veftacs, que fe anda- 
rem nas mefmas andas, ou andanças viráõ a parar na 
mefma cova. Quando huma Religiofa pecca , ainda 
que occultamente , já vay nas andas morta , ainda 
que fechada? Oh dignefe por fua piedade Chrifto^ 
de lhe tocar no féretro para que rcfuícitc com tem- 
po , antes de chegar ao campo Scclerato , onde fcja 
fepultâda eternamente. 

Perguntará alguém, como viraõ eftas duas al- 
mas , que erao viftas , e conhecidas da Serva de Deos, 
fc ellas cftavaõ na profundeza do inferno , e efta cá 
na terra recebendo a vifaõ imaginaria ? Refpondefe, 
que Deos NoíTo Senhor ao mefmo tempo , que in- 
fundia na fua Serva efpecieí> de noticia intuitiva do 
que paíTava no inferno, como fe alli fe achara pre- 
ftnte, infundia também naqu-ellas almas , cfpecies 

de 



Para/eguix obem^e fugir o wílU 4 1 Ç 

de que craó viftas ^çoj^hfiCídafe^? ^.Í^Í0|^ meíhio da- 
va fcgunda noticia à fua Serva j íBnào qâizermos di- 
zer , que o feu efpirito realmente tby levado àquel- 
las cavernas , duplicandoíe miiagrofamente as íuas 
prefenças: na terra , para que animaffe o corpo : e no 
inferno , para que viffc aquelles cfpedtaculos- 

Mais proveitoíà he a pergunta, dequaes faòas 
caufas , ou portas principaes , por onde na Clauíura 
Sagrada das cafâs de Deos , entra a pettikncia dos 
peccados da feníualidade ? E reípondefe, que faõ 
quatro , cada huma por feu angulo 5 e cftes quatro ân- 
gulos, faó os que combate eíte furiofo vento, que 
vem dodeferto , para arruinar a caía dos filhos de 
Job ; iiío hc , dosprofeíTores da imitação de Chrifía |tb»^vcrí. 19. 
paciente e humilliado , que faó os Religioíos. Pri- 
meira, falta de vocação ao eftado Re ligiofo. Segun- 
da, falta deoraçaô. Terceira, falta de vigilância c 
recato,. Quarta , falta de obediência.. Toquemos 
brevemente cada huma. 

Primeiramente , ha muitos , que entraô na Re- 
ligião , e nellâ profeflTaô , íó porque feus pays , tu- 
tores, ou parentes , de fora , ou de dentro da mcfma 
Religião , para alli os impellíraõ \ que fe para outra 
parte os levaíTem ,com a mcfma fácil idade iriao : ou- 
tros entraô lo por caufa de pobreza , porque naquel- 
le ertado , eff:>era5 achar o fufficiente para comer , e 
veítir , e paffar com defcanço : outros fó para luzir ^ 

nas letras, e chegar aos Púlpitos mais celebres ^ Ca^ 
deiras, e Prelazias, edahi às Mitras: outros final- 
snente, ( e eftes íaõ em mayor numero) entraô fem- 
cuidar em mais , fenaô , que a Pvcligiaòhe hum mo- 
do de paíTíir a vida,, como outros vários, que ha no 
mundo. Raros íaõ , os que entraô poreípirito,cria- 
madas de Deos ,, e com deíignio premeditado de o- 



41^ Efiimiiíopvatko^ 

fcrvin, c piíocurar fohir ao mrÇite da perfeição cm 
ieguiinencÒ^ dospaífos deChriíto, por meyods fetis 
confelhos Eu ngeiicos. Pois como feja taõ íobrc as 
forças da natureza, e dependente das da graça, o 
conlervaríe em caítidade hum corpo terreno, for- 
mado da maffa corrupta de Adaô ; legueíe , que naõ 
fendo chamados por Deos para taô aito eftado, naó 
procedem nellc como bons Rcligioíos ; c cis-aqui por- 
que Chrillo Salvador noíTo, quando os Fariíeos ti- 
veraò por dura a condição, do matrimonio naõ ad- 
míttir d vorcio , allegando , quejuclhor era naõ ca- 
far : reípondeo , que nem todos eraõ capazcí? de fe 
Mauh,i^.T€rí. fazerem eunucos, (ifto he, viverem cm cattidade) 
"' poramordjRcyno dos Ceos j íenaõ íómente aquel- 

les , a quem o Senhor o concedia. 

Conforme à qual doutrina , admoefta S. Lou- 
renço Juftiniano , que ninguém temerariamente fe 
atreva a meterfe no eftadio , ou corro defta cfpirftual 
peleija , fem eftar prevenido da graça Divina, alimen- 
tado com a fanta devoção, inlpirado com os bons 
deíejos , e fortalecido com o dom da cohftancia ; por- 
que lhe naõ fucceda tornar ao vomito , efazerfereo 
d iqueik íentença de Chrifto : Que ninguém , que me- 
^ te a maô ao arado , e depois olha para traz, he apto 

para o Reyno do Ceo. Pelo que -, o que naõ fcnte efta 
inípiraçaõ , admire, e venere de fora os famofos di- 
gladiadores , que metidos nefte campo , peleijaõ con- 
tra íi meímos , c omo contra capitães inimigos ; c 
elie trate íó de guardar os Mandamentos, que me- 
Ihor hs entrar manco no Ceo, do que tendo ambas 
as mãos T entrar no inferno. Iftohe ; melhor he , vi- 
vendo como bom Chriíiaô no íeculo, falvarfe 5 do 
que vivendo como máo Religiofo fora do feculo , 
perderfe. Tudo irto he de S. Lourenço Juftiniano ; c 

porey 



Vara feguir^ hcm , e fugir o mal. 417 

porey aqui fó o pr?\;icír o pcy^o do das ílias palavras? 

para que o douto , íe "qiiizer 5 b&^Qe hs feguintc-s : 

Nemo t(Um pugna tngreàtatur Jtadtum , nuUulqut abnC' lji,, ^^ ofccdi- 

gationem proprn ampere pTiffumat arhttrti , niji fitpra* tmia cap.i#, 

vmius agratta , mírdrju) dtvettom nutrttus ^ fanõítfque 

ãfflaim áefidcrns , & conjlanttie dono rehoratus , nefor' 

i€ cani aá vormtum redeunti effictatur /imtUs -, quõd qut-- 

dem mfatur e(fe perntcwjiffimum , dtcente Domme: Ne- Lucj* 

mo mitttns manum fuam ad aratrum ^ refpmms retro^ 

apus ejl regne Deu 

Por cfta mefma caufa , vemos tantos Clérigos 
de Ordens Sacras, miferaveimente cfcravos das pai- 
xões dafcnfualidade; porque tomáraõ íobre fio ju- 
go do voto , íem ferem chamados , c fó por fins par- 
ticulares de fua foberba , ou avareza , ou por outras 
commodidades temporaes. Miferia , que a Igreja San- 
ta pode lamentar com as palavras de Jeremias: Fi- Thren.i. tmIí 
àit gentes ingrej[fas fanfíuarwm fuam , de qutbus prém «•• 
ceperas , ne intrartm tn Ecclejiam tuam, Dcxide fe fe- 
gue eftarem taô pouco fundados no temor de Deos, 
c exercícios das virtudes , e na Fé formada com cha- 
ridadc , que íe agora vieíle o Anti-Chrifto , podia te- 
merfe , que o feguiriaô 5 como dos Ecclefiafticos , que 
naquelle tempo forem vivos, diíTe, que o feguiráõ 
muy grande parte , a Serva de Deos Joanna da Cruz, 
em hum dos admiráveis íeus Sermões, que fazia ef- 
tando extática. 

Outra caufa commua de fc profanarem os San- 
ttianos de Deos com o eíirago da fenfualidade , hc 
a falta de oraçaõ mental : A razão he , porque cftc 
Santo exercício he a chave dos thefouros de Deos , 
e o que alcança os dons neceíTarios , para que a fra- 
gilidade humana poffa refiftir aos aíTaltos do inimi- 
go, he o que allumea o efpirito, para que anteveja 

Dd as 



41^ _ Eflmulo pv atiro , 
as fuasrtenta|í;.5cs , e cjie:rçjui)ra fu^s ciladas, he o que 
gera no noifo còira^áb temor eamor de Deos, dcf- 
prezo das coufas tranfitorias , e cftirna das eternas 3 fi- 
j[:ialmente, he hum inftrumento principaliíTimo de 
adquirir a perfeição , à que deve afpirar todo o Re- 
ligioío : e como lhe chamou CorneUo Alapidc , he 
hum preludio da futura Bcmaventarança , obra dos 
Anjos , vitoria de todas, as dificuldades > medicina 
para os enfermos no caminho de Deos , correcção do 
entendimento^ fecundidade da alma ,^ incêndio, go- 
fo , e jubilo do efpirito : Efi. ergo otatia futura Beati- 
tudtms praludmm, Angelorum apus^, ommum dtfficuU 
tatum viííoria , infirmo m via Dei medicina , mentis cer^ 
reífio , anima fecunditai , fpiruuç ignitto^gaudium é^ 
jubilusy logo, fe a hum Religiofo faltar cfte exercí- 
cio , que fç fegue , fçnaõ, que cahiri cm muitas fra- 
<a:: qiiezas , porque quanto menos reynar nelle o eípiri- 

tp, rcynará mais a carne je pelo mefmo cafo,quc 
fenaõ quizcr transformar cm filho de Deos^ ficará 
çom a antigua forma de filho de Adaô ^ experimen- 
tando os GÍíeitos da fua corrupta natureza. 

Efta verdade fe confirma clariílimamente com 
três experiências bem íabidas. Primeira^ que osfe- 
çularesvque tem efte exercício, facilmente fe con- 
fervaõ caftps > ainda no meyo dos perigos do mundo. 
Segunda, que a alma çoftumada à oraçaíõ , fe por al- 
guns dias,, a interrompe v^^g^^ fentC; feus inimigos 
mais confiados , e fe acha mais bizonha na comba- 
tellos. Terceira ,.que as Religiões em que íe cultiva 
cfte e}cercicio,chare^râ, ou pararaelhor dizer, ha 
cítylo , (que regra dííTo , quafi tpdas a tem ) que fe 
faça todos os dias a certas horas, faô mais reforma- 
4as c exemplares. Colhida eftá logo às mãos a cau- 
f^!^ de tintas defgraças^ e ruinas, como fuccedem 

ncfta 



P arafeguh o bem , e fugir o maL 419 

nefta matéria. Conp ha de poder íer continente hu- 
ma pobre alma, mefiâ^a cm'1íSí5>^o^çâiragri fum- 
mamente propenfo ao deleite fenfivel , no meyo de 
mil creaturas , que lhe alienaõ , e enfeitiçaò os fen- 
tidos ; c à queima roupa com os demónios aftutiíE- 
mos, e pertinaciffimos impugnadores de toda a pu- 
reza \ como ha , digo , de poder fer cafta , fem fechar- 
fe dentro em íi meíma , e reformar a fé das coufas 
inviíivcis , c clamar a Deos por auxilio ? Se a rede 
da tentação de balde fe lança diante das aves ; porque 
vendo o perigo , eftendcm logo as azas, c efcapaõ : 
Frufira jacitur rete ante óculos pennatorum > como 
quer huma alma naô ter azas para voar , e com tu- 
do efcâpar da rede com a mefma felicidade , que íc 
a tivera ? Oh fe os Gcracs das Sagradas Rcligioens 
cm fcuá Capítulos , ou Congregaçocns , e os Bifpos 
para os Conventos que lhes eftao fogeitos , provcf- 
íem remédio taõ opportuno a efte mal taõ grave, 
ordenando , que haja em todas as Cafas da fua jurif- 
diçaô oração mental , por Regra inviolável , aíBm 
como ha oração vocal, deftribuida pelas Horas Canó- 
nicas j que multiplicada feara de virtudes , qu cno- 
vo, e alegre verdor da regular obfervancia, que 
differente afpedo e decoro íc veria em todo o efta- 
do Religiofo; e como jubilariaõ fcus Sagrados Pa- 
triarchas em novos gofos de accidental gloria , e 
cobririaò aos inventores e obfervadores defte efty- 
lo, de copiofas benções de celeíiiaes favores! 

A terceira caufa , he falta de recato , e vigilân- 
cia , aflim da parte dos Superiores fobre ós fubditos, 
como da parte de qualquer fubdito fobre íi mefmo. 
Quanto à vigilância dos Superiores ; fe eftc naó re- 
parar em pontinhos miúdos , fenaô efcacear li- 
cenças e aufencias do Convento, fenaõ cortar ami- 

Dd ij zades^ 



4 1 o Efimufo pratico , 

zades ^ e companhias parficula^^s , fenaõ mallcíar 
pofliveis ilKx;rtosX'i2oridiHos ae traz de licitas appa- 
rcncíâs , fará grande prejuízo às almas, c muito mal 
o íca oiíicio. Em nenhuma parte ha tanta cautela 
fobre o fogo , como cm huma nao ; porque cm ne- 
nhuaia fera taõ prejudicial e irremediável o inccR- 
dio ; e affim as attençocns , que nefta matéria fe guar- 
daõ , faò miudiflimas , e muy fcvéros os caítigos 
contra os tranfgreífores. Qiialqucr Cafa Rcligiofa 
no meyo do fccuio, he huma nao nomcyo dos ma- 
res. A fcafualidadc hc fogo > fe o Capitão , e Piloto, 
c mais Guardas naõ velarem , arderá toda , começan- 
do de huma fó faifca. No cerco de huma Praça do 
Alente/o houve hum valerofo foldado, o qual tan- 
ta, que as granadas do inimigo cahiaó dentro, an» 
tcs , que o fogo paílaffe da palvora molhada à ícca, 
que eftá dentra das entranhas da bomba , p^ava 
delias animofamentc, c as tomava a lançar fará da 
muralha : Se os tiros , que o demónio faz à praça de 
huma alma , foffcm obfcrvados e prefcntidos do 
Prelado vigilante c zclofa, eos defviaffe cm quan- 
to nao ha mais, que o rugir, ou chiar da palvom 
molhada , grandes cftragos fe atalharia^> e também 
os ruidofos eftrondos da fama cfcandatoíà ; que de- 
pois que a tcntaçaq rebentou nos feus effeitos , já 
nao tem remédio. 

Quanto à vigilância, c recato dó fubdito fobre 
fi mcfmo , coufa bem fabida he, que naô ha virtu- 
de , que mais neccíTite, e dependa diflo , como a çaCi 
tidade , tanto aflim , que Tcrtulliano comparou , ( c 
he /líB.U^propriiffimo ) hum homem cafío a hum bo-» 
latim páScanSa e dançando fobre huma maroma ; 
o qual íenaô tiver tantas attençocns quantos paíTos 
©apve j € fe naò for fempre com a vara nos braços y 

^quili- 



Para fegaí^' o bem > e fugir o tnai. 4 1 1 

equilibrando e difci^lpandag^ndord^ corpo a hum 
c outro lado , dará comíigo ern^ferra oíím grave le- 
faò íua 5 e rizo , ou magoa dos circuníbntes j ailjm 
tambciu o eípirito unido à carne e fangue , andand» 
neitc mundo , íc naõ affcntar cada paffo muy ícgura- 
mente , e íe naõ dcfmanchar o pezo de fuâs inclina- 
ções , com a oppofiçaõ dos remédios contrários ; te- 
nha por certo lua ruina: Age funambule pudictti^ Tenul. life.íe 
& cafiitatíó , qui tenutffimum filum pendente vejhgiõ m- ^««^««'a cap* 
grederiS'^ carnem fpiriiu librans j que conta lhe taz lo- 
go hum Rcligiofo para poder guardar o voto da 
caftidade , íe nenhum recato tein fobre íeus fenti- 
dos , palavras , c acçoens ; cile emprega livremente 
os olhos em objedos perigofos > naõ íe mortifica na 
mefa , e come fora de caía , e falia com íeculares em 
matérias também muy íeculares ] elle detém- fe no 
Confiílionario 5 ou locutório, mais do que convém 
ao feu íexo , e do que he neceffario para aquelle mi- 
niíterio, e aceita mimos , e procura moíírarfe agra- 
decido j eefcreve, afFedando difcriçaò, e urbani- 
dade, e trata do alinho e aíTeo nos hahitos , emais 
coufas fuás ; elle fia-fe vaamentc de fi , e todas as cou- 
las -, que naõ faò peccado rnortal externo e claro, 
deípreza , e nem para celebrar , faz caíò de as con- 
feíTar prime ro p jr fe naõ fogeitar , como dizem , a 
eícrupulos , e fe fazer inútil para o Confiffionario* 
Parecem- vos bons paífos eftes para bolatim? Andar 
taô arrojadamente por cima de hum fio , como por 
terra plana, mais cedo, ou mais tarde, ha decahir, 
c queira Deos , que lhe doa bem , para que fe levan- 
te logo-; porque miiítòs^fòígao cie jazer cahidos, e 
átKc modo cahem mais profundamente no inferno. 

A ultima ca ufa , d is que apontamos , he a fal- 
ta de obediência > e eíta fe dá a entender na relação 

D d iij de 



4 1 1 Ejlimulo pratko , 

da Serva de Deos , cc^^Z/uanto /'iz , que cftes dous 

Religiofos hiViáo^iiQo condenados por defobcdien- 

Aug.ioPfalfla. ^'^ > ^ pcccados dc ícníu ilidade. Porque impoffivel 

57. * parece, que íe o efpirito fc rebella contra os Supe^ 

^ípfil^'^^^' riores , a carne fe naõ rcbcUe contra o efpirito. Dou- 

Magift.icat.in trina he comaiua dos Theologos , com S. Gregório , 

a.Líiit.35. e Santo Ag^ftinho , e o ívíeiírs das fcnten^s, que 

Deos aíli n como dá huma graça por outra graça > 

aíSn caíliga hum peccadocompcrmittir outro pec- 

Pítim. «.yerf. cado : no qual íentidodiz David: Appone tmquita^ 

*'• tem fuper tmquitatem eorum^ ^ non tntrent tn juJttUam 

Apoc,tt,.Terf. ^^^^^ £ Clirifto faliando comS.Joaã: ^tmfordí» 

h:4s efi^ forâefcat <íá6«ír>efpecial mente o da fobcrba 

de coração , donde procede a defobediencia , cafti- 

Giee $. Tctí. 4. ê^ ^*^ ^ luxuria , confonnc aquillo de Ofeas : Jp/- 

*5- * ritíAs forme utionum in msdto eorum... . e^ refpondebit 

arroganlta Ifrael mfaae ejus. S. Gregório explicando; 

»6, Morai.ctf . AcfidictrH: Culpa qua pef elãttammmentts tn occulto 

»!• latuit i percarnis luxiinamm aperto refpondet 5 e logo 

o confirma com o exemplo de noíFo primeiro pay 

Adam , no qual o mefmo foy perder a obediência a 

Dcos, quefentir arebelliaô da fua carne ^e por iíTo 

tratou de fc cobrir > porque juftamentc perdeo o do- 

minio fobre íí 5 quem defprezou a íbgeiçaõ ao Crea- 

dor^ pa>ra que dcfte modo reconheceffe vencido, 

ejuanto bem perdera foberbo :. Unde é* ^^^^ prtmus tn- 

êbeàtens mjx ntfuperbkndo peccavit^ piidmda conte' 

xi( i qma mim coníumdiam fpirttus Deo mtuhí y mox 

íontumliam carms invemt \ & qwa AuBori fuo ejfe 

fubdítm mhit ^ jns carnts fuhdita , qnam regebat , 

Armfíl\ nt m fe tpfú vtdeltcet mobedtentia fn^ c&nfujio 

reâundargt y é^fnperatíií difceret , qiiid elatm amtjif[et. 

Pois como o Religiofo, ou^Religiofa muitas vezes 

defpreza a, feus ^pcriorcs, econíeiva, ou per ff 

ou 



Para/egu^ o hem , e fugir o mal 415 

ou pelos fcus parQj^cs, emuk£oens, dctracçoens , c 
porfias com elíes>; e uâo eltiKla^^na-^Snt-ualidadt da 
obíervancia das Regras , c eftylos da Conimunidade, 
que obrigaõ debaixo do meímo vinculo de Obedi- 
ência j que muito, que a graça Divina odefempare, 
e deixe expoíio às contumelias da fua carne ? Sptrt" 
tí4Ã fornicattonum mmtáio eorum, &refpGndebn arro- 
gantta Ifrael m facte eorum. 

Elias faô as quatro principaes portas , por onde 
na Cafa de Deos entra o eípirito da luxuria ; e fc 
moftraô, para que cada hum veja por onde o inimi- 
go lhe abrio , ou procura abrir brecha j c trate ds, 
dcfenía , ou do reparo. 

REFLEXÃO XII. 

ESíaÕ dando obediência a lucifer as almas dos qut^ 
defefperai í as quaes em pena , e cafttgo de /eus 
peccados , vi , qne também faziaí efficto de demo^ 
mos , atormentando a outras almas % com grande inferna 
[eu. 

Trcs couías diz a quiz a Venerável Madre. Pri- 
meira , que os defefperados daô obediência a luci- 
fer. Segunda , que fazem officio de demónios , ator- 
mentando outras almas. Terceira , que effe atormen- 
tar as outras almas , lhes dobra o próprio inferno. 
Vejamos pois a razaõ diílo. 

Daô os defefperados obediência a lucifer 5 por- 
que em quanto o peccador naõ perdeo a efperança 
ainda de algum modo , eftá virado para Chrifto , e 
encontrado com fatanás 5 mas tanto que defefpc- 
rou , já totalmente íe entregou a íatanás , e abria 
maõ de tudo o que podia pertender de Chrifto > por- 
que a efperança he o ultimo bem do Ceo , que o pec- 

Dd iiij cador 



l.Timoth. I, 
Tcrf. I . 



& 



Io dccrctaH E- 
pift ad Epilcj- 
pos Becic2 
Tolctansc. 
Lib. ;.iH eap. 
I7.1ij.i,ií.c^, 
cap.i. 

Scrm.dc Obc« 
áieiKu , de pa- 



£f bei. 4> Tc;f. 
19. 



libro ác Natu- 
ra & Gracia 



4 2 4 Eftimtilo prcithp , 

:ador dcfpe, e a deíeÍDeraçaõ j, o primero mal do 
inferno, que' Vcila?^aís',^ âVtim como Chrifto he o 
fundamento, e principio de toda nofla eíperança, 
como lhe chimn o Apoftoio: Salvaions nojhty ó* 
ChríJUJ LÍSU fpei nojlra 5 aíTim íucifer , he principio 
cxtnnieco da defeíperaçaõ dos peccadores , e elíe 
foy . o primeiro, defcfperado de todas as creaturas, 
que no Ceo , c na terra ofFendéraô a Deos; por onde 
a Papa AntJiero lhe dá o appellido abfoluto de defef- 
p:rado : Spem non hahenyde fuíurts 5 e como defefpeta- 
do ^ ioy humicida de G. mefmo, como lhe chamou 
B5J:i. Bem helogo, que os. defcfperados obedeçao a 
lucifcr, e o fofraò em tudo o que quizer fazer de 1- 
les5 mas delta obediência, e paciência podemos di- 
zer o que S: Bernardo da que os demónios tem a 
Deos , que he obediência leprofa , e paciência cani- 
na. 

Quanto ao fegundo ponto : fe ha peccador , que 
fe pareça mais com o demónio, hchum defefperadoé 
Porque da defefperaçaõ felhe feguehuma furiofiíTi- 
ma raiva , e rancor contra Deos , que o faz rom}x;a: 
em blasfémias ; e já houve bum , que fahio ao cam- 
po armado, e em voz alta olhando para o Cco, cha- 
mou a defatio a fcu Creador. Pela mefma caufa cof- 
tuma5 eíies taes precipitark em todo o género das 
mais enormes,maldades : como taful picado , que pe- 
lo mefmo cafo que perde tudo o que pára , pára, e 
perde até a camiza ? por iíFo diz o Apoflolo : Defpe^ 
ranies ínmettpfõi traátdmmt imp^idictft^, m operano' 
nefn tmmunditííeomnis^m avartUam.y que os impios 
defeíperanda., fe entregarão per fi mefmos à avareza, 
edeshoneftidade^eà operação de toda aimrnundicia. 
E Santo Agoftinho : ^idam in pecc/ita pralap/í^ dejpe* 
rafione pl:is pereimt'^ nec foUm. pamtendtnegUgunt jm- 

dwnamy 



Fará fegtm\ o heni , e fiigvr o ma L 41; j 

decmam, fed ad ex^ndf_inh^^fia & nrfaiia defide- 
na ^ fervi léidmum ^^ceíerãíar^rh tíípiditaíum fitint : 
quafí pírdant i fmon fecerint quod inJUgai líindo^ ^^^ 
cos jam maneai certa damnaiio. Alguns vendofe ca- 
bidos em. muitas maldades, dcfelperando fe deípc- 
nhaó mais^e naô íó delprezaò o remédio da peni- 
tencia , íenaõ , que fe fazem eícravos do feii appeti- 
te depravado para fartar t: dos effcs deítjos eito ga- 
dos e nefandos; como fe perderão alguma coula^ 
íe deixarem de obedecer ao que lhes pede a vonta- 
de, huma vez que os cfpera condenação certa. Até 
aqui Santo Agoítinho, Que he iíio , fenaò íftar já 
nefta vida graduados de demónios j era logo razão ^ 
que no inferno fe lhes naõ tiraffe o officio; antes fe 
lhes déflCe de prodriedade^ pois já o tinhaò de fer- 
ventia 5 e alli o faráõ melhor pelo implacável odio^ 
que tem contra todas as crcaturas em ódio doCrea- 
dor. Livray-nos , ô ckmentiíiimo Senhor, de taò 
extrema miferia; 

Quanto ao terceiro ponto , detrcs modos fe po- 
de entender 5 que huma condenada alma atormeií- 
tando oHtra,. padeça por iíFo mais no inferno 7 ou 
porque fe mete mais^peío fogo para chegar a ator- 
mentaIla,comaa fera íe crava pelo venabulo para 
chegar ao monteiro ; ou porque a inftiga a blasfemar 
com as fuás blasferatas: e daqui llic rcfulta mayor 
trifteza, e pcnaaccidsntals ou fínalmaite porque a 
alma atormentada íe vinga,, fazendo também o que 
pode contra o leu verdugo. Conta hum Author (oi- 
tando a Santo Epifânio, febem o nao achoneiíena 
lugar citado) que huma vez os idolatras cíconds- 
raô debaixo de hum rdolo quatro afpides em huma, 
panellaô eque depois fe achou , que o mais valente 
delles çom.éra os outros três 3 e eíks , (ou eilc meíruQ^ 



i^oitaoí 



4^ií EflimuIopratdWj 

voltando contra fi)^coméraõ a tametade delle. Tacs 
faõ eftes condcnaEáos'aipiaés'^ fechados no bojo do 
tjnferno : hiins íe comem aos outros , c todos a fi meí- 
mos , mas ficando fempre inteiros para novas penas» 
Explicadas as palavras da Serva de Deos , hc 
conveniente dizermos as caufas , e remédios defte 
peccado da defeíperaçaõ. Naíce efta , ou confifte em 
hum ad:o do entendimento , c outro da vontade. O 
aíto do entendimento, hc pelo qual o peccador jul- 
ga , que naõ pode falvarfe com o auxilio Divino , 
ou pelo menos, que com efteito fe naõ ha de falvar. 
O primeiro he herético, e iflo raramente fuccede : 
o íegundo naõ ; porque o poder Deos , e querer fal- 
varnos he verdade revelada 5 mas naõ hc revelada a 
futuriçaõ da falvaçaõ do tal peccador. O a<flo da 
vontade , he pelo qual ellc fe determina a naõ dcfpe- 
garfc de algum bem terreno illicito , e por confc- 
guinte incompoflivcl com a íua falvaçaõ ; c efta ím- 
pia determinação^ ou inherencia ao bem illicito, pro- 
cede do coftumc de o haver gozado repetidas vezes, 
defprezando os remorfos da cõnciencia , e baldan- 
do os auxílios da graça , c mcyos de fua converfaõ; 
porque quanto mais vezes o impio pecca , tanto 
niayorafFedo vay cobrando ao vicio, e fazendo af- 
fento fobre elle: como os Ifraelitas naõ fó comiaó 
as carnes do Egypto , fenaõ, que fe aíTentavaõ íobrc 
as panellas , e diffo tinhaõ depois faudades no de- 
^ , íerto: Sedebainas fuper dias carniumh no que figni- 

' ^* ficavaõ a abundância , que tinhaõ de carne , c o af- 
feAo fofrego com que fe naõ apartavaõ delia, E he 
o que diíTe Santo Agoftinho lamentandofe a íi meí- 
mo , c Icmbrandofe do tempo , que eftivera neftemi- 
Lib.s.coDfcíT. íeravel eftado: Exvoluntate perverfafaítaeft ItbtdOi 
cap. í. ^ dum fervttur Itbidmi -^facia eji confuetudo i & dum 



Para/egíwl o èem y€ fugir o maL 427 
tonfuetudim non refi/^tur yft^^J^ neceffitoóy da von- 
tade perverfa íe tormou o âpprtitc clcfenfrcado , e 
deftirvir ao appetitefe gerou ocoRume; e naò rc- 
fiílindo ao coítume , fe veyo a formar a ncccílidâde. 

Parece-mc accommodado íimil para declarar a 
origem , c forças defte afledo de pcccar , huma cou- 
fa, que refere o Padre Athanafio Kirker, nos livros Tofr.i. lib. 
de Mundo Subterrâneo > a quem a eicrcveo , quem a "P'^» 
vio. Diz, que na Ilha Anti paro, ( que he huma das 
muitas do Archipelago, defronte de outra chamada 
Paro ) ha huma vaíiiíTima gruta íubterranea , onde 
por continua e diuturna diitilaçaó de humor , que re- 
vê pelas fendas dospenhafeos , que lhe formaõ a bo- 
veda , eftaõ em baixo no chaõ formadas varias figu- 
ras de arvores, columnas, pyramides ^ &c. entre as 
quaes íe vê também formada a eítatua de hum gigan- 
te de vinte palmos de altura, com cabeça, olhos, 
nariz y. barba , tudo muy bem feito , e em a íux pro- 
porção devida; dalli para baixo, mais brutefco, e 
inculto; tudo formado das gotas, que pelo difcurfo 
dos annos cahindo humas fobre asoutras,fe conge« 
láraõ em pedra ; e a quem naõ fabe o fegredo da na- 
tureza , mete grande horror efte portentoío gigan- 
te , quando entra na gruta de repente. 

Quem naõ fâbe , que o coração humano he hu- 
ma caverna, ou gruta de muitos feyos, capaciffi- 
mos , e taô cícuros , que fó Deos os penetra. Aqui 
pois nefta caverna fc vay creando , e formando dos 
re pe tidos, eíuccefíiovs acftos da vontade própria o 
afFefto de peccar, como de pingas que diftila, até 
íe fazer hum gigante membrudo, e empedernido >;; 
porque a approvaçaõ , e con"iplacencia dos taes pec- 
caios.» os ajunta, e congela ; e h e o que parece di- 
zia Job, em peffoa de hum pcccador femeltentei 



4 18 Eftiinulo prattco > 

Jobií. Tcrf. Concidii ffte vulmrefum^vuhif.^ irint ín mtqíiafi gu 
*^- gai\ deu-me liuiit^ tenda íobre outra ferida, a re- 

metteo contra mim-, eomo hum gigante. S. Gregó- 
rio neííe lugar : Hufit , quando peccaium peccato ad^ 
dtur] ifto fucccJe, quando hum peccado cahe fc« 
bre outro peccado , que he omefmo,que pingar hu- 
ma pinga íobre outra , até fe formar delias o gigante 
do máo coítumc , que he o que occupa eopprime to- 
do o coração: Irrmt m me quaji gigas. 

E he de notar, que por barbara e ^xecravel 
<)ue fejâ qualquer acçaõ, e mny diíconformc á con- 
dição da natureza humana , fe fe repete , faz coftu- 
me 5 e o coftume a facilita de modo , que fe lhe per- 
de o horror, 

Q^ie acçaõ mais repugnante à natureza humana 
humana, que matar hum pay a feus próprios filhos, 
fcm cauía, ehos innocentes annos da infância, cu- 
ja ternura e lindeza até nas feras acha tal vez per- 
dão, e abrigo j e nas appariçóes feitas a Venerável 
Vciafe Paiafox: Madrc Franciíca do Santiífimo Sacramento , fe con- 
ta a d€ hum homem , o qual indignandofe contra 
hum feu filhinho , o matou; teve depois outro, e 
tanto que chegou áquella mefma idade também o ma- 
tou íem lhe fazer por onde ; e aífim foy fazendo a 
outros, confeíTando que ftntia grande inclinação 
àqueiia fevicia diabólica. 

Donde fe vê claramente o quanto importa naõ 
deixarfe huma alma apoffar de qualquer minimo 
peccado de coftume 5 porque fe naõ veda o principio 
âs pingas , formaríe-ha logo o gigante de pedra du- 
rlífima , que fó a força do todo Poderofo o pode def- 
fazer: Fíttdcor0õm\dí\^^ Santo Hilário) mn Junlfi- 
nmàa codefccre , fed tn exordm ftatirn enecanda funt : 
pnculofée funt jam rtdnifi^ cufiditates , é- diffiiculter 

adulta 



luz a los viros 



Parãfeguhl o bem , e fugir o inaL 415^ 

ãàulliÊ quaquepernmníur, L,^Jí^ auttm e/t prorunr 
pernes avellere , teneras êxadefe^^jltxúts retbtqmre. 

Que o homem peque , emfim obra como ho- 
mem ; mas que íe deixe eíiar no peccaáo continuan- 
do outros emcimajiiio he perigcíiíTimc j porque da 
vontade frágil para defemparar o bem ^ le forma a 
vontade robuíta para naõ deícmparar o mal j por iffo 
diz oElpirito Santo r fiUpeecajit: nead^titas tíeruniy 
filho pcccarte^ naó lhe accrefccnces em cima outro 
pcccado > arrependete do primeiro pai'a naõ amares o 
ícgundo , porque commettendo o legundo approvas 
a maldade do primeiro , e facilitas a queda em outros 
muitos. Oh como hcbom (dizoEccleliafiico) mof- 
trar hum peccador, que fe arrepende, qixando he 
caftigado,ou reprchendido,: Buam.bõnumeílcGrreC' t? 1 r 

ra ^ . 11 K Ecdçr.9, f«(. 

tum mamjejtare pamt^nttamyC para quchcbomefte 10. 
arrependeríé, emoflrar, que lhe defcontenta o mal 
quç fez? Ste emm (continua o texto ) vohntarwm 
ifft^iet pHcaium >he bom , porque deíie modo fugirá 
do pcccado voluntário ; parece fuperflua aquclla pa- 
lavra f^otuntartum; porque qual heo peccado, que 
naõ feja voluntária? pais o raefmo feria naõ íer vo- 
luntário, que naõ íer peccado; mas eíia he a diffe- 
renças que ha entre pcccar c logo arrependerfe ^ e 
entre peccar e naõfe arrepender ; qiie o primeiro hc 
peccado voluntário huma vez, o íegundo he volun- 
tária duas f porque naõ tó ama o peccador o objedto 
máo pela primeira vontade , com que peccou, fc- 
naô, qucam:ieflrà mefma vontade pelo fegundo vc- 
luntario com que íe naõ arrepende, c continua. Diz 
pois. o Eccleíiaftíco : Máo he peccar: mas ao menos 
demos finaes de emenda retratando cíTe peccado; 
porque deftç modo , naõ íó fogimos do peccadô , fe- 
naõ do voluntário delle ^ que approvamos como íè- 
gundo. Boi&- 



43^ ^ftimtilopramo^ 

Pois affim como. be^bom dçpois de peccararre- 
penderfc logo : Gi/aní^onum tfi , &c. aííim he pcíTi- 
mo continuar o peccadoj porque arrepcndendofc 
logo , efteve o pecccador na liípcríicie dos peccados , 
mas naõ paíTou ao fundo delles 5 c continuando fc 
vay metendo no fundo , e em chegando alli , tudo 
Proverb. 18. dcfprcza: Imptus cum m frojundum venertt peccatGrumy 
▼cri. 3. tontemmt ; naõ eípecifica o texto , que he o que def- 

preza efte impio, porque tudo defprezaj a Deos , a 
fi , a morte, o juizo , o Ceo , o inferno , o perdaô, 
os caftigos 5 os Sacramentos , a Igreja , as inípirações, 
os virtuofos 3 os Sermões , os livros cfpirituaes , c 
finalmente tudo dcfpreza. Lyra : Contemmt [upplt- 
tia t tontemmt ommm correpttonem ^ vemam^ emnent" 
que tnedtcmam, A razaõ he, porque como o medo 
guerreava da parte de dentro com elle , lançou fora 
o medo: cyso diabo finiíTimo ladraõ,para lhe entrar no 
centro da alma , matou primeiro efte caõ que ladra- 
va; e huma vez perdido o medo, fegueíe também 
perderfe a efperança ; porque fó tem ainda efperan- 
Pfaim. I - ça em Deos , o que tem ainda medo a Deos ; Glut ti- 
ittrí. II. ^* mcm Domtnum ^fperaverunt m Domino ; e eis-aqui os 
paíTos por onde oimpio fe veyo a precipitar na de- 
íeíperaçaô. Vejamos agora , que fio deve feguir pa- 
ra os defandar? porque fuppofto, que ifto he diífi. 
cultofo 5 todavia naõ he impoflivel. 

Efte he o primeiro defengano cm que o pcc- 
cador ha de aífentar firmiílimamente; a íaber, que 
nem da parte de Deos , nem da fua , fe fechou já a 
porta da falvaçaõ. Da parte de Deos naõ ; porque 
he certo, que determinou efpcrar a todos, (ainda 
ao mefmo Anti-Chrifto ) cm quanto lhes duraíTe a 
vida ; fuppofto , que naõ he certo quanto efta lhes 
durará 5 por iíTo na Parábola das dez Virgens naõ 

fc 



Para /eguirjo bem , e fugir o mal. 431 

naô fe diz , que fe fechou a gorta , fenaò depois que 
o Eípofo veyo '-> e naò veyo^ ieríaõ depois que eilas 
todas 7 affini as pradcntesy como as fetuas dormitarão, 
c com efteito doriíiíraô > irto he , entrarão cm perigo 
de morte , e com efièito morrerão y com que a def- 
graça das fátuas naò entrarem com o Elpoío , confif- 
tio em naõ ter as alampadas providas antes qae ddr-=- 
miíTem >; iíto he ^ em íe naò converterem por todo o 
tempo da vida > que íc as proveffem, ainda que mais 
tarde , fempre entrariaò. Eiia promeffa, e eíta amea- 
ça tem o Senhor feito por Ezechiel -, dizendo: Ju- ^^^^^ ^^^^ 
Jlttta juJUi mnJiktabít tum tn quacumqtie cite peccave- n" '^ 
rtt:& tmpietas impnnon nocebit et trLquacumque die 
converfus fuertt ah impei ate jua-^ nem as boas. obras^ 
do Jufto lhe valeráô em qualquer dia , que perder a 
períeverança r: nem as, más faraõ mal ao impio em 
qualquer dia , que. fe converter: da. fua; maldade. E 
por Jeremias diz eftas amoroíiflimas palavras : tufor-^ jcrcm.jvTcrí.. 
nicãta es cum amatonhus mulíà^ íarjíen reveríere ad J* 
tm^ dicit momirim^-^ ego fufapam te ? tu> alma,, 
adulterafte commuitQs am:antes , ( iflo he, cpromet- 
tefte varias ,e ímiy repetidas maldades) naô obftan- 
te, digote, que te tornes para mim j que eu te pro- 
metto receberte. , 

Ouçamos também? os Santos Padre?» S. Chry* 
íoflomo : Millies feccaftt l milhei ^antíere , etiam mex^ 
tremo vita animam efflans \ mn. impcdtíur tempòris^an- 
gufiiii ^ mifencordia Det, Peccafte mil vezes? mil ve- 
zes te arrepende y ainda que eííejas com a alma na: 
garganta , já agonizando: os apertos do tempo , naõ., 
coarítao a Divina mifericordia. S. Bernardo: C'/«*:^> 
Deus vdiPmifercri^ cffíUbonnsyCum pnffityquia Om- 
mpoten f : ^jun diffiiat ? Dixit Chriflus : Nqu. vemvMare 
jííjivs fid peccaSoresy agri mim^ píus habent apus^ medh 



43^ E/iimulo praiico ^ 

CO. §luid tam a d mor^,^^md^Chn/ii morte mn fal- 
'vetur^. Querendo Deos íalvarnos^ porque clle he 
bom? c podendo íalvarnos , porque he tâòpodcro- 
fo, quem hade deíconfiar? Chriftodiffe: naõ viera 
chamar os Juftos , mas os peccadores > porque do 
Medico tem neceílidadc os infermos , c naò os fáos: 
que mal pode haver taõ às portas da morre , que íe- 
naõ remedec com a morte do Salvador \ S, Cypria- 
no; Nec quantitas crimmu^ nec br evitas íemporisj 
nec vita enormttas , nec hora extremiías excluàtt k ve^ 
ma : fd m amplij/ímos finus fuos Mater Chaittas rever^ 
tentes fufcipit próximos. Naó nos excluem do perdaõ, 
naõ a muítidaõ dos deli<ftos , nem a brevidade do 
tempo , nem a enormidade da vida , nem a extremi- 
dade da horaj por que a Divina Charidade, qual amo- 
rofa mãy a todos , e em todo o tempo recolhe tm feu 
capaciffimo feyo, fe a clle querem tornarfe. Sequi- 
zeíTemos ajuntar íemelhantcs ícntenças dos Santos, 
fariaõ grande volume. 

Nem também eftá fechada a porta di parte do 
peccador ; porque he certo , que ainda conferva o 
feu alvedrio , pelo qual com a graça de Deos pode 
converteríe aelle. Se o corvo naõ tornou para a ar- 
ca, naõ foy porque naõ tiveííe azas, fenaõ, par- 
que naõquiz ufar delias , para cfte eíFeito : a pomba 
ufou das fuás , e ainda que já fobre a tarde , tornou 
Gcoí. 8. fçrf. ^^^ ^ raminho de oliveira no bico : At tila ven.t ad 
T-u vefperam portans ramum oliva n:irmtibus folm m ore 

fuo. Prohibe o Direito, que o ufucapiaõ, ou pref- 
criçaõ valha porrazaõ de antiguidade da poíTe, fe 
hede coufa Sagrada, ou Religiofa, ou furtada, ou 
levada por força , ou de homem livre , ou fervo fu- 
do Mk! d!"* gitivo a feu legitimo fenhor : Ufucapio ( diz o Em- 
uíucap. * perador Juftiniano ) nullo tempore proceáit , /? quis lu 

beturn 



Pata feguir o bem , e fugir o mal. 453 
bauffi htimtfjemy ínv Jaíta^^njH religtofam , ^e/ Jer- 
lum fugttvum poffiaeat , furava quoque resy & qtta 
vt pojfcjl/^ Junt y €:Jibonafidc & longo tempore pvf- 
feffa/itjíj tiftdCapi nonpoieruni, QLianto mcnob poderá 
logo chamarfc o demónio à poífe antigua de hwãvà 
alma pcccadora, íendò coufa lagrada, e rcligioía, 
pela imagem e fcmelhança de Dcos , c pelo Jciio 
ou caradler do bautiímo 5 c fendo outro fi dotada 
de livre arbitrio> c ícrva de Chriftojq a comprou com 
ícu Sangue , fuppofto que fugitiva peia inconflan- 
cia deíTa liberdade >e fendo íurtada, e como vio>. 
lentada pela aftucia e infolencia do commum inimi- 
go > aíTim que todas as vezes que quizcr ufar bem 
da fua liberdade , e da graça de feu Senhor legitimo, 
pode cornaríe a eile, c lerá recebida^ e perdoada. 

Dcfta verdade ha muitos exemplos : tocar cy 
alguns. Na Vida do Apoflolo Santo André , fe faz 
mençaõ de hum velho, por nome Nicolao^o qual, 
como clle mcfmo confeílou, fc empregou em todo 
o gcncro de torpezas por efpaço de fctcnta e quatro 
annos , até que querendo chegar a huma mulher , ef- 
ta o apartou de íi, dizendo, que via no feu peito 
'coufas admiráveis: reparou cntaõ,, que levava na- 
peito hum Euangclho, entrou cm íi, converteo-fc^ 
fez penitencia ,cfalvoufe,comofoy revelado ao mef- 
mo Apoftolo. S. Bonifácio de amancebaco y veyo â 
íer Martyr de Clirifto, e a mcfma Aglais, que era.O' 
feu, tropeço, lhe edificou d. pois Igreja, onde coiio- 
cou, e adorou as Reliquias do mcfmo corpo com 
quem ofFendéra aoCreador, caio por certo admirá- 
vel , que o feno do fogo tirtareo , ( como ponderou 
gravemente S. PedraDamiaõ ) íctornaíTe em Cedro Seflr)..r1»^ 
do Paraizo^e a tiça5 do inferno em brilhante ef- 
ê.relU do Ceo-i Cúpula tartarifaHa ejt cedriPí p^rn^ 



43+ Eftimulo pratich y 

dtfi: titíjue , ut ttafatear ^rQS tnf^* m facíus ejl Jplmdi'' 
Vit Pâtram !ib. úum jyãus Ccelt. Infignc foy a convcrçaõ de Patermu* 
%, cap. í , ^ Jq , que de ladrão e bandoleiro antiguo , e totalmen- 
te eíquecido de Deos, veyo a fer taõ grande Santo, 
que ao feu mandato parava o Sol. 

Outros muitos exemplos da Efcrkura Sagrada, 
ajunta S. JoaóCíiryfoftomoj e remata fallando affim 
u «,1 ^« • ^^^ o peccador ; H^c confideram non defpera ^ (ed mi* 
Matba:um. jet tcordia D:jmmt jietus exciíd te tp/um. f^iamfolum' 
r/íodo facerc waptas , é^ ctío pervemes: Cave jmuam 
íiht pracludas , ingreffum obffptas. Coníiderando ci- 
tas razões ceites exemplos , naõ dcícfperesi íenaó 
Icvantate confiado na miíericordia de Dcos : bafta , 
que comeces a andar, e logo fintirás menos pezo,e 
chegarás onde pcrtendesj guardatc de fechares tu 
mcímo contra ti aporta, guardate de te impoíTibili- 
tartu mefmo a entrada. IHo diz eflc grande Padre; 
e he ponto muito digno de o notar a alma atribulada 
e tentada de defefperaçaõ ) porque morrer hum an- 
tes de morrer, he craíTa necedadc. Nabal , quer di- 
zer npfcw -i ou tolo^fC át Nabal fediz na Efcritura; 
i.Rfgis.tcrí. qu^ obrou conforme o feu n me; Sectmdum mmen 
15- Jnum fiiiltus efi , ^ Jiultitta efi cum eo, E que obrou 

Nabal , cm que moftraíTe mais a íuacftulticia > Mor- 
rco muitos dias antes de morrer : tal foy o feu def- 
i.Rcg. 3 zf. mayo,e taõ deícorçoadaa fua pufilanimidade: Moí^ 
?crí. 37. 3t 38. f^^^j^ fji çQy ^jji^ mírmfecus , & fâStw. efi quafilapir-, 
cumífue penranfiffènt decem dtes , percuffit Domwus Na^ 
baU & ^orttius efi> De forte , que antes de o matar 
Dêos pelos feus peccados , já o íeu coração eftava 
morto dez dias antes , pelo feu deímayo. Taes faò 
os que dcfeíperao de íe converter, podendo ainda 
converterfe : condcnaõ-íe antes , que Dcos os conde- 
nç , morrem antes que Deos os mate. Ifto he fer ncf- 

cio? 



HoroiJ..i7i 



Para fegiiiW o bem , e fugir o mai. 4 3 j 
cio. Naõ fejas , ô pcccador , neicio íobrc nelcio> 
fe por pccc-idor , já eras nefcio , agora naò íejas mais 
r^eício por defeíperado. Levanta- te , que bem po- 
dçs, c Dcos te dá a maô , e por ventm-a te fará ainda 
hum grande Santo. Levanta-te, que os teus pecca- 
dos, por mais que os multiplicaffes , naò podem ler 
infinitos j c a miíericordia l3ivina por mais que a dc- 
minuas, ca tenhas deíeílimado) nunca pode fer li- 
mitada. Levanta-tc, e haverá grande feita no Ceo, 
e alegria entre os Anjos : Gaudium em coram /trige- 
hs Detfuper mw peccatore pamtenttam agmit y aflim co- ^"'" ^^' ^" ' 
mo com â tua dcícfperaçaó até agoru alegravas aos 
demónios: Defperatto ( diffe Santo Antioco) ejipcr-^ 
fe£íum diâhoU gaudium. 

Allumiadas as trevas do entendimento , que era 
hum dos a(3os , que induz à defcl|)eraçaô : falta ain- 
da, ( c h€ o principal ) abrandar a dureza da vonta- 
de, ou desfazer o afFedlo, que tem ao deleite illicito, 
incompoflivel com a falvaçaò ; e como eíle proce- 
dia do coftume de pecçar ^ efte hc o gigante de már- 
more, que deve com toda fua diligencia trabalhar 
por deftruillo. A praxe, que há de obfervar neíia 
cmpreza, ( que he muito mais digna , e importante; 
do que a conquifta de Reynos , c a vitoria de exérci- 
tos armados, e o dcfcobrimento de novos mundos) 
íe comprehendc nas feguintes regras. 

I. Peça o peccador a Deos Noffo Senhor , com a 
mayor humildade , e fervor , e confiança, quelhe for 
poffivel; que movido da íua meíma infinita bm- 
dade, tenha mifericordia com a lua alma,. pelos-me- 
recimentos da Sagrada Paixa5^ e morte de £eu Uni- 
génito Filho; c cila oração repita muitas vezes entre, 
dia, efpecialmente todas as vezes, .que íeíentir mo- 
vido a iffo interiormente 5 com algum íoeegb doco- 

Ee: ij t^íí^i^ 



43 ^ Eflimulo pratko , 

raçaõ, ou retiro das creaturas, ou tribulação que 
o íaz entrar emdcfcngano. ET porque o demónio h.i 
de fazer , que lhe cfqueça o fazer oraçaô , ou , ainda 
que lhe Icmíbre , meterihe grande faftio c repugnân- 
cia aiffo: advh*ta primeiramente, que ponha algum 
final em fi mefmo^ou defronte de íèus olhos noícu 
apofento onde mais aíTifte , o qual lhe firva de dcf. 
pcrtador, e íeja fiel em acudir a orar, tanto que lho 
lembrou o final : Advirta mais , que ainda que a ora- 
í^aõ íèja fria, e como contra vontade, c fingida- 
mente , nem por iíTo a deixe , porque do enfermo por 
longo tempo , quando pertcndc levantaríe , ninguém 
efpcra paffos firmes e feguros, íenaõ trémulos e 
incertos ; e aíTim pode dizer a Deos: Senhor , minha 
miíeria he taô extrema, que nem vontaie finto de 
me tirar delia , o remédio era clamar a vós , ô Pay das 
miíericordias^ e nemefpirito tenho para clamar: Oh 
^abrime os olhos da alma! Oh dayme luz, e tocay 
fortemente com os impulfos da voffa graça cftc cora- 
ção empedernido ! Toda a boa vontade vem de vós; 
dayme efta vontade boa de me converter a vós; c 
convertey-me por amor dos trabalhos , e penas de 
voffo amado Filho , e meu Senhor JFSU Chrifío; naõ 
deixeis perder efta voíTa ovelha marcada com a voffa 
imagem, e remida com o Sangue de voffo Filho. Oh 
rornpey com as ondas fortes de voffo Sangue, os 
grilhões de meus peccados, que me opprimem, c af- 
fogaõ : mifcricordia , mifericordia. Eftas , ou outras 
quaefquer palavras lemelhantes pode o peccador di- 
zer ; e eftcja certo , que fc períeverar orando , ha de 
fer ouvido ; porque a nenhuma coufa fe inclina Deos 
mais facilmente , que a livramos da morte do pecca- 
do > e condenação eterna. 

II. í^eja devoto da Virgem Santiffima Senhora 

Noffa 



Para feguy o bem , e fugir o m:iL 4 3 7 

NoíTa, rezando cada dia o fcu Rofario^ ou Coroai 
jejuando os íeus Sabbados , c vcfpcras das fucis fcfti* 
vidades : fazendo reverencia às fuás Imagens, d indo 
a efmola , que lhe pedirem em feu nome, e íervin- 
<io-a cm tudo o que puder. Porque a cfta clementií- 
jfima Senhora dia entregue o reyno da mifericordia; 
€ he impoíTivcl perecer , a quem cila amparar ; ou 
deixar de amparar a quem bufca o feu refugio. Ef- 
pecialmcnte a devoção do Roíario , naõ he outra 
coufa, que huma corda, por onde guinda acima 05 
peccadores, que a cila fe pegaõ, tiranHo-os do profun- 
diíTimo poço de fcus vicios. Defta protecção da Vir- 
gem ha innumcraveis exemplos. Por naô paffar da- 
qui fem dar mais efte gráo de gloria à Senhora , c 
de animo aos peccadores , contarey abreviadamen- 
te hum , que traz o Padre Nicrsmberg, onde fc pode 
ver mais por extenfo. Em certo Mofteiro de Heípa- 
nha, hum Religioío defemparado de Deos, matou 
ao feu Prelado 5 e fahindo da Claufura , íe embarcou 
para Berbéria , onde renegou , efe caiou com huma 
Moura , da qual teve três filhos , e largou todas as ré- 
deas ao appetite ; fó confervou o coftume de rezar 
huma Salve à Virgem: eftando-a rezando hum dia, 
lhe appareceo aSenhora,reprehendeo-o,e promet.-^ 
teo favoreceu o fc íe tornaffe à Religião. Elle côn-r< 
tou ifto à mulher , a qual lhe diffc , que fe queria ir- 
íe, foíTe embora, e podia levar comfígo hum dos fi- 
lhos. AíTim o fez, Clrcgando ao Convento , pedio fc 
ajuntAÍfe Capitulo, porque queria propor negocio 
graviíTimo. Logoem preíença de todos, e proftrado 
defcobrio quem era, e contou o íuccedido,e pedio 
com muitas lagrimas íer outra vez admittido junta- 
mente com o filho. Entaõ o favor da Virgem ,abran:-: 
dou os corações de todos , e conde ícendéraô?effâp- 

Ec iij poftoj 



438 EJfimulo pratico , 

pofto, que elle íe offerecia a qualquer penitencia, 
lha impuzeraó leve; c clle renovado cm outro ho- 
mem, alli viveo , c morreo fantamentc. Eis-aqui 
quanto pode a Rainha de mifcricordiai c luppoíio , 
queeftescafosfcnaõ contaô para que os impiospre- 
íumaô , e fe defcuidem , contaò-fe para o& miferavels 
naõ defeíperarem , c fe perderem. 

III. Façaíe o pcccador afi mefmo força por ai* 
guns dias, ainda que poucos , affentando naõ peccar 
dentro do dito prazo, e naó cuidando porentaõ na 
difficuldadc de fe abfter por mais tempo i c logo fc 
fentirá mais defoprimido algum tanto : com o que 
tomando outra vez animo , prorogue mais o prazo; 
t aífim com faudavel engano, irá quebrando as for- 
ças docoftume contrario , à maneira , que o demó- 
nio quando nos poffuc de hum peccado , também naõ 
defcobre por entaõ outros muitos que depois nos 
ha de vir pedindo. Na Vida do gloriofo S, Bernardo 
fe conta , que foy efte Santo Abbadç ter com hum 
homem nobre , e pcccador efcandâloío , e lhe fallou 
aífim: Senhor, ]í que naõ quereis pazes, com ^Deds, 
pcçovos, que façais ao menos tréguas. De que modo 
íâô eílas tréguas? (diífeelle.) E o Santo reípondeo: 
Eftes trcs dias primeiros naõ pequeis por amor da 
ftonra de Deos. Diffe o pcccador : Naô mais que três 
dias? Que me praz. Acabado o dito termo, foy S. 
Bernardo ter com eltc, e perguntoujhe : Qyebmies 
as tréguas ? Naò Padre , diffe o homem. Pa;s agora, 
(replicou o Janto) a(:reveIs-vo3 a guardailas outros 
três diaç , por amor da Virgem MARIA ? Sim Padre. 
Terceira vez tornou o Santo , e pedio-lhe outros três 
dias, em reverencia de todos os Santos. Elle, que fc 
fe via mais animado, aceitou , e comprio o que pro^ 
uiettéra iq uq cabo dá dita novena foy ter com o S^n- 
: X .u to. 



Para feguir o bem , e fugir o mal 439 

to , e lhe diffc : Quanto agora já cu naõ quero fó trcA 
gu3s Gom Deos Noffo bennor , lenaò pazes para 
Icmpre. Parccia-mc ^que era impoflivel , mas á ve- 
jo , que me enganava o demónio : Pazes pazes com 
meu Deos para fempre. Ajudou o Senhor a fua re- 
foluçaõ 5 e comprio-a \ porque em fim he certo o que 
diíTe Ceíario , que quanto o homem mais le esforça 
da fua parte , tanto Deos da íua mais o ajuda; Giuan* Apud Bibiioth. 
tum nes addidtrtmHí adjtudium, tanlum ille afponet ^lxh!^lit{^i]' 
ad aájutonum. j.num.i^. 

IV. Exercite as obras de miíerlcordia com o 
próximo 5 porque palavra he de Chrifío , que bem- 
avcnturados os iniíericordioíos , porque elles alcan- 
çarão miíericordia. E Santo Agoftinho diíTe^que di- 
ante das portas do inferno eftá cm pé a miíericordia 
com os próximos, cnaô confente, que osfeus ami- 
gos entrem ; Ante fores g^hma ftat mtfericor dia ^ é* Homii.39.imc1 
nemtnem permutit tn íarcerem mtttt. Por onde es San- }? ^ , ^ 
tos Padres comparao a clmola ao bautiímo, porque 50. & 31. d. 
fcjaõ quantos forem os peccados antecedentes, to- Cyprian. iib.dc 
dos apaga,como a agua ao fogo , deixando a alma hm- cicemoíyDa. 
pa. S. Lourenço Biípo de Novara em Itália , em hu- Aug.diótiHo^ 
ma Homilia , que fez da efmolâ , fentc altiflímamen- "* ^^* 
te da efficacia defta virtude: entre outras couías, 
diz : Stai matéria contra mainiam , ílat aqua conira l; .^»"f"tmf 
igmm^jtãt eleemofyna contra peccatum. Eítao oppoi- varicníis Hom. 
tos em fronteira huma matéria contra outra msteria, **<= ciecmoíyni, 
a efmola contra o peccado. E mais abaixo : Deeleemô- pair', '* * *® * 
fyna condue operários : ejuos r Cacos , claudos , dehtks , & 
hu fimiles, Hi funt operarii parva mercede conduâh,, 
cfut purgant agrumcordutui^& renovant vmeam-y ut 
fiat m te per culturam eleemofyna , & ager frugtfer , & 
fruãtfera vinea. Aluga , ò peccador , jornaleiros : 
que jornaleiros ? Os cegos , coxos , enfermos , e ou- 

Ee íiij trás 



44^ E (limii lo pratico y 

trás peíTcas fcmelhantes : cfle.$ íàó os que por bem 
limitado jornal , hacde mondar o campo do teu co- 
ração , c beneficiar a vinha da tua alma , para que cfle 
campo , c cíia vinha levem frutos. E n.ais abaixo fal- 
lando do peccador eimoler: Ignu eft injinjlra^ e^ 
fji aqua tn Hextr^ 5 quando fia gr ai injinífhaignui pecca' 
tt yphai m dextra yifitíée aqua > ér ntl ejí íum quod no^ 
£iat ydttm imples tdudquod dtãttm cfi: Sicut aqua esc- 
. tinguií ígnem ^fic eUev^efyna exttngint crtmma r Quer 

dizer : Tens o fogo na maõ efquerda , pois tem a agua 
na direita ; quando na eíqucrd i arde o fogo do pec- 
cado, chova na direita a agua da efmola 5 e dcftc mo- 
do naó padecerás detrimento , pois cumpres o que 
eftá efcrito : Que como a agua apaga o fogo , affi m a 
çfmola o pcccado. Advirtotc porém ncftc lugar duas 
coufas. Primeira^ que a efmola , ou outra qualquer 

ipmi.çe.ítf'»p' ^bra de mifericordia , para fortir ofcueffeito, ha de 
- ' fcr feita por amor de Deos, c nao por vangloria , ou 

* / por outro rcfpei to humano. Segunda , que quando fe 

diz , que a efmola apaga o peccado , alimpa, a alma, 
G hc como outro bautiímo,entendefe, que alcança 
de Dcos auxiiios,com que o peccador arrependido 
bufquc os Sacramentos, onde eíies cffeitos fe lograõ. 

Y. Se o coftume de peccar nafcc de occaíiao ex- 
trinfeca , çortcíc efta occafiaó ; porque de outro mo- 
do , ainda que o coftume quebre por algum tempo 
com acfHcacia das fob reditas diligencias > hadetor- 
; nar a foldar ; Caufam (dizia hum Santo Monge muy 
experimentado) quam homo penttus non ahfcmâít , rur^ 
fíu implicatur inea. V. g. fcaoccaíiaô he na matéria 
do Sexto : mude , ou faça ^que a tal occafiaõmude de 
tçrra , ou ao meno? de bairro, mude de amigos , que 
oaçoníelhaõ mal, bufc.ndo para iíTo algum pretex- 
to I oiude de cftado , tomando o jugo do matrimonio» 



■-2 



Para feguir o bem , e fugir o maL 44-t 

ou da Religião. E para íer mais^ acertada , e promp- 
ta a execução de qualquer mudança , come conicino 
com pcffoa prudente , e reíoiuçaô coiíifigo y ícchan- 
do os olhos a mais difcurfos , e ponderação das dilíi- 
culdades ; que nunca obra cmpreza grande , e me- 
mora vel, o foldado que difcuría muito, e quer a 
vitoria a pouco cullo. Diga com hum furor iai.to, 
Wo impoitame : a honra de Deos , e a minha íalva- 
çaó eftaõ primeiro que tudo 5 ifto ha de fe fa^er ^ e 
Jogo logo ; quem naufraga naõ aguarda mares j quem 
acode a apagar hum incêndio corta deprcffa , km 
reparar por onde. Advirtaô de caminho os que tra 
taõ de virtude j que efla doutrina cie cortar occa- 
fiócs 5 fc entende refpcdi vãmente em qualquer àt- 
feitp l4;¥^j'OU^|p^tiijh0^^e tirar j ç(Tp^^^*mm 

4ue em qmnta deixarem a^a , por cila Uies ha de pe- 
gar o tentador , e nunca fe veráó livrei 

Ultimamente como o peccador naqiíclle miíc- 
raveleftado, em que oeonííderamos, efiániuy falt^ 
de luz do Ceo^ e deftreza para applicar os fobredi- 
tos , e -outros quaefqucr remédios : nem tem expcri- ' 
encia dascontraminas , com que o inimigo inviíivsl 
ha de procurar baldallos.-ícgueí-e, que lhe hcnecei- 
faria emtregarfe nas mãos de hum bom Gonfeflbr*, 
por cuja direcção determine governaríe , como o ce- 
go pela da fua guia , e o enfermo peia d^ Medico. 
Se aílím o fizer> fahirá da miferavei' cfcravidaò de 
feus vicios , e reverdecerão fuás efperr^nças de con^ 
feguir a gloria eterna. Porque ( como diíTc Chrf- 
foftoma} efta cíperança he cadea de ouro- pendente 
do empyreo , pela qual os que pega o fortemente , íaã 
arrancados das perigoíijíimas ondas deftc fcculo , e 
levantados à Celeftial Pátria: Siqmdem.eatvfaeflcã- AáTUoio. 
ímã amea o- firma , qna de Cmo^ropmfa juoductwtu pricrc. 




44 2 Eftimulo pratico y 

animas mfiraí : qua brevi Jurfum in ilhd fuf^wum 
p*jiigmm retraBâ, , íõs qm tpfam forttter mariihus fer- 
vam , evelltt & râptt fupra fluEidá prafentis vtta om- 
mum longe pertculofijjimcs. 



A 



REFLEXÃO XIÍI. 

Mãjor parte , que parecia haver de condenados^ 
era de muy velhos , e muy moços. 
As cauías difto podem fer. Primeira , porque 
nos moços reyna mais a luxuria , nos velhos a ava- 
reza 5 e eftcs dous vicios , faõ as mais geraes pcftilen- 
cias ,qae cftragaò o Mundo, c as duas entradas mais 
largas para o mferno. Por iffo dizia meu Padre S. 
Filippe Neri ; Guardefe o moço da luxuria , c o ve- 
lho da cobiça 5 e todos feremos Santos. E a experi- 
ência moítra , que fe o moço vive caftamente \ c o 
velho com deíapego , ordinariamente trazem a conf- 
ciencia concertada. Por onde , como os da idade va- 
ronil, já fahíraõ dos fervores da mocidade, e ainda 
naò entrarão na tenacidade dos anciãos, fe a morte 
nefte ponto os colhe , vaõ menos arrifcados. 

Segunda, porque na idade em que a morte mete 
mais a fouce , neffa tem mais parte o inferno ; que he, 
o que vay em íeguimento do cavallo pallido da mor- 
Apoc.tf . wrí.s. te: Ecce eqnm pallidus , ^ qm Jedebat fuper eum , nomen 
iílt Mori : & infernm fequahatur eum. E a morte cla- 
ro eftá , que mais frequentemente entra pela idade 
juvenil, canciãa. Naanciáa, porque ella meímavay 
bufcar a morte , nem já tem para onde andar , fenaõ 
para a íepultura ; por onde diflfe outro de hum ve- 
lho com bordaô. Que para que íe apreffava , baftan«^ 
do dous pés para chegar à morte. 

Çluii 



P ara feguir o bem , e fugir o maL 4^1 3 

ÇiuidferuU motins iter ? Qnid te magis urges^ 
Ad morttm ger^im mn fatts tre peàe ? 
Na juven.l, porque he menos acautelada dos perigos^ 
niais ocafionada ás dcfgraças da ira , mais cíiragado- 
ra da faude , mais metiaa no manejo das armas. Qiian- 
do mais naõ fora, que pelas continuas guerras, que 
ha no mundo onde tudo he gente n.oça, c pclama- 
yor parte de confciencia larga, bailava iflo para en- 
trarem muitos moços no inferno. Só as guerras , que 
ouve entre Ceílir c Pompeo , dizem , que dcvciáiao 
mais de trezentas mil peíToas. Por onde com razaj 
fc admirou, e deu a Dccs graças a Seráfica Madre 
Santa Therejfa de JESUS , quando chorando em íua 
prefença a derrota do exercito Portugucz nos ca-i^pos 
de Africa cm tempo dei Key D^Sebafliaõ^ o Senhor 
a confolou dizendo : ^e querias yfe os achey d{jp'Jios.. 
Taõ rara coufa he morrer hum moço na guerra , e 
morrer bem. 

Contra os velhos faz também, que ordinaria- 
mente quanto os homens mais vivemos, mais pec- 
camos, e quanta- mais peccamos, mais d'fficilíixn- 
te nos emendamos: Ah (diz Kempis faipiraado ) Lih.i,.j^i,n^it 
Longa vita mn femper emendai ^Jedjíepe culpam magh c^p. 23.. 
fiiígeil . . Siformidolofum eji mort yforfitan periculofui^s 
irit diutttu viver?. E Santo AmbroííoSinaita aameí- rib. (]iixr.íi>. 
mo intento: Ego certevidivitos cenium annos natos^ i.uinq»'a:fí- g. 
tmhecillos yá- ^of o fere irem níes cor pote y qniíamennon ^^^ij^ ' '^^ 
potnerunt ahjhmre à peccaío cor por ah propn diuttn nam, 
confueítidtnem. 

No anno de milquatrocentos c cíncocnta, íen- ^^ . 
do Summo Pontífice Nicolao Y. veyo a Roma , \ok comTxnJ^ 
eaiiía dojubileo Friderico Conde de Cilia, cm Sti- c^»^'^^ 1450. 
ria, chamada aiuiguamente Valeria. Era.homem^íum- 
mamentc propcnfo â fcnfualidadc, matara fua-nm- 

ihtr^ 



444 Epimulo pratico , 

Iher , c roubara muitas filhas a feus pays , c mulhe- 
res a fcus maridos , com a mefma facilidade e dcfafo- 
ro 5 que Ic foraô rezes defgarradas dos fcus rcbanhosj 
c além diíTo defpojára muitas Igrejas dos feus bens, 
c com ellcs emiquecéra a homens de vida perdida, 
fautores de fuus maldades , e niíTo empregara noven- 
ta annos , que tinha já de idade . E cfperandofc , que 
para lucrar taõ grande thefouro de indulgências, c 
vifirando taõ fantos lugares , frequentados naquelle 
anno da piedade de todas as nações da Chriftandadc, 
íé converteria : tornou para cafa , como antes , a con- 
tinuar feus errados caminhos , e acabar de encher as 
medidas da paciência Divina. E fendo perguntado, 
que lhe aproveitara Roma , fe tornava aos feus pec- 
cados^ Refpondco: Também o meu S ipateiro lá foy, 
c tornou a cozer botas. DiíTe lhe hum amigo mais 
defcnganado , que cuid^ffe na fua morte , c trataíTe 
da fcpuitura : Rcípondeo : Tendes razaõ ; e eu já 
tenho prevenido Epitáfio , que ha de fer eftefobrea 
lagcm da campa: 

Hac miht potta ejl a d tnferos: 

Quid illtc repertam , nefcto, 

Sao q^ta 7 eltqui : 

Ahundavt botns omntbm , 

Ex qutbus mhtlfero meaim\ 

Nec quod biht ,é^ edi^ 

giuadque tnhonejla voluptas exhaujit^ 

Quer dizer : Efta hc a minha porta para o infernoj naô 
fey o que alli acharey , c fey o que cá deixey j gozey 
de todos os bens crn aÍ3undancia : dos quaes todos na- 
da levo comigo , nem ainda o que comi , e bebi , e o 
que devorou o appetite feníual 

Reparcfe , como o peccado torna o racional hu- 

mano 



Para feguir o km , e fugir o tnaf. 445 
mano cfcuro c embrutecido , pois comparava eftc 
homem o tornar cllc aoslcus pcccados, com o tor- 
nar o Sapateiro a fazer botas. E diz , que naõ fabc o 
que achará no inferno, tcftcmunhando a Fé, que acha- 
rão os peccadores , fogo eterno , e trevas , e compa- 
nhia de demónios 5 e tormentos incriveis. E já leva 
de antemão engolido o ponto : de que a fua condena- 
ção he certa 5 e a fepultura , porta fua para o infer- 
no. Para que íe veja como he certo y o que na Refle- 
xão antecedente ponderávamos, que do afFcrro ao 
bem iliicito pelo coftume de peccar , fc gera a defef- 
peraçaó. Dcfgraçados noventa annos de deleite , que 
paffáraó como hum inftante , e a cada inftantc dcllcs 
correfponderáô mais círculos de noventa annos de 
tormentos , do que áreas tem o mar , c átomos os 
ares. E tornando ao noffo ponto : naõ cftá o ponto 
em viver pouco , ou muito , c em morrer moço ou 
velho , fe naõ em viver bem , ou mal 3 que mais havia 
de viver o moço , fe em poucos annos foubc adqui- 
rir a vida eterna ? E que menos podia viver o ancião, 
íe em tantos annos, naõ fez mais , que ganhar a eter- 
na morte? Só viver bem , he vivera e quantos dias, 
oii horas naõ empregamos na virtude, tantas desfal. Homii.^.tá 
camos da noffa vida. Gravemente Santo Eufebio **«""**•** 
Emiffeno; Illum tantHmdttm vtxiffe te computa ^ m quo 
volunfates proprtas ahnegnfit s tn quo malts de/idertis 
rejttttfit 5 quem fim uUa regula tranÇgreffione duxtjit, Il- 
lum d em vtytjje te computa , quem non malttta , mn in- 
vtdia , non ft/perha cemmaculavtt. 



LAUS DE O- 

Virgttíique Matri. 



447 



^.^ .4. rfc % ffc ± ff', fií : .4: ff: . ffc ffc i flí ± â- |?t 



I ciyí ^^i CY^ cy? cyi) cy^) <iv' ^' •^'^ cS/v cyí çy.^ cy» cy^ ^f^* 

&ílii' iSi '4^* "«8^4^ '4i : ^|i "4 "li; i|; ig; -4; '4i *«|i^f§- 

índice 

DAS COUSAS MAIS NOTÁVEIS, 
que fe contém nefte livro. 



A 



ACfaÕ. Por barbara, 
que ícja qualquer ac- 
ção, e muy difconfor- 
me à natureza humana, 
íe fe repete , faz coftu- 
me, pag. 428. 

jídav, Envergonhoufe da 
íuadefnudez, mais que 
do feu pcccado, pag.19. 
Omefmo foy perder a 
obediência a Dcos , que 
fentir a rebelião da ília 
carne, pag, 422. 

Albano. Santo Albano 
Martyr, foy havido de 
hum Rey das partes 
Septentrioaaes , em hu- 



ma filha do meímo Rey 

Aldeai. Hum havendo 
paffado a mayor parte 
da vida na Corte , tor- 
nou em fim para a íu4 
terra , dizendo : Vou 
morrer onde a morte 
vai mais barata, pag, 5. 

Alma. Os frutos de huma 
boa alma , faô como os 
de huma arvore, que fe- 
naò maduraô a puro 
apolegar, fenaõcomos 
rayos do Sol, lenta e 
efficazmente pag.36. As 
almas juftas faô veltidu- 
ras deChrifto.pag.ui. 
A alma ha de temer a 
Dcos , e confiar em, 
Deos 



Indice 



Dcos. 140. Grande 
maldade he lerem adul- 
teras a Deos as almas , 
eípecialmcnte x elle có- 
fagradas. 410. Muitas 
almas íe purgaõ nos 
mefmos lugares>cm que 
nefta vida penáraõ. i6i. 
 de hum pcccador pe- 
nava cm huma pedra. 
161. Outra cftava alli- 
gada a hum grande pe- 
daço de caramello y ibi. 
A* do illuftrado Varaõ 
Joa5 Taulcro ^ commu- 
tou Deos a pena do fen- 
tido nos graves horro- 
- rcs , que padecera no 

artigo da morte, 163. 
Amigos, Ordinariamente, 
I^ quem tem inimigos gra- 
des , também tem gran- 
des amigos, 183. 
Amor. O amor Divino 
< o prczaíe de valente. 1 2 6, 
O amor de Deos, que 
vive nos coraçoens dos 
fubditos ^ hc o que faz 
guardar as regras. 340.. 
Rifcos, que traz com- 
figo o amor torpe. 320. 
Do amor kfcivo mais 
difta o amor cfpiritual, 
do. que anatural j c com 



tudo 5 quantos cora- 
ções , a que íe pegava 
o fogo do efpirito e 
charidadc, vieraõ d pois 
a abrazarfc no fogo in- 
fernal da concupifcen- 
cia. 34. amor próprio 
he o pay de todos os ví- 
cios ,387. 

Androntco^ Santo Andro- 
nico , o fcu nome quer 
dizer vitoriofo. 97. Seu 
Auto Proconfular, 6 feu 
Martyrio. 77. 

Anjo. A' Aia cuftodia per- 
tence naô fó a alma , fc- 
naõ também o corpo, 
6. Anjo máo , cada ho- 
mem o tem por anta- 
gonifla , ou impugna- 
aor da fua falvaçaó. 
250. 

Argumentos Os do inimi- 
go , abatem fe fem for- 
malidades,, fcm disfar- 
ces às fuás razões. ló. 

Artífices. Os de cftatuas , 
e pinturas profanas^pcc 
cao mortalmente. 121. 

Avareza. O efpirito da 
avareza y cujas feições 
íaô cmpreftar com gra- 
de difficuldade, e mui- 
ta fcgurança, jii. Rey- 
na 



Das coufas mais notáveis. 



449 



íia mais nos velhos a 
-avareza, pag.442. 

B 

Alie. Naõ hc outra 
couía , que hum cir- 
culo, cujo centro he o 
diabo 5 e a circunferên- 
cia , faõ os anjos feus 
miniftros. pag. 145. 



B 



dando cm vifita. p. 291. 
Blasfémia, O exccravel 
peccado da blasfémia, 
naô he muy commum 
na Republica Chriítáa, 
como o íaó os outros vi- 
cios.pag.2 75 Cinco íox-* 
tcs depeffoas vem a dar 
neftc precipicio. p.2 75* 
A biasfania he peccado 
graviííimo. pag. 277. 



B^fiUa* S. Baíiiio , defafio 5/^í/^^Wí?.Horriveidemòf- 

campal , que teve cèm -^ ^ - -. -^- • 

o demónio, pag. 262. 
BensMnm Fidalgo de Ale- 
manha condenado por 

fe apoderar initiftamen- 

te dos bens da Igreja 

Metenfe.pag. 168. 
S- Bernardo, Como con- 

verteo a hum peccador 

cfcandalofo pag. 438. 
Bijpôs. Os antigos eraô 

eleitos por oraçoens^e 

fupplicas , que íe faziaó 

ao Efpirito Santo? ago- 
ra íaõ eleitos por nego- 

ciaçoens , c fupplicas , 

^q íe fszem aos Reys. p. 

269 Para caftigar Deos 

os peccados dos Povos, 

permitte , que haja Bií- 

pos precitos, p. 271. O 

que fuccedeo a hum an- 



traçaó da Juftiça Divi 
na , em caitigo de hum 
blasfemo, p. 273- Apcna 
do blasfemo na Ley Eí* 
crita, era morrer ape- 
drejado por todo o Po- 
vo, pag. 2 7 7. Os PvCys de 
França mandaô expor 
o blasfemo nu ao ludi- 
brio do Povo pag. 278. 
Naõ fe defcuida a Jufti- 
ça Divina no fcu cafti» 
go.pag. 278. 
BmifuCio, De amance* 
bado veyo a fer Martyr 
de Chrifto , c amefma 
Aglais ^ que era o feu 
tropeço , lhe edificou 
depois Igreja , onde col- 
locou , e adorou as Re- 
líquias do mefmo cor- 
po , com quem ofFcn-/ 
ff dera 



450 



índice 



dera ao Creadar p, 433. 

Sm^a Brígida. Vífaó , que 
teve de hum demónio , 
que apparcceo diante 
do Juiz Supremo com 
hu na alma nas unhaSo, 
pag. 262. 

^uxas. Apparecem-lhc 
os demónios rcveftidos 
nos corpos dos conde- 
nados y e fe mifturaõ 
abominavelmente com 
çllas.p. 248,Defenterra5 
os cadáveres j por man- 
dado dos demónios , e. 
de|K>is de ihps prefenta- 
rem cm offerta , os co- 
mem cofidos, ou aíTa- 
dos.pag.249 Em TheíTa- 
lia fe guarda5 as fepul- 
turas , porque as,bruxas 
naõ comaò aos defun- 
tos, ibi^ 



c 



C\AMveres., Nos das 
almas condenadas y 
laò muy frequentes as 
licenças , que Ob demor 
nios tem, de ufar mal 
delles. pig. 248. 
Caminho. Naô o ha mais 



arriícado a parar nas 
penas eternas , dp que 
fjzer hum muitos imi- 
tadores, da^ fua maldade, 
pag. 247. 
Char idade. Por charidadc 
pedio S Frãciíco de Pau- 
la a huma arvore, que 
lhe fizefle caminho,e el- 
la fe fendeo pelo meyo, 
% He,aliiigua comque 
todo o mundo fe enten- 
de , e todas as crcaturas 
fe communicaô.pag. 10. 
Cajlidade., Nas. matérias, 
de. çaftidadc , devemos, 
ter fuma cautela.p. 39. 
pedir â Deos efta virtu- 
de, he a diligencia prin- 
cipal , que deve pôr da 
fua. parte 5. quem qucr^ 
que o fogo dadeshonef- 
tidadefe lhe naô pegue»:, 
ou.fe lhe apague p. 297. 
Fugir das occaíiôes , hc 
remedia para.alcançar a, 
çaftidadejibid.Nap eftar 
ociofo,p.398. Ser devo- 
to eípecial de MARIA 
Sâtiírima Senhora.NoíTa 
p. J99i Ser parco no CO-, 
mer e beber. p. 400. Re- 
íiftir logo aos princípios, 
dp penfamêto máò , ibi. 
laíir 



Dm coufaí mais notáveis. 



Cafiigo. Quando naõ da- 
mos pelas primeiras iní- 
piraçocns ^ ceda Deos 
Ldos avifos , e procede 

aos caftigos. píig-43. 

Santa Catharma de Sena. 

Dizia ao Senhor , que 

naõ o havia de largar , 

. até lhe naõ conceder o 

que lhe pedia. pag. 258. 

Catholtcos. A mayor parte 

. delles fe condenaò por 

. confiíToens mal feitas. 

.pag.371. 
Cegueira. Grande hc a nof- 
' fa , quanto que começa- 
mos a abrir as portas à 
tentação, pag, 15. 
<^ohiça. Adehum Juiz,a 
quem arrebatarão os 
demónios, pag. 35 1 . 
Remedias, 3em fabe o dia- 
. bo o que taz , cm intro- 
duzir C0medias.pag.4T. 
O diabo nos leva às Co- 
medias c muficas, para 
•que nos nao efpantem 
os trovoens e ravos da 
- ira de Deos. p.42.Hum 
defaforo, que na Co- 
media fe tinha feito , re- 
prehendeo no Púlpito 
certo Pregador zelofo, 
ibi. Outro Pregador 



45 « 

abonou aquelle cxer- 
t:icio , dizendo , que o 
Tcprehendcr as Come- 
dias era de Pregadores 
moços, ibi. 
CommtmhÕes, Sua frequên- 
cia hc remédio para li- 
vrar do coílume de pec- 
car. pag. 288 He dili- 
gencia para alcançar a 
virtude da caftidade. 

^P3g-397- 

Companhias. Huma roim 

fez prevaricar huma 

peíToa de íanta vida. 

pag. 107. Todoopoífi- 

vel fe deve fugir de más 

companhias, pag. iio. 

Concubma.Hc anoíTa con- 
cupifcencia ^ ou amor 
-próprio, pag. 48 2. 

Confejfores. Importa , que 
naõ Hioftrem fazer con- 
ceito da virtude defeus 
penitentes , principal- 
mente mulheres , ném 
xftranhem as fuás faltas 
ordinárias, nem lhes de- 
■mandem mayor perfei- 
ção, do que oEfpirito 
Santo lhes communica.' 
pag. 30. Hum ConfcíTor 
tinha o Purgatório no 
no feu Confeílionario. 
SFf ij :pag. 



45^ 

pig, 1 62. EfcolherCon- 
felTor certo , hs diligen- 
cia , que deve fazer o 
peccador para íe tirar 
do coftiime de peccar. 
pag. z86. Hum Confct 
íbr tin'i3 vinte annos 
deconfiiTóes auUaa, vi- 
vendo ciu peçcadoxom 
huinx parenta, pag.^yó. 

Coafijfâí. Para haver fer- 
mofura diante deDeos, 
diante do mcfino Deoi; 
lia de haver primeiro 
confiíTaô.pag, 38. Naõ 
ha fermoíura, naãha 
graça onde naõ ha con- 
£Ta5. pag- 39. Por con- 
fiíTòes mal feitas íe con-- 
denao a raayor parte dos 
Catholicos. pag, ^fi. 
Envergonhemonos dos 
peccados da confiffaó , 
e naõ da confiiTaõ dos 
peccados. pag. 39. Ga- 
ios, em que a confiffaõ 
he mal feita, e de ne- 
nhum proveito, antes 
nociva para o peniten- 
te, pag. 372. 

Conta À que fe ha de pe- 
dir na Juízo de Deos, 
' aos Rcligiofos propriec 
tarioi. pag. 405 V 



Converjao. Quanta mayor 
for a de huma alma a 
Deos y tanto mais tem 
que temer y que a fua 
perverfaó íeia peflima. 
pag. 1 14. As converfões 
milagrofas de grandes 
peccadores,. cujo prin- 
cipia rompe fervorofa- 
mente em rigores de pe- 
nitencia^faõasque pro- 
mettem boa eípcrança 
da fua coftancia. pag. 
314. Nunca par mui- 
to que o homem viva , 
c por muitas , c muy re- 
petidas y e graves ) que 
fuás maldades fejaô , fe 
lhe impoflibilita de to- 
do a converfaõvi erda- 
deira. pag. 380. 

Coraf^Õ. O hurr^^no hchu»^ 
ma caverna^ ou gruta 
de muitos feyos capa- 
ciffi^nos , e taõ eícuros, 
que fó Deos os penetga. 
pag. 427.- 

Qiipa. Naõ ha pena ma-. 
yor,qne a mefma c]úr 
pa.pag. 22, 



DaviM^, 



Das coti/as inals notáveis. 4 5: 5 

demónios como eípiri- 

D tos immundos^ tenebro- 

fos , e horríveis , faó 



DAdivas. AsdeDeos 
fobrepujaõ a noffa 
ncccíTidade. pag, 29. 

Dados, Os féis lanços do 

- dado , dizia hum difcre- 
to y que eftavaõ pedin- 
do íeis forcas, pag. 276. 

«y. Demmilo. Martyrizado 
de fcte annos, pag. 5 7. 

Demónio. He caçador, e 
vay pelo rafto à fua de- 
fejada prc;za, pag. 1 4. 
Também faz as. tretas 
dejugador,ibi. He Ló- 
gico , c como tal eníína 
a fazer efta precifaõ. 
Mulher, e naõ mây. pag. 
33. Havendo perdido 
todos os dons da graça, 

f que pertencem a fazer 
a vontade recl:a, íhe fi- 
carão fomente os da na- 
tureza 5 que pertencem 
•ao entendimento fubtil. 
pag 36. O áemonio , c 
o ríoíTo ainor próprio 

/ 'pcdem no£ pcccados por 

: efmola , ou por emprcf- 
timo , e logo os affentao 
corno foro, pag 132. Os 



amigos de lugares íeme- 
ihantes a elles , qiiaes 
faõ as fcpu \ turas , e ca- 
dáveres, pag. 247, O 
demónio , a que chama 
S. Nilo StoUdttatis , tem 
por offició tornar as al- 
mas como eftupidas.pag 
25T. Ha demónio do 
amor, ibi. Demónio, 
que provoca ao vicia da 
fornicação , ibi. Demó- 
nio da triôeza. pag.25 2. 
Tem o demónio fede 
vehementiflima , e inex- 
tinguivel da condena- 
ção de 00 Tas almas. pag. 
262. Todo o direito, 
que em nós adquire ^he 
o que lhe damos com 
iioffo livre ai:bitrio pec- 
fcando. pag. 263. Tan- 

f tos demónios vio em 
hum campo a Serva de 
Deos Marianna de ]^- 
SUSy cm figura dcniof- 
coens , c bizouros , que 
por onde voavaõ ^ en- 

. cobriaô a Lua.pag.348^ 

Deos, DiíKmula com os 

pecci dores , cfrerando- 

Ff iij ll^>€s 



4J4 Índice 

lhes a c nenda^em quan- 
to eftes fe naó demaziaò 
a tal exceffo , que cUes 
me finos puxaõ pelo 
braço a Deos para que 
fe vinge, pag. 6. Tem a 
fua paciência para com 
os peccadores certo bo- 
jo, e limites, que tanto 
que eftaô cheyos , c naõ 
cabe mais, encerra Deos 



291. Por tafe Deos com 
noíco , como nós com 
elle. pag. 315. Os dons 



de Deos > como naõ fc- 
raó perfeitos vindo de 
tal maô ? pag. 518. Deos 
ajuda, e fortalece aos 
que por feu amor fc 
exercitaõ em mortifica- 
çocns, e penitencias. 

P3gv3í3' 



as contas , e procede Dejgrafa, Toda a de hum 



ao caftigo. pag. 7. Me- 
nos aborrece a hum 
pççcador hu^nilde , que 
a bum çafto íoberbó, 
pag 69, No mayor aper- 
to ocode a maô de Deos. 
pag. (83. Devemos pôr 
ÍQ em Deos a noíTa con- 
fiança , ibi. Por maravi- 
Ihoíos modos alumea a 
todos defde os montes 
eternos , onde habita, 
pag. íió. Para Deos hs 
neceíTirio bufcar algu 
Servo amigo ícu. pag., 
257. Todas as diligen- 
cias, çom que fatanás. 
pertende injuriar a 
Deos > fervem de pro- 
n ovcr os feus louvores. 
pag, 280. Os Juízos de 
Deos ívx occultos. pag» 



condenado eíieve em íc 
deixar eftar em peccado 
mortal até o ultimo 
paíTo dcíla vida. pag. 
366. 

D^shenejlos^ Sao tantos , 
que efpanta o feu nu- 
mero, pag. 394, O que 
ftz povoado o inferno 
hc a multidão dos def- 
honcftos,pig. 401. 

Defengano.O primeiro , em 
que o peccador ha de 
aíTentar fírmiífimamen- 
te , hc , que nem da par- 
te de Deos , nem da fua 
fe fechou já a porta da 
falvaçaã pag. 450.. 
Defcíperaçao. Nafce , ou 
confifl:^ em hum ado de 
entendimento , c outro 
de vontade, pag. 426. 
Do 



Das vou fa!^ 
Do aferro ao bem illici- 
to pelo coftumc de pcc- 
car ^ fc gera a defefpe- 
raçaõ- pag 445, Delbf- 
pcrados: daò obediên- 
cia a Jucifer. pag. 423, 
Se ha peccador que ic 
pareça mais com o de- 
mónio , he hum dcfefpc- 
rado. pag. 424. 

Defobedienctã. He a cau- 
fa porque fe condenaõ 
muitos Religioíos. pag, 
422. 

Diabo, Como dragaô ver- 
melho, e fanguinoicn. 
to , pagafc muito de ía- 
crificios de íangue. pag. 

53- 
Diligenciai. As que deve 

fazer o peccador por fc 

tirar docoftume de pec- 

^ car. pag. 2^5. 

Dividas. Primeiro eftá pa- 
gar as dividas, c depois 
accõmodar a caía, com 
o que refta, pag. 170. 

Domrjgos Grmano. Car- 
deal da Santa Igreja Ro- 
mana, como honrou a 

•^^iíeu pay. 256. 

Drâgoms. Alguns de vin- 
te covados , e mayores, 
pag. 152. De hum de 



man notáveis. 4f j 

quinze covados fe refe- 
re na "Vida de Santo 
Apollonio Abbade. pag, 
ibi^ 



E 



EL^fante, Hum , que 
com a tromba levan- 
tou huma criança , que 
encontrou na rua , e a 
poz em íalvo em cima 
de hum balcão pag^i 29. 
Emenda. E naô lagrimas, 
hc o finai do verdadeiro 
arrependimento, pag. 

378. 

Enterro, Entre os Roma- 
nos antiguos havia dif- 
fercnça entre o enterro 
pretório , c ccnforio , e 
triunfal, pag. 5. 

Efmvla, PãVã íortir o ícu 
cíTeito ha de fer feita pe- 
lo amor de Deos. pag, 
440. 

Efperançn, Em nenhum 
aperto por grande , que 
feja devemos largar de 
maõ o fio dacíperança. 
pag. 154 

Efpm'0. He final de bom 

o fer rcnrehendido de 

Ff iiij Deos, 



4j5 



Inúex ^e^iuCI 



Deos , c caftigada íeve- 

' ramente ainda por faltas 
minimas pag, 196. Naõ 
o tem bom , quem co- 
nhecendo noiTas faltas 5 
e defeitos y os diífimula, 
e os louva. pag. 197. 

^jfpintos mãos. Para livrar 
.as cafas infeííadas dei- 
tes , faã remédio ora- 
rem os Sacerdotes, e 
Miniftros da Igreja, af- 
• perfoens de agua benta, 
<:0llocar Rcliquias,e me- 
lhor que tudo celebrai- 
' Miffas. pag. 164. 

SdfJía Eufemia. Seu cor- 
po manando oleo pelo 
diícurfo d€ todo o an- 

*" ' fíò V mana juntamente 

^ íangue no dia ánniver- 
íario do íeu mar ty rio, 
pag.51. 

Exemplo. O de humapcf* 
íba , que começando 
bem, e interrompendo 
a vid 1 com obras peíli- 

' maí,por meyoda peni- 
tencia acabou íama- 

^ mente. pig. 107. bom 
exemplo dos que íaõ 
grandes traz comíigo 
Icm muita diligencia 
immenfos lucroÀ. pag„ 



Exame, Õ que f<gz das fuás 
faltas Santa Maria Mag- 
dalena de Pazzi. pag. 
200. 



F 



F Altas. As que com- 
metteo na reza do Of- 
ficio Divino 5 penava 
no Coro> huma Rcligio- 
fa. pag. 162. Sc huma 
peíToa defprezaas-miu* 
das , naõfó naõ chega 
à perfeição , fena5 , que 
pouco , e pouco deíca- 
hindo vem a dar em 
peccados graves, pag. 
198, Exame , que fez 
das fuás faltas SantaMa- 
ria Magdakna de Paazi. 
pag 2oov 
h\ A fortaleza na Fé, que 
dentro de hum anno co- 
brou o Principe D. Luis 
fiíhodelR^y de Gotto^ 
Ilha no império do Ja^ 
paõ. pag. 186. Quando 
ouvirmos, ou lermos al- 
guma converfaó de in-. 
fieis à Fé, devemos dar 
muitas graças , e louvo- 
res a Chriáo. pag, 187, 
F&as. 



Dascoufm mats miáveis. 



457 



peras, Naò tocái-aõ nos 
corpos de trcs Santos 
Martyres , Tháraco, 
Probo , c Andronico, 
ícndo lançados a ellas. 
pag. íoo. Succedeo o 
mefmo aos outros^ ibi. 

Fejias. Quanto deíágrada 
a Deos celebrarmos o 
Sagrado, de fuás Ecftas 
como profano das nof- 
fas. pag. 142. 

Rdalgo. Hum de Alemã, 
nha , condenado por íe 
apoderar dos bens da 
Igreja- Meteníe. pag. 
168. 

Ftets. Porque naõanelaõa 
fer virtuofos ^ vem a 
parar- em. ler coadena- 

- dos. pag. 387. . 

bortuna. He certo^ que 
naô ha fado , . nem for- 
tuna, pag 294. 

Frw, Com o que faz em 
Lucpmovia , Pwegiaõ 
além de Sarmacia , fe in- 
ceriçaõ os homens , e fi- 
caõ como mortos dor- 
mindo todos os annos^ 
defde Novembro.* até 
Abril ^ em que acordan- 
do, parece, que rQvi- 
Yem.pag. 15.3. 



G 



GAyano. Nome de 
hum Reprcfentante, 
que fazia prazer ao Pc- 
vo com blasfemar de 
Noffa Senhora, pag. 40, 

Gladiadores, Jogos, e in- 
venção dos demónios, 
pag. 103. Em quecon- 
íiftiaô , Í€U principio*^ 
ufo,^ &c. ibi ufque ad. 
pag. 105, Seifcen tos pa- 
res de gladiadores deu 
de huáBa vczvHerodcs 
Agrippa^ibi. 

Santa Glyceria. Romana y. 
padecco Martyrio em 
Heraclea , feu corpo 
deflilava perenemente 
unguento preeiofo,fiia- 
ve , e medicinal, pag. 5 o. 

Graça, A graça de Deos , 
he a qvic faz Santos.pag. 
68, Tudo lhe he poíli- 
vel. pag; 115, He ne^* 
ceíTario , que concorra 
a graça Divina j para 
que CS homens , fecha a-- 
do os olhos à luzy naõ 
amem antes as fuás tre-» 
Tâs. pag. 18^, A grciça 
d<5: 



458 



hdice 



de Deos, tanto mais fc 
aufenta , c fonega,quan- 
to peor uí^imos delia. 
3 85. Quanto mais apro- 
veitamos a graça , coo- 
perando com ella , tan- 
to mais íc nos commu- 
nica^ibi. Omáouíoda 



padecGo martyrio Saríta 
Glyccria Romana , ibi. 
Hereges. Os Adamianos 
andavaô nus , e nus ou- 
viaõ os Sermões , e fa- 
ziaõ oraçaô , e rccebiaõ 
os Sacramentos, pag. 
325. 



graça copioía de Deos, Hipocrijia. A de huma mu- 



he a caufa da condena 
çaõ dos Religioíos.pag. 
389. 
Grécia. Aguns de íeus 
lugares era fama ferem 
portas do inferno, pag. 

53- 
Grifo. Quando voa , leva 

nas unhas hum veado , 
ou humboy.pag. 152. 
Grutas. Quatro , que ha na 
Serra da Arrábida taõ 
fundas ^ que naô fe lhe 
acha pé. pag, 1 5 2. Hu- 
ma íabteí'ranca, que ha 
na Lha chamada Anti- 
paro.pag.427. 



Iher , que íe condenou. 

P3g-353- 

Hypocrttas. Saõ martyrcs 
do diabo. pag. 246. 

Homicídio He peccado em 
íeu género mais grave, 
que os da luxuria, mas 
os da luxuria laõ mais 
torpes y c afrontofos. 
pag. 64. 

Humildade. He huma das 
mais vigilantes guardas, 
que podemos , e deve- 
mos pôr à caflidade.pag. 
67. 



I 



H J 



H 



Eraclea^ ou HeracUa. 

N,ome , que tiveraõ 
Vinte € duas Cidades, 
pag. 50. Nefta Cidade 



Ãmhulo. Mercador de 
naçaõ Grego , aportan- 
do a huma Ilha mcog- 
níta vio huns animaes 
pequenos no tamanho; 
porém admiráveis- na 
forma , c na virt ude de 
feu 



Da^ coufas mais notaveã- 



feu fangue , pois appli- 
cado às feridas de algum 
corpo morto, logo fe 
unem, e fcchaó. pag. 
187. 



459 

ccndio,ibi. He o lugar, 
onde penaõ recluíbs os 
condenados, pag. i6i, 
Vifaõ das fuás penas, 
pag. 329. 



/w^^fw. Ada Virgem San- Immigoò. O mundo, dia- 



tiífima do Lorcto , cha- 
mafe aífim por ettar em 
Loreto , ou Laureto. 
pag. 24. 
ímpios. Saõ no caminho 
da perdição , como os ta- 



bo , e carne faô noffos 
inimigos conjuiadoo. 
pag. 323. 
João B' uno Nolano. Efcrc- 
veo hum livro em lou- 
vor do diabo pag 245. 



fuisnacafa dojogo.pag. João Leyden. De Alfayate 



240. 

Incorriip^ao. A da lingua 
do Padre Luiz de Moii- 
na pag. 210. A da lin- 

. .- gua de Santo António, 

1 :iibi. A damaô de Santa 
Efte/aó Re)r de Hun- 
gria , ibi. A de Ricardo 
Monge de Cifter, ibi. 
A dos olhos da Beata 
Rofelina Virgem , ibi. 
A do dedo polegar de 
Santa Editha Virgem, 
ibi. A do coração de 
Santo Agoftinho, ibi. 

hfrno. He femelhanteaó 
forno de cal , porque 



fe quiz fazer Cabeça de 
Império , c como tal foy 
acciamado de Hereges , 
e do vulgo. pag. 245. 
Foy exemplar dos Pa- 
triarchas do diabo. pag. 

. 2.44. 

Joao Famcio Romano, c 
íua mulher fundarão 
cm Roma a Igreja de 
Santa MARIA Mayor. 

Joao t Panla. DiíTerao ao 
Prefeito , que nao co- 
nheciaa outro Scrhor, 
ma's que aJESUChrif-^ 



tO.pag/238. -y 

nellefequcimaô pedras. Joao Taulero. O que lhe 
pag. 149. A ira de Dcos fuccedca com hum feu 
eftá fcmpre eOendendo diícipulo. pag. zi5r 
os rigores daq^uclle in- Jfig^r. Hirni FidUgo, íQ^ 

íua 



4áo 



índice 



gou fua própria mulher, 
pag. 240. O Emperador 

' sNero parava a dez mil 
cruzados por cada pon- 
to das cartas, pag. 240. 
Os tafuis às vezes fe pi- 
cão tanto , que jogaãaté 
a liberdade, ibi. 

Jogador. Caftigo de hum 
jogador blasfemo, pag. 
278. 

J. Jorge. Lançado no fo- 
go ^ficcu illefo. pag 44. 
hechamado por antono • 
4nafia o graô Martyr, 
ibi, 

S* J^feph. Antes do feu 
tranííto lhe a/Tiftiraõ à 
cabeceira Chrilto, c a 
Tuefma Senhora pag. 
254 

Juízos. Os deDeos faéoc- 
cultos. pag. 291 Saò 
inaceííivcis aonoíTodií- 
curfo. pag. 294. Mof- 
trafe como faô occuU 
tos , do que íuccedeo a 
hum Bifpo andando cm 
viíitvi, pag. 291. 

Jujliça. Deos ícmpre 'em- 
parelha huin lance da 
fua juíliça com outro da 
fiKi clemência, pag.280. 

JtifiOi e Ptíftor Minin^oS) 



martyrizridos. pag. 55. 



L 



LAgtimas. AsdaMag- 
dalena dizem , que as 
guàr<lou hum Anjo em 
hum caiix de ouro. pag, 
7 í, He grande a eftima- 
çaô, que Deos faz das 
lagrimas de humpccca- 
dor contrito, pag, 316. 
Nenhum licor faz me- 
lhor miftura com o San- 
gue deChriftoi do que 
âs lagrimas de contri- 
ção , ibi. As lagr*mas da 
Madre Soror Marianna 
do Rofario recolhia hu 
Anjo em hum prccioío 
vaio, ibi As lagrimas 
<Je Santa Brigidacnchu- 
gou , c limpou Chriflo 
Senhor NoíTo com fuás 
próprias mãos. pag.3 1 7. 
Âsque derramava Adal- 
mano ao celebrar, ibi. 
L^fctvo. Ao lafcivo fe lhe 
offufca tanto a prudên- 
cia, fe lhe aliena tanto 
o juizo, que fe abraça 
com o ícu mefmo pec- 
cado 5 e fe alegra com o 



DíU cottfíU mah 

feu mefmo • dano. pag. 

396. . . 

la(y. A Divirta com lua 
mefma pureza converte 
as almas. pag. 1-85. 

Lf^oa, Huma , que pegou, 
brandamente da roupa 
de hum Santo Monge , e 
o levou atéa íuacQva,. - 
onde llic poz aos pés 
cinco Icocfinhos^quepa- 
l^íra cegos , como pe- 
d^ndolhe, lhes dcíTe vif- 
ta,. o que o Santo fez 
por virtude Divina.pag. 
131. 

l^therdade. Tanto mais fc 

- enfraquece,quanto mais 

coníentimos no maL 

.çag.385.^ 

Lifão. A primeira daef- 
cola de Chriílo y he naõ 
pDÍTnir próprio, pag, 
404* V 

I^tngwa. A linguâ y cem 
que todo o mundo fe 
entende, e todas^as crea- 
turas íe eommunicaõ y 
he a charidadc; pag. 10. 
Huma , que achou no 
campo hum Lavrador , 
a qual lhe fallou/ pag. 
208. A lingua dós Sá- 
bios j he de ouro. pag. 



votáveis. 

lio. A língua do Padre 
Luiz de Moiina , doze 
annos depois de inter- 
rado fc achou incorr uf)- 
ta,ibh A mefiría'mara- 
villia oftenta Pádua na 
lingua de Santo Antó- 
nio, pag. 2VV. A lingua 
de hum Advogado nao 
fé lhe achou, quando o 
foraõ amortalhar pag, 
Z12. 
hinho. Asbefímo 5 foy neí- 
k involto o corpo de 
Si Jorge, c fe queimou^ 
ficando o Santo illefo» 
pag. 44,i He incombuí- 
tivel,ibi; Vários nome% 
que os naturacs lhe im- 
puzeraõ. pag. 45. Pare- 
ce y que quiz Deos ex- 
plicamos nefta creatu- 
rafinha o effeito , que as 
chamas do Purgatório 
fazem nas almas , as 
quaes naquellc incêndio 
entraõ pollutas, efahcm 
immwaculadas, ibi. Ra- 
zão natural da admirá- 
vel e íingular proprie- 
dade de reliliir ao fogo, 
47. Mandavaò os Em- 
peradores fazer delle 
mortalhas, ibid. Suas 



propriedades 5 fyrRbo- 
'^ ios das virtudes de S. 

JLiivro. Humgueefcrevco 
em louvor do diabojoaõ 
Bruno Nolano. pag.24í . 
Aconfelhava S. Filippc 
Neri , que IcíTemos li- 

, , yros 5 q^e começaõ por 

. /Sy entendendo as obras, 
ou Vidas jdos Santos Pa- 
dres pag. 124. 

Liztmaco. Depois de mor- 
to Ihç acharão o cora- 
ção cuberto de cabellos 
em final de fua ferocida- 
de, pag. 130. 

hncifer. Faz a deftribuiçaõ 
dos officios de tentar. 



pag. 252. 
Luxuria. Quatro princi- 
paes portas por onde 
nas caías de Deos entra 
o efpirito de luxuria. 
pag. 423. Vid. Portas. 
He íeu mais próprio cf- 
feito a cegueira , c de- 
mencia.pag, 241. O que 
ferve a efte vicio ha de 
fervir por feu reípeito 
^ outros muitos, pag. 
242. A luxuria reyna 
mais nos moços. pag. 

44-2- 



M 

MAgdaltna, Defen- 
deo-a Chriíio do 
juizo dos difcipulos^que 
a tiveraõ por pródiga, 
pag. 72, Porque peccou 
muito, arrependcndofc 
amou também muito , e 
veyo a naõ peccar nada. 
pag. 73. O máo nome, 
que tinha na Cidade,me- 
teria a muitas almas no 
inferno .5 e obom^ que 
agora tem na Igreja, tira 
do inferno a multas al- 
mas, pag. 73. 
Malco. Efcravo fugitivo: 
íueceffo, que teve , em 
que o favorcceo a Pro- 
videncia Divina, pag. 

JMaldtçai. Quanto he p^- 
ra temer a de hum Sa- 
cerdote , Pay , ou Supe- 
rior injuftamente ofFcn- 
dido, e juftamente in- 
trado do zelo da honra 
Divina ,e obrigação do 
feu miniflerio. pag 145^ 
'Que horrível fera a mal- 
dição de Deos. pag. 146. 



Dmcou/íu mais notáveis. 4Í5 

iWá^. A de Saúto Eftevaõ raos olhos de feu irmaó^ 
Rey de Hiingria incor- lhe naõ deixou o Se- 
rupti. pag. ixu nhor ver os íeus., ibiv 

Mãr,w%' Herege, que af- Manna de tfcoi/ar. Vilaô, 



fiírnavafer o diabo be- 
néfico , cíirnigade fazer 
bem y. ainda, mais que 
Deos. pag. 244. 

MARIA Sanu/pma. Mais 
fácil parece ao.peccador 
defconfi>ii: de Deos, do 
que de MARIA Santif- 
fima.pag.37. AMARIA 
eftá commettido fó o 
Rey no de, clemência ,, 
ibi. Afuainterceflaôhc: 
me^dicina dos incurá- 
veis, pag. 1 1 6. Fica por 
fiadora de hum. merca- 
dor, pag. 307. He a uni- 
veria 1 fiadora de nós to- 
dos, pag. ^ II. Cultivar 
a íua devoção defvia a 

• tentação, pag. 380. 

Mmanm de JESUS.. Fal- 
tou em acudir àlprefen- 
ça de Deos por acudir, 
e reparar no bom talhe 
de huma creatura , e o 
Senhor íenaõ deixou 
delia tocar em quanto 
fenaô confeíFou, e fez 
penitencia defta falta, 
pag, 191. Por olhar pa- 



que teve, em que Chrif- 
to lhe> mofírou a reve- 
rencia que tem a Adaõ 
c David íeus pays. pag». 
254. Vifaõ , que teve 
dos que íe confcffaò , 
tendo obrigação de rei* 
tituir , e o naõ fazem», 
pag. 173. Vifaô, que 
teve -, em que íe lhe deu 
a. entender > que os Po- 
vos delnglaterra íé con- 
verterão à Fé Catholi- 
ca. pag. 1 89- Vifaõ , que 
teve acerca do efpedla- 
culo dos touros, pag. 
loj. Repofta , que teve 
do Senhora cerca de hu- 
ma alma , de cuja falva- 
çaò duvidava, pag. 137». 

S.Methodto^ Cafa porten^ 
tofo em abono de fua 
pureza, pag» 17: Lutou 
cíom Deos, e alcançou a. 
fua benção, pag. 21. 

Mimos. EfpcciedeRepre- 
fentantes , qvie^ faziao 
fRomos , e tregeiroscòm 
as mãos , e pés. pag. 4,3. 

Meninos. Dezafeis rnarí^- 



biãice 






zados alumnos de S. Pa- 
phnucio. pag. 58. 

Miffoim. Saõ muito do ag- 
grado de Deos. pag. 376. 

Mitras, Couía he por cer- 
to, que admira ver as 
anciãs ., e arbítrios, e 
traças, e condados, com 
que fe pertendcm, e per- 
mutaõ. pag- 2Ó7. 

M-^jerícordta, Nunca fcde- 
,ve defconfiar da miferi- 
cordia Divina, pag. 116, 
Naõ fc deixa vencer , 

- tlem do mayor numero, 

nem da mayor graveza 

. dos peccados. pag. 1 34. 

Monge. O que fucccdco a 

. hum Monge inclufo 
com o demónio, pag. 
;i i . (^uem eraõ os Mon- 

. ^es inciufos. pag, 12. 
Aproveitou muito a híi 
Monge , que cahio -eípi- 
ritualmente , defmen- 
: «tjrfe comíigo , dizendo 
ao tentador: Nad P^q^^y-i 
c fó a Deos feqmy. pag. 
115. 

Mofíe. Ladrão do homem 

.chamouàmort: o Beato 

Alcuino.pag. 305. Quem 

quizer governar bem a 

vida, hadefc pôr. na ul~ 



tima parte da vida , que 
he a morte.pag. goó.Das 
morres defgraçadas, que 
fuccedem aos Religio- 
fos infecítos com o vi- 
cio de proprietários , ha 
muitos , c horrendos ex- 
emplos, pag. 409. Que 
mal ha taõ de morte, 
que com a morte de 
Chrifto naô fe vença, 
pag. 117. 

Mortificação. A falta de 
mortificação na vifta hc 
caufa de muitos detri- 
mentos no efpirito.pag. 
192. Daqui procede a 
inquietação do efpirito 
na oraçaô pag. 193. E 
também o perigo de cõ- 
fcntír em algum defejo 
illícito, ibi. A faltada 
mortificação na vifta 
impede os favores Divi- 
nos, pag. 194. Mortifi- 
cação ni vifta de Santa 
Rofa de Lima pag. 195. 
A do Padre Balthazar 
Alvares , ibi. A dos Co- 
riftas dos Carmelitas 
Defcalços, ibi. 

Muihei, Á honefla deve 
confiderar, que em qual- 
quer lugar , onde appa- 
reça^ 



Dm coufãimm notaveà. 



rcça 5 pódfi haver Anjos 
tons , e nfláq^j4)ag, 326. 
Huma, que tinha mor- 
to doze £lhos por mcyo 
de aborfo , ícm bautií- 
mo. pag. 3 76. Huma fe 
deu à vida i>ccnciofa 
vendo huma cftatua de 
Vcnus. pag. 121, 
Mundo. Efte mundo he hu- 
ma mata brava, em que 
os mundanos andaõ va- 
gueando a bufcar as 
fuás conveniências c 
goftos^pag. 156, Quem 
quizcr feguir de veras a 
Chrifto ha de deixar de 
veras o mar c as re- 
des , ifto hc , o mundo 
c as fuás cíperanças^ pag. 
i8f. 



4^í 

Vide 



.s, 



N 



N^&a/. Quer dizer 
Nefcio. pag. 97, 
Necromanttcõs. Saó os pro- 
fetas , c facerdotes do 
diabo. pag. 244. 
Nero. Parava a dez mil 
cruzados por cada pon- 
to das cartas, pag. 240. 
Mtato Ntcolao Faãor. $nã 



oraçâõ. pag/ 27. 
Oraçaõ. 
NicolaL Hum velho dcfte 
nome , o qual fe empre- 
gou em Xodo o género 
de torpezas ,'^ por efpa- 
ço de fetenta e quatro 
annos,€ depois fecon- 
verteo 5^ fcíalvou. pag* 

Mo^e:i Oixiaonomc^ quô 
a Magdalena tinha na 
Cidade , meteria muitas 
almas no inferno ; c o 
quç agora tem na Igre- 
ja , tira do inferno mui- 
tas almas pag. 73. Mui- 
tas vezes difpoem Nof- 
:fo Senhor , que os no- 

; mes das peffoas conve- 
nhaô com as obras, c 
fucceíTos de íuas vidas. 
pag.96. 



-nc. 



o 



OBediencia. A falta 
defta virtude he bua 
das portas por onde en- 
tra a peftikncia dos pcc- 
cados da feníual idade 
na Clauíura Sagrada das 
Cafas de Deos.pag,4i 5. 
Gg Occa- 



4^6 u. ludíce 

Occajíao. Se o coftumc de Oraçaí 
peccar naícc de occa- 
{nò extrinfeca , corteíc 
efta occaíiaó pag. 440.. 
Os que trataó de virtu- 
de haô de cortar occa- 
fioens de qualquer de- 
feito leve , ou apcgui- 



-•') 



V Jho. pag. 441. Nenhu- 
ma diligencia baftará ao 
peccador,íc naô fè apar- 
ta da occafiaõ voluntá- 
ria, pag. 2 8 8* 

Ociojídade. He mãy da fo-. 
me» pag. 28, He para os 
peccadps mây , c para as. 
virtudes madrafta. pag. 
4.0ciofidade, luxuria , e 
roubo íe acompanhaò 
infeparadarnente. pag 4. 

Ojhos. Os feus jogou S. 
Franco de Senna. pag. 
240. Porque olhou para 
os olhos de íeu irmaõa 
Serva de Dcos Marian- 
na de JESUS, lhe nao 
deixou o Senhor ver os 



A (de S. Metho- 
dio lhe irr^etrou o dom 
da caflidaile. pag 10. A 
do Beato Nicoiao Fa- 
(flor lhe deu paõ para re- 
partir por quatro meni- 
nos , que llio pedirão* 
pag. 27. Naõhaneccí- 
fidadc , onde ha oraçaõ. 
pag. 29. Muitos Santos 
tem a Igreja por filhos, 
que foraõ filhos de ora- 
ção, pag 32. Em ne- 
nhum aperto devemos, 
largar a confiança cm 
Ocos > nem omittir a 
oraçaô-pag. 15c. Qpcm 
defeja oraçaõ como a 
dos Santos , tenha mor« 
tificaçao como a dos 
Santos, pag. 196. A fei- 
ta dç oração heafegun- 
da porta^ por onde en- 
tra a peftilençia dos pcc- 
cadòs da fénfualidadc 
na Ctouítirá Sagrada das 
Cafas de Deos. pag. 41 5 



feus, pag. 191. C^em, Ora çai mental. Os Prela-. 
SHpoz? os olhos no Ceo,, dps,<jirona& tem trata» 



que naõ perdoaffe ? pag. 
127. 
Onzeneiro- O que fuccc- 
deo a hum cm caftigo. 



pag 



fe*. 



22 



çom . Reos pelo iexerci-^ 
cio quotidiana da òra^ 
çaõ mental ,i>aõ podem 
íatisfa^er às fuás obri- 
gaçoens. pag. 2655 Ter 
todos 



jym couf^ mau notáveis. 46^ 

todos os djís ao menos futadada , fendo cm or- 



mcya hora íJç^ oração 
mental , he diligencia , 
que deve fazer o pecca- 
dor para fc tirar do cof- 
tumc de peccar. pag. 
286. A falta da oração 
mental hc a cauía com- 
mua de fe profanarem 
os Santuários de Deos 
com o eftrago da fcn- 
íualidade pag,4i /.Com 
a força das lagrimas , e 
da oraçaô alcançou o 
Abbadc Irenio o dom 
da caftidade. pag. 395. 
Ottiltá. Mulher, de quem 
conta Radero, que pe- 
nava cm huma pocilga 
de animaes ccrdofos. 
pag.~i^i. 



p 



Pães, Quatro muito al- 
vos, e fcrmofos vio 
poftos junto a íi o Beato 
Nicolao Fa<flor,os quaes 
tirou da oraçaô, e pre- 
fença de Deos. pag. 28. 
Payu Nos pays de famílias, 
e nos Superiores já nc- 
ilhuma malícia he mal 



dem à camela, pag. 34. 
A nenhum defobedientc 
a feus pays pode fuccc- 
der bem. pag. 253. Re- 
verencia , que Chrifto 
tem a Adaõ , c David 
feus pays, pag, 254. Co- 
mo honrou a íeu pay. 
Domingos Grimano 
Cardeal da Santa Igreja 
Romana, pag. 256. A 
dçfobcdicncia aos pays, 
he origem de muitas in- 
felicidades, ibi. Caftiga 
Deos efte peccado com 
pena de Talião, ccom 
encurtar os dias da vida, 
ibi. Hum pay indignan- 
doíe contra hum filhi- 
nho , o matou , c depois 
a outro, e outros em 
chegando à mefma ida- 
de , confeíTando , que 
fentia grande inclina- 
ção àquclla fevicia dic- 
bolica.pag. 428. 

palavras. As do tentador 
naó faó íimplezmente 
palavras , fenaò abanos, 
que dá à arvore do co- 
ração para dcsfrutalla, 
pag. 14. 

PtfW^.Chamado o íímplcjr, 
<Sg ij nota- 



4ó8 



Índice 



notável modo com que 
pcdio a Cbrilto o remé- 
dio para hum cndemo- 
• ninhado. pag. 219, 
Peccado.O peccado da ufu- 
'^ ra, c a enfermidade da 
^ kpra parccemfc em mui., 
tas.couías. pag. 23. Af- 
fim CO mo o peccado cô- 
mettido cauía pejo , aí- 
fim o pejo de GonfcíTar 
o peccado catifa outro 
peccado. pag. 34, O 
peccado gera trevas 3 
qu^ eícurecem a razaõ. 
pâg. 35. peccado traz 
comfígo ccgueirajC lou- 
cura, pag. 239. Hapec- 
cados, cuja graveza fen- 
do cm íi mayor , para o 
noíTo conl>CGÍmento naô 
hc taõ dcfcuberta. pag. 
64. Naõ d-e (prezar os 
peccidos leves , porque 
dei Ics fé vem a caliir nos 
" graves, pag. 1 1 2. Os 
peccadas dafenfualida- 
ác faô a caufi^ porque 
fe conden lõ muitos Re- 
ligiofós. pag. 422. Im- 
porta naò deixarfehui 
alma a poíTir de qual- 
quer mini mo peccado 
ét coftu ne. pag. 42 S; 



A miferK^ordia Divina 
fíaõr^p <íeixa vencer, 
nem dò^mayor numero, 
nem da mayor graveza 
dos pcccados. pag. 134, 
Deos nos livre de fazer- 
mos coftumc do pecca- 
do. pag. 28^3. Elíecof- 
tume hc centro dos mef- 
mos peccados: alli dei* 
cançaô os peccados , c o 
peccador com elles. pag, 
284. 
Peccador. Sc: o peccador 
der volta , e quizcr en- 
tregarfe à virtude , fa- 
zendo o que fazem os 
outros Servos de Deos , 
verfeha fenhor de fi, co- 
mo os outros fe viraó. 
pag. 385. A hum pec- 
cador inveterado avi- 
fou Deos por fua Serva 
a Venerável Anna de 
Santo Agoítinho. pag. 
280. O peccador he ff- 
Iho do diabo pela imita- 
ção das obras p^g. 263. 
Todo o peccador impe- 
nitente he filho do dia- 
bo, piig. 307, Deve a 
peccador parar em feus 
vicios , fazendofe vio- 
lência, pag, 133. Deve 



Dd coufas mais notáveis. 



invocar Oy*auxilio do 
Cco: dcfc|i*r£<?4rfe do 
fczo das aftct^ôcs terre- 
nas : chcgarfe aos Sacra- 
mentos; indignar fecon- 
tm o íeu amor próprio: 
lenaõ pode vencer jun- 
tos todos ftus vicios y 
tome a peitos vencer 
hum e hum y c fcja o 
que mais lhe pcza ;.para 
cfte intento faça exame 
p irticular. pag. 133. To- 
^o o peccador he efcra- 
vo do demónio, pag. 

reccsr. Máo hc peccar; 
mas ao menos demos fi- 
nacs de emendas , retra- 
tando effe peccado. pag. 
4 19. Affim como he bom 
depois de peccar arre- 
penderfe logo , aílimhc 
pcílimo cõtinuar o pec- 
cado. pag. 430. Se o cof- 
tume de peccar nafcc de 
occaíiaõ extrinfeca, cor- 
te fc efta occafiaõ. pag. 
440. Do afFerro ao bem 
itlicito pelo coftume de 
peccar fe gera a defcf- 
peraçaò, pag. 445. 

/^é'<//r.Peçamos a Deos com 
reílgniçaò fe for para 



46^ 



honra fua , e falvaçao 
noíTa. pag. 39. Importa 
pedirmos em nome de 
Chrifto, conforme elle 
mcfmonos cníinou.p.33« 

S. Pedro de /itcantara. EÍ- 
teve três annos em hum 
Convento íem conhecer 
Rcligiofo algum delle, 
íenaõ pela falia» pag* 
194 

Penai. As penas do infer* 
no fao etcrnas.pag. 354. 
Naõ haõ de ter fim as 
dos condenados, como 
o naõ terá o mtfmo 
Deos. pag. 356. Por via 
da pena toca à Juftiça 
Divina a reparar ordem 
darazaõ, que íe prcver- 
tco por via da culpa. 
^62. As penas do con- 
denado haõ de fcr duas, 
e ambas eternas , porque 
as dcfordens c prever- 
foens, que commetteo 
faõ também duas , e ne^ 
nhuma delias acaba.pag^ 
365. 

Ptmtencia, Três annos de 
penitencia valem por 
muitos de Purgatório, 
pag. 139. 

Penitente. Hum penitente 
Gg iij recu- 



470 



Inake 



íccufava fazer confif- 
íaó geral comS. Filippe 
Neri , e por orações íuas 
illuftrado íe mpvco a fa- 
. zçlla com outro Sacer- 
dote, pag. 39. Cada vez, 
que o penitente íc con- 
feffou maly fabendo o 
mal que fazia , commet- 
teo hum facrílegío. pag. 

^ 375- 

Perdoar. Argue poder , e 
fortaleza de animo, pag, 
i25.Quempozosol os 
no Ceo , que naô per- 
doaíIe?pag.i2 7. 

Perfeição. Quem afpira à 
perfeição deve fazer 
grande caio de ponti- 
nhos minimos. pag.198. 

^ . Hcimpoffivel moralmê- 
te naõ afpirar à perfei- 
; çaõ^íem cahir em pec- 
cados. pag. 63. 

Per f as. Quando vem hum- 
leprofo V dizem, queal- 
gu ma coufa peccou con- 
tra oSpI. pag. 26.. 

Pintor. A hu n. prendeo o> 
Emperador Theophilo 
por pintar imagens de ; 
Santos, pig, 120. 

Pintura, Por pintar hum a 
deshotieíl^ efteve hum, 



Pintor a^ ponto de fc 
condçpar.j|)ag, 1 1 8. 
Pobreza. Ô valor da po» 
breza Euangelica he taó 
ai tosque o Filha de Deos 
baixando ao mundo , a 
efcolhco para íí em vida^ 
em morte , e em todas 
as couías. pag 404. Que 
tem amor a Chriílo y ne- 
ccíTariamentC; a ha de 
ter à pobreza, pag, 405. 
Amor , que tinha à po- 
breza a Serva de Deos 
Margarita. Agulhona ^ 
ibio, 

Poejia.^ Também he pintu- 
ra, pag. 1 2 2. Cuidaõ feus 
Authores , que a maté- 
ria 5 que naõ he profana, 
naó he taõ accommoda- 
da para a arte campear., 
pag. 122. & de inceps. 

Pomfra, As pompas defte 
mundo faõ imaginarias; 
c a íua maícara he fer- 
mofa , mas. por dentro 
corrupção , e miferia„ 
pag. 

Porta. Por quatro portas 
entra naClauíuraSagra- 
da das Cafas de Deos a 
peftilencia dos peccados 
da fenfuaUdade> primei- 
ra 



Da^ coufãs mais notáveis. 

falta à^ 



ra a taira gjft vocação ao 
cftadoRclfgíoíOj Icgun- 
da a falta ofe iraçaõ; ter- 
ceira a falta de vigilân- 
cia c recato > quarta a 
falta de obediência, pag. 
415. A porta da miícri- 
cordia Divina íahc a to- 
da a parte, pag. 29. 
Predejitnaçao, Naõ cfqua- 
drinhemosoíegrcdo da 
predeftinaçaõ. pag, 213. 
O melhor modo de en- 
tender a Theologia da 
predeftinaçaõ he aíTegu- 
ralla cada dia mais com 
fantas obras. pag. 227, 
Dito do Beato Fr. Gilà 
cerca da predeftinaçaõ. 
pag. 228. Recorrer à 
Virgem Mây , grande fi- 
nal de predeftinaçaõ, 

pag. 37- 
Prelados. Os que tem mul- 
to zelo faõ os bons , pa- 
ra ferem poftos por Prc- ^ 
lados. pag. 339. Os Pre- 
lados , que naõ tem tra- 
to com Deospelo exer- 
cício da oraçaõ mental, 
naõ podem íatisfazer às 
íuas obrigaçoens. pag, 
265. A vigilância, que 
devem ter em fuás ove- 



471 
lhas. pag. 264. Dizia 
hum Paare deita Con- 
gregação, que naõ toma- 
ra nos Prelados mais po- 
litica , que a de hum ga- 
nhão 5 ou homeindc pao 
€ corda. pag. 268. 

Frefença de Deos. Faltou 
cm acudir à preíença de 
Dcos a Venerável Ma- 
rianna de JESUS , por 
reparar no bom talhe de 
huma creatura , c o Se- 
nhor a caftiga por efta 
falta, pag 191. 

Problema. O que excita- 
rão trcs foídados dcl- 
Rey Dário 4 qual crt 
mais forte , íe o Vinho, 
íe o Kejr, íc a mulher, 
ou fe a verdade, pag. 20. 

S Probo, Seu auto procon- 
fular^ e feu martyrio. 
77. O feu nome quer 
dizer,hom ,h0ncfto , oa 
provado , e digno de 
aprovação, pag. 97. 

Propojitos, A raiz de naõ 
fazermos firmes propo- 
fitos da noíTa emenda, 
confifte, em que naõ nos 
queremos dar a Deos 
mudando de vida. pag. 

383' 

Gg m] rr<h 



47^ 



indict 



pKoptieiftms^ Sao os. que 
profeffando pobreza , c 
viver fó docomníum na 
Religião) querem poíTu- 
bir alguma çovift como 
própria, pag, 402. Eftaô 
em grilhões , e cadcas, 
porque ^iiebraõ. as dos 
votos y ibi., Puxaõ. por 
ellcs. os demónios já para. 
traz, já paradiante^por- 
que affim faziaõ ellcs às, 
regras , eftylo$)e ordens, 
dos Superiores yibi. 

^fQvidencm^k.^ difpoíiçôes, 
c pcrmiíToens da Provir 
dencia do Altiffimo naô 
as podemos julgar por 
partes fem manifefto pe- 
rigo de errar. pag. ^20. 
O modo com que a Di- 
vina Provideiacia favor 
receo a Malco., eícravo 
fugitivo» pag, 155. 

^nrgatom, Deos com as al- 
mas , que njanda ao Pur- 
gatorio) procede fuave , 

Ç)rém reílo. pag. 1384 
res annos de peniten- 
cia valem por mui tos de 
Purgatório* pag. 139. 
Hum anno penou no 
Purgatório huma alma 
^pr hum confclho de 



peccado jçorta! que deu, 
do qual nj^rreo arrepc- 
dida , itó Hum por de« 
ferir tomar o Sacramen* 
to da Unçaã, e morrer 
fem ella , foy fentençia-- 
daa vinte annos de Pur- 
gatório, pag. X40, 



a 



aUadros. O Rcligiofo, 
amigo de ter nafua 
celIa quadros , c lami- 
nas , &c. He Religiofo 
de çonfciencia bixofa, 
cnaõ fóbichofa, fenaó 
podre. pag. 403. Hum 
ejôcelléte quadro da.Rc- 
furreiçaõ de Chr ifto mã-^ 
dou o Duque de Arcos a 
D. Anna Ponçe » Gon- 
deffa de Feria y e depois 
Freira de Santa Clara , 
c ella Ihp tornou a. re- 
metter y dizendo , que 
era bom para a recamcra 
d^ Duqucza ^e naõ para 
a cella de huma pobre 
Rcligiofa,ibi. 
S. ^mcw. Sendo de três 
annos foy martyrizado», 
pag. 5 8. 

mu- 



DéíS cou fui mais notáveis. 

ir 



REUgiao. Todos os que 
profeíTaã o eíiadode 
Religião faó obrigados 
a. procurar a perfeição. 
p.6 i.Quanxgrandcbem 
he aRcligiaãp75.Sahir 
para fora da Religião, 
he morrer^ eira CDtcr- 
rar. p. 75 As Religiões 
tiomeyo dofeculoy.ía5 
como asjlhas no>mcyo 
domar^pag, 395. 

^e^agtofa. Caio delcflt-ado), 
que fucccdco- a huma., 
que dizia n^õqneriaíer 
Santa- comova Magdale-. 
napag. 61. 

Beligtúfõ.. Impolljvd hec&- 
denarfe hum Religiofo^ 
fem que feja fúmamcn- 
tc ingrato^e dcfprezador; 
das mifericordias Divi- 
nas, p. 3 88. Os raáosRc- 
ligioíosj.e Sâccrdotcsef- 
ta 5 cm companhia, epo- 
der de Judas.pag.3894 O^ 
cftado Re) igiofo femprc 
padcceo por emulos e 
£na!dizenres,algua3 pef- 
íbas do íeçulo.pag. j^j. 



Que feria do mundo , fe 
naõ foíTcm os Religio- 
fos ^p..394. Religiofa 
para poder guardar o 
voto da eaitidade deve 
ter recato fobrc feuii íc- 
tidos, palavras, e acçòeji 
p»,4i L. Oquc he amigo 
de ter na cella quadros^ 
c laminas, &c. x4cReli- 
giofo de eqníclcncia bi* 
líOÍUry enaõ fó bixofa ,, 
íènaõ podre, píig.403. 
Rcligiofo proprietário, 
bedcíhiiplado. pag.404. 
Conta ,.que íe lhe ha de 
pedir noJui^zodcDeos. 
pag. 405^ Como efperaõ 
morrer quietos os Reli- 
giofosy qirc por huma 
parte fazem grandiílimo^ 
çaf^ de que o habito naõ 
ícja , nem velho, nem? 
roto, nem remendado,, 
e por outra ncríbum ca- 
fo fazem 5 nem de pedir 
licença , nem decoí^fcf*- 
far o pcccado, nem. de: 
fatisfazer com psniten- 
cia.pag^oS^ Da^moríes 
difgraçadas-, (^ fucce- 
dem aos Religiofos infe-^ 
dos coni cftc vicia-ha> 
muitos ,. e muy horrcn*-» 
dasi 



-474 

dos exemplos, pag.409. 
. Çafo notável de hum , a 
r quem favoreceo Noffa 
Senh Dra pela devoção da 
Salve , que conícrvou 
ainda na vida perverfa, 

P3&437. > 

Reprefem antes. Hum que 

fazia prazer ao Povo cô 
blasfemar de Noffa Se- 
nhora,p4i. Que infame 
lie o officio de Repreíen- 
tante, ibi Os Reprefcn- 
tantes enloqueccm aos 
ouvintes com os feus 
momos, ibid. 
Réprobos, Sua infeliciífima 
forte, p.3 2 7. Saõ cm nu- 
mero mayorjque com- 
mummente fe imagina, 
pag.344 Saõ mais que as 



hiàice 

1 69 . Hctarrifcado o ref- 
titui.r íóihora da mor- 
te, pagriyi. Confirma- 
fe com hum cafo , ibi. 
Naõ ió corre efte perigo 
quem aífim entra na ho- 
ra da morte/enaõ quem 
aílim chega aos pés do 
Confeffor. pag. 173. Vi- 
faõ que teve a Serva de 
Deos D. Marina de Ef- 
cobar , dos que fe con- 
feffaõ tendo obrigação 
de reftituir , e o naô fa- 
zcm.pag. 173, Ha dcfc 
fazer a reftituiçao logo 
que pode fer. pag. 174. 
iíf^íí Pelas faltas,que com- 
mettera na Reza penava 
no Coro huma Religio- 
fa. pag. 162 



arcas do mar , ibi. O que Riquezas. As da terra dif- 



diffe dos réprobos o de- 
mónio, deftruhido o ído- 
lo de Apollo por S« Mar- 
tinha. pag. 34c. 
R^jlitmr. He obrigação 
precifa reflituir fobpcna 
de perder o Reyno de 
Deos p.i67.0modode 
reftituir nos enfinou a 
Sagrada Eícritura no q 
fuccedeo ao Profeta Eli- 
zcocom huma viuva. p. 



ficultaõ adquirir , ou 
confervar as do Ceo p. 
3f 9. Eftaõ em rná opi- 
nião para com os Santos, 
ibi. Laços do demónio 
lhes chama S. Bernardo, 
pag. 3 10. S. Chryfofto- 
mo lhes chama cfcola da 
maldade, ibi Ser rico, 
efer timorato, naõ he 
muito ordinária cfta cõ* 
cordata, pag. 309. 

Santa 



Das.coujai máhmtavas. ^7y 

Santa Rafa. Que floreceo annos huma alma no 
cmLuna: íiia»ií^duftria Purgatório, pag. 140^ 
admirável pára enfrear lí^w^w^. Oquemanaocor- 



avifta^pag. 195. 

*^^ farto, A devoção do Ro- 
íario y naõ he outra cou- 

' fa, que huma corda , por 
onde a Máy de Deos 

. guinda acima os pecca- 
uores , que a cila fe pe- 
gão, tirando-os do pro« 
fundiílímo poçodcfeus. 
vicios , pag. 437. Quem 
rezar o Rofario, ou Co- 
roa cada dia , naô paffa- 
rá muito tempo , que fe 
naõ veja melhorado cm 
fuaalma. pag.4oot». 



s 



O' AcerdotesScnÚ3.oYt^ 
i^neravel Padre Joaôdc 
Ávila nao haver Sacer- 
dotes Santos, que po- 
deffem encher a obriga-, 
çaõ de feu imp^rtantií- 
fimooíHcio. pag. 261.. 
Sficr amemos. Nem todos os 
que morrem fem Sacra- 
mentos fe condenaô.pag 
- 173 Por dilatar o rece- 
ber a Unçaô, e morrer 
ítm ella y cftevc vinte 



po de Santa Eufemia no 
dia de feu Martyrio.pag, 
51. O de huns animacs, 
que vio Jambulo em hu- 
ma IJha incógnita de ad- 
mirável virtude., pag, 
188. O de.Chrifto foy 
o que conglutinou os 
Povos de Inglaterra à 
Igreja Catholica, ibi. 
Em virtude do mcímo 
fançuc ha eíperança^que 
foldc outra vez eíla fe- 
rida , conforme a reve- 
lação , que teve a Vene- 
rável D. Marina de Ef- 
cobar. pag. 189. 

S^ntoí, Os Santos, c Va- 
rões pios , e efpeciaes 
amigos de Deos.íaõ os 
que tem maô nomundo, 
pag. 260; Tanto pódç 
hum fó diante de Deosj 
que às vezes por amor 
delle faz bem a todo o 
mundo. pag. 201. Saõ 
muy rcprbhendidos . , e 
caftigados, porque:Deos 

: lhes pede mais em razaõ 
de lhes ter dado mais. 



p^r 



47^ 



Imlíce 



Sc^fma. O de Inglaterra 
jtoy caíb notável, pag. 

295. 
Setjfualí^ade. A pcftilencia 

dos peecados dn í:nfua- 

lidadc entra na Claulu- 

ra Rcligiofa por quatro 

portas Vide Portas. 

Quam abominável fôy 

a ícnfual idade de Fre- 

dirico Conde de Qlia, 

Sepliwa. A dos Gentios 
he o lugar mais grato 
aos demónios, pag. 248. 

Serpente, Huma de cento 
c vinte covados de com- 
primento. pag, 152. A 
quevio a Venerável D. 
Marina de Efcobar, cm 
que íc íignificavaõ os 
ijue fe confeffaô tendo 
«obrigação de reflituir, 
eonaõfazem.pag. 175, 

Servos de Deos De quanta 
litiiidadc he em qual- 
quer Republica algum 
dos Servos , ou Servas 
de Deos. pag. 291. 

Sei vos de Chrtfio.Os verda- 
deiros Servos de Chrif- 
to fabem aperrar com 
elle , porque primeiro 
foubcraõ apertar com- 



figo.pag/259. 

Sevtcia^^ abominável de 
hum píy, que matava 
os filhinhos. Vid. Pay. 

S. Stmaò Sah. Todas as 
íuas acções fez parecer 
locuras: caio, que lhe 
íuccedeo. pag. 221. 

S* Simao Trtdentme, Seu 
portentofo Martyrro,a 
23. de Março pag. 57. 

Soberba cfptrituaL Nafcc 
de todas as virtudes , c 
até da humildade, pag. 
^4. Coftuma Deos caí- 
tigar os orgulhos dafo- 
berba icom as quedas da 
luxuria, pag. 66, 

Súbdito, Vigilância , e re- 
cato , que deve o íubdi- 
to ter fobre li mefmo. 
420. 

Superiores. Vigilância , que 
devemos ter fobre os 
fubditos. pag. 419. 



T 



TAfun. A's ve^es fe 
picaò tanto , que jo- 
gão até a Uberdade, pag. 
240 
Temor. O temordopecca- 
do^ 



Das coufas mais notáveis. ^:^y 

cado , faltando o amor pag, 77. O fcu nome, 

quer dizer Contempla- 
dor, pag. 97. 

He neceíTario , que o Theatto^ Elcandalizar , € 

fer efcândalizrdo hc o 



de Deos , faz juardar 
bem as regrai, pag 340. 



temor , c amor de Dcos 
fc juntem, pag. 341. 
Tempo. PrudcntiíTima re- 
íoluçaõ a de tomar tem- 
po para refolverfe. pag. 



que dá de íi o thcatro. 
pag. 41. Tudo nelle he 
rizo , loucura , pompas 
do diabo , &:g. ibi. 



37. O mcfmo Deos pa- Totaos, Em Hefpanha ain^ 



ra fazer codas as corfas, 
fez primeiro o tempo , 
ibi. Perguntemos aos 
moradores do Ceo , e 
aos moradores do infer- 
no quanto vai otempo^ 
ibi. 
Tentador. As palavras do 
tentador, naô faõ fim-" 
plefmentc palavras , fe- 
naõ abanos , que dá à ar- 
vore do noííb coração 
para desfrutalla. pag. 1 4. 
^eíiémento. O teílamento 



da fabc a Gentiliímo o 
jogo dos touros , pag^ 
100. Saò eípcâ:aculos 
do demónio , e naõ de 
homens, pag loi Con- 
firmafe com huma vi- 
feõ ,- ibi». 
Trabalhos, O da efcravi- 
daò dos vícios he muito 
mais grave , que o do 
exercicia das virtude?^ 
pag. ^84.. Nos noffos tra- 
balhos entreguemonos 
nas mãosdeDeos. p.49». 



dofoIdado,efcritocom Tribulação, Se eftivcrmos 



o pô da campanha , dif- 
pocm o direito , que va- 
lha, pag. 306. 

TimoratOi Sèr rico, e fer 
timorato , naõ he mtiíto 
ordinária ePca concor- 
data, pag. 309; 

Thdraco. SèuAuto procon- 
fiilar, e fcu. martyrio. 



firmes no meyo do fo- 
go- da tribu^Iaçaô y delle 
íahiremos mais glorio- 
*fDs, e refplandecsntes y 

pag. 49. 
Tr(glodita^. Gentes fero- 
ciíHinas , que fe fiiflen- 
tao com lerpcntcs pag.. 
126» 



4-78 



índice 



V 



VJ idade. Em tudo fe 
rniílura a vaidade, 
até na morte , que he o 
dcfcngano mais claro da 
mcfma vaidade pag. 5. 

Vãknns, Os três valentes 
de David , que rompé- 

. raõ pelos inimigos, pai^a 
lhe irem bufcar a agua , 
que defejòu da cifterna 
dcBelcm. pag. 76. 

Verdade. Quemcontradiz 
a verdade , hc femelhan- 



do era5 comprchcndí- 
das ^^m algum incerto j 
craô fepuitadas vivas, 
pag. 413. 

1'trmdas Quantos dias , ou 
horas naõ empregamos 
na virtude I tantas dcf- 
falcamos da noíTa vida, 
pag. 445. Quanto ma- 
yor progrclTo fizícr hu- 
ma almas nas virtudes , 
mais íe deve temer de 
íeus inimigos, c de fi 
mefma 5 que he o mayor 
de todos. pag. 109. 

^Fiver. Só o viver bem , hc 
viver, pag 445. 



te àquelle fervo do Pon- 'Fi/aÕ. A dia Venerável Ma- 



tifice , que deu a bofeta- 
da na face de Chrirto^ 
pois Chriflo he a mefma 
verdade, pag. 31 j. A 
verdade he mais forte , 
que o vinho , e a mu- 
lher pag. 2 41. 

Fida A vidaReh*giofaen- 
trerra em íi o Reyno de 
Deos. pag. 242. 

Vigilância A falta de vigi- 
lancia c recato, he a por- 
ta , por onde entra a fen- 
fualidds na claufura 
Religiofa, pag. 415. 

Ftrgens. As Veftaes, quan- 



dre M^rianna de JESUS, 
cm qiie por efpaço de 
dous annos todas as pcf- 
íoas, que via fe lhe re* 
prefentavâó em figura 
da morte. pag. 296. A 
de Santa Thereía de JE- 
SUS, a quem dous an- 
nos t mcyo durou a vi- 
faõ imaginaria daHuma** 
nidade de Chrifto Re- 
fufcítado pag.299. Mui- 
tos annos durou outra 
vifa(5 de Chrifto ao San- 
to Bifpo Pa Iafox,ibi. A 
viíaõ de huma Lua cla- 
ra 



Dai coufíU mah m tareis. 479 

ra teve deíde de deza- dos naõ hc fidicia , c co- 



íeis annos a Beat^ Julia^ 
na todas as vezes , que 
fe punha cm oraçaò.pag. 
300. A S. Luiz Beltrão 
durou por oito annos a 
vifaõ da alma de fcu 
pay, pag 301. Aviíaõ 
das penas do inferno , 
que teve a Venerável 
Virgem Anna de Santo^ 
Agoftinho. pag. 326* 

fToçaçãfi. A falta de voca- 
caçaò , he a primeira, 
porta y_ por onde entra 
a peftilcncia dos pecca- 
dos da fenfualidade na 
Clauíura Sagrada daCa- 
fa dcDeos. pag. 415. 

Jfôntaàt. A vontade , que 
Dêos tem dte lalvar a to« 



mo de comprimento > 
íenaõ íincera ^ e verda- 
deira, pag. 215. 

Unfav. Hum, porque dif- 
fcrio tomar o Sacramen- 
to da Unçaô, e morreo 
fem ella y foy fentencia- 
do a vinte annos de Pur- 
gatório, pag. 140. 

Ufura. O peecado de uíu - 
ra , c a enfermidade da 
lepra parecem-íe cm 
muitas couías* pag. 23. 

z 

ZÊ/^,. Devem ter mui- 
to zelo o& Prelados. 
P^g- 339' 



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